Por que mulheres não são ouvidas sobre o futuro do trabalho? — Gama Revista
Defina trabalho
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Por que as mulheres não são ouvidas no debate sobre o futuro do trabalho?

Elas são minoria nas principais áreas que pesquisam como será a automação no ambiente de trabalho. O resultado é uma ideia de futuro enviesada e pouco diversa

Naomi Schalit 19 de Abril de 2020

O negócio das profecias sobre o futuro do trabalho tem um problema de gênero. Verdade, alguns cenários sobre o impacto da automação prevêem ganhos em termos de igualdade no ambiente de trabalho. Mas enquanto as pessoas que dominam o debate não forem mais representativas de uma sociedade ampla, essas visões só trarão uma versão enviesada sobre o que será o futuro do trabalho.

Esse é um debate focado sobretudo no impacto da automação. Empresas de comunicação, consultorias de gestão empresarial, ONGs, escolas de administração, analistas de modelos de negócios – todos anteveem uma nova versão do capitalismo. E isso tem gerado abundância de estudos e relatórios, com hipóteses que geralmente preveem uma grande perda de empregos.

Tais cenários, por sua vez, têm alimentado a chamada “ansiedade de automação” em torno da perspectiva de um futuro sem emprego. Assim, o que de início, parecia um cenário de ficção científica de repente ganhou espaço no pensamento mainstream, moldando as expectativas sobre como serão as tecnologias do ambiente de trabalho no futuro.

As ideias que descrevem o que está por vir só oferecem uma visão parcial sobre o futuro, pois têm origem em relatórios desenvolvidos em setores dominados por homens, onde as vozes de mulheres são minoria

Em tese, essas ideias descrevem o que está por vir, mas só oferecem uma visão parcial sobre o futuro, pois têm origem em relatórios desenvolvidos em setores predominantemente dominados por homens, onde as vozes de mulheres são minoria.

Se tais contribuições fossem mais diversas, talvez estivéssemos diante de alternativas mais imaginativas a respeito de como equilibrar trabalho remunerado e não-remunerado. O que poderia nos levar a cenários mais interessantes em termos de horário de trabalho, local de trabalho e um reconhecimento maior das responsabilidades do lar.

Mas quem, afinal, são os especuladores da automação e a que interesses servem? A tabela abaixo traz uma visão geral de alguns relatórios chave, com o número de autores homens e mulheres. Em termos de representação, fica claro que sua autoria é predominantemente masculina em mais de 70% dos casos. A representação feminina é preocupantemente baixa, sobretudo quando envolve legislação e políticas públicas: apenas 17% dos autores de relatórios governamentais são mulheres.

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Consultorias de gestão empresarial

Essas consultorias estão na vanguarda do debate, publicando alguns dos mais citados e influentes relatórios sobre o futuro do trabalho. De acordo com a PKMG, uma das “quatro grandes” empresas de consultoria e contabilidade, possíveis mudanças no futuro do trabalho representam grandes negócios (segundo sua previsão, esse mercado deve valer em torno de 3,4 trilhões de libras esterlinas, ou mais de R$ 22 milhões), o que explica por que tantos players importantes querem uma fatia desse bolo.

Isso tem gerado uma grande especulação sobre quantos empregos que devem deixar de existir por causa da automação, algo que pode ser usado para tentar vender soluções às partes interessadas. A Deloitte prevê uma queda de 35% nas vagas no Reino Unido; a KPMG, de 7%; e a PwC, abaixo de 30%. Os resultados podem variar, mas as pessoas por trás desses números são bem menos diversas.

Tanto a desigualdade de gênero quanto de raça continuam imperando nessas empresas, particularmente nos cargos mais altos. A presença de mulheres nos painéis, conselhos e grupos de trabalho que produzem esses relatórios é limitada (menos da metade dos autores dos relatórios produzidos pelas quatro grandes consultorias de gestão e contabilidade eram mulheres, como vimos na tabela acima.)

Por exemplo, o relatório tão citado sobre a Quarta Revolução Industrial é de autoria de dez experts da Deloitte, dos quais apenas dois eram mulheres. Da mesma forma, o documento Boston Consulting’s Man and Machine in Industry 4.0 contou com a expertise de cinco homens e nenhuma mulher – o título não poderia ser mais apropriado para um relatório aparentemente “machocêntrico”.

Economia

Os acadêmicos, sobretudo os da área de Economia, têm contribuído com alguns dos artigos mais citados em que proclama o fim do trabalho como conhecemos hoje. Por exemplo: uma pesquisa de 2017 estima que 47% dos empregos nos Estados Unidos serão automatizados em cerca de dez ou vinte anos.

Mas se prestarmos atenção na proporção de homens e mulheres envolvidos no campo da economia (como área de conhecimento), veremos que se trata de uma visão do futuro da economia dominada por homens. O número de graduandas em economia é metade do de graduandos. E o futuro parece ainda mais sombrio se olharmos para os programas de doutorado em economia: cerca de 70% dos alunos são homens – uma proporção que não muda desde os anos 90. Isso significa que aqueles que definem o debate não são representativos de uma população mais ampla.

Se os desenvolvedores de tecnologia continuarem refletindo apenas os anseios e perspectivas do estereótipo macho, pálido e obsoleto, as novas tecnologias nunca acomodarão os contextos sociais diversos em que operam

Governo

Esses trabalhos também servem como fontes importantes para fundamentar as políticas estatais e as estratégias industriais. O governo do Reino Unido tem um histórico ruim em relação à robótica de ponta e à inteligência artificial, ficando atrás de muitos países do G7. Suas práticas a respeito de gênero são igualmente arcaicas. Tomemos como exemplo a primeira estratégia para a robótica e os sistemas autônomos de 2014, publicada por um comitê de 19 membros que incluía apenas duas mulheres.

De forma similar, o comitê de inteligência artificial da Câmara dos Lordes tem somente três mulheres entre seus 13 membros. Enquanto isso, o Made Smarter Review, estudo encabeçado pelo setor industrial a pedido do Departamento de Economia, Energia e Estratégia Industrial, contou com a expertise de 20 líderes da indústria – apenas três eram mulheres.

Setor de tecnologia

Eis um setor notório por sua desigualdade. Vide a bolha da “Brotopia” [o clubinho de “manos” que, segundo o livro de Emily Chang, domina a indústria de tecnologia], longe de estourar no Vale do Silício. O que é problemático, não apenas por causa da marginalização das minorias em todo espectro da indústria, mas porque as tecnologias incorporam os valores de quem as cria no momento em que são projetadas, em seu próprio design.

No caso da Wikipedia, a esmagadora maioria dos contribuidores são homens; logo, o conteúdo disponível reflete seus interesses. Por exemplo, as páginas dedicadas a poetas mulheres foram editadas 600 vezes – em comparação com a classificação bem mais detalhada das estrelas pornô mulheres, em que as edições se deram quase 2,5 mil vezes.

Se os desenvolvedores de tecnologia continuarem refletindo apenas os anseios e perspectivas do estereótipo “macho, pálido e obsoleto” (“male, pale and stale”, na expressão em inglês), as novas tecnologias provavelmente nunca acomodarão os contextos sociais diversos em que operam.

Tais exemplos indicam que, ainda que retificar a representação desigual seja um passo na direção certa, isso não basta para ser visto como uma cura para tudo. Uma mudança social mais ampla é necessária para lidar com as desigualdades estruturais dentro da atual organização do trabalho e do emprego, dado que essa mudança servirá como fundação para o futuro.

Sem uma diversidade de mentes e vozes críticas contribuindo para o debate, a sociedade acabará tendo que se contentar com um cenário distorcido de futuras opções. A falta de alternativas que tem sido apresentada tende a levar a cabo profecias simplistas e autocumpridas, o que só deve aumentar ainda mais a desigualdade existente.

Texto publicado originalmente em The Conversation no dia 25 de março de 2020. Tradução: Willian Vieira