Como é fazer home office em meio a uma pandemia? — Gama Revista
Defina trabalho

Como está sendo trabalhar de casa?

Em tempos de pandemia, quem pode deve fazer home office. A seguir, uma visita a quem está se adaptando a esse jeito de cumprir o expediente

19 de Abril de 2020

“Tenho a sorte de poder trabalhar remotamente, até gravar programa pela Arte 1 eu estou conseguindo. Aqui no sítio a internet é melhor do que na minha casa em São Paulo. O problema é a louça que parece que nunca acaba, ela dá cria na pia da cozinha. Aqui conseguimos estabelecer espaços pra todos separadamente, cada um tem seu cantinho. O meu é aqui na ponta da varanda, que eu disputo com a Mana, a cachorra que pensa que é gata” Marina Person, apresentadora e cineasta

“Basicamente trabalhar com as crianças por perto é muito difícil. Tem hora que o bicho pega e não tem como falar ‘esse não é meu turno’, mãe e pai têm que estar presentes. O que rola muito pra mim neste momento é que eu estou trabalhando para um futuro muito incerto. Não estou trabalhando com coisas concretas, com demandas e pessoas aguardando o meu trabalho, essa é a grande diferença. Estou trabalhando para prospectar coisas, para acreditar que no futuro vai ser… Não tem ninguém agora falando ‘vamos fotografar’, não tem trabalho para entregar” Pablo Saborido, fotógrafo

“Para quem trabalha com eventos está sendo bem dificil. Sem as festas não tem trabalho e também não tem renda. Pelas previsões mais otimistas as coisas vão demorar pra voltar ao normal. Mas não dá pra parar agora. Está sendo um momento de muita reflexão, de aprender, aprimorar, desenvolver algumas coisas que tinha vontade mas por conta da correria não dava conta, como producão musical. Agora é segurar as pontas, focar e tentar me manter presente mesmo que virtualmente, seja com lives e sets, interagindo. Em contato com as pessoas” Patricia Vasconcelos, DJ Due

“Dentro de casa, acho que a maior questão agora é como compartilhar espaço de trabalho e ambiente doméstico. Aqui somos em três e é um desafio como cada um preserva sua privacidade. São três profissões diferentes, estamos aprendendo a trabalhar respeitando o lugar do outro. Fazemos reuniões virtuais, então fica um rodízio de ambientes: sala, quarto, cozinha. Trabalhar de casa exige uma estratégia de convívio e divisão de tarefas” Guido Otero, arquiteto e pesquisador

“Estou bem tranquila na quarentena. Meu espaço de trabalho já era a minha casa, só que eu recebia as pessoas. Agora, trabalho com elas online. Consigo atender muito mais gente e não tem recepção, deslocamento, trânsito para chegar. Os cursos que dou têm muito mais demanda, as pessoas estão mais interessadas em astrologia. Tem sido um período em que consigo ter, pela primeira vez, a minha casa como lar, curtir” Juliana Coelho, astróloga e professora de astrologia

“Tem sido uma experiência diferente, considerando que eu não parava um minuto em casa antes. Por um lado, tenho sorte de ter uma estrutura em casa com wifi, computador, uma família em que todo mundo coopera nas tarefas de casa. Mas por outro lado, manter a produtividade é um desafio muito grande e demanda muito foco. Criar uma rotina e largar o celular no canto já é um ótimo começo” Laura Balthazar, estudante de direito

“Estamos há mais de 30 dias em casa. Minha estratégia foi montar um espaço para as crianças brincarem ao meu lado, enquanto trabalho. Ao contrário de me isolar, achei que seria mais fácil tê-los por perto. Às vezes funciona bem, outras nem tanto. Mas o fato é que é muito legal trabalhar com eles perto. Nos divertimos. A angústia é de muitas vezes não conseguir concentrar e finalizar as tarefas, e nem é pelas crianças, mas muito pelas demandas da casa. O que fiz foi estabelecer horários de trabalho que dê um tempo relativamente confortável para cozinhar e arrumar a cozinha (meu território na casa)” Roni Hirsch, diretor criativo e cofundador do Erê Lab

Fazemos muitas coisas ao mesmo tempo, interrompemos processos, acolhemos demandas diversas e necessidades alheia. Apesar de estarmos nesse processo há 30 dias, ainda me sinto em adaptação, procurando me acomodar e certa de que ainda não encontrei um equilíbrio estável. As vezes é sofrido, mas na maior parte das vezes sinto gratidão por estar segura, acompanhada dos meus, em comunhão com algo subjetivo, quase inexplicável. Desejo que o processo seja proveitoso e revele algo substancial. Enquanto isso, nos desdobramos em muitas tarefas e funções, elaboramos mil coisas mentalmente, choramos, respiramos, rimos, emocionamos, sentimos muito de tudo um pouco, e segue o baile” Paula Salvatore Condini, artista plástica

“Trabalhar durante a quarentena é um túnel do tempo porque você começa e não tem hora pra acabar. E não tem onde ir também, então a janela do computador ou do celular é seu único contato com o mundo. A gente senta no computador e parece que não levanta nunca mais! Tem dias que eu fico das 8h até as 22h olhando pra tela e nem me dou conta. É um pavor na verdade, né? Por isso eu fico mudando de lugar. Trabalho da mesa, da rede, da poltrona, do sofá, da cama, da cabana. Às vezes eu faço umas reuniões no hangouts fritando um ovo ou cozinhando. Está um agito!” Marcella Brito Franco, cofundadora da Aurora 3

“Arthur [Nestrovski] não para de trabalhar desde que começou seu home office. A Osesp está com uma programação digital e ele comanda tudo à distância, fora todas as reuniões virtuais. Já eu trabalho há sete anos na Casa Vera Cruz, braço editorial da Escola Vera Cruz, e nunca trabalhei tanto como agora. Estou completando um mês em home office, contribuindo para que a experiência de aprendizado escolar não se reproduza, mas seja recriada no ambiente virtual. É muito trabalho, muitas reuniões, muita reflexão. Arthur e eu caminhamos todos os dias, de preferência duas vezes por dia. E nos encontramos perto das 13 horas na cozinha, pra fazer o almoço. Dorival, o gato, observa aquela multidão em casa sem entender coisa alguma. Não sei se preferia antes, quando ficava sozinho, ou agora, com toda essa agitação. Estarmos isolados, mas juntos, ajuda muito” Claudia Cavalcanti, editora e tradutora, e Arthur Nestrovski, diretor artístico da Osesp

© Mariana Brunini

“Estou passando a quarentena no sítio da minha família em Itu. Com Denni, Max, Noah [marido e filhos] e uma amiga, a Mariana Brunini, fotógrafa, que inclusive fez essa foto linda. Estamos dividindo nosso tempo entre trabalho, cuidar da casa e das crianças. Eu trouxe uma caixa de materiais do meu estúdio em São Paulo e adaptei o quartinho de pintura para trabalhar. Esse quartinho tem muita história, todas as paredes são desenhadas e assinadas por amigos que passaram pelo sítio ao longo dos anos, mas a grande maioria foi feita na minha adolescência” Ana Strumpf, ilustradora

“São sempre dias e dias. A disposição, o desejo e a produtividade têm vindo em ondas. Mas apesar dessa inconsistência, e do fato de eu ainda não ter encontrado a rotina de produção mais funcional pra mim, fotografar tem sido vital. É de longe a atividade que mais me descola da consciência de estar confinada por tempo indeterminado” Liz Dórea, fotógrafa

“Tenho gostado da experiência de trabalhar em casa. Fazer as coisas no meu cantinho e no meu ritmo me ajuda a produzir mais. No ambiente de trabalho normal tem muitas pessoas passando, conversando, e isso tira a minha atenção. Mesmo assim, tem dias que o cansaço e o psicológico abalado por estar em casa por tanto tempo atrapalham na concentração. Isso tem sido o mais difícil” João Jeveaux, estudante de publicidade

“Têm sido dias interessantes, de altos e baixos. Às vezes você se sente meio inútil por ter mais tempo livre. Em outras, superprodutivo justamente por ter um pouco mais de tempo livre. Desde poder estudar mais, colocar no papel alguns projetos que você sempre fica pensando e nunca para e destrincha. A boa receita talvez seja focar nesses momentos de produtividade. Mas também respeitar o tempo de ficar de boa. Não fazer nada é também importante neste momento até para a gente não enlouquecer. Uma experiência interessante pra mim foi explorar cantinhos da casa mais inspiradores” Daniel Batista, publicitário

“Tenho testado receitas, estudado. Estou separando algumas delas para um possível novo formato do restaurante em que trabalho. Uma vez que não sabemos por quanto tempo ele vai ficar fechado para o público. O lado positivo é que posso cozinhar com mais calma, mas claro que sinto falta da experiência que a rua e o restaurante me proporcionam. São momentos de calma e angústia” Antonio Filho, chef e confeiteiro

“Trabalhar na quarentena tem sido desafiador para mim, principalmente por conta das muitas distrações, além da enorme força de vontade necessária para levantar da cama. Fora isso, acho que tem sido uma ótima oportunidade para colocar a produtividade em dia e me organizar. Sair do ambiente de trabalho convencional tem me dado um respiro da correria e estou conseguindo olhar para os mesmos temas de uma maneira diferente” Gabriela Lutti, estudante de relações internacionais

“Pra mim, que sou uma pessoa ansiosa, a parte boa é que eu tenho com o que me ocupar durante o dia. Tenho prazos e coisas a serem entregues. Então é bom porque me ocupa e me mantém focada. Em contrapartida tem sido bem difícil manter um cronograma. Acordar em um horário específico para organizar atividade física, horário de almoço, cursos e me programar. Você acaba desfocando nas coisas de casa. Apesar de ser quase um mês, eu não consegui entrar em um ritmo certinho, mas é o que tem pra hoje. Vamos nos adequar” Jamila Silva, professora de educação física e pesquisadora

© Rodrigo Menck

“Com a quarentena as estreias foram canceladas, os teatros estão fechados e estamos tendo que nos reinventar. Trazer o teatro para dentro de casa e filmar é uma maneira de não parar. E para falar a verdade está sendo muito interessante descobrir esses novos formatos. Tem sido um desafio organizar tudo, principalmente porque são três pessoas dividindo os mesmos espaços. Usamos um só computador para minhas leituras, para as aulas à distância e para edição, por exemplo. Também trabalho com tradução, e normalmente aproveito para fazer de madrugada” Cristina Cavalcanti, atriz e tradutora

© Edu Marin

“Trabalhar em casa é gostoso pra mim. É muito bom passar o dia todo aqui. Eu costumava passar a maior parte do meu dia trabalhando fora. Mudar esse esquema tem um impacto grande. O problema é que além de ter que trabalhar muito mais do que no escritório tem todos os trabalhos domésticos pra dar conta. Eu não tive um minuto de tédio ou ócio nesta quarentena, tenho me sentido exausta. Mas aos poucos estou conseguindo por limites na rotina do trabalho e começando a incluir atividade física, aulas, meditação. Como tudo na vida é uma questão de aprender a viver com essa nova realidade” Elizabeth Slamek, diretora de arte

© Fernando Costa Netto

“Tenho agradecido diariamente por morar em casa, ter esse pedaço de quintal onde posso mexer nas plantas, brincar com os cachorros. Tudo fica menos angustiante. Há um mês, havia inaugurado a Macondo Plantas e Afins Culturais, um jardim escondido ali na Vila Madalena [bairro paulistano]. Entre o sonho de um futuro próximo e a realidade quase surreal, tenho tentado pensar em saídas que não me ferem. Não cheguei a nenhuma conclusão, mas passar esses dias entre os afazeres da casa e montar esse quebra-cabeça surpreendente da vida pós-quarentena tem sido um privilégio” Mercedes Tristão, jornalista e produtora cultural

“Essa cena é a de todo dia aqui em casa, os meninos têm aula online de manhã, então fica um no computador e outro no celular, e eu em video call, o dia todo. No começo achei que fosse ser impossível conseguir, meu apartamento é pequeno. É essa sala e os quartos, onde a internet pega mal, então não tem saída, ficamos assim, um do ladinho do outro. Acho que a necessidade de fazer funcionar faz com que todos colaborem, eles nunca foram tão obedientes e carinhosos, a gente está realmente em paz. Dividi as tarefas de casa e os horários das coisas, e assim a gente vai levando, um dia de cada vez” Giovana Grigolin, fotógrafa

“Como freelancer de áudio ficou bem difícil conseguir qualquer trabalho. Todos os que eu tinha marcado para o final de março, que dependiam de filmagens ou eventos ao vivo, foram cancelados. O que sobrou foram trabalhos de pós-produção de som, que eu consigo fazer de casa, mas no momento já finalizei todos. Todo dia procuro novos serviços e clientes, mas como não há novas filmagens, não existe necessidade de pós-produção de som. Tenho colegas freelancers de audiovisual que estão na mesma situação e pensando em mudar para outra área dentro da profissão, uma que ainda esteja produzindo. Talvez eu faça o mesmo” Yu Higashi, editor de áudio

“Tenho trabalhado de casa já faz um pouquinho mais de um mês. Antes, estava trabalhando da sala, sentada no sofá, às vezes na cama. Ontem consegui montar essa mesa, tem sido meu espaço para passar mais de 12 horas. Trabalho com produtos digitais, então, esse é o canto em que devo ficar uma boa parte da minha quarentena, dividindo a casa com o meu filho e os meus três gatos. Tem sido intenso, para dizer o mínimo” Maria Rita Casagrande, head de produtos digitais na Mesa Company

“Tem dias que rendem mais, dias que rendem menos. Mas o trabalho não termina nunca porque vai além das entregas profissionais. Aí paro um pouquinho, lava roupa, louça, brinca um pouco com a criança. É um tanto angustiante em alguns momento, mas chega uma hora também que começa a acostumar. A sensação é de que o dia passa muito rápido. Acordo, pisco e o dia já acabou” Fernanda Ficher, diretora de arte

“Desde o ano passado eu venho trabalhando da cozinha da minha casa. O que mudou foi o objetivo: estava atendendo eventos e, com o isolamento, isso acabou. O foco na comida para as pessoas receberem em casa veio naturalmente. Elas têm o desejo de variar a alimentação e ajudar quem produz. Então pensei: por que não atender quem está preso em casa? Foi positivo porque possibilitou desengavetar projetos e me trouxe uma luz para investir em vontades adormecidas. Sempre com a preocupação em não ser oportunista diante dessa crise toda. Acho que, apesar de gerar renda, o objetivo é exercitar o ofício e atender com gentileza, generosidade” Junior Semeghini, banqueteiro do um prato fundo

“Trabalhar de casa, apesar de toda a situação pandêmica, tem sido ótimo. Um momento de autorreflexão. Sempre fui uma pessoa solitária: sou filho único, sempre gostei de ter o meu espaço, de estar sozinho. Mas estando agora forçadamente isolado, percebo o quanto a gente se anestesia para fazer mil coisas, sair o tempo inteiro, estar com pessoas. É, na verdade, muito bom estar em casa: durmo bastante, acordo na hora, trabalho tranquilamente, como em paz, respondo mensagens. Tenho trabalhado mais, com uma qualidade melhor, de maneira produtiva. Essa maleabilidade me trouxe paz, calma e prazer de fazer meu trabalho e minhas coisas pessoais. Eu tenho gostado muito mais de trabalhar. É meio paradoxal , mas é isso [risos]” Victor Ivanon, diretor de arte

“Apesar de sentir falta do contato com minha equipe no escritório, trabalhar em home office na quarentena está me beneficiando muito pois na minha rotina normal eu perdia muito tempo com deslocamentos. Agora, sem ter que ir até o trabalho, parece que meu dia ganhou mais horas. Estou trabalhando a mesma carga horária de antes e ainda sobra um tempo para mim, consigo me exercitar em casa ou passar mais tempo com a minha família” Julia Mantelmacher, estudante de arquitetura

“A casa acaba trazendo algumas distrações, essa confusão entre público e privado é o grande desafio. Tenho tentado seguir a rotina de acordar, me arrumar — inclusive colocando uma roupa que não seja de ficar em casa — e seguir horários como se estivesse fora. Entre dez da manhã e seis da tarde estou ativa para trabalhar, mas também respeitando meus horários de não concentração. A questão é não me preocupar em ser produtiva todo o tempo. Mas quando eu estiver produzindo, estar concentrada nisso, sem me distrair com questões da casa” Carollina Lauriano, curadora