Sente saudade de quê? Do amor, dos pais, de ouvir música lá fora? — Gama Revista
Deu saudade?
© Rita Mattar

Você sente saudade do quê?

Gama perguntou e as respostas vieram em textos e imagens emocionantes. Confira as representações desse sentimento que bate mais forte em tempos de isolamento social

Mariana Payno e Manuela Stelzer 14 de Junho de 2020

Saudade do forró

Marcelo Cipis, pintor, desenhista e ilustrador, 60 anos

“A saudade que me vem agora é do Forró do Teatro Ventoforte, em Cidade Jardim. O espaço, um oásis de verde ao lado da marginal Pinheiros, na avenida Cidade Jardim, era de uso do Teatro Ventoforte, capitaneado pelo diretor Ilo Krugli. Aos sábados à noite, a companhia de teatro cedia seu galpão de apresentações para uma noitada de forró deliciosa. Eu não dançava bem, mas me virava. Gostava de ver os casais que esmirilhavam na pista. Tomava uma xiboquinha e, para ganhar forças, um caldinho de feijão.”

"Forró" (2010), Marcelo Cipis

Saudade da gente junto

Astrid Fontenelle, apresentadora, 59 anos

“Olha que coisa doida: eu ia fazer um desenho [que representasse minha saudade] e quando fui pegar o caderno de desenho para abrir uma página em branco, achei uma página em que meu filho Gabriel fez lettering. Até lembro que foi depois do meu aniversário, ele escrevendo meu nome, escrevendo o nome do pai. Acho que ele tá com saudade de ver a gente junto. E essa é a minha saudade também. Uma saudade de ver meu marido. Ele é Secretário de Turismo do Estado da Bahia, mora lá e na semana derradeira em que entramos em isolamento social ele estava aqui e teve que ir para Salvador. Ele foi para Salvador e fui levar ele no aeroporto, coisa que nunca faço, e na hora de a gente se despedir pedi um beijo dos dois. Juntei, então, essa letra do Gabriel e a última foto que a gente fez juntos. Fiquei com muito medo. Chorei três vezes nesse período de quarentena, e a primeira delas foi essa daí. E agora deu uma saudade danada: tô com saudade dele, saudade da gente juntos, da família junta, saudade do mar da Bahia, oxe…

Saudade de uma época

José Rubens Ditt, psicólogo e professor, 89 anos

“A partir de 1965, fui professor e psicólogo do ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] e morei no CTA (Centro Técnico da Aeronáutica), numa casa concedida para moradia dos professores (…) Foi uma época que deixou saudade.”

Saudade de amenidades

Lena Mattar, publicitária e sommelière, 34 anos

“Sinto saudade de cozinhar e colocar a mesa para várias pessoas; sinto saudade dos longos almoços de domingo com amigos e familiares; sinto saudade de quando podíamos nos entregar a amenidades como essa sem ter que pensar a todo momento se a democracia do país vai resistir a mais uma ameaça e quantas pessoas estão pagando o preço por isso, inclusive com a vida; sinto saudade de ter apetite e de não ter meu estômago constantemente embrulhado pelas notícias.”

Saudade da Bahia

Adriano Gonfiantini, fotógrafo, 30 anos

“Sinto saudades da Bahia, de ficar na beira do mar, sozinho, ouvindo o vento e observando a saturação das cores do pôr do sol refletidas nas nuvens do horizonte. Saudade de entender o tamanho do céu e de me descobrir minúsculo.”

Saudade de ver gente

Elisabeth Miranda, artesã, 77 anos

“Eu tenho saudade de ver gente, dos meus filhos e netos virem almoçar aqui aos finais de semana.”

Saudade da minha liberdade

Isabella Garcia, jornalista, 22 anos

“A minha saudade está muito relacionada à liberdade, e eu sinto falta de fazer as coisas simples que eu sempre fiz. Coisas que são tão naturais no meu dia a dia, e agora eu não posso fazer.”

Saudade da Dona Lourdes

Rodrigo Oliveira, cozinheiro, 39 anos

“Minha mãe era uma artesã. Conheci poucas pessoas com tanta habilidade e sensibilidade quanto Dona Lourdes. Essa é uma das receitas que mais me fazem lembrá-la. Além de deliciosamente simples, mostra que podemos, com um pouco de engenhosidade, fazer qualquer coisa em casa. A receita:

REQUEIJÃO DE COPO
––––––––
Ingredientes:
2l de leite
80g de vinagre de maçã
250g de creme de leite
50g de manteiga
20g de queijo ralado
6g de sal

––––––––
Modo de preparo:
Ferva o leite, retire do fogo e adicione o vinagre. Mexa e deixe descansar por cinco minutos, o leite vai talhar. Coe numa peneira bem fina (deve render 500g de massa, se render menos que isso junte um pouco do soro pra completar) e bata no liquidificador com o creme de leite quente e os demais ingredientes. Guarde em potes herméticos na geladeira por uma semana. Rende três copos. Ah, uma dica: guarde o soro para outros preparos, é super nutritivo.”

Saudade que dói

Joaquim Moreira Lima Mattoso, 5 anos

“Eu penso em algumas coisas, alguns amigos, na escola. Eu tenho saudades um pouco do meu primo, dos meus avós. Tô sentindo muita saudade ultimamente. Esse coronavírus tá muito difícil, eu tô um pouco cansado, cansado, cansado. E eu tô fazendo algumas coisas nessa quarentena pra ficar divertido. Tô numa viagem e tal. Saudade dói? Dói às vezes. Mas eu não tô com muita, muita saudade. E doeu muito, muito, muito, super. Doeu porque eu não sei direito quem fez esse coronavírus e tal. Eu fiz um desenho de saudade, é uma animação que é uma pessoa se separando, tem um coração partido. E ela vai em casa e vê a foto e fica com saudade da outra pessoa. Essas pessoas não se viam há muito tempo.”

Saudade da avó

Carolina Cunha, artista e escritora, 46 anos

“Nesta ilustração, trago a memória da minha própria avó com seus cajus, cuja lembrança me fortifica.”

Saudade de um tempo

Jarid Arraes, escritora e cordelista, 29 anos

“Essa foto é uma porta aberta para o melhor tempo de minha vida.

Na rua onde cresci, a gente tinha uma ruma de criança que brincava junta. E eu sempre tava no meio da zuada. De vez em quando, a mãe de alguém aparecia na calçada e dava um carão em todo mundo. Deixe de bater essa bola na minha parede, deixe de grito perto de minha janela. Bandipeste. A gente corria e ia zuadar em outro canto.

Minha lembrança dos terrenos baldios é tão boa, que já coloquei em conto. Deve ser parte da infância de muita criança do Cariri, pelo menos como paisagem do bairro ainda em formação. Mas, pra mim, aqueles pedaços de mato meio crescido, os carrapichos grudando nas pernas, nas roupas, essa é a infância melhor que tive. Não importava se a casa de um era grande, se a do outro ainda não tinha reboco, não importava quem tinha mais bila ou a raia mais colorida. Foi dentro daquela paisagem que mais aprendi sobre fazer parte.

Foi não importanto a diferença que aprendi o que era diferença. Mesmo que a gente tudo fosse igual no mei da rua, quando chegava a hora de entrar, chegava a realidade da realidade de cada um. Só que a gente queria era a junteza toda. Depois um arranjava briga com outro, levava uma pêia, ia pra dendicasa com a cara entojada. Voltava. Porque brigar era coisa de dez minutos e nem se comparava com a vida toda de terreno baldio.

Por isso tirei essa foto na última vez que fui ao Cariri, enquanto escrevia meu livro “Redemoinho em Dia Quente” e buscava, nas fotos, cores e memórias que pudessem ser inventadas para as minhas personagens. Fiz muitas fotos de lugares que conhecia bem e de lugares que conhecia só de vista. E essa foto da porta de ferro pendurada pelos arames que fingem ser cerca, essa porta, é como se eu tivesse oito nove dez anos de novo, como se eu pudesse abrir e entrar nos metros quadrados da junteza. Sentindo minha chinela quase torar afundando na terra. Sentindo meu coração quase torar de saudade.

Site onde vocês podem encontrar todas as fotos que fiz: www.redemoinhoemdiaquente.com.br

Saudade de uma pessoa

Fernanda Steffens, física, 52 anos

“Abri uma pequena bolsa de papel e tinha lá dentro um cartão de uma pessoa que é muito importante prra mim, eu vi o que ela tinha escrito no cartão e me deu uma viagem instantânea no tempo para uma outra cidade aqui no leste europeu, quando estávamos juntas por alguns dias neste lugar.”

Saudade dos amigos

Nicolas Carvalho Sardenberg, 13 anos

“É estranho, não consigo mais lembrar da voz das pessoas mas ainda me lembro da risada de todo mundo.”

Saudade de poder descansar

Thais Alves, designer, 29 anos

“Escolhi essas fotos em uma colagem, pois tem sido a imagem exata de quando ouço a palavra saudade, o filtro de barro, os momentos com meus pais e meu irmão, tudo era festa e até quando meu pai chegava do trabalho a gente celebrava! A minha saudade tem tempo e cor. É a expectativa pura pela chegada de meu pai. É a ansiedade pelo dia de vir de longe pra passar um dia inteiro brincando no parque. É do tempo da pureza de não ter tantos boletos chegando. A minha saudade tem um olhar sereno de quem ainda não sabe o que estava por vir. Às vezes dá saudade de poder descansar sem pensar nos tantos problemas que estavam a me desaguar.”

Saudade de um passado

Luna Bastos, artista e tatuadora, 24 anos

“Sei que retornar não é possível, mas o passado do qual sinto falta sempre se faz presente através das lembranças que me invadem durante esse período de isolamento. Sinto a saudade como um vazio no peito. Vazio que nunca será preenchido, mas me motiva a seguir caminhando e construindo momentos que serão lembrados no futuro.”

Saudade de sorrir

Danielli Orletti, médica, 30 anos

“Sou médica, então uma grande saudade é sorrir e meu paciente conseguir ver. Difícil explicar o poder de cura e empatia que isso tem. Tento refletir no olhar, mas não é exatamente igual, existe uma barreira (a máscara). É uma grande saudade.”