Como colocar os filhos para dormir, Antonio Prata — Gama Revista
Dormiu bem?

‘Privação de sono é de enlouquecer as pessoas’

O escritor Antonio Prata dá o seu depoimento a Gama sobre a saga de fazer os filhos Olívia, 6, e Daniel, 5, dormirem

12 de Abril de 2020

“Com a Olívia foi bem difícil. Escrevi até uma peça a respeito, de tão traumático que foi – num monólogo de ʽCinco Vezes Comédiaʼ, o pai tenta fazer o treinamento de sono na criança. É desesperador. Escrevi também muitas crônicas sobre isso, muitas, muitas. Era só o que eu vivia. Minha vida foi sugada por esse buraco negro do sono.

Eu e a Julia [Duailibi], minha esposa, brigávamos pra caramba de madrugada. O interruptor do quarto era afundado, porque um dia a gente bateu boca às quatro da manhã e dei um murro no interruptor. Privação de sono é método de tortura, é de enlouquecer as pessoas, mesmo.

Nós tentamos tudo. Tenho uma estante de livros só sobre isso. E a maioria fala a mesma coisa: tem de criar uma rotina, dar banho na mesma hora, brincar no escuro antes de pôr no berço – mas e se não funciona? Quando ela tinha oito meses estava insano. Ela acordava de hora em hora chorando. Chegou um ponto que nem ninando ela parava de berrar, um caos.

Nessa época a gente tinha tirado a mamada da madrugada, que já não importa para a nutrição, é só um coringa para fazer o bebê dormir e acaba fazendo da mãe uma escrava, porque a criança acorda e já quer o peito. Na minha peça, o personagem fala: ʽCara, se toda vez que você chorar viesse uma torneira de chope do céu, de Deus, na sua boca, você ia chorar o dia inteiroʼ. Entendeu? Você está premiando o choro…

Se estivesse ruim só pra gente, a gente segurava a barra. Mas uma hora falamos com o pediatra, a Olivia estava acordando 14 vezes por noite, era ruim pra saúde dela. Você não pode submeter um bebê a passar o primeiro ano de vida em claro. Sem dormir. Chorando. É violento, muito mais violento do que passar uma semana chorando com o pai e a mãe presentes, e aí dormir bem depois disso.

Você não pode submeter um bebê a passar o primeiro ano de vida em claro. Sem dormir. Chorando

Chega um grau de vandalismo o bebê… é tipo falar para um serial killer: ʽAmigo, vamos conversar, como era a sua infância?ʼ. Não adianta mais, né? Ele já está curtindo degolar velhinhas. Então decidimos tentar um negócio mais heavy metal – foi quando chegou na minha mão a verdade absoluta, a bíblia dos pais, o ‘Nana Neném’ +, o Capitão Nascimento dos treinamento de sono. Você coloca a criança na cama, fala algo calmo por trinta segundos (idealmente é ʽo papai vai te colocar pra dormir, fica tranquila, o papai não vai sumirʼ, mas tanto faz porque ela não entende, você pode falar ʽsalve o Corinthians, o campeão dos campeões, eternamente dentro dos nossos coraçõesʼ que dá no mesmo), e sai.

E ela ficava chorando, claro, urrando, nunca foi colocada no berço assim, era sempre ninada. Daí você volta ao quarto e não pode pegar no colo, só fala o mesmo texto e sai. E fica, sei lá, 45 segundos e volta. Sempre igual, só vai aumentando o tempo fora do quarto. É horrível. O bebê se esgoelando dentro e os pais chorando do lado de fora. Um diz ʽvai, vamos lá pegar elaʼ e o outro diz não, os dois se intercalando na missão de ʽgood copʼ e ʽbad copʼ.

Na teoria do livro é preciso aprender a voltar a dormir sozinho. A gente acorda de noite várias vezes, e de tão treinado nem percebe. Mas o bebê… quando adormece no colo e você põe no berço, ele acorda e pensa: ʽFodeu, não era aqui que eu estavaʼ. É como se você dormisse na cama e acordasse no chão da cozinha. O pavor do bebê é os pais sumirem. Mas ele tem de aprender a dormir sozinho no berço. Quando acorda, vai pensar: ʽAh, tudo certo, era aqui que eu estavaʼ.

Para chegar nisso vai uma semana. E é louco. Você tá acordando de hora em hora há oito meses e de repente o bebê dorme direto das 22h às 7h. No primeiro dia já funciona, ele fica 1h40 chorando, depois dorme. No dia seguinte, é 1h35… até que depois de uns dez dias você coloca o bebê no berço, fala o texto de sempre, ele sorri e dorme. É mágico. Já com o Daniel, o segundo, ele dormiu bem desde o início, não precisou de ‘Nana Neném’, que nunca é a primeira opção, é sempre a última. Mas funciona.”

Depoimento à Manuela Stelzer

Antonio Prata tem 42 anos, é colunista da Folha de S.Paulo e autor de 13 livros, entre eles ‘Meio Intelectual, Meio de Esquerda’ e o infantil ‘A Menina Que Morava no Chuveiro’