Por que dormir virou o luxo supremo — Gama Revista
Dormiu bem?

Por que dormir virou o luxo supremo

Símbolo do ócio desde sempre, o sono agora é tido como vital à produtividade e ao sucesso. Mais: virou performance a ser dominada e produto a adquirir – e, cada vez mais, um luxo 

Willian Vieira 12 de Abril de 2020

Da janela antirruído no quarto silencioso onde dorme sozinho, você vê a noite chegar. Hora de pôr o pijama do Tom Brady, ligar o aparelho de ruído branco, deitar no colchão ergonômico de temperatura autorregulável, ajeitar o travesseiro da Nasa e puxar o edredom de gravidade, cujo peso produz alento (e ocitocina). Oito horas de paz separam o ontem do amanhã, quando você acordará restaurado, pronto para ser superprodutivo.

Parece ficção científica esse tanto de aparatos, que ainda incluem gadgets e aplicativos, para dormir. Mas é a nova rotina idealizada – e, cada vez mais, alcançada – por quem tem recursos (e fixações) suficientes para investir na noite de descanso ideal. Se desde tempos bíblicos dormir é associado à preguiça e desvios de ordem moral, o sono é hoje tido como “o grande melhorador de performance, o segredo de sucesso para tudo na vida”, diz à Gama Simon J. Williams, autor de “The Politics of Sleep” e um dos maiores estudiosos de seus aspectos históricos e sociais.

Em tempos de hiperconexão e excesso de estímulos – quando dormir se torna tão difícil – indústria, ciência, mídia veem no sono a nova fronteira do bem-estar

“Graças às novas afinidades forjadas entre capitalismo e sono, ele deixou de ser o inimigo da produtividade e se tornou o grande aliado da performance e da otimização de si”, diz o sociólogo. Em tempos de hiperconexão e excesso de estímulos – quando dormir, sobretudo nas metrópoles, se torna tão difícil – indústria, ciência, mídia e até o digital influencer da vez veem no sono a nova fronteira do bem-estar.

Dormir deixa de ser pecado contra o capital e vira fórmula de sucesso: é indicado para melhorar o resultado na academia e a memória, o foco e a produtividade. Médicos aconselham, chefes demandam, pais e mães sonham com ele. Em vez de ignorá-lo ou criticá-lo, apostam-se nele todas as fichas. E o sono ideal acaba virando um luxo para quem pode bancar.

Dormir bem virou símbolo de status

“Durma até chegar ao topo”, diz o bestseller “A Revolução do Sono”, de Arianna Huffington. Para a guru da autoajuda sonífera, dormir bem é a única garantia de sucesso na vida (o que justificaria gastar o que for para alcançá-lo). Oito horas de descanso, garante, importam mais para ascender socialmente do que mais horas de trabalho.

Se até pouco tempo a sonolência era vista como sinal de esmero, o que, no Japão, era não só aceito como esperado devido a uma cultura de trabalho exaustivo, agora é associada a risco e baixa produtividade. Quando Ellon Musk, CEO da Tesla, confessou dormir pouco e graças a um hipnótico, as ações da empresa caíram. Não basta ser bilionário: é preciso estar descansado, focado, para administrar os bilhões.

Dormir virou símbolo de status porque o sono confortável é um luxo: não só demanda recursos para bancar paliativos e invenções como exige um estilo de vida. Morar num lar seguro e silencioso com quartos separados ajuda, assim como não passar horas na condução ou se preocupar com violência e dívidas. É quase uma higiene social do sono.

O sono é hoje tido como ‘o grande melhorador de performance, o segredo de sucesso para tudo na vida’

“Hoje, dormir bem é estar no alto da pirâmide social” e virou um “marketing de si mesmo”, diz Hugo Mercier, o francês de 26 anos que tem atraído atenção (e milhões de euros) ao falar de sono. Fundador da startup Rythm, criou um gadget que mede a atividade cerebral e calibra o envio de ondas que garantiriam o sono profundo. Dormir bem “não é luxo, mas necessidade absoluta”, disse. O produto custa 400 euros.

Pois a forma como dormimos reflete também nossa desigualdade social. Se pesquisas mostram que pessoas brancas dormem melhor do que a população negra é porque essa última acaba habitando áreas mais barulhentas e violentas. Gente que acorda cedo e dorme tarde, alternando turnos de trabalho e sono para, de maneira geral, atender as classes altas que compram os gadgets para dormir melhor. Se Arianna Huffington dorme bem é porque é rica e tem nove assistentes (que em geral se demitem devido à estafa).

Mas não é só questão de posses: dormir bem tem a ver com educação emocional. “Mesmo quem tem as condições não as aproveita, são os que mais utilizam a tecnologia inadequadamente”, diz o psiquiatra especialista em distúrbios do sono João Borgio. Sabemos que as telas atrapalham. Mas seguimos deslizando o feed do Instagram.

Assim, não basta ter tempo, dinheiro, conforto, silêncio – é preciso equilíbrio, saúde em dia e disposição, mas não muita: a ansiedade atrapalha. Ficou tão difícil conjugar tantos fatores que a noite perfeita se tornou um distante objeto de desejo. E quem alcança sai na frente.

O direito ao sono é uma demanda real

Dormir mal é uma epidemia mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde. Só no Brasil, a insônia atinge 73 milhões de pessoas. Ou seja, um a cada três brasileiros dorme mal. O que aumenta o risco de obesidade, diabetes e doenças mentais, males que sobrecarregam sistemas de saúde e afetam a economia+.

Mas não se trata só de produtividade e saúde. Segundo pesquisa Ipsos de 2018, 88% dos franceses veem no sono um momento de prazer e 78%, de liberdade. Outra mostrou que, se pudessem escolher entre ter uma hora a mais para desenvolver projetos criativos ou dormir, 53% dormiria mais. Dormir é a paz suprema. Mas somos mesquinhos com o sono. Por quê?

No fim de semana as pessoas tentam hibernar, tirar o atraso, como se dormir o suficiente fosse um luxo para o domingo. Mas dormir dez horas num dia não refaz a carência da semana

“A gente se acostuma a dormir tarde e acordar cedo sem perguntar se o acúmulo de funções que nos deixa sempre alerta é necessário”, diz à Gama Andrea Bacelar, presidente da Associação Brasileira de Sono (Absono). Daí o chamado jet lag social. “No fim de semana as pessoas tentam hibernar, tirar o atraso, como se fosse um luxo para o domingo. Mas dormir dez horas num dia não refaz a carência da semana.”

“Por isso, deveríamos falar em um direito ao sono”, afirma a bióloga Claudia Moreno, especialista em ritmos biológicos. “O estado deveria regular as empresas para que os horários de trabalho permitam um sono adequado, incluindo local para descanso.” Tal direito seria “o contraponto necessário à mercadorização do sono”, afirma Luis Menna-Barreto, especialista em ritmos do sono e professor da USP.

Para isso, seria preciso “uma revolução que fosse além da superfície das conveniências do mercado”, afirma. Não bastam novos gadgets ou remédios: o mundo necessita equacionar o ritmo da economia, da sociedade, ao ritmo das pessoas. Uma mudança que é social, econômica, cultural – mas sobretudo individual.

Apague as luzes: sono não é performance

Estamos numa constante batalha contra o sono. A ficção científica de Nancy Kress criou uma casta que não precisa dormir (e domina o mundo); os militares do Pentágono almejam que os soldados alcancem “a performance” ideal (só duas horas); e já há quem pesquise como ter “sonhos lúcidos”, aproveitando esse “tempo perdido” na vida acordada.

Nem é preciso ir longe: na rotina dos simples mortais, dormir tem se tornado prática dotada de regras, demandas e idealizações. De tão importante, o sono passou a ser visto como uma performance a ser dominada. “O que é novo, em termos históricos, é essa transformação do sono em estado ativo em vez de passivo”, diz Williams. Queremos melhorá-lo, controlá-lo.

“Sequestrado pela lógica da produtividade, o sono virou uma competência que é preciso performar bem”, diz à Gama a psicóloga Silvia Conway, diretora da Absono. “Você precisa dormir para ser produtivo no dia seguinte, se não se sente incompetente. Então busca uma fórmula para alcançar esse sono ideal à força, o que explica a banalização de medicamentos, que também traz culpa. É um ciclo de frustração.”

Vivemos imersos em ruídos internos e externos, o tempo todo conectados, de tarefa em tarefa, num grau de alerta que nos impede de desacelerar

No fim, não sabemos exercitar o silêncio: vivemos imersos em ruídos internos e externos, o tempo todo conectados, de tarefa em tarefa, num grau de alerta que nos impede de desacelerar. “De noite, os desconfortos internos que negamos de dia afloram e ficamos ansiosos.” Tomar um remédio vira opção e o sono, um “problema” a ser resolvido.

Por outro lado, acabamos crendo que o sono natural é um luxo para poucos. O boom recente de informações sobre o sono traz mais consciência sobre a importância de dormir sete, oito horas por noite. Mas traz, como efeito colateral, certo pânico: o de não se conseguir alcançar a meta universal. “A ideia do sono único de oito horas, quase como a morte de Morfeu, é uma idealização recente, que passou a ocupar nossas mentes”, diz Conway.

Queremos controlar o sono, encaixá-lo numa fórmula vencedora, igual para todos. “Corremos o risco de que a população em geral passe a ver esse espaço do sono estéril, idealizado pela indústria e da mídia (o quarto blindado de sons, o sono sem interrupções, etc.) não mais como um luxo, mas como a norma.”Para dormir bem, porém, vale mais ouvir os ruídos de insatisfação da vida diurna em vez de silenciá-los.

Para isso, é preciso disciplina emocional. Precisamos estar bem quando acordados para poder dormir bem. Em vez de gastar uma fortuna para se isolar do lado de fora, melhor fazer como a monja Coen: se voltar para dentro. É de graça.