Como a telemedicina e apps de celular ajudam dependentes químicos? — Gama Revista
Drogas: mudou de opinião?
Thiago Quadros / Getty Images

A força das telas

A expansão da telemedicina e a disseminação de aplicativos para celular têm facilitado o acesso dos dependentes químicos ao tratamento em tempos de pandemia e oferecido apoio nas horas críticas

Cristina Nabuco 15 de Novembro de 2020

Ficar em casa, uma das estratégias mais eficazes para deter o avanço da covid-19, entra em choque com a principal orientação dada aos dependentes químicos em recuperação: evitar a solidão. A ida regular aos ambulatórios especializados e às reuniões semanais de grupos de apoio são medidas essenciais para manter a sobriedade e evitar recaída e morte por overdose, explica o médico Peter Grinspoon, especialista em toxicodependência, num texto publicado em abril no blog de saúde da Universidade Harvard. Só que muitos desses serviços foram interrompidos. “O que precisamos fazer agora, mais do que nunca, é alcançar aqueles que estão lutando contra a dependência e oferecer a eles recursos para que não se sintam esquecidos e sozinhos”.

A resposta veio por meio da tecnologia. Governos aprovaram em regime de urgência leis facilitando a prática da telemedicina – modalidade que explodiu no Brasil em várias especialidades. Em fevereiro foram realizadas pela SulAmerica 500 consultas a distância. De março a outubro, este número subiu para 400 mil, informou a diretora médica do grupo Tereza Veloso durante o Summit Saúde Brasil 2020. Associações tradicionais, como os Alcóolicos Anônimos, renderam-se às reuniões virtuais. E aplicativos de celular se espalharam numa velocidade espantosa, caso do Anonymo, que dá acesso a uma comunidade colaborativa e digital de dependentes 24 horas por dia, 7 dias por semana. Lançado no Brasil às vésperas da quarentena, em oito meses já foi baixado por 10 mil pessoas. Gama investigou como funcionam essas soluções digitais.

Suporte na palma da mão

Os estudos comprovando os efeitos dos aplicativos no tratamento da dependência química são escassos. Um dos mais citados verificou o uso de um aplicativo para dependentes de álcool. Após um ano, quem contou com o suporte do app além do tratamento usual (170 pessoas) teve menos episódios de beber pesado do que os do grupo controle (179 pessoas). Publicado em 2014 no jornal JAMA Psychiatry, o trabalho coordenado por David H. Gustafson, professor da Universidade de Wisconsin-Madison, concluiu que os aplicativos para celular podem trazer um benefício significativo para pacientes em tratamento contra a dependência.

O dependente químico é ambivalente. Ao mesmo tempo que ele quer parar de usar, ele não quer. Então é superimportante ter a ferramenta na mão na hora que ele decide

A possibilidade é interessante para um país como o nosso, em que existem 220 milhões de aparelhos móveis para 208 milhões de habitantes. O Brasil é o terceiro no ranking de horas diárias gastas na Internet (em média 9 horas e 17 minutos). “Mesmo as classes mais baixas navegam on-line, por isso faz sentido desenvolver uma abordagem como essa”, diz a psicóloga Flavia Serebrenic, pesquisadora voluntária do GREA(Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

A maior vantagem é o acesso rápido e fácil. “O dependente químico é ambivalente. Ao mesmo tempo que ele quer parar de usar, ele não quer. Então é superimportante ter a ferramenta na mão na hora que ele decide”, acrescenta Flavia, que é cocriadora do BeOk, app que transpõe para o ambiente digital as bases do atendimento psicológico para dependentes.

Sua parceira no projeto, a psicóloga Natalia Ragghianti, pesquisadora voluntária do GREA, lembra que poucos dependentes no Brasil têm acesso a serviços especializados de qualidade e que o anonimato pode contribuir para ultrapassar barreiras: “Ajuda a vencer o estigma, o preconceito, a vergonha de buscar auxílio”, informa. Natália supõe que, dada à complexidade da doença, o aplicativo não servirá para todos os casos, mas pode ser útil tanto para evitar recaídas na recuperação quanto para sensibilizar quem ainda não percebeu que a droga é um problema. Reconhece, também, que em algum momento o usuário pode sentir falta de contato humano, por isso ela e Flavia estudam meios de possibilitar essa interação numa versão futura.

“O aplicativo está salvando a vida das pessoas”, conta o empresário e atleta de jiu-jitsu Christian Montgomery, que lançou o Anonymo em parceria com o irmão Robert, a partir de sua experiência pessoal. Ex-dependente, ele consumiu álcool, cocaína e remédios para dormir de forma desenfreada durante 20 anos. Estava arruinando sua vida quando se internou em uma clínica de reabilitação e começou uma virada pessoal. Ao sair dali, em 2018, resolveu ajudar outros dependentes. “Eu tinha a consciência de que o que mais motivou a minha recuperação foi participar de grupos de apoio, daí surgiu a ideia de levar isso para o ambiente virtual”.

O aplicativo pode ser útil para evitar recaídas na recuperação e para sensibilizar quem ainda não percebeu que a droga é um problema

Passou a compartilhar sua experiência de superação no Instagram, onde tem 93 mil seguidores que interagem enviando perguntas e comentários. Pensou, então, em juntar gente do Brasil inteiro numa sala virtual de reunião. Assim nasceu o aplicativo. “Não encontrei nada parecido. Deu tão certo que fomos ampliando as funções”, conta.

De entretenimento a negócios profissionais, os aplicativos oferecem enorme potencial na área de saúde. Startups americanas também vem desenvolvendo opções direcionadas a dependentes químicos: chats semanais com coachs (Dynamic Care Health), prescrição digital de medicamentos contra a fissura (PEAR Therapeutics), para fumantes que tentam parar usando adesivos de nicotina (Chrono Therapeutics), sensor de monóxido de carbono e apoio de coach para largar o cigarro (PIVOT), conexão com outros dependentes em grupos de apoio (Marigold Health), suporte à recuperação e telemedicina (Workit Health). Os apps têm proporcionado um suporte valioso em tempos de isolamento.

“Nenhuma tecnologia substitui o calor humano”

“O que era feito antes da pandemia com timidez, apenas para pacientes que residiam em outras cidades, se ampliou: nunca no consultório atendemos tantas pessoas por telemedicina” diz o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, supervisor do GREA (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

As consultas remotas são vistas com cautela pelo Conselho Federal de Medicina, pelo receio de que atrapalhem a relação médico/ paciente e prejudiquem a qualidade do atendimento. Mas a Covid-19 trouxe um novo cenário. Uma portaria do Ministério da Saúde autorizou a modalidade temporariamente para facilitar o acesso ao tratamento e evitar a ida de pacientes não graves aos serviços de saúde. Uma comissão do CFM coordenada pelo médico Donizetti Giamberardino Filho está elaborando uma resolução sobre o tema para o pós-pandemia. “A telemedicina não pode substituir a figura presencial do médico”, diz.

Especialmente no caso dos dependentes químicos, a empatia entre o médico e o paciente é decisiva para a aderência e o sucesso do tratamento

Especialmente no caso dos dependentes químicos, a empatia que se estabelece entre o médico e o paciente é decisiva para a aderência e o sucesso do tratamento. Segundo Arthur Guerra, a mentira e a negação fazem parte do quadro clínico e podem ser percebidas mais facilmente quando se está cara a cara. “Nenhuma tecnologia substitui o calor humano”. Apesar disso, o psiquiatra considera que a telemedicina tem facilitado o tratamento da adição ao possibilitar rapidez com mais eficiência: elimina-se o tempo perdido no trânsito, o médico pode atender de onde estiver (o que reduz os custos do consultório) e plataformas seguras permitem a emissão de receitas eletrônicas.

Nos Estados Unidos, também houve um crescimento expressivo das consultas on-line para dependentes químicos. Antes da pandemia, eram oferecidas por poucos médicos por terem remuneração menor e apenas após uma primeira consulta presencial (portanto era preciso residir próximo a um serviço especializado). Em tempos de covid-19, todo o tratamento passou a ser feito a distância, inclusive a prescrição de fármacos que reduzem a fissura pela droga, e os valores pagos pelos seguros de saúde pelo atendimento virtual se equipararam aos da consulta ao vivo, de acordo com Tina Rosenberg, colunista do jornal The New York Times – no Brasil a diferença de remuneração entre o atendimento digital e presencial segue à espera de solução.

Crise de saúde pública

O tratamento a distância pretende evitar a tragédia que se abateu sobre os Estados Unidos em 2016, quando 63.600 pessoas morreram por overdose de opioides – drogas ilícitas como a heroína e analgésicos potentes derivados do ópio. Essenciais para tratamento de dores intensas, tais medicamentos passaram a ser usados de maneira abusiva, causando um aumento vertiginoso no número de dependentes químicos.

Em 2018, o presidente Donald Trump declarou a crise dos opioides uma emergência de saúde pública. Atribuiu-se a ela mais de 470 mil mortes no país desde o início de 2000. A indústria farmacêutica foi acusada de estimular essa epidemia e enfrenta batalhas judiciais em 40 estados norte-americanos. A primeira sentença saiu em 2019, quando a Johnson & Johnson foi condenada a pagar 572 milhões de dólares pela comercialização agressiva de analgésicos. Em outubro, a Purdue Pharma admitiu ter pago propinas a médicos para receitarem opioides após procedimentos comuns, quando não seriam necessários, e sido negligente no controle dos desvios desses fármacos. Fez acordo com o departamento de justiça dos Estados Unidos no valor de 8 bilhões de dólares.

A situação brasileira é diferente. A dependência de opioides, embora preocupe, não ocorre nas mesmas proporções; os medicamentos viciantes mais disseminados entre nós são os benzodiazepínicos (remédios para dormir). O maior problema continua sendo a bebida: existem 2,3 milhões de dependentes do álcool, segundo o 3º Levantamento Nacional sobre Uso de Drogas pela População Brasileira, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz, que ouviu 17 mil pessoas entre maio e outubro de 2015. Dentre as drogas ilícitas, destaca-se a maconha, seguida da cocaína e do crack: 3,2% dos brasileiros, o equivalente a 4,9 milhões de pessoas, fizeram uso de substâncias proibidas. E ainda há um número expressivo de fumantes: 20,8 milhões.

Para Arthur Guerra, as soluções digitais podem fazer a diferença sobretudo nas emergências, quando o dependente está sob risco de recaída ou overdose, ligando para uma pessoa cadastrada, conduzindo para chat, atendimento on-line ou presencial. Assim se previne um final infeliz.

Apoio ininterrupto

Conheça ferramentas digitais disponíveis no Brasil:

BeOK. Desenvolvido pelas psicólogas Flavia Serebrenic e Natalia Ragghianti, permite fazer um diagnóstico da situação e definir metas, oferece um diário a ser preenchido, produz um gráfico de desempenho e apresenta vídeos semanais (11) com temas para a recuperação, seguidos de quizzes – com os acertos, o usuário ganha pontos e muda de nível. Os dados informados sobre o consumo possibilitam calcular quanto se economiza com a mudança de comportamento. Tem um botão SOS, que dá acesso a estratégias de enfrentamento. Gratuito, está disponível na Play Store. Basta solicitar senha de acesso.


Anonymo. Permite participar de reuniões on-line, com coordenador e regras definidas. A pessoa se inscreve como o nome real ou apelido e só mostra o rosto se quiser. Há um mural para registrar as vivências e chat 24 horas para suporte aos usuários. A proposta é subir 10 degraus com o apoio de um padrinho: o primeiro é reconhecer que tem um problema; o segundo é procurar ajuda especializada… O app ainda calcula há quanto tempo está limpo, quanto está economizando e todo dia envia uma frase motivacional. Gratuito, está nas lojas Apple e Google.


Socorre.me. Reconhecido pelo Sebrae como uma das 25 melhores ideias do Brasil em 2015, o aplicativo foi criado pelo analista de sistemas Daniel dos Santos Cardoso. Tem questionário para verificar o nível de drogadição. Orienta sobre como ficar longe das drogas. Calcula quantos dias a pessoa está limpa e quanto economiza ao parar. Traz uma linha do tempo com fotos antes/depois e um espaço motivacional, com fotos da família e dos amigos. Disponível na App Store e na Play Store, foi baixado por 5000 pessoas.


My Journey Health. Foi projetado pelo empreendedor André Almeida, ex-dependente, para ajudar o profissional de saúde a monitorar o paciente na sua jornada de recuperação pós-alta. Dependendo do estado de humor informado, o profissional insere atividades, divididas em seis tipos: cognitivas, ampliação da consciência, autoconhecimento, social, atividade física e desafio pessoal. Envia mensagens motivacionais, estimula a fazer um diário e tem um botão SOS. Só funciona mediante acompanhamento de profissional da saúde que utilize a versão web. Disponível na App Store e na Play Store.


AA on-line. Até uma irmandade tradicional, como os Alcoólicos Anônimos, que há 85 anos propaga a ajuda mútua para manter a sobriedade, rendeu-se aos encontros digitais. Presente desde 1947 no Brasil, onde existem cerca de 5000 grupos que se reúnem semanalmente, tem realizado todos os dias uma reunião virtual nacional às 20h pela plataforma Google Meet, além de muitas outras em horários diversos em várias cidades, também pelo Google Meet. Entre 28 de setembro e 25 de outubro aconteceram 3213 reuniões a distância, conectando 30.915 participantes.


RAD. O Sistema de Recuperação a Distância é uma ferramenta disponibilizada pelos Narcóticos Anônimos para acesso a reuniões on-line por meio do Zoom Meeting. Elas são classificadas por dia, horário e cidade. Toda semana acontecem 1615 reuniões virtuais. A irmandade é ativa em 144 países e está no Brasil desde os anos 1970.