Por que a meditação virou moda — Gama Revista
E meditar, já tentou?

A meditação é pop

Willian Vieira 31 de Maio de 2020
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Como meditar virou moda e garantia de felicidade e sucesso. Principal foco da indústria do wellness atualmente, a prática milenar ganha variedades ocidentais e adeptos incomuns 

Quem já recebeu no Whatsapp o convite para a “meditação da abundância” do guru indiano Deekpak Chopra — que junta tias e avós, primos e sobrinhos em uma grande corrente meditativa — sabe que a prática vive um boom de prosperidade. Seja entre os executivos do Fórum Econômico Mundial, no gramado em frente aos arranha céus da Faria Lima, em São Paulo, ou entre frequentadores de spas de luxo, a meditação ganha adeptos insuspeitos em lugares antes inimagináveis.

Como se deu com o yoga anos atrás, a meditação virou pop. Prova palpável do fenômeno é que ela tem sido oferecida sob diferentes rótulos e de forma empacotada para o consumo. Está ao alcance de todos: em apps de celular (para meditar a caminho do trabalho), em sessões coletivas em multinacionais (antes daquela reunião, por que não) e até salões de beleza — no Namaste Nail Sanctuary, nos Estados Unidos, medita-se ao som da voz nasalada de Chopra enquanto se faz as unhas.

Com o Ocidente abraçando o “mindfulness”, versão laica e adaptada às vicissitudes da rotina contemporânea, meditar deixou se ser algo para uns poucos espiritualizados e virou uma receita de sucesso, tanto no âmbito pessoal, para lidar com o estresse e a ansiedade da hiperconectada vida moderna, quanto profissional. De repente, meditar se tornou garantia de mais foco, atenção — e, claro, produtividade, palavrinhas mágicas no mundo atual.

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O poder da multiplicação

“A indústria do wellness, incluindo a meditação, começou a crescer em 2008, justo quando surgiu o smartphone”, diz à Gama Beth McGroarty, diretora de pesquisa da consultoria Global Wellness Institute (GWI). “Não nos damos conta de como isso mudou a vida humana. Esse aparelhinho inofensivo aprisionou boa parte de nossa vida acordados, o que nos fez extremamente ansiosos, então não é uma coincidência.”

Há até pouco tempo, diz, a meditação era atividade restrita aos insiders do wellness. “Mas ela segue a trajetória meteórica do yoga vinte anos atrás.” Afinal, um quarto da população se defrontará com questões mentais, diz a Organização Mundial da Saúde. “Com os níveis de estresse e ansiedade nas alturas, o mercado percebeu que a meditação tinha um futuro brilhante.”

Segundo o GWI, que define “wellness” como “a busca ativa de atividades, escolhas e estilos de vida que levem a um estado de saúde holística”, tal mercado é avaliado em 4,5 trilhões de dólares. Da academia de ginástica ao yoga, passando por dietas e terapias holísticas, tudo é “wellness”. E a meditação desponta como a nova galinha de ovos de ouro da indústria.

Logo a meditação vai ser como ter HBO. Você assina e tem o serviço de meditação disponível na TV grande da sala, para meditar em família

Um estudo do Departamento de Saúde americano, de 2018, apontou que o uso da meditação aumentou 10% em apenas cinco anos (de 4.1% em 2012 para 14.2% em 2017). Só no país, dados da consultoria Market Research apontam para um mercado de US$ 1 bilhão (serão US$ 2 bilhões em 2022) que inclui estúdios de meditação, livros, DVDs, workshops, cursos online, sites e apps.

O GWI diz que a meditação não só cresce como está ficando “plural”: os “menus” serão cada vez mais amplos, com antigas práticas encontrando novas variedades (já ouviu falar de “shaking meditation?), a ser oferecidas em qualquer lugar: de academias (vide o “mindful fitness” da rede Equinox) a salões de “quick meditation”. E, claro, nos apps.

Em 2019 havia no mundo mais de 1500 apps de meditação, diz o GWI. Só os dez maiores lucraram US$ 190 milhões, 52% mais que em 2018. “Só na última semana de março foram 750 mil downloads, o que fez dos apps do tipo o mercado mais aquecido do wellness na crise do coronavírus.”

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O Brasil diz Ommmm

O boom de apps e cursos no Brasil segue a mesma toada, sobretudo na onda empresarial do mindfulness. “O mindfulness traz as técnicas budistas sem o budismo”, diz Alexandre Lunardelli, que fundou a Academia de Mindfulness em 2012 com foco na laicização da prática. “O que permitiu o crescimento do público, o acesso de todo mundo independente de religião.”

Mais de mil alunos já passaram por ele, tanto que, em 2018, lançou o Ácora, app voltado à “inteligência emocional” com base em técnicas meditativas. Seu slogan: “acordar para o agora”. Mas são as empresas, hoje, que alimentam a empreitada. “Há três anos, isso não existia. Hoje, elas respondem por 70% do meu faturamento.”

Um banco o contratou porque os funcionários erravam o preenchimento dos formulários por falta de atenção. A prática, diz, resolveu o problema. “Você melhora o foco, como lida com as emoções, a empatia, a resiliência… você otimiza sua energia mental, e assim produz mais com menos gasto de energia. Ganha em performance, entendeu?” Nas empresas, diz, “ainda há o preconceito de que os colaboradores vão virar hippies se meditarem, mas isso está sendo vencido por que o mindfulness é laico. E é o contrário: ele fica mais produtivo.”

Há uma mudança de comportamento em curso. As pessoas estão meditando, se acostumando, ficando viciadas nesses apps. Depois elas não voltarão atrás

Um discurso que ecoa. “A meditação ainda é carregada de mitos”, diz Marcelo Maia, que criou estúdio Moved by Mindfulness em 2017. Anos antes, quando fez o curso para virar instrutor de mindfulness, o professor frisou para que não usassem o termo meditação com os alunos — “para as pessoas não irem para o estereótipo”. Hoje ele oferece sessões avulsas e planos mensais, presenciais e virtuais, sobretudo a pessoas “em transição, de carreira ou na vida. E muitos advogados”.

A empresa tem um perfil Faria Lima e já atendeu de startups como Uber a multinacionais como Sanofi. “Temos grupos que do CEO à faxineira, todos praticam e todos aproveitam a inteligência emocional um do outro”, diz. Mesmo com a crise, lançará um app em agosto. “As pessoas estão percebendo que precisam cuidar mais da cuca”, diz Maia. “Elas querem controlar o estresse e ficar mais no presente.”

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Meditar pelo Netflix? Por que não?

Quando a Calm, startup voltada a meditação e relaxamento, se tornou um unicórnio (com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão), ficou claro que a tendência vinha para ficar e que o Vale do Silício estava disposto a irrigar o mercado com bilhões de investimento. “O mundo vive uma explosão de startups de mindfulness e meditação”, diz o GWI.

E elas têm tentado de tudo para desmistificar a prática, vendendo-a como 100% laica e de eficácia cientificamente comprovada. A Headspace, que alcançou um milhão de assinantes em 2018, conseguiu quase US$ 100 milhões em investimentos da noite para o dia — que deverão bancar os 70 testes clínicos em curso, em parceria com universidades de ponta. A ideia é confirmar que seu mindfulness, via app, funciona.

A ofensiva inclui ainda assinatura grátis para médicos que lutam contra o coronavírus e para 36,5 milhões de desempregados. O timing é perfeito: incerteza, medo e ansiedade, de um lado, assinaturas gratuitas e discurso de empoderamento de outro. “Há uma mudança de comportamento em curso”, diz McGroarty. “As pessoas estão meditando, se acostumando, ficando viciadas nesses apps. Depois elas não voltarão atrás.”

Esses apps funcionam como um fast-food para as massas: são convenientes, acessíveis, baratos e oferecem uma dose rápida de mindfulness — um band-aid sobre as ansiedades do dia a dia

Já há negócios sendo fechados entre essas empresas e plataformas de streaming, como Netflix e Amazon, garante a consultora. A Samsung fez algo similar, disponibilizando o acesso diretamente na TV. “Logo vai ser como HBO. Você assina e tem o serviço de meditação disponível na TV da sala, para meditar em família.” No Vale do Silício, o céu é o limite.

Vide o Wave, “kit” com fone e app “desenhado para redefinir a meditação” por meio de vibração, ou o “headset” de realidade virtual Helium, que se diz “a solução sem drogas para o burnout”. Em breve, diz McGroarty, tais produtos “serão oferecidos em resorts de wellness e no sistema de entretenimento das aeronaves”. Assim como tecnologias que “otimizam e personalizam a meditação” — caso do headband Muse 2, que utiliza sensores cerebrais para fornecer “feedback em tempo real”.

A ideia é tornar a meditação “fácil” e servir de “guia” para a prática. Mas meditar não se trata justamente de abrir mão do controle, ignorar os fins e pensar nos meios? Faz sentido gastar dinheiro para controlar a meditação, via gadgets como o celular, em vez de apenas tentar olhar para dentro?

A privatização da meditação

“O mindfulness virou uma panaceia, um elixir universal para melhorar qualquer área da vida do sujeito, da carreira ao relacionamento”, diz à Gama o professor de administração da Universidade de São Francisco Ronald Purser, autor de “McMindfulness”. Praticante de meditação há 40 anos, ele se diz “chocado ao ver as práticas budistas, certa vez abraçadas pelos beatniks, artistas e hippies de repente virarem uma indústria bilionária calorosamente recebida pelos gurus do Fórum Econômico Mundial e pelos nerds do Vale do Silício.”

O problema de transformar a meditação em um serviço, diz, é achar que ela pode consertar a mente sem implicar mudanças no estilo de vida. A “mcdonaldização” da meditação, diz, fica patente nos apps. “Eles funcionam como um fast-food para as massas: são convenientes, acessíveis, baratos e oferecem uma dose rápida de mindfulness — um band-aid sobre as ansiedades do dia a dia, para voltarmos logo à corrida.”

A meditação não é um exercício, é um caminho para o autoconhecimento. Não é uma muleta para contrabalancear a raiva sem mudar os padrões internos

Assim, diz, a indústria do wellness privatizou a meditação, reduzindo-a a uma ferramenta de gerenciamento de estresse e um “melhorador de performance”, seja “a tomada de decisões entre operadores de fundos em Wall Street” ou “a precisão de atiradores de elite”. O objetivo original era liberar o indivíduo do ego, diz. “Mas ela virou algo a serviço do ego.”

É quando a meditação viraria autoajuda, diz o monge Segyu Rinpoche (leia box abaixo). “A meditação não é um exercício, é um caminho para o autoconhecimento. Não é uma muleta para contrabalancear a raiva sem mudar os padrões internos. Essa meditação que das empresas é pra você produzir mais, não tem a ver com desenvolvimento pessoal.”

Meditar, claro, nunca faz mal mal, afirma o monge. Mas faz mais sentido se o sujeito utiliza a prática individual e solitária para olhar para dentro de si e encontrar uma “linguagem transformativa”. Ou seja, formas de agir diferentemente. “O objetivo final é agir positivamente no mundo.”

Como a meditação secular caiu no mainstream

O percurso de Segyu Rinpoche traduz a trajetória da meditação no Ocidente. Ele medita há 53 anos, desde que um livro sobre o tema caiu a seus pés numa livraria do Rio, onde nasceu. “Meu pai achava que era loucura, eu era engenheiro”, lembra. Mas ele foi em frente e viveu como monge por 28 anos numa comunidade tibetana.

Foi ao se mudar para os Estados Unidos, no Vale do Silício onde pipocam as startups do futuro, porém, que ele percebeu a urgência de difundir a meditação — secular. Afinal, “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”, diz Rinpoche.

Como a meditação deixou os monastérios nas montanhas tibetanas para chegar à Califórnia e a todo o Ocidente é uma história que ele conta pausadamente: primeiro os chineses invadiram o Tibete nos anos 50 e o Dalai Lama se exilou na Índia: o budismo então ganhou projeção mundial — e a meditação, seu cartão de visitas. E assim, aos poucos, a prática ganhou adeptos entre os mais espiritualizados.

Nos anos 1990, o Dalai Lama fundaria o Mind Life Institute, nos Estados Unidos. “Qual era seu objetivo de sua Santidade? Trazer a cultura milenar ligada à ciência”, diz Rinpoche. “Ele pensou: como se poderia mudar a psique do ser humano? Meditando.”Com um embaixador tão carismático, a meditação foi crescendo. 

Em 2003, Rinpoche fundou a Juniper, centro secular que o fez mundialmente conhecido –sobretudo por ter sido guru de Steve Jobs. E, em 2005, o cineasta David Lynch criaria uma fundação para difundir a meditação transcendental, disseminando a prática não religiosa entre celebridades como Oprah. Mas e o mindfulness? 

O termo, cunhado por um diplomata britânico no início do século passado para traduzir o conceito budista de sati, ou atenção plena, foi resgatado nos anos 70 por um biólogo americano, interessado nos efeitos da meditação sobre o corpo. Ele adaptou a prática, extirpando seu conteúdo filosófico — e lançou as bases da laicização da prática no Ocidente. “Ele era inclusive discípulo do Dalai Lama”, diz Rinpoche. “Tirou o nome de meditação e virou mindfulness.”

Mas foi só nos últimos anos que esse tipo de meditação, simplificada para dar conta de anseios tão contemporâneos como diminuir o estresse e a ansiedade e aumentar a produtividade, virou businness, chegou às empresas e aos apps de celular. O resto é história — uma história que Rinpoche conta muito bem no podcast da Gama.