A amizade e a 'Casa do Sol' de Hilda Hilst, por Ana Lima Cecilio — Gama Revista
E os amigos?
© Acervo Sala de Memória Casa do Sol/Instituto Hilda Hilst

Beleza no desatino

Hilda Hilst criou uma espécie de ilha, que chamou de Casa do Sol, e a povoou de amigos. Ana Lima Cecilio, biógrafa da escritora, esteve por lá em 2001 e escreve sobre esse espaço de convívio, de troca, de amizade

Ana Lima Cecilio 02 de Agosto de 2020

Quero brincar, meus amigos
de ver beleza nas coisas.
Beleza no desatino
No teu amor descuidado
Beleza tanta beleza
Na pobreza.

(“Do amor contente e muito descontente”,
em “Roteiro do Silêncio”)

Poucas pessoas foram mais adeptas do “amigo é a família que a gente escolhe” do que Hilda Hilst. Praticamente sem contato com o único irmão, Hilda fez da convivência com os amigos seu círculo familiar. Os amigos foram companhia, esteio, herdeiros. Sua obra hoje é administrada pelo Daniel Fuentes, filho de Olga Bilenki e Jose Luis Mora Fuentes, dois dos amigos mais próximos. Seu testamento dividia casa, obras, terreno entre amigos, e talvez ter deixado tudo para eles tenha sido o melhor jeito de garantir que sua obra hoje esteja tão generosamente disponível. Se os amores na vida dela foram fugazes, a amizade ficou, até o fim, e depois. E quem há de negar que esta lhe é superior? Talvez seja por isso que ela gostava tanto de cachorros, esse indiscutível melhor amigo do homem.

Na cozinha da Casa do Sol, em Campinas, as reuniões entre amigos eram sagradas: aqui, Hilda ao fundo, de frente para o escritor Jose Luis Mora Fuentes, seu maior amigo e para quem ela deixou a icônica casa© Acervo Sala de Memória Casa do Sol/Instituto Hilda Hilst

“A Hilda vai adorar você, vocês precisam se conhecer”, me disse Maria Lucia Cacciola, em 2001, quando eu, sua aluna do curso de Filosofia, terminava a graduação com esse diploma de amiga da minha professora de Kant – talvez o que mais me dê orgulho até hoje. Maria Lucia era amiga da Hilda havia décadas, desde que ela, adolescente, ficava parada na porta do prédio em que eram vizinhas, na alameda Santos, para ver “dona Hilda sair”, como avisava o porteiro. Quase todas as noites, Hilda saía de casa chiquérrima, loiríssima, encantadoríssima, rumo a algum carro que ia buscá-la. Maria Lucia amadureceu vendo aquela vizinha superlativa e, não menos brilhante, ficaram amigas. Algumas décadas depois, fiquei amiga da Maria Lucia, minha amiga superlativa, e foi ela que me levou para conhecer aquela escritora que eu admirava tanto, de quem eu tinha um pouco de medo, e que morava no meio do mato, numa casa que ficava na minha cidade natal. Coisa de amiga.

Fiquei só sentada naquela sala linda, cheia de cachorros em volta, assistindo maravilhada a conversa de duas amigas

Levamos almoço e vinho, e passamos o dia na Casa do Sol. Desde que comecei a trabalhar com a obra da Hilda, ela já morta, sempre me lembro desse dia como um delicioso desperdício: não fiz entrevista nenhuma, mal perguntei umas bobagens, não tive nenhuma revelação ou epifania, não solucionei nenhum mistério. Fiquei só sentada naquela sala linda, cheia de cachorros em volta, assistindo maravilhada a conversa de duas amigas. Um dos filósofos de que a Maria Lucia gosta muito, o Schlegel, tem um aforismo que diz que o “chiste é como o surpreendente reencontro de dois pensamentos amigos que não se viam há muito tempo”. Talvez seja por isso que tudo que elas diziam era engraçado e inteligente. Elas, juntas, eram um chiste.

À esquerda, Hilda e Dante Casarini, que foi seu marido e depois se tornou um grande amigo; à direita, a escritora com Lygia Fagundes Telles, Olga Bilenky e a cachorra Aninha© Jose Luis Mora Fuentes

Dentre as inúmeras ambiguidades de que Hilda Hilst é feita, uma das minhas preferidas é o balanço entre humor e densidade. Se na literatura ela é densa, profunda, caudalosa em cada verso, em cada linha, em cada título, há uma unanimidade entre todos seus amigos de que ela era muito, mas muito engraçada. “A gente ria muito”, “ficávamos ali, dando risada”, “eu ria tanto que passava mal” – esse é o tipo de frase que ouvi e ouço exaustivamente de todas as pessoas que passaram pela Casa do Sol – jovens, velhos, poetas, físicos, intelectuais, madames, ricos, estudantes pé-rapados. Todo mundo achava graça na Hilda, uma graça universal, democrática, equânime. Uma graça que tirava sarro de si mesma, e dos outros, mas com delicadeza. Uma graça que ri da desgraça.

Quando tento apertar o entrevistado e pedir que ele cometa o pecado mortal de explicar a piada… nada. Raramente me contam um chiste, um assunto, uma história. Parece que estar com Hilda era engraçado, e que o humor dela era uma atmosfera que se materializava como por milagre naquele instante único entre ela e os amigos. E por essa generosidade móvel, meio brincalhona, meio infiel, é que ela conquistava todo mundo nesse mar de amizade. Ser amigo é segurar a barra, claro, sempre. Mas ser amigo também é saber fazer dar risada.

Antiga placa da Casa do Sol, morada que Hilda construiu para se dedicar à literatura e acabou povoando de amigos© Acervo Sala de Memória Casa do Sol/Instituto Hilda Hilst

Outra ambiguidade, mais fácil de desvendar, é essa do ato fundador da sua literatura. Aos 36 anos, loira e superlativa, Hilda pega um pedaço de terra da mãe, em Campinas, arrasta o então namorado Dante Casarini (que viraria marido, e logo depois, e para sempre, um dos melhores amigos) e constrói segundo seu próprio projeto, a Casa do Sol – um casarão meio espanholado, com um pátio no meio, e um jardim aprazível que foi se encorpando ao longo dos anos, com a ajuda, como não podia deixar de ser, dos inúmeros amigos. A história é manjada, e muito se disse da mulher linda que abandonou uma frenética vida social numa São Paulo efervescente para se refugiar no meio do mato e escrever. Mas o que eu gosto nessa história é que Hilda nunca ficou isolada, e todos os amigos que conviveram com ela lá têm muita dificuldade de lembrar de uma única noite que ela tenha passado sozinha.

Hilda fez uma ilha, que logo povoou dos amigos mais queridos

Uma das coisas mais impressionantes na Casa do Sol – uma casa barroca, enfeitada, cheia de badulaques e memórias – é a parede dos amigos: uma galeria de fotos dos mais queridos, com mais de trinta moldurinhas, em que seus amigos figuram como troféus, prêmios, ou indicações do guia Quatro Rodas – lá estão Lygia Fagundes Telles, Caio Fernando Abreu, Lupe Cotrim, Maria Luiza Furia, Olga Bilenki, Mario Schemberg, Massao Ohno, J. Toledo, Mora Fuentes, Guttemberg Medeiros, Paulo Emilio Salles Gomes e mais uma turma imensa, eternamente fazendo festa, e rindo. Hilda não foi para uma ilha deserta para escrever. Hilda fez uma ilha, que logo povoou dos amigos mais queridos, chamou outros, abrigou outros tantos. A Casa do Sol foi por excelência um espaço de convívio, de troca, de amizade. E se alguém duvidar basta comparar a metragem da biblioteca com a da cozinha; a do quarto da Hilda com a do pátio: os lugares de encontro são sempre maiores. E poucos lugares no mundo me parecem mais acolhedores. Hilda não fugiu do mundo, Hilda não foi para a ilha deserta. Hilda era a própria ilha.

Hilda com Lygia, Olga e Mora Fuentes, três de seus grandes amigos e companheiros da vida toda© Acervo Sala de Memória Casa do Sol/Instituto Hilda Hilst

A densidade da obra da Hilda vem dos temas que são seu norte. Se ela fala de Deus, da morte, do desejo, da criação, e fez da sua produção literária o seu cotidiano, é muito natural o reconhecimento brutal da tristeza, da dureza, da miséria e do desatino. Mas para alguém com tanto humor, com tanta vida (tanta aliás, que não deixava de ver vida nem na morte) era impossível se entregar a essa tristeza atroz. E era com os amigos que buscava esse humor sacana, ferino, sem vergonha. O humor que vê “beleza no desatino”. Porque amigo pode não resolver tudo. Mas ajuda.

Ana Lima Cecilio mora em São Paulo e trabalha há 15 anos no mercado editorial. Na Biblioteca Azul, editou “Fico Besta Quando me Entendem” (2013) e “Pornô Chic” (2014). Atualmente está escrevendo a biografia de Hilda Hilst.