Fabien Cousteau e sua relação com a água e os oceanos — Gama Revista
E se faltar água?

Fabien Cousteau: ‘Quero que o mundo conheça o incrível universo subaquático’

Leonardo Neiva 21 de Março de 2021
Carrie Vonderhaar

Em entrevista a Gama, o aquanauta neto do famoso oceanógrafo Jacques Cousteau dá detalhes sobre seu projeto de construir a maior estação de pesquisa subaquática do mundo

“As pessoas protegem o que amam, amam o que compreendem e compreendem o que aprendem.” A frase do mundialmente conhecido oceanógrafo e documentarista Jacques-Yves Cousteau (1910-1997), cocriador do equipamento de mergulho aqualung, reverberou ao longo de toda a vida do neto, o aquanauta Fabien Cousteau, 53.

Primeiro dos filhos de seus filhos, Fabien passou boa parte da infância a bordo dos navios do avô, Calypso e Alcyone. Já aos quatro anos, aprendeu a mergulhar de forma autônoma. A paixão pelos oceanos e sua vocação profissional nasceram principalmente desses momentos. E, se Jacques quebrou um recorde mundial ao passar 30 dias dentro de um laboratório de exploração subaquática, em 1963, Fabien e sua equipe estabeleceram uma nova marca em 2014, ao permanecer 31 dias na estação submarina Aquarius, na costa da Flórida.

Durante esse tempo, o aquanauta, que já declarou ter se sentido mais confortável debaixo d’água do que em terra firme, teve uma revelação importante. Ao transmitir online algumas das descobertas que fez na Missão 31, como ficou conhecido o projeto de exploração, percebeu que ações como essa aproximam as novas gerações da vida marítima, seguindo o preceito ensinado pelo avô. Além disso, o tempo de sobra para explorar permitiu a coleta de várias informações científicas relevantes.

Essas foram algumas das principais motivações para que Fabien iniciasse uma cruzada para construir sua “estação espacial internacional”, só que debaixo d’água. O projeto Proteus pretende criar um habitat subaquático moderno, com laboratórios voltados a cientistas e acadêmicos, com as descobertas transmitidas online para o mundo todo. Ao lado do designer industrial Yves Béhar, o aquanauta hoje estuda a melhor forma de avançar com o plano e criar a maior estação subaquática do mundo, com 4 mil m², no mar do Caribe.

“Muitos de nós consideramos natural todo o bem que o oceano nos oferece. Não levamos em conta que ele é responsável por cada respiro que damos, cada copo d’água que bebemos”, afirma Fabien em entrevista a Gama. Na conversa, além de mais detalhes a respeito do projeto, ele fala sobre sua relação com os oceanos, como a pandemia pode trazer problemas graves às águas e a importância de conscientizar as novas gerações.

A saúde do oceano é a saúde humana. Estamos todos conectados e não existe ‘jogar fora’

  • G |A vida e a experiência de seu avô — o mundialmente conhecido oceanógrafo e documentarista Jacques Cousteau — inspiraram você em sua jornada?

    Fabien Cousteau |

    Com certeza. Ele me ensinou muitas coisas, especialmente o valor de compreender e apreciar a natureza. Meu avô costumava dizer que “as pessoas protegem o que amam, amam o que compreendem e compreendem o que aprendem”. Ele me mostrou que, para proteger o oceano, primeiro precisamos compreendê-lo melhor — e, finalmente, amá-lo e apreciá-lo — para só então sermos levados a praticar ações positivas.

  • G |Você considera sua missão dar continuidade ao legado da família?

    FC |

    Seguir os passos da minha família nunca foi algo imposto a mim. Porém, tendo crescido em meio às expedições de meu avô e começado a mergulhar de forma autônoma aos quatro anos, o fascinante mundo subaquático e sua importância tornaram-se muito próximos de mim. Desde muito jovem, recebi esse profundo senso de responsabilidade para tornar os outros mais conscientes da vitalidade do oceano, devido a toda essa exposição ao assunto que tive o privilégio de ter desde muito cedo.

  • G |Você viveu sobre e sob as águas durante uma boa parte de sua vida. Essas experiências causaram um impacto duradouro?

    FC |

    Depois de viver embaixo d’água durante 31 dias, na expedição Missão 31 que liderei em Aquarius, na Flórida, eu não queria mais voltar à superfície. Tudo o que conseguia pensar era como ficar lá por mais tempo… Não apenas do ponto de vista pessoal, mas também científico — ainda havia muitos experimentos que poderiam ser realizados, e por mais tempo. Aliás, a quantidade de tempo que pode ser economizada trabalhando diretamente no local, embaixo d’água, é exponencial. Mas viver nesse ambiente não é para todos, é muito desafiador. É preciso passar por um treinamento mental rigoroso antes de se enfiar por semanas num habitat subaquático. Na verdade, até os astronautas passam um tempo debaixo d’água para se preparar mentalmente antes de ir para o espaço.

  • G |Como estão avançando seus planos para a construção da estação subaquática Proteus? Tem encontrado investidores interessados ​​no projeto?

    FC |

    O Proteus é o sonho de toda uma vida, então anunciar o projeto para o mundo no ano passado já foi um grande passo à frente. Ainda estamos finalizando os projetos, mas no momento estou a caminho de Curaçao, onde farei um mapeamento do local e um estudo de viabilidade. Isso ajudará a definir mais detalhes sobre a localização, profundidade e condições das águas, assim como a criar uma melhor compreensão dos recifes de coral da região e como poderemos protegê-los. Há parcerias com empresas e pesquisadores em andamento. Tenho a sorte de contar com a experiência de alguns que trabalharam e participaram da Missão 31, incluindo professores da Northeastern University [em Boston, Massachusetts]. Esperamos continuar a fazer essas parcerias com empresas e pesquisadores em nível local e global.

  • G |Qual é a próxima etapa?

    FC |

    Assim que tivermos uma noção melhor de como é a topografia, poderemos começar a preparar o metal para construir a estrutura. Antes mesmo que ela esteja oficialmente pronta e submersa, abriremos um escritório em Curaçao que nos permitirá coordenar e colaborar ainda mais de perto com a comunidade da ilha.

  • G |Quais são os objetivos para a estação subaquática? Embora seja essencialmente tecnológica, ela ajudará a reforçar o componente humano na exploração dos oceanos?

    FC |

    Minha meta é que o mundo possa vislumbrar o incrível universo subaquático. Apesar de cobrir mais de 70% da superfície da Terra, menos de 5% do oceano foram explorados até o momento. Muitos de nós consideramos natural todo o bem que o oceano nos oferece. Não levamos em conta que ele é responsável por cada respiro que damos, cada copo d’água que bebemos, além seu papel na regulação do clima, na nutrição e no sustento de milhões de empregos. Ao criar um estúdio de streaming no local, seremos capazes de tornar esse submundo acessível a qualquer pessoa do planeta que tenha acesso Wi-Fi.

  • G |As descobertas e vistas subaquáticas do Proteus estarão disponíveis online para todos? Como esse aspecto deve avançar nosso potencial de exploração e possibilidades de compreensão sobre o oceano?

    FC |

    Sim, o Proteus terá um estúdio de produção de última geração, que nos permitirá transmitir nossas descobertas para todo o mundo. O sucesso e a oportunidade de uma configuração como essa já foram demonstrados durante a Missão 31, quando pudemos nos conectar com centenas de milhares de alunos em todo o mundo via Skype. Dar a eles esse acesso tão próximo realmente representou uma mudança de vida para muitos, porque forneceu informações e inspiração relacionadas ao oceano que eles estavam perdendo em sua educação formal. Sem uma compreensão do que o oceano tem a oferecer, algo que consideramos constantemente como natural, pode ser difícil mantê-lo em mente enquanto vivemos nossas vidas todos os dias. Nossa esperança com o Proteus é continuar a disseminar a educação sobre os recursos e o potencial do oceano em todo o mundo.

  • G |Quais são as principais atividades e objetivos do seu Ocean Learning Center?

    FC |

    Proteger e educar sobre o oceano. Apoiamos uma ampla gama de programas e somos particularmente apaixonados por nossas iniciativas em torno da restauração de corais e de tartarugas marinhas na Nicarágua. E, embora a limpeza das praias seja importante, o objetivo é evitar que chegue a esse ponto, para que possamos respeitar esses ambientes e mantê-los intocados desde o início.

  • G |Nós tendemos a olhar com mais entusiasmo para a exploração espacial do que para a de nossos oceanos?

    FC |

    Embora eu seja um grande defensor da exploração espacial, precisamos concentrar mais atenção no mundo subaquático. Faz sentido ir à nossa própria fonte de vida para encontrar soluções para a humanidade – em vez de viajar centenas de milhares de quilômetros de distância para outro planeta. A empolgação ao redor do mundo subaquático continua a crescer, e Proteus felizmente está desempenhando um papel central nisso! Devemos primeiro olhar para nós mesmos e para os problemas da Terra antes de explorar outros planetas.

  • G |Você acredita que projetos como o Proteus podem criar uma tendência para a exploração subaquática, caso ele tenha sucesso?

    FC |

    Acredito que possa sim estimular uma tendência na exploração subaquática. Mas, para que isso aconteça, é preciso lembrar que o Proteus é um projeto de utilidade pública e de esperança. Os experimentos que ele nos permitirá fazer ajudarão a respeitar mais o oceano e a compreendê-lo. Se outros projetos forem começar a partir dele, meu desejo é que sigam essa mesma linha, com foco na educação.

  • G |Os oceanos e a vida marinha foram negligenciados nas últimas décadas? A pandemia complicou ainda mais a questão, considerando a quantidade de plástico que vem sendo jogada em nossas águas?

    FC |

    Devemos refletir para compreender a principal fonte do problema, seja ela a poluição ou a pesca predatória. Na verdade, têm acontecido mudanças nos dois sentidos desde o início da pandemia. A princípio, o lockdown fez com que a poluição se dissipasse, e a natureza parecia estar iniciando um processo de recuperação, algo que as pessoas notaram e apreciaram. Mas então o uso de plástico descartável começou a aumentar e, finalmente, a se acumular nos cursos d’água. Devemos entender que a saúde do oceano é a saúde humana. Estamos todos conectados e não existe “jogar fora”. Devemos estar mais atentos às nossas ações e entender que pequenos gestos, como usar uma máscara reutilizável ou uma sacola de pano no supermercado, podem realmente fazer a diferença.

  • G |As gerações recentes estão menos conectadas com a natureza e os oceanos?

    FC |

    Com as tecnologias e necessidades que existem hoje na sociedade, é muito fácil ficar menos conectado à natureza. Mas, com Proteus, estamos alavancando a tecnologia de uma maneira que tornará esse universo mais acessível, usando para isso a tecnologia de forma simbiótica.

  • G |Por que é importante transmitir o interesse pelo oceano às nossas próximas gerações?

    FC |

    O futuro do nosso planeta depende da atitude dos jovens. A fim de garantir um mundo melhor para nossos netos e bisnetos, devemos entender que estamos todos juntos nisso. E não importa quão pequenas possam parecer algumas das mudanças mais ecoconscientes que fazemos no nosso dia a dia, seu efeito cascata pode ser imenso.