Entrevista com a psicanalista Vera Iaconelli sobre política e linguagem — Gama Revista
E você, faz política?
© Fabrizio Lenci

‘Temos que nos responsabilizar’

Para a psicanalista Vera Iaconelli, é hora de abraçar temas importantes para a sociedade, refletir, discutir, manifestar-se — e não se confiar apenas na política de hashtag

Isabelle Moreira Lima 21 de Junho de 2020

Política é linguagem. Está nos pequenos gestos e até na omissão — o que é muito comum no Brasil de hoje, mas longe do ideal. A visão é da psicanalista Vera Iaconelli, mestra e doutora em psicologia pela USP e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, que acredita que é hora de olhar para dentro e se responsabilizar pelas próprias ações.

“Nós somos seres políticos, usamos a linguagem e a reflexão para estar no mundo, senão a gente fica como o gado: ou fica assustado ali no canto ou vai conforme o estouro da boiada, que são gestos que parecem políticos, mas que são totalmente irrefletidos, o fracasso da política”, afirma na entrevista a Gama. “Temos que começar a alçar a política das nossas escolhas a um outro patamar e a nos responsabilizar.”

Temas cotidianos e que guardam imensa violência como o machismo, o racismo e a desigualdade social nunca foram distantes da pauta do Brasil, mas parecem estar mais evidentes hoje. Para Vera, falar sobre eles, ter reflexão e diálogo, é o primeiro passo para melhorar como seres políticos e sociedade. Mas ir para a rua é essencial. Leia a entrevista abaixo.

  • G |O que é uma pessoa politicamente ativa? É preciso estar ligado a partidos políticos ou basta agir pensando na sociedade?

    Vera Iaconelli |

    A gente confunde o que é da ordem da política, do partido, de uma militância específica. Há muitas formas de expressão do que é considerado política. Claro que sua roupa diz algo, você está escolhendo uma forma de se apresentar para o outro e isso diz algo de você. É uma linguagem, e a linguagem tem um caráter político também. Há diferentes níveis da gente pensar política: a partir do movimento, da militância; mas também daqueles pequenos gestos que são da linguagem, nos quais eu tento transmitir alguma coisa, mesmo que equivocada sobre uma certa posição no mundo, esperando um determinado reconhecimento. Isso também é política, embora seja diferente.

  • G |Então dá pra ser político nos pequenos gestos, por exemplo?

    VI |

    A gente é político inadvertidamente. Um gesto que reconhecemos bem é o da omissão, que tem efeitos políticos enormes. Quando você se omite em comparecer no plano social com o seu desejo e bancar um certo lugar porque se deixa gerir pelo desejo do outro, também é um gesto político, mas é alienado de omissão e que vai ter efeitos profundos. Por ação ou por omissão, há efeitos políticos no laço social.

  • G |Até poucos anos, o brasileiro era criticado por não ser um povo politizado, enquanto os argentinos estavam na rua. Isso mudou?

    VI |

    O Brasil é um país absolutamente cindido. Não é porque a classe média não sai às ruas defendendo uma série de questões que outros grupos não saiam. Tivemos um episódio dantesco, as crianças negras que morreram por negligência ou por franca violência. Agora um rapaz de 15 anos morreu, cadê as pessoas na rua? Aqui onde eu moro não tem ninguém na rua batendo panela. Mas houve muita manifestação na periferia, que foi violentamente reprimida. A Argentina tem uma classe média grande, não tem esse histórico de escravidão, é um pouco diferente do nosso e também não é bonito. A gente tem divisões sociais muito fortes e a classe média acha que está tudo bem. É outra lógica. Não quer dizer que o brasileiro não sai à rua, mas ele sai conforme a sua conveniência — e existem conveniências bem distintas hoje no Brasil.

  • G |Recentemente você escreveu que não bastam só as torcidas, que as hashtags também precisam descer às ruas. Estaria a classe média presa ao ativismo de sofá? Essa sensação de politização seria uma ilusão de redes sociais?

    VI |

    A rede social traz mais informações, de forma rápida, e permite que você esteja mais antenado. Mas isso se você quiser, porque há também um bombardeio de fake news totalmente alienantes. Não tenho nada contra a política da hashtag, se você pensa no #metoo, foi um negócio superpotente que começou numa hashtag. Desde que não se pare aí. O que é muito complicado é a pessoa criar uma hashtag, subir aquela hashtag, começar “gente, sobe isso daí” e achar que “fiz minha parte hoje, subi três hashtags superimportantes contra o racismo, contra o machismo, contra o fascismo”. E daí? Essa é só uma parte da conversa, como fazer um cartaz para usar numa manifestação. O que me preocupa é essa sensação de alma lavada por conta de uma hashtag. Ela tem uma função, de ser um disparador de um movimento interessante, mas imaginar que por si só vai ter poder, é de uma fantasia muito própria de alguém jogando game virtual, achando que aquilo tem uma realidade concreta. As coisas importantes, sem a rua, não existem.

  • G |A gente precisa ir à rua, mas a gente não pode ir à rua. Como fazer?

    VI |

    Não sei se a gente consegue escapar: ficamos em casa preocupados que as pessoas morram e as pessoas morrem porque ficamos em casa. Aqui é um descalabro tamanho pela própria condução da pandemia. Estamos há um mês sem ministro da Saúde. Claro que ficar em casa conserva vidas, mas os shoppings estão abertos. Criou-se um paradoxo no qual as pessoas saem para as coisas mais absurdas, mas não para reclamar que essas coisas absurdas acabem. Realmente é uma decisão ética, mas está faltando um pouco de autocrítica, botar na balança o que está em jogo. Vão ser as manifestações de rua que vão levar a mais milhares de mortes? Não, a coisa já está precificada, as milhares de mortes já estão na conta por outras questões. Não vejo outra opção para reverter o que vivemos. É paradoxal, mas não há outros instrumentos — é a pressão popular que vai ter efeitos sobre Congresso. É o que temos para hoje, uma questão de diminuição de danos.

  • G |E a adesão popular à abertura de shoppings, isso mostra um certo egoísmo?

    VI |

    Mostra muitas coisas. Mostra até uma dificuldade de entender o que está acontecendo. As pessoas mais simples — não de nível social, mas de pensamento, cognitivo, de experiência, de cultura — têm um certo desdém, uma onipotência, “eu tenho meu plano de saúde, então dane-se”. O egoísmo é total, uma incapacidade de pensar no outro. Sobre os shoppings, sabemos que o consumo é um vício, uma tentativa de preencher o sujeito com os objetos. Tem gente que estava ávido, praticamente com delírios, por não poder entrar no shopping e comprar coisas. Estamos falando de um país que tem um histórico forte de uma visão de cidadania muito pobre. O Brasil tem muita dificuldade de se entender como participante numa relação de interdependência, na qual o que eu faço afeta o outro. Não há um projeto de fazer do país uma grande nação. A grande mudança de mentalidade seria o brasileiro sentir que está construindo um país e não só que ele desfruta de um país.

  • G |O que poderia ser um chacoalhão, se uma pandemia não foi capaz de fazer o brasileiro entender que o que ele faz vai interferir na vida do outro, da sociedade?

    VI |

    Tem vários abalos sísmicos, mas não tem o terremoto final que faria tudo ser reconstruído. Esses momentos de crise são assustadores mas propícios, cabe a nós decidir para que lado vamos. É como o processo analítico, em que o sujeito chega lá e diz “não está acontecendo nada”. Depois ele começa a se implicar, “putz, mas o que será que eu tenho a ver com esse sintoma?”, que é uma retificação subjetiva importante. E aí tem um longo processo de se desalienar, encarar a própria autocensura e as resistências. Há coisas horrorosas no Brasil: o racismo, a pobreza, o autoritarismo, a falta de cidadania. A gente vai ver isso infinitas vezes e cada vez que a gente vir — a esperança é essa–, a gente pode dar um passinho numa direção melhor ou pode recrudescer. Nós como nação vamos fazer escolhas e essas escolhas vão aparecer, dia após dia, sendo reiteradas ou sendo modificadas. Vejo muita coisa bacana acontecendo, muito rápido.

  • G |Tipo o quê?

    VI |

    Até as hashtags. O feminismo, por exemplo, tem questões estruturais dificílimas que têm que ser trabalhadas. A violência contra a mulher branca diminuiu enquanto a mulher negra aumentou; algumas coisas que se falavam há 30 anos não podem mais ser ditas hoje. Elas até acontecem, mas elas não são aceitáveis sem críticas ou criminalização. Começamos uma conversa sobre olhar para o espelho e admitir que a questão racial é nossa. Sabe aquela retificação subjetiva? Está começando.

  • G |Qual a importância dos brancos tomarem essa responsabilidade para si?

    VI |

    Os brancos começarem a se incluir na conta e se reconhecerem como tal, como opressores, é uma questão que levará tempo e que lembra um pouco os homens se reconhecerem misóginos e começarem a mudar o discurso deles — levou bastante tempo. Dói você se reconhecer misógino, você se acha uma pessoa boa dentro das possibilidades e de repente olha no espelho e fala “putz, olha só o que eu estou fazendo”. É duro, mas esse é o processo analítico: é quando você olha para si, se reconhece um pouco mais, assume quem você é e toma decisões.

  • G |Mas esse processo já está em andamento ou ainda não?

    VI |

    Tem uma juventude botando para quebrar, muito atuante. Quem acompanhou as últimas edições da Flip viu uma beleza negra, uma positividade, um resgate da história. Para mim, que não tenho essa ascendência, foi lindo de ver as pessoas se positivando, trazendo a beleza própria dos seus corpos, um orgulho da história, mesmo que montada a partir de resquícios. Alguma coisa está acontecendo, mas ela não vem sem uma reação, como ocorreu com o feminismo. A violência contra a mulher aumentou muito. Por que? Justamente porque as mulheres começaram a dizer não. É um longo processo, temos que estar na direção correta. Não sou pessimista, mas sou muito realista em relação à dimensão do trabalho: é muita ação, conscientização, diálogo, política, para a gente não ter que partir para a violência. E aí sim, quando uma mulher negra sai de turbante com uma roupa que não é de uma ascendência europeia, quando as pessoas falam que são do candomblé, umbandistas, essas afirmações são recentes e são políticas.

  • G |E como fazer para que essa política que cada um pode fazer funcione?

    VI |

    Não adianta pegar um grupo, botar de bode expiatório e falar “não vai ter diálogo com esses caras porque eles são maus”. Temos que pensar de que lugar estão vindo, o que temem quando abrem mão do poder deles, o que ganham e não sabem que ganham. Temos que ir juntos. Vejo e entendo completamente, muito recentemente, a raiva em relação aos brancos. Como não? Mas acho que temos que fazer isso juntos, pegando pela mão. Eu me sinto numa dupla posição: em relação aos homens, espero um reconhecimento de um lugar de igualdade; e em relação às mulheres e aos homens negros, num lugar de opressora. Nesse meio, consigo ter a visão do que eu espero de uns, o que eu espero de mim e o que espero de outros, e continuo achando que a gente vai melhorar muito com diálogo. Acredito na política, mas não no partidarismo, numa militância cega, porque a militância tem um problema de acreditar que todo mundo naquele grupo é igual — e não é assim. Vamos ter que encontrar formas próprias de lidar com as contradições e não ficar ditando regra para todo mundo.

  • G |Seria bom se cada um conseguisse fazer esse mapa da opressão, que você fez. Mas essa consciência parece ainda difícil, as pessoas conseguirem olhar para si e se localizar, não?

    VI |

    Quando você pensa, por exemplo, por que a violência contra a mulher negra aumentou absurdamente? Porque está ligada a uma série de questões, ao fato de que o homem se sente oprimido e encontra alguém em quem exercer a sua opressão. Ele não se sente um ser político que tem voz e reconhecimento e se sente impotente, numa fragilidade identitária — a opressão é a forma de se sentir minimamente potente. O brasileiro, para quem viu “Bacurau”, acha que é branco, que os negros não são humanos, e que ele está acima. Mas quando vai para o exterior, ele é negro porque ele é latino, porque já se misturou de algum jeito com outras coisas. Não importa se ele é italiano de segunda geração; ele nasceu no Brasil, acabou. É uma questão social, e não de DNA, mas do racismo social. Então o que ele faz? Ele oprime o negro dentro do Brasil. É uma questão de muita fragilidade que vamos ter que superar juntos por meio de um certo lugar de reconhecimento, de voz política e de cidadania. Não vamos precisar necessariamente responder com opressão a todas as situações de fragilização.

  • G |E a cultura do cancelamento, tem a ver com política? É uma manifestação política?

    VI |

    Pode ser uma manifestação política num senso bem mais reduzido. Mas é um gesto que implica uma certa violência e que mostra o fracasso da política. É onde se rompe o diálogo. Esse movimento sistemático de cancelar me lembra um pouco o conto “O Alienista”, do Machado de Assis. Ele vai internando todo mundo até que só ele sobra e percebe que o louco é ele. Acho que conversa muito com o ativismo de sofá, a hashtag no poder. Se eu cancelo o outro, tipo um raio exterminador, o outro desapareceu do mundo? É muito patético. A gente realmente acredita que a vida é o vídeo game. Em alguns casos dá-se até mais visibilidade, como o cartum da Laerte, que é uma obra prima, em que ele desenha a Sarah dita “Winter”, que foi presa agora, com camiseta “vereadora 2022”. Eu não tenho uma posição fechada, mas acho que essa não é uma estratégia que pode ser usada o tempo todo para tudo, é meio boba. Algumas pessoas não têm direito de estar no espaço público — que hoje em dia é o virtual — com falas que atentam contra o bem comum, violentas, contra vulneráveis. A mídia tem que mediar esse tipo de expressão. A violência verbal pode ser terrível também.