O que fazem (e pensam) jovens engajados na política — Gama Revista
E você, faz política?

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Pessoas

‘Cansamos de esperar’

É o que dizem os jovens brasileiros que estão mudando, no dia a dia, como se faz política

Willian Vieira 21 de Junho de 2020

Em cada canto do Brasil existe, neste exato momento, um jovem reinventando a forma de agir politicamente. Da periferia do Recife, onde um rapaz decidiu questionar a invisibilidade dos evangélicos na luta antirracista, à comunidade quilombola no interior do Paraná, na qual uma garota luta por direitos à terra e acesso à internet para as crianças estudarem — onde há uma demanda de política pública ou mudança estrutural existe um deles.

Numa favela do Rio, onde a violência ceifa a vida de jovens todos os dias, uma garota tem lutado para mudar a narrativa local sobre a juventude periférica e manter o legado de Marielle Franco; noutra “quebrada”, em São Paulo, um garoto levou o debate político à praça pública comparando Rihanna e Bolsonaro. E numa igreja evangélica em Minas, o machismo cristão entrou na mira da jovem que quer servir a Deus sem se subjugar ao patriarcado.

Política não se trata apenas de eleição, partidos, corrupção. É ação cívica cotidiana

Política, afinal, não se trata apenas de eleição, de partidos, de corrupção. É ação cívica cotidiana. Então não basta eleger alguém e aguardar que políticas públicas brotem do céu azul de Brasília e garantam oportunidades — sobretudo em se tratando de vidas negras, para quem um dos problemas é justamente a invisibilidade. Cansada de aguardar soluções, a juventude brasileira tem desbravado novas formas de agir no mundo. Abaixo, Gama elenca cinco histórias que permitem vislumbrar um pouco de como eles estão mudando a política no dia a dia.

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    Bruno Souza

    “Eu era engajado, ativista, só não sabia”

    “Política é pop?” Numa praça do Jardim Ângela, periferia do sul de São Paulo, um grupo de jovens se encontrou para falar de política de forma engenhosa. Após pesquisar na internet sobre o que duas figuras públicas tinham feito por seu país — Rihanna por Barbados e Jair Bolsonaro pelo Brasil –, eles imprimiram os achados, colaram em cartolinas e expuseram na praça. Umas 30 pessoas pararam para ler e participar do no quizz político. Outras cruzavam o local a caminho de casa, do trabalho, da igreja e deram uma olhadinha. “Construiu dois hospitais do câncer de ponta. Quem foi?”, um deles perguntou. A resposta era Rihanna. 

    A ação era parte do Núcleo de Jovens Políticos, grupo criado em 2013 por rapazes “da quebrada” que se questionavam sobre o que fazer para socializar após o fim do ensino médio. “Política é pop?” foi o título do encontro, parte dos ciclos de formação do NJP. “A política precisa ser pop”, frisa o ativista e fundador, Bruno Souza, 25. “A gente ouve que jovens não gostam de política. Mentira! Ela tem de ser atraente, falar do que nos toca. E ocupar os espaços públicos, o nosso cotidiano. A praça.”

    Pois “a escola não fala de política pra gente que é negro, pobre e da quebrada”, diz. “Nossa relação com a cidade é negativa, fica restrita à ausência de políticas e serviços públicos. O jovem periférico trabalha desde cedo, então descobre que existe acesso à cultura, serviços públicos, mas no trajeto. Não onde vive. Se a gente esperar que a solução dessa ausência venha de cima, ela nunca vai chegar. Cansamos de esperar. É preciso pôr a mão na massa.”

    Um dia o grupo procurou a associação do bairro com o interesse de participar das reuniões. “Eles queriam saber do buraco da rua, o que é importante, mas a gente queria uma praça, uma sala de leitura, algo que impacte nosso futuro, saca?” Bruninho passou a “stalkear” a agenda do prefeito Fernando Haddad e segui-lo em eventos até arrancar uma audiência pública. Os adultos da associação foram junto. E ficaram bravos ao saber que o microfone seria só dos garotos. “Eles tiveram de escrever num papel e um de nós lia. A gente era os protagonistas.”

    Bruno nasceu “numa quebrada violenta” da zona sul. “Um dia desci pra comprar pão e vi um morto no chão.” Mudaram-se para Parelheiros — onde ganharia a alcunha de Bruninho da Biblioteca, numa série de acasos que moldaram sua vida. Quando sugeriu ao professor de geografia que a lição sobre erosão fosse ensinada na prática, na rua, acabou de castigo na sala de leitura. Tomou gosto. Uma colega mencionou a biblioteca comunitária. “Lá aprendi a dar nome às coisas. Eu não era o moleque chato e falador. Era engajado, ativista, só não sabia.”  

    Hoje ele trabalha nessa mesma biblioteca — que fica dentro de um cemitério, “o que já dá ideia do que é ressignificar uma realidade na quebrada”, diz. Está no último semestre de pedagogia. E, uma vez por mês, organiza os encontros de jovens. No último, debateram fake news nos grupos de Whatsapp, um mal que assola as comunidades em tempos politicamente obscuros. Foi tão bom o papo que decidiu aproveitar o chá de arrecadação de brinquedos que a mãe organiza todo ano na laje de casa com as mulheres do bairro para falar meia hora sobre o tema. 

    Veio o coronavírus, o encontro foi postergado. “Mas vai rolar quando isso acabar”, garante. “Por que é disso que se trata a política no dia a dia. Como falar de direitos humanos, por exemplo, pra galera entender?  Essa é nossa missão. A política deve ser afetiva, é isso que traz engajamento e continuidade”, diz. “Estamos fazendo de outro jeito. Do nosso jeito.”

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    Marcelle Decothé da Silva

    “É preciso disputar a narrativa local”

    “A única presença do Estado no nosso território é seu braço armado”, diz a ativista carioca Marcelle Decothé da Silva, 26. “Aqui não chega saúde, educação, saneamento, mas chega a polícia. Por isso, na favela, a gente não escolhe falar de segurança pública, a violência é que nos escolhe. Ou você se cala ou vai à luta.” Ela foi à luta, a seu modo: pela educação. 

    Moradora da favela de Parada de Lucas, zona norte do Rio, a única vaga que conseguiu no ensino médio foi a 30 km de casa. Acordava às 5h, levava duas horas até a escola. No caminho havia a UERJ. “Um dia vi jovens negros na estação indo pra universidade. Aquilo me inspirou. Ali tinha uma faixa escrito ‘pré-vestibular comunitário’. Eu nem sabia o que era vestibular, perguntei pra professora. Ela disse que aquilo não era pra mim.” 

    Ela fez o pré-vestibular, se formou e voltou para dar aulas gratuitas no mesmo cursinho que a ajudou. “Eu era a prova de que vale a pena tentar. Pra mim, agir politicamente é isso, é sair do livro e ir pra prática. Um projeto social tem de estar ligado a uma mudança estrutural. E o acesso à educação formal é uma grande transformação na vida desses jovens.”

    A faculdade mostrou um mundo de possibilidades de ação. Ao entrar para a Anistia Internacional, porém, viu que “era um ativismo branco, que não me representava”. Ela mudou isso e logo coordenava a campanha Jovem Negro Vivo, rodando o Brasil pela Anistia como “campaigner”, “fazendo pontes” com outras juventudes negras. Pois 75% das vítimas de homicídio no Brasil são negras e jovens negros morrem três vezes mais que os brancos. “Estar vivo já contraria as estatísticas, é o que eu digo pra eles.”

    Conhecer o trabalho de Marielle Franco a encheu de esperança. “Violência na favela é todo dia. Então a Mari virou uma referência. Dava merda na favela, eu batia na porta dela.” Seu assassinato trouxe desesperança. E medo. Mas não desistiu. Tanto que ajudou a criar o Instituto Marielle Franco. “Para manter seu legado vivo, e para seguir dando voz às mulheres negras.” Pois ser político, diz, é disputar a narrativa sobre passado, presente e futuro. 

    O que não é fácil — ela percebeu nas oficinas de comunicação comunitária na favela. “Todo mundo tem alguém que fez parte do tráfico. É um tabu. E quando se fala é pra justificar a violência. É preciso vencer esse estigma que reproduzimos. Eu cresci querendo sair de onde nasci. E isso é terrível. As mães ensinam isso pros filhos que ter sucesso na vida é sair da favela. Mas existe muita potência ali. Apesar das ausências, a favela vive.”

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    Luciana Petersen

    “Pra mim, política é fazer algo para mudar o mundo”

    “E Jesus perguntou-lhe: ‘Mulher, por que estás chorando? A quem procuras?’” A frase, versículo do evangelho de João na Bíblia, encerra um dos textos do Projeto Redomas, que a ativista feminista Luciana Peterson, 23, transformou num projeto de vida: combater a violência contra mulher nas igrejas e comunidades cristãs do Brasil. O título da cartilha que o projeto distribui é sugestivo: “Não é falta de oração”. 

    Foi ainda na adolescência que Luciana percebeu que vocalizar incômodos era ser política. E o gatilho foi o preconceito. “Eu, enquanto mulher negra, sempre fui atingida por opressões de todo tipo”, diz a garota de voz doce e posições assertivas, que, aos 22 anos, já fez mais pelas mulheres negras cristãs do que boa parte das políticas com mandato em Brasília. 

    Causou estranheza na Igreja que uma adolescente trouxesse as questões do racismo estrutural e do machismo nas reuniões da escola bíblica dominical da Igreja Batista — da qual o pai é pastor. “Achavam que isso era política e igreja não era lugar de política.”

    Mas ela perseverou. “Uma vez preguei sobre racismo. Ao fim do culto, vi algumas senhoras negras, mais velhas, debatendo. Dizendo ‘é verdade, eu alisava meu cabelo por isso.’ Elas estavam discutindo o racismo abertamente, talvez pela primeira vez. Fiquei feliz, a igreja é sim lugar para isso. A discussão da universidade nunca vai chegar nelas.” 

    Em 2016, ela entrou como editora do projeto Redomas, surgido um ano antes e voltado justamente para essa luta. “É um incômodo que toda mulher na Igreja sente. Ela quer servir a Deus em plenitude, mas é impedida por algo — e esse algo é o machismo. O racismo também, a homofobia.”

    Além de textos, o projeto produz podcasts. Discutir o dia a dia de “pessoas LGBTQ cristãs” e “desmistificar alguns conceitos teológicos construídos socialmente dentro das igrejas”? Sim, ela faz isso também. “São preconceitos que oprimem e por isso são pecado. E eu queria pontuar que o preconceito não faz parte do plano de Deus para a humanidade.”

    Ela gostou tanto de produzir conteúdos que deixou a faculdade de engenharia para estudar jornalismo. “Pra mim, política é isso: e traduzir a raiva e o sentimento de impotência e fazer algo a respeito para mudar o mundo. Quanto mais gente se juntar com um objetivo em mente, para agir no mundo, mais a gente pode ser político no dia a dia”.

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    Jackson Augusto Marcelino Filho

    “Martin Luther King era evangélico”

    “Quem tem voz na igreja? Quem tem o maior dízimo. E quem tem mais dinheiro? As famílias brancas. Tudo se repete: na sociedade e na igreja, o racismo estrutural é o mesmo”. É o recifense Jackson Augusto, 25, evangélico e negro, quem fala de um lugar que conhece. “Quem vai lavar o banheiro da igreja? O negro. Agora, quem vai ser o pastor que preside a igreja? Será que Deus sempre escolhe o homem branco para ser pastor? Eu acho que não.”

    Jackson cresceu frequentando assembleias grevistas — a mãe é servidora da saúde. Mas a primeira vez que, “como sujeito pensante”, participou de um ato político foi ao acaso. Foi recarregar o bilhete e se deparou com um protesto contra o aumento da passagem. Era 2012, ele tinha seus 15 anos. Participou e tomou gosto pela luta por direitos. “Mas 2013 foi o grande momento de começar a consumir sobre política, debater, construir espaços de ação. Sem 2013 eu não teria coragem ou as ferramentas para criar o MNE de Recife.” 

    O Movimento Negro Evangélico surgiu para dar conta da “invisibilização dos evangélicos no movimento negro”, diz. No Recife, ele ajudou a fundar com colegas o movimento, em 2017, assim como o fórum anual “Fé, racismo e igreja”. No ano passado, foi no Museu da Abolição do Recife. “Você imagina uma coisa dessa, evangélicos debatendo nesse espaço histórico? Foi incrível.” 

    O MNE tem organizado “pastorais” da negritude, espaços de debate na igreja. “Mas para além do debate, é preciso agir”, afirma. Jackson já reivindicou a presença de bibliografia de autores negros na igreja, já exigiu um Jesus negro nas imagens das revistas evangélicas, já deu palestras sobre racismo estrutural, genocídio negro e feminicído em igrejas e ONGs.  

    “Tem muitos jovens com potencial para servir, não só na igreja, mas fora, politicamente.” Muitos evangélicos têm cargos em Brasília, diz, mas essas pessoas acabam emparelhadas pelas instituições religiosas de que fazem parte. “Se não se discute racismo na igreja, eles não vão lutar por isso em Brasília. Exceções feitas a Benedita da Silva, a Mônica Francisco, os outros querem apenas aparelhar o Estado. E nós acreditamos num estado laico. Nosso movimento é social, não apenas teológico.” 

    Jackson explica que “as pessoas de terreiro reivindicaram o movimento negro desde os anos 80”, mas o mesmo não se deu com os evangélicos. Quando esses decidiram se aproximar da luta antirracista, a acolhida foi difícil. “Tem gente que não se toca que Martin Luther King era evangélico”, diz. “E os muitos que sabem discordam dos métodos. Mandela? Era metodista e pregava com a bíblia na mão. Rosa Parks? Evangélica. Não é possível existir um projeto antirracista no Brasil sem diálogo com o negro evangélico. Ninguém vai deixar a religião para lutar por direitos. E 60% dos evangélicos no Brasil são negros. É só fazer as contas.”

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    Isabela da Cruz

    “Não existe direito dado. Existe direito conquistado”

    Para um quilombola, a luta política vem de berço, diz Isabela da Cruz, 30. “Cheguei à política por necessidade.” Sua comunidade, Paiol de Telha, no Paraná, era o tema de conversas em casa sobre as reuniões da associação. Os pais eram ativos na luta, a tia tinha cargo nas comissões. Ainda jovem lecionou para adultos da comunidade, percorreu escolas da região palestrando sobre a lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino da história afro-brasileira e africana. “Explicar a crianças diversas quem são os quilombolas é um ato político”, diz. 

    Isabela coordenou um projeto sobre prevenção em comunidades quilombolas, ajudada pelas companheiras da Rede de Mulheres Negras — foi com elas, diz, que aprendeu a fazer política: enfrentar a burocracia estatal para conseguir mudanças concretas. “O conformismo é muito triste”, diz a historiadora. “A política está em cada momento da vida. Não se pode rejeitar a política, é preciso nos reeducarmos sobre o seu significado. Nossa sociedade precisa de diálogo, de soluções conjuntas para problemas coletivos.” 

    E isso vai além de votar a cada quatro anos. “Tudo deve ser usado para fazer valer seu direito. Como as redes sociais: são como uma faca afiada, pode ser usada para machucar, mas também para ajudar as pessoas do campo a se engajarem. Muitos acham que os povos tradicionais não precisam de tecnologia, para não perder a etnicidade. A nós é negado o direito de escolher. Eu luto contra isso. A mais importante ferramenta de ação política é a educação. Qual o papel do prefeito, o que exigir de um vereador? É preciso saber. Então por que nossas crianças quilombolas não tem internet na escola?” 

    Em 2015, passou a cursar direito na UFPR, com vaga no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária — “uma conquista dos movimentos sociais do campo”, frisa a advogada recém-formada. Selecionada pela ONG Ashoka, ela agora faz parte dos “Jovens Transformadores pela Democracia”. Começou um mestrado na UnB. E carrega um bebê no ventre.

    O que vai ensinar pra ele? “É importante ler. Mas também ir pra rua, pra reunião do conselho, da escola, do comitê da festa junina. Do mais micro ao mais macro, é participando que se aprende política. Pois não existe direito dado. Existe direito conquistado. Se não os outros tomarão as decisões por você.”


Colaborou a cientista política Ana Carolina Evangelista