Os primeiros da família a ingressarem na faculdade — Gama Revista
Ensino que transforma

Pioneiros no ensino superior

Dandara Franco e Manuela Stelzer 04 de Abril de 2021
Divulgação

Uma química, um jornalista, um advogado e uma historiadora contam o significado de serem os primeiros da família a conquistarem um diploma

“Cê vai atrás desse diploma/ Com a fúria da beleza do sol, entendeu?/ Faz isso por nóiz.” O verso do rapper Emicida, da música “AmarElo”, é a prova de que ingressar na universidade é mais do que uma conquista pessoal — é a realização do sonho de seus ancestrais.

Em 2015, um em cada três concluintes do ensino superior no Brasil transformaram esse sonho em realidade ao serem os primeiros da família a terem o diploma universitário. Ainda assim, ingressar no ensino superior não é tarefa fácil, principalmente quando o acesso à educação não é algo democratizado na família. O sistema educacional brasileiro sofre de baixa mobilidade, o que dificulta a entrada de quem está fora da elite majoritariamente branca. Visto que o país “tem poucos espaços públicos agregadores, para além da universidade”, como dizem as professoras da UFRJ Tatiana Roque e Esther Dweck em um artigo publicado pelo Nexo, incentivar a diversidade no ensino superior deveria ser prioridade.

O Brasil tem poucos espaços públicos agregadores, para além da universidade. Por isso, deveria ser prioridade mantê-la diversa

Ainda em 2015, do número total de formados, 28,2% utilizaram algum incentivo do governo federal para custear os estudos, e dentre esses beneficiados, quase metade dos alunos (44,3%) foram os primeiros da família a ingressar na universidade. Os números contabilizam que, sem os programas de incentivo como o Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior), desde 1999; o ProUni (Programa Universidade para Todos), dese 2004; e a política de cotas, adotadas a partir de 2003, muitos alunos não teriam conquistado o diploma e o pioneirismo. Mas no lugar de fomentar a inclusão, parece que o Brasil foi pelo caminho contrário: em 2020, com as novas regras de financiamento e o impacto da pandemia, o Fies atingiu o menor número de beneficiários em 11 anos. E as professoras da UFRJ já previam: “Diminuir o financiamento público do ensino superior pode agravar a desigualdade”.

A seguir, quatro relatos de pessoas que foram os primeiros de sua família a concluir o ensino superior. Mais do que pioneirismo, são histórias de luta e de conquista.

Fred, como ficou conhecido depois de entrar para o canal do Youtube Desimpedidos, foi o primeiro da família de 80 integrantes a ingressar no ensino superior / Foto: Divulgação

‘Foi na faculdade que eu passei a acreditar no meu potencial’

Bruno Carneiro Nunes, 31 anos. Paulistano mais conhecido como Fred, é apresentador do canal de YouTube Desimpedidos

“Minha família é do Nordeste, e meus pais nasceram no Ceará. Na educação, minha família sempre passou por muitas dificuldades, que perduram até hoje, porque das 80 pessoas que temos vivas na família, só três fizeram faculdade. E eu fui a primeira delas.

Sempre fui muito curioso, gosto de saber de tudo. Queria aprender mais e mais, e comunicar o que eu aprendia. Minha ambição de trabalhar com jornalismo era passar a informação para o público de uma maneira bem humorada, queria deixar as pessoas felizes. Mas o processo para entrar na faculdade foi bem difícil — única e exclusivamente por questões financeiras. Minha mãe pediu empréstimo para vários familiares e conseguimos essa ajuda até o segundo ano da faculdade. Aí a mensalidade aumentou, e eu fui arrumar um estágio. Uma professora da Unip me viu numa aula do curso, disse que eu tinha talento, e me indicou para a Agência Radioweb. O salário era de R$ 700, mas a mensalidade da faculdade custava R$ 800. Então, às vezes não tinha dinheiro para a condução, tinha que ficar calculando o gasto do Bilhete Único, escolher entre um lanche ou outro. Isso até eu recorrer ao Fies, que passou a financiar 75% da mensalidade. Aí tudo mudou.

Na época, eu pagava R$ 150 por mês pela faculdade e o Fies pagava o restante. Lembro perfeitamente do dia em que fui aprovado no programa, porque foi então que falei para a minha mãe que, dali a alguns anos, quando eu me formasse, aqueles R$ 150 não iam ser nada para mim. Durante um tempo, esse dinheiro ainda pesou no bolso, mas depois que eu entrei no Desimpedidos, felizmente, não pesou mais.

No primeiro dia de aula, senti que não estava só eu ali sentado; toda a minha família estava comigo

Tinha uma expectativa grande da minha família pelo fato de eu sempre aparecer muito, me destacava na escola. E quando ingressei no ensino superior, isso aumentou. Era um motivo de orgulho enorme, e eu queria muito dar esse orgulho pros meus pais. Imagina para a minha mãe, de origem humilde, dizer que o filho estava se formando. A responsabilidade é grande, mas honestamente eu gostava de carregá-la, porque não era uma pressão, era muito apoio e orgulho. No primeiro dia de aula, senti que não estava só eu ali sentado; toda a minha família estava comigo.

No começo da faculdade, eu queria desistir. Mesmo apaixonado pelo curso, tive muita dificuldade de interagir com as pessoas, e fiquei muito desmotivado. Teve um dia fatídico que minha mãe disse: ‘Filho, hoje vai ser sua última tentativa. Se você ainda quiser desistir depois de hoje, a mamãe vai estar aqui para você’. Foi naquele dia que eu conversei pela primeira vez com o Rafa Souto, meu amigo do coração até hoje, com quem eu criei o blog Futebol nas 4 Linhas, que depois virou canal, e serviu de portifólio para eu entrar no Desimpedidos. Sem o apoio da minha mãe, eu jamais teria conseguido isso.

O ensino superior foi muito importante para mim. Além das pessoas, dos conhecimentos, de formar caráter, ensinar a trabalhar em grupo, a interagir com o outro, foi na faculdade que eu entendi que existia um futuro para mim. Foi quando eu fiz apresentações, entreguei trabalhos, e o que eu produzia era reconhecido como o melhor da turma, eu passei a acreditar no meu potencial, e investir em mim. E sou muito grato à faculdade por isso.”

Irene Alleluia rodeada de seus colegas de curso em uma de suas classes de licenciatura em química, na Universidade Católica de Pernambuco
Irene Alleluia rodeada de seus colegas de curso em uma de suas classes de licenciatura em química, na Universidade Católica de Pernambuco
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‘Eu só queria estudar’

Irene Alleluia, 77 anos. Pesquisadora baiana e doutora em química nuclear na Alemanha, tendo sido a primeira mulher e negra a conseguir o título no país

“Na verdade, química não era a minha meta. Desde muito criança, eu dizia que ia estudar medicina. Com muito custo, terminei o ensino primário, fundamental e médio em Salvador, na Bahia, e vivia dizendo que queria ser médica. Aí, parece que toda a família e vizinhança quiseram opinar: falavam que eu não tinha que seguir a carreira de medicina porque eu era pobre, preta e não ia conseguir. Mas eu disse com firmeza que ia estudar e que ia passar. Foi uma guerra, tive que driblar tudo e todos.

Depois de fazer várias provas para entrar no ensino superior e conseguir um bom desempenho de notas, uma assistente social do Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), que concentrava as bolsas de estudo da região, foi à minha casa. Dali fui assinar minha documentação para ingressar no curso de licenciatura em química, porque a bolsa não cobria medicina. Foi quando descobri que iria para a Universidade Católica de Pernambuco para cursar química, e que a bolsa pagaria não só meus estudos, mas a hospedagem no Recife, coisa que eu nunca poderia pagar sozinha. Não tive tempo de voltar para casa e perguntar o que eu deveria fazer. Apenas aceitei e disse que iria. Sai de lá com tudo pronto para ir para o Recife estudar.

Algumas pessoas dizem que é sorte. Mas que sorte? Nada me foi dado de graça, foi tudo conquistado com muito suor

O curso de química não foi uma escolha, ele apareceu para mim como uma oportunidade. E eu não me arrependo justamente porque eu a agarrei como aproveitei todas as oportunidades que me apareceram. Algumas pessoas dizem que é sorte. Mas que sorte? A bolsa, a universidade, o diploma, nada me foi dado de graça, foi tudo conquistado com muito suor. Depois da graduação, não parei mais. Queria muito chegar a algum lugar, conquistar meu espaço. Fui para o Rio de Janeiro, fiz mestrado, concurso público, fui pupila de Otto Richard Gottlieb [referência mundial em fitoquímica] e depois segui para a Alemanha, onde estou hoje.

Mas nunca foi fácil, minha família não me incentivava a estudar. Pelo contrário, queriam que eu ficasse em casa e fosse mais uma para ajudar nas contas. Naquela época, uma menina que ia para longe da família, que ia morar em outra cidade, é porque queria ‘vida livre’. Mas eu só queria estudar. Meu pai dizia, quando eu terminei os primeiros anos de escola, que eu já era ‘bacharel em letras e ciências’, e que era melhor que eu parasse os estudos por ali, que agora precisava trabalhar e ajudar em casa. Fui muito desestimulada, e travei uma guerra ferrenha contra isso. Só hoje tenho consciência do quanto fui guerreira. A minha vontade de chegar a algum lugar era tanta que eu nem percebia que estava guerreando.

A dedicação aos estudos é tudo o que a gente tem para ser alguém. Se a vida com diploma já é difícil, imagina sem ele. Não é fácil, e nem é para ser. Mas o nível superior é de extrema importância para conquistarmos nosso espaço.”

Guilherme precisou driblar a distância para concluir a faculdade e realizar os estágios / Foto: Divulgação

‘Abrimos oportunidades que, até então, eram inéditas para as gerações anteriores.’

Guilherme Henrique, 28 anos, mineiro recém-formado em direito que hoje mora no interior de São Paulo, na região de Campinas.

“A posição que você ocupa na sociedade define a forma como você vê o mundo e a forma como você age nele. Tenho orgulho em falar que consegui uma profissão e cheguei a certo nível acadêmico reconhecendo de onde vim, quais são as minhas origens e quais são as pessoas a quem devo gratidão por onde eu estou hoje. Muitas vezes nossas referências são de pessoas que já estão lá em cima, mas a gente sabe que o mundo não foi constituído de uma forma em que todos possam alcançar esse local. Muito pelo contrário, uma minoria consegue subir.

A maior parte da minha família trabalha como operários em Belo Horizonte, tenho muitos tios metalúrgicos, e alguns que trabalham em empresas, mas nunca foi uma vida fácil. Sou filho de mãe solo e ela sempre quis que eu ingressasse na universidade, inclusive escolhi a Faculdade Adventista por causa do sonho e da religião dela. Tenho meus objetivos próprios, mas é muito bom ver minha mãe sempre me dando apoio e força porque tem horas que não é fácil. Você dá uma fraquejada e diminui o ritmo, pensa ‘caramba, é muito esforço, muita dedicação, mas o resultado ainda está longe’ e a sua mãe vai e te coloca para cima: ‘você é inteligente, você pode’ e isso é muito importante.

Consegui auxílio pelo ProUni e vim estudar direito. Apesar da faculdade ser gratuita, os custos são os mais variados possíveis: tanto com o material e a internet, quanto com a água e o aluguel. A questão da localidade é muito complexa porque é uma zona rural e as cidades são pequenas, então a disponibilidade de emprego não é muito grande. No segundo ano de faculdade, tive problemas de saúde e minha mãe, Fátima da Silva Cardoso, veio morar comigo. A partir desse momento, começamos a vender trufas na rua e ficamos pelo restante da faculdade trabalhando dessa forma: ela ia mais durante a semana enquanto eu ia aos finais de semana. Já ouvi pessoas falando ‘por que você não arruma um trabalho de verdade?’ como se aquilo que eu estivesse fazendo não fosse um trabalho de fato. Foi um período muito difícil, mas a gente conseguiu se manter.

Os mecanismos de auxílio à educação são revoluções. Abrimos oportunidades que eram inéditas para as gerações anteriores

Gosto muito de uma fala do Eduardo, rapper da Facção Central, em que ele diz: quando você chega na universidade, você não está tendo um privilégio. Você simplesmente está tomando algo que não deixaram seus antepassados terem. Seus pais não tiveram acesso, mas você está conquistando por eles o diploma que as dinâmicas e as circunstâncias sociais não permitiram que eles tivessem acesso. E isso é motivo para se comemorar.

Quando você é o primeiro da família a ingressar no ensino superior, é possível ser um exemplo e mostrar a importância da educação e como ela é transformadora. Todos os mecanismos de auxílio à educação nesse país são verdadeiras revoluções, mesmo que ainda tenha muita coisa a ser feita. Abrimos oportunidades que eram inéditas para as gerações anteriores. E justamente por causa desses mecanismos, pelas melhorias nas distribuições de renda e no acesso à educação, foi possível ter a oportunidade de ver pessoas que eram alheias à universidade entrar no ensino superior e transformar a cartografia da faculdade.”

Lidar com a maternidade durante a graduação não foi uma tarefa fácil, mas o apoio familiar foi essencial para a Karoline
Lidar com a maternidade durante a graduação não foi uma tarefa fácil, mas o apoio familiar foi essencial para a Karoline
Divulgação

‘Passei no vestibular porque não era uma opção para mim não passar: ou eu passava, ou eu passava’

Karoline Miranda, 26 anos, formada em história e graduanda em Jornalismo, mestranda em História Social da Cultura

“Minha mãe era professora primária e meu pai é operador de computação gráfica. Os dois só têm o ensino médio, começaram a trabalhar muitos novos e não tiveram acesso à faculdade. Eles queriam muito que isso acontecesse para mim porque sabiam que seria a única forma para melhorar de vida. Quando eu entrei na universidade, sabia que aquilo representava muito para eles também. A gente vivia com poucas posses: nunca tivemos casa própria, carro ou plano de saúde. Emm compensação, eu não precisava trabalhar: eles garantiam o meu sustento para que eu pudesse completar meus estudos.

Fico triste que, em 2021, a gente seja a geração que abre as portas do ensino superior. Deveria ter sido acessível para os nossos pais

Para mim, a importância de ter acesso à faculdade é gigantesca, é fundamental para que a gente abra cada vez mais espaço no mercado de trabalho, principalmente para quem é preto e para quem é pobre. Esse lugar foi muito negado a nós e, agora – com as cotas, por exemplo -, a gente tem cada vez mais oportunidades de romper barreiras.

Engravidei no segundo período da faculdade, então toda a minha vida acadêmica é permeada pela maternidade. Minha mãe nunca me deixou pensar em parar de estudar, ela deixava bem claro que só me daria apoio para cuidar do Gael se eu continuasse estudando. E foi muito difícil. No primeiro período em que eu voltei da licença maternidade, eu reprovei em todas as matérias porque não me adaptei. Era peito empedrando por estar cheio de leite, um bebê para cuidar e um emprego, pois eu tinha começado a trabalhar em uma creche em troca de uma vaga para o Gael. Não vou dizer que a vida acadêmica ficou mais fácil com o tempo, mas sei que foi importantíssimo não ter parado de estudar.

Quando descobri que tinha passado para a UERJ, minha mãe não gritou. Ela me abraçou, fechou os olhos e disse: ‘Eu sabia’. Aquele abraço disse tanta, mas tanta coisa, que eu não consigo nem explicar. Parece que ela falou ‘agora a minha missão está cumprida’. O sonho da minha mãe sempre foi se formar em uma faculdade, mas ela nunca conseguiu, mesmo tentando várias vezes, inclusive de forma particular. Ela morreu tentando realizar esse sonho. Fico triste que, em 2021, a gente ainda seja uma geração que abre portas para o ensino superior, a universidade deveria ser acessível e um direito de todos. Deveria ter sido acessível para os nossos pais.”