Memória e ancestralidade com Anelis Assumpção — Gama Revista
Família: qual é a sua?

Anelis Assumpção: ‘Escavo o que me foi negado saber sobre nós’

Anelis Assumpção 06 de Dezembro de 2020
Gloria Flugel

Filha do cantor e compositor Itamar Assumpção lança um museu virtual dedicado ao pai — o primeiro de um artista negro brasileiro — para difundir a memória preta e traçar diálogos afrofuturistas. A Gama, ela escreve sobre memória e ancestralidade, reflexões que a levaram a colocar a ideia em prática

Além dos dentes e dos olhos, vistos por qualquer um dotado de visão, herdei de meu pai a gana pelo trabalho. Por elaborar vertentes de acordo com símbolos políticos — de esquerda, em início —, onde se fazem necessárias verdades comuns: direitos, equidades, justiças, de desdobramentos, de ineditismo, coragem de rompimentos e audácia. Já não sei se podemos predicar a esquerda com tais pensamentos no meu tempo de relógio alinhado em um computador Apple num presente mundial. Reflito. Porém, nada disso é matéria quantizada em inventário. Meus dentes saudáveis, devo aos ancestrais pretos com ossadas de brilho que chamavam atenção para disputas por seus corpos. Trago em minha matéria genética resistência física com sequelas psicoemocionais. Meu pai, quando moribundo, tinha apenas os dentes intactos. Era impressionante. Em sua primeira exumação — cinco anos depois de ser enterrado a sete palmos de filó — lá estavam eles, resilientes ao tempo que carcomeu suas vestes e carne. Os dentes.

Meus dentes saudáveis, devo aos ancestrais pretos com ossadas de brilho que chamavam atenção para disputas por seus corpos

Eu não vi com meus próprios olhos que a terra há de comer antes do meu piano, mas soube pela linguaruda fala do coveiro em mais um dia insalubre de trabalho: só restam os dentes. A boca famosa de Itamar por falar o que lhe vinha à telha, mas não tão rasamente como sugere o dito, era órgão de deglutinar e vomitar num movimento violento entre o silêncio importantíssimo e vilipendiado de sua postura profissional e a necessidade de dizer, enquanto homem preto livre, o que não puderam dizer seus anteriores parentes. Pecava, numa interpretação judaico-cristã, pela boca. Maldito, lhe alcunharam. Os dentes. Ora cerrados de cocaína. Ora esgarçados num sorriso generoso. Mastigavam injúrias e carne de porco no atravessamento de sua existência. Dezessete anos depois de sua morte, confesso réu primária esse crime de amor absoluto. Dedico horas dos meus dias a enaltecer sua vida e também a uma boa escovação dos meus brilhantes dentes que jamais viram um aparelho ortodôntico graças ao ancestral de força surgido numa África nigeriana ou queniana e serra-leonense — me diz o teste moderno de DNA. Povo de ossamento firme e musculatura tecnológica — não quantizada em inventários, lembremos.

Itamar Assumpção em ensaio fotográfico de 1990
Itamar Assumpção em ensaio fotográfico de 1990

Glória Flugel

Eu, mestiça, aos quarenta, percebo a importância de sublinhar minha árvore ancestral africana, visto que minha porção branca está encaixada em documentos a que tenho acesso no Museu do Imigrante, na minha cidade, São Paulo — e também através do cancioneiro documentado de meus ancestrais euro-colonizadores. Um passaporte italiano parece ter mais valor que meus dentes, porém, enquanto matéria, será corroído pela generosidade do tempo bem antes que meu caninos. Fato.

Sou arqueóloga de mim num desejo sublime de encontro e conhecimento

Enquanto afro-bege, me permito navegar em memórias ancestrais misturadas. Deixo que decante o que não precisa ser enaltecido neste agora e escavo arqueologicamente o que me foi negado saber sobre nós. Ora encontro combustível que me faz continuar, ora encontro espinhas intactas que me fazem continuar também. Nada nessa escavação é um acaso que sugere pausa. Sou arqueóloga de mim num desejo sublime de encontro e conhecimento. Eis o viés da minha herança.

Ando com pretos, brancos e não brancos num eterno traspassamento de localização elaborada.

Venho como artista e empresária aprendendo os mecanismos dessa indústria gigantesca que, embora generosa, enriquece. E muito.

Há falhas nesse sistema robótico, mas à medida que tomamos conhecimento de seus mecanismos nos apropriamos de suas vantagens, pois queremos nossa arte no universo.

Itamar Assumpção (à dir.) com o cantor e compositor Jards Macalé em 1981Lita Cerqueira
O músico e a banda Orquídeas do Brasil, com quem gravou a trilogia "Bicho de Sete Cabeças" (1993)Gloria Flugel
“Dezessete anos depois de sua morte, confesso réu primária esse crime de amor absoluto. Dedico horas dos meus dias a enaltecer sua vida”, diz Anelis sobre o pai
Marcela Haddad
Itamar com sua esposa Elizena Brigo, a Zena, em 1975Arquivo Pessoal

Um museu é uma casa. Neste nosso, o primeiro de um artista afro-brasileiro, esforços necessários vêm acontecendo em busca de uma identidade museológica que contemple o molde e, ao mesmo tempo, extrapole a regra.

Nosso inconsciente entende o museu como um espaço higienizado devido à sua formatação baseada num eixo eurocentrado e cartesiano. Em países africanos, o conceito museológico é completamente diferente no que se refere a conservação, preservação e exposição da história, de documentos e de arte.

Nem tão ao sol nem tão à Europa. O Museu Itamar Assumpção costura nas linhas do tempo uma nova forma de erguer e expor um legado brasileiro que é da humanidade.

Para acontecer isso, vinte e seis pessoas trabalham incansavelmente. As equipes se dividem em: pesquisa, acervo, produção, comunicação, tecnologia, design, tradução, jurídico, financeiro, curadoria e direção.

Itens do acervo do Museu Virtual Itamar Assumpção: anel, violão e camisa pintada à mão que pertenceram ao músico e o convite para um de seus shows
Itens do acervo do Museu Virtual Itamar Assumpção: anel, violão e camisa pintada à mão que pertenceram ao músico e o convite para um de seus shows

Edouard Fraipont

Em nosso acervo hoje, temos mais de dois mil itens que poderão ser explorados. Um mergulho imenso no futuro sentado num passado presente.

Para que serve um museu? Para divertir e ensinar. Para refletir e espelhar.

O Museu Itamar Assumpção serve ainda para que nunca mais deixemos que apaguem quem somos, de onde viemos e aonde podemos chegar.

Senta aqui comigo nessa pedra,
vamos dar um mergulho interior.

Anelis com o pai em 2000Marcela Haddad

Anelis Assumpção é cantora e compositora, filha do falecido cantor e compositor Itamar Assumpção. Em seus trabalhos premiados — “Sou Suspeita, Estou Sujeita, Não Sou Santa” (2011), “Amigos Imaginários” (2014) e “Taurina” (2018) —, busca sempre a originalidade e o afrofuturo. Em 20 de novembro de 2020, inaugurou o MU.ITA – Museu Virtual Itamar Assumpção.

Conheça o MU.ITA – Museu Virtual Itamar Assumpção e ouça a playlist de Gama com canções da família Assumpção