Música infantil: por que Baby Shark e vídeos hipnotizam crianças? — Gama Revista
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Por que músicas e vídeos infantis hipnotizam?

©Reprodução / PINKFONG

Hits infantis têm o incrível poder de deixar crianças vidradas nas telas. Será que estamos aproveitando da melhor maneira a capacidade dos pequenos de se relacionar com a música?

Gabriel Monteiro 03 de Maio de 2020

Basta ouvir “Baby Shark” uma única vez para que um “doo doo doo doo doo doo” fique em eterno repeat na cabeça. A música infantil que apresenta a família de um bebê tubarão tem letra, melodia e coreografia simples, mas um efeito nada banal. É um hit chiclete capaz de captar a atenção das crianças por horas se entrar no repeat. A autoria não é completamente identificada, mas sabe-se que é tocada há gerações em acampamentos infantis e se consagrou mundialmente pelo Youtube.

O clipe, que foi publicado há três anos pela sul-coreana Pinkfong, uma empresa de produtos educativos infantis, já foi visto mais de 4 bilhões de vezes e se tornou o quinto mais assistido da história da plataforma. A música entrou para a lista dos 100 maiores hits da Billboard e, com tamanha repercussão, virou um musical completo, com direito a turnê mundial. O caso não é isolado e existe uma extensa playlist de hits hipnóticos para crianças.

Um deles é “Let It Go”, do filme “Frozen”, que ganhou tradução para 41 idiomas diferentes e levou o Oscar de melhor canção original em 2014. Outro exemplo é o do desenho brasileiro Galinha Pintadinha, criada por dois publicitários que conseguiram o feito de transformar a ave azul na youtuber infantil mais vista do país.

Com essas informações, vem a questão: como músicas aparentemente tão simples alcançam tal nível de sucesso e magnetizam crianças? Parte da resposta está na própria pergunta. A maioria dessas canções infantis trabalha exatamente com a simplicidade para acessar mais facilmente os pequenos. São artifícios como a repetição de sílabas básicas em melodias descomplicadas, um tipo de estrutura bem comum entre artistas pop, produtores de jingles e criadores de músicas-tema. Mas esse não é o único fator.

Como músicas aparentemente tão simples alcançam tal nível de sucesso e magnetizam crianças? Essas canções trabalham com a simplicidade para acessar os pequenos

Pesquisadores da Goldsmiths University, em Londres, já identificaram mais ingredientes nessa receita. Elas geralmente contam com melodias de tempo rápido, alguns compassos com intervalos peculiares e construções genéricas e fáceis de memorizar. Além de pulos e repetições mais inusitados que funcionam como uma pitada de acidez nessa sobremesa para que ela não fique assim tão doce. Outros segredos são as subidas e descidas no tom, como no clássico “Brilha Brilha Estrelinha”. Perceba que, ao cantar, a primeira frase sobe enquanto a segunda, desce.

Essas fórmulas só existem porque repercutem fisicamente em quem ouve. Em resumo, alguns profissionais de fato usam artimanhas porque sabem quais são os seus efeitos no cérebro de uma criança. E é justamente estudando o sistema nervoso que se entende por que essas músicas são “neurologicamente irresistíveis”. No livro “Alucinações Musicais” (Companhia das Letras, 2007), o neurologista Oliver Sacks afirma que as músicas chiclete têm um efeito coercitivo em nossa cabeça. O som subverte o órgão a ponto de forçá-lo a disparar de maneira repetitiva e autônoma a composição. Quem já não cantou um jingle de comercial do nada? O processo é próximo ao que acontece com os tiques e as convulsões. Por isso o fascínio e a fixação por certas melodias parece incontrolável.

Existe uma queda natural pelo hit chiclete. “Temos uma tendência a preferir o que é familiar porque é mais fácil. Do ponto de vista evolutivo, o humano se sente mais seguro na repetição conhecida do que na exposição ao diferente, porque associa com a ideia de perigo”, diz a pesquisadora Patricia Vanzella, professora e coordenadora do projeto Neurociência e Música da UFABC (Universidade Federal do ABC). E se isso acontece em qualquer idade, tem efeito específico no cérebro de uma criança.

Crianças têm capacidade de escutar qualquer tipo de música e o material a que estão expostas hoje pode estar muito abaixo do que conseguiriam experimentar

“A idade entre zero e seis anos é um período sensível do ponto de vista do desenvolvimento porque ocorre uma neuroplasticidade especial do sistema nervoso”, afirma Vanzella. “Chamamos o momento de janela crítica porque o cérebro está se moldando, fixando as informações mais e melhor.” De acordo com a professora, esse é o momento para sensibilizar as crianças em um ambiente rico musicalmente e apresentar novos estímulos, uma vez que as músicas ouvidas nessa fase têm extrema importância nas preferências do futuro.É exatamente por isso que Vanzella defende a exposição também à produções mais complexas, não limitando o acesso da criança apenas ao que já é conhecido: “Elas proporcionam desafios no lugar da obviedade, não oferecem apenas o que é esperado”, afirma.

Hélio Ziskind, músico e compositor famoso por sucessos da TV Cultura (como os temas de “Castelo Rá-Tim-Bum” e “Cocoricó”), diz que os pequenos cantam tranquilamente os seus hits mais complicados. “Elas estão ali com vontade de alcançar as sílabas junto da batucada e aprendem muito com isso. Me faz acreditar que a música instiga o cérebro quando propõe desafios, articulação de fonemas diferentes, aliterações, sons e ritmos numa sequência não necessariamente simples.” Ele cita “Tu Tu Tu Tupi”, composição sua na qual apresenta palavras em tupi guarani às crianças.

Em outra pesquisa, feita por meio de uma parceria entre universidades do Brasil, Canadá e Inglaterra foi investigada a performance de crianças entre sete e dez anos quando expostas à músicas mais complexas. Elas ouviram trechos instrumentais de óperas de Wagner e os seus desempenhos foram comparados com o de adultos músicos e adultos não músicos. No fim, tiveram resultados parecidos com o dos adultos músicos.

A complexidade causa interesse nas crianças, e isso não significa que elas tenham que parar tudo para apenas ouvir clássicos do século 19 daqui pra frente. “’Let it Go’ de ‘Frozen’, por exemplo, tem uma melodia que muda de velocidade e assimetrias no meio da canção”, avalia Ziskindo, dizendo que o hit da Disney não necessariamente é tão simples quanto parece.

“O que a gente deve tirar disso tudo é que crianças têm capacidade de escutar qualquer tipo de música e o material a que estão expostas hoje pode estar muito abaixo do que conseguiriam experimentar”, confirma Patricia. E, para além disso, existe uma última questão: música não é só uma atividade passiva, de escuta. É também uma atividade que possibilita participação. “A gente nasce com o aparato neural pronto para se engajar com atividades musicais”, afirma a neurocientista. “E fazer música é um ótimo jeito também de esculpir o cérebro.”