Como lives na quarentena podem mudar a Indústria Cultural — Gama Revista
Inovar pra quê?

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Sociedade

O império das lives contra-ataca

©Frazer Harrison/Getty Images

Caseiro, barato e ao vivo: assim tem sido o entretenimento durante a pandemia. Como inovações emergenciais devem alterar a indústria cultural  

Daniel Vila Nova 10 de Maio de 2020

Quando Beyoncé se apresentou no Coachella 2018, a internet veio abaixo. Com uma apresentação histórica, Queen Bey rompeu barreiras e bateu o recorde do número de pessoas assistindo à mesma live do YouTube: quase meio milhão de visualizações.

Mas eram outros tempos. Na atual quarentena, o número, tido como estratosférico e restrito à realeza do pop mundial, foi quebrado três vezes em alguns dias. Os responsáveis? Marília Mendonça, Jorge e Mateus e Gusttavo Lima. Aparentemente, a rainha tem algo a aprender com os sertanejos brasileiros.

As lives são o assunto do momento. Nomes como Paul McCartney, Elton John, Stevie Wonder e Lady Gaga participaram de um mega festival de lives. A Rede Globo não ficou para trás e adotou a prática, transmitindo apresentações caseiras ao vivo de artistas como Roberto Carlos, Ivete Sangalo e Alok.

Até o mundo dos vídeo games encontrou um show para chamar de seu. Durante a quarentena, o rapper Travis Scott se aventurou no mundo digital de “Fortnite” — jogo de tiro online que conta com mais de 250 milhões de jogadores ativos e faturou, somente no ano de 2019, cerca de R$ 7,5 bilhões — e lançou uma turnê nos servidores do jogo. Com direito a música inédita, venda de itens digitais e um Travis Scott na forma de um avatar gigantesco andando pelo cenário, a turnê foi um sucesso com 12 milhões de pessoas assistindo o espetáculo simultaneamente.

Enquanto um Travis Scott gigante cantava, o cenário do jogo “Fortnite” ia do fundo do mar ao espaço sideral. O show foi surreal do começo ao fim

Star Wars, Vingadores, o DJ Marshmallow e agora o rapper Travis Scott. Todos fazem parte da extensa lista de produtos culturais que se tornaram eventos em “Fortnite”. Mais do que qualquer live, a verdadeira inovação do entretenimento é contar uma única história em diferentes plataformas.

Reinventando a roda

A revolução das lives vem sendo noticiada nos quatro cantos do mundo, mas existem aqueles que não veem uma ruptura no formato e que as lives estão longe de ser uma novidade. “O Live-Aid [foto abaixo], de 1983, foi a primeira grande live da história e até hoje não foi superada em termos de audiência e de engajamento. O evento foi transmitido pela televisão durante dezesseis horas, para mais de cem países, com shows ao vivo de bandas do mundo todo”, lembra Carlos Giusti, sócio e líder do setor de mídia e entretenimento da PwC Brasil.

A primeira super live: George Michael, o promoter Harvey Goldsmith, Bono Vox, Paul McCartney e Freddie Mecury no estádio de Wembley, em Londres©Staff/Daily Mirror/Mirrorpix/Getty Images

“A grande tendência que o Covid-19 trouxe, maior do que qualquer ruptura, foi uma brutal aceleração em direção ao universo digital”, diz Giusti. Isso porque, a migração de plataforma já acontece há algum tempo, os meios associados à mídia física estão se transformando em plataformas digitais. “A TV deixou de ser uma mídia, assim como o jornal e a revista, e passou a ser um device. Ela é uma tela grande que fica em algum ambiente da casa, mas que também está nas plataformas digitais.”

Mauricio Stycer, jornalista especializado na cobertura de TV e autor de “Adeus, Controle Remoto” (Arquipélago Editorial, 2016) vê esse comportamento no maior canal de TV do país. “Hoje, é possível enxergar dois lados da programação de entretenimento da Globo: uma visão de produção para a TV aberta e uma para o on demand.”

O mercado para novelas ainda é enorme, mas existe um outro público que deseja novos produtos. O crítico de TV entende que a emissora busca conciliar as duas audiências. “A situação ainda é muito delicada, estamos no território da especulação. Mas o investimento no on demand já vinha acontecendo e eu acredito que vá continuar”, diz o jornalista.

A grande tendência que o Covid-19 trouxe, maior do que qualquer ruptura, foi uma brutal aceleração em direção ao digital

O streaming vive um pico enorme de interesse, o valor de mercado da Netflix já é maior do que o da Disney. O crescimento de plataformas de streaming não é de hoje, a própria Disney estreou seu serviço este ano. A verdade é que, durante a pandemia, se deu melhor quem estava mais preparado para o digital. A guerra dos streamings é, inclusive, um bom exemplo do ponto de inflexão da indústria do entretenimento — o momento em que o mercado passa a indicar o que será o novo padrão. Já se sabe que o futuro do entretenimento será personalizado. E o mercado de streaming tem tudo a ver com isso.

O show tenta continuar

Inovações podem surgir e ganhar maior destaque durante crises, mas não são todos no mundo do entretenimento que tem essa possibilidade. As previsões do impacto que o setor cultural brasileiro sofrerá por conta do coronavírus . Cortes de salários já são realidade em emissoras de TV nacionais e uma pesquisa da Abrape (Associação Brasileira dos Promotores de Eventos), indica que as demissões por conta do Covid-19 podem chegar a 580 mil afetados no setor de cultura brasileiro.

Festivais como o SXSW, a feira de vídeo games E3, e a San Diego Comic-Con foram cancelados. Filmes que já estavam prontos para serem lançados como “Mulan” foram adiados, assim como a maioria do calendário de gravações de Hollywood. Com o isolamento social, é cada vez mais difícil pensar em um método rentável de negócio. As lives fazem sucesso, mas quem paga por elas? Buscando uma nova forma de rentabilidade, o duo musical Anavitória foi criticado pelo público por cobrar R$ 95 pelos ingressos de um pacote de lives. Elas explicaram que a renda será totalmente revertida para a equipe técnica da dupla.

“Antes se patrocinava uma novela ou o campeonato brasileiro. Hoje, o patrocínio é na live do seu sertanejo favorito”, acredita Giusti. “Se um conteúdo tiver audiência, aderência e relevância, as empresas de mídia encontrarão uma forma de gerar renda.” Para ele, a indústria de entretenimento vai ganhar dinheiro como sempre ganhou, por meio de comerciais e conteúdos patrocinados. Vale lembrar que a verba de publicidade, hoje, é mais pulverizada do que em outros tempos — tendo suas cifras divididas entre grandes canais, influencer, eventos.

Ainda que a rentabilidade esteja mais difícil nesse novo modelo, algumas áreas do entretenimento acharam maneiras de inovar em meio ao cenário caótico. O reality show Big Brother Brasil 20 ganhou uma importância nacional inédita ao se tornar o único programa de entretenimento ao vivo na grade da Rede Globo. Não à toa, quebrou o recorde de votação mundial de um reality show, chegando a 1,5 bilhão de votos.

Para Stycer, as reações da TV brasileira ainda estão ancoradas no fenômeno espontâneo das lives. “Foi uma recuada total para evitar problemas de saúde. Suspensão de todos os programas, gravações de novelas e de programas de auditórios”. O cancelamento dos programas criou um cenário inédito na TV brasileira, um quadro de reprises gerais em todas as áreas, com exceção do jornalismo.

Gregório Duvivier mostrou que dá para fazer um programa nesse modelo. A platéia é a mãe, a irmã, o irmão e uma câmera. Funciona

Stycer acredita que os canais agiram bem ao recuar, mas a reação ainda é muito modesta. “A Globo acabou se dando melhor por ter um acervo grande de material para reprisar e agora ensaia uma reação com dois programas de humor. Isso ainda é pouco”. O “Vai Passar“, do Multishow, é uma série sobre a vida de moradores do mesmo prédio durante a quarentena. Já o “Sinta-se em casa“, do Globoplay, é estrelado pelo comediante Marcelo Adnet e suas diversas imitações.

O jornalista enxerga no “Greg News”, humorístico da HBO apresentada por Gregório Duvivier, um exemplo a ser seguido. “O Gregório mostrou que dá para fazer um programa nesse modelo. A platéia é a mãe, a irmã, o irmão e uma câmera. Funciona.”

O “Greg News” foi um dos primeiros programas de TV brasileiro a adotar o home office

Nos Estados Unidos, a resposta à essa nova realidade tem sido mais rápida. Programas de auditório como “Late Show with Stephen Colbert” e “The Tonight Show Starring Jimmy Fallon”, os dois maiores talk shows americanos, já são gravados da casa dos apresentadores há algumas semanas.

Para o jornalista, a lição que sairá dessa crise é que até uma grande emissora de televisão como a Globo precisa de modelos alternativos de produção de conteúdo que permitam uma flexibilidade maior. “O Pedro Bial está fazendo pequenas entrevistas ao vivo no Instagram. Por que não realizar o programa na TV?”, questiona Stycer. A indagação do jornalista aparentemente foi ouvida pela Globo, que anunciou que “Conversa com Bial” volta a grade da emissora no dia 18 de maio, de forma remota.

A Netflix apostou no sucesso da série documental “Tiger King” e produziu um novo episódio durante a pandemia via chamadas de vídeos. O Porta dos Fundos também não parou sua produção durante a pandemia e estreou três novas séries: “Trabalhando Em Casa”, “Família Sem Filtros” e “Quarentena com Dona Helena”.

Os vídeos falam sobre as situações vividas durante a quarentena e utilizam a linguagem de chamadas eletrônicas e lives como formato +. Caminho semelhante foi adotado pelo canal de TV americano NBC, que produziu um episódio inédito da série “Parks and Recreation”, um programa de humor que havia sido encerrado em 2015. O elenco se reuniu para um episódio em prol de atingidos pelo coronavírus

“Trabalhando em Casa” já conta com mais de 2 milhões de visualizações e faz piadas com as reuniões de trabalho virtuais

O futuro é digital

E as regras e formatos do mercado de entretenimento têm sido revistas. O Oscar 2021 vai aceitar inscrições de filmes que foram direto pro streaming. “Trolls 2”, lançado durante a pandemia, fez mais de US$ 100 milhões de dólares no ambiente digital e superou a renda do primeiro filme. Já a Globo vai transmitir o “F.C Futebol de Casa”, um torneio de futebol digital com jogadores do campeonato brasileiro.

“O norte é claro. Cada um vai testar os seus modelos, suas formas, mas o caminho já está estruturado”, afirma Giusti. Para ele, a relação entre pessoas e marcas está sofrendo uma mudança já mapeada, mas que foi acelerada numa velocidade e dimensão exponencial por conta do Covid-19. “Hoje não há forma de se transacionar que não seja digital. Parte disso se transformará em hábito natural, mas coisas mais importantes provavelmente serão recuperadas de maneira levemente diferente.”

A cultura de celebridades e influencers está sendo questionada durante a pandemia e já existem aqueles que perguntam se sobreviverá

O profissional enxerga a experiência ao vivo como fenômeno único e acredita que as lives não vieram para substituir, e sim complementar. “Não há como comparar uma coisa com a outra. Nem do ponto de vista sensorial, do ponto de vista emocional ou do ponto de vista econômico”, finaliza Giusti.

Mas a principal mudança que a pandemia trará é comportamental. “Determinados tipos de celebridade estão perdendo a relevância, ficando mal vistas inclusive. Por que? As pessoas estão mudando a orientação do que é importante e do que não é”. Para ele, perguntas como “Essa celebridade representa o quê?”, “Qual o valor que ela soma a minha vida?” são cada vez mais comuns e indicam uma mudança perene na sociedade.

A cultura de celebridades e influencers está sendo questionada durante a pandemia e já existem aqueles que perguntam se ela sobreviverá ou se continuará intacta quando a crise passar. A indústria do entretenimento está indo para o divã durante a pandemia. Nem mesmo o Dr. Hannibal Lecter, a Dr Dra. Melfi em “Sopranos” ou Robin Williams em “Gênio Indomável” parecem capazes de diagnosticar o problema.