O que é ser um cadeirante ativo? A vida de quem tem autonomia relativa — Gama Revista
Não mantenha distância

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Depoimento

Autonomia relativa

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Todos os dias o escritor Carlos Eduardo Pereira, que é cadeirante, visita uma mesma farmácia — até que escadas sejam substituídas por rampas acessíveis

Carlos Eduardo Pereira 12 de Julho de 2020

Eu tenho a sorte grande de ter a família que eu tenho, e de morar na cidade, no bairro onde eu moro. E tenho tido a sorte grande também de, nos últimos anos, ter como dizer que sou um verdadeiro cadeirante ativo, como se diz, aquele que consegue tocar a cadeira de rodas com seus próprios braços, que consegue levar a sua relativa autonomia pela mão para um passeio na praça na hora que bem entender. Mas relativa autonomia é mesmo assim: relativa.

Vale para todos, com ou sem suas deficiências visíveis. Tem coisa que a gente consegue e tem coisa que a gente não pode fazer, é do jogo, tipo teletransporte, tipo construir um planador que voa de verdade feito só de papel (não, não, isso aí é possível, tem um cara na Alemanha que já fez). Só que tem coisa que dá para fazer, ou daria para fazer, seria muito simples até, bastaria um bocadinho de vergonha na, bom senso, um bocadinho de bom senso e uma série ações já seriam possíveis. E essas ações motivariam outras, e mais outras, e mais outras.

Bastaria um bocadinho de bom senso e uma série de ações já seriam possíveis. E essas ações motivariam outras, e mais outras, e mais outras

Não preciso dizer que é o justo e positivo para todos – para todos – que pessoas pretas tenham mais espaço no mercado de trabalho, como desdobramento natural de uma política de cotas nas universidades. Não preciso dizer que o filho do rico estudando no mesmo colégio, na mesma sala, que o filho do pobre, terá uma visão mais plural e mais viva do mundo, e vice-versa, que o filho do pobre crescendo e chamando de amigo esse filho de rico vai ter uma chance de ampliar os horizontes da mente também, vai ser bom para todos.

Quatro, cinco degraus, coisinha pouca, e é justamente esse que eu elejo. Só para parar em plena porta e dizer companheiro, dá uma força aqui pra eu subir?

Preciso dizer como funciona a minha militância. Eu vou para a rua todo dia – todo dia – e entro nos lugares todos. Círculo na calçada para fazer contato visual, para ver e ser visto. Para chegar na farmácia ou na papelaria que eu vou sempre e poderia fazer meus pedidos pelo telefone, pela internet, mas eu vou lá, faço questão. Tenho duas ou três opções concorrentes desse estabelecimento, mas escolho aquele que tem uma escada para entrar. Quatro, cinco degraus, coisinha pouca, e é justamente esse que eu elejo. Só para parar em plena porta e dizer companheiro, dá uma força aqui pra eu subir? A passagem é estreita, e uns clientes precisam entrar, e outros precisam sair, e nem sempre o segurança fica disponível, e o tempo que leva para um funcionário que tem lá que é magrinho magrinho dar a volta no balcão para vir até a porta é de, não sei, alguns minutos. Faço isso todo dia. Ontem lá me disseram que vão colocar uma rampa e eu achei legal. O Seu Onofre da Banca percebeu na hora e ficou rindo sozinho, ele já sabe que a partir de segunda eu devo começar a frequentar o hortifruti novo ali da esquina. Parece que eles têm uns corredores meio estreitos.

© Bel Pedrosa

Carlos Eduardo Pereira é carioca, escritor e autor de “Enquanto os Dentes” (Todavia, 2017)