Como é ter dois pais? — Gama Revista
O que é ser pai?

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Semana

Paternidade em dose dupla

Famílias compostas por dois pais dividem com Gama essa experiência. A criação dos filhos, a adoção, o preconceito, o amor e aprendizados diários

Manuela Stelzer 09 de Agosto de 2020
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    © Arquivo pessoal

    Flavio Botelho, diretor de cinema e Jean Pierre Ciporkin, médico

    Pais dos gêmeos Mia e Benjamin, de 3 anos

    “Ficamos por volta de sete anos conversando sobre ter filhos, até fizemos terapia para entender qual seria a melhor forma. Ficamos grávidos de gêmeos, Mia e Benjamim, por barriga de aluguel no México. Visitamos a gestante Diana e a família durante a gravidez. Nós estávamos ajudando eles a comprar uma casa em outra cidade, para começarem uma vida nova. Eles estavam nos ajudando a construir uma família. Definimos como uma troca de sonhos. Desde então começamos uma grande amizade, que dura até hoje.

    Mia e Ben nasceram numa manhã ensolarada, por uma cesárea, na 37ª semana de gestação. E nessa primeira fase, estávamos sempre cercados de amigos, o que foi ótimo. O amor pelos pequenos nasceu com a chegada deles, mas a cada dia foi ficando mais intenso, mais colorido, com outras camadas. Havia também muito medo. Queríamos muito acertar.

    No começo, a nossa antiga rotina veio ao chão. O tempo e o sono faltaram. Percebemos que havia pouco controle do que eles eram e iriam se tornar. Não nascem um quadro em branco que você vai moldar do jeito que acha melhor. Ser pai é tentar entender como o seu filho é, e a partir daí, você ajuda a guiá-lo.

    Durante a criação, prezamos pelo mais simples, como ter a presença dos pais em casa. Nossos pais compartilhavam a ideia de que determinados assuntos não deviam ser tratados com as crianças. Hoje, sentimos que o diálogo e a verdade, sempre medida e cuidada, fazem muito bem para o desenvolvimento.

    Em casa, exercemos exatamente as mesmas funções. Só cozinhar que não é a praia do Jean. O que muda é a intensidade do cuidado, quando o trabalho de um aperta. No momento atual, por exemplo, um médico tem tido muito mais trabalho do que um cineasta.

    Na família e sociedade, ouvimos muito ‘feliz dias dos pães’. Não sei se gostamos desse termo, pois exercemos funções maternas e paternas juntas, mas nos identificamos com o gênero masculino. ‘Pães’ nos parece uma mistura de função com gênero que não nos traz identificação direta.

    Uma grande parte das pessoas tenta conformar a nossa família ao padrão na sociedade, então busca a figura da mãe. Na nossa história não há mãe – há dois pais. E a figura de duas mulheres muito generosas que percorreram esse caminho com a gente: a gestante Diana e a doadora de óvulos, que não chegamos a conhecer.

    Ser pai é viver um amor de uma intensidade que nunca sentimos, só cresce e renova o olhar para a vida. A criança pede presença, que você viva o agora. E isso, somada às doses de amor diárias, nos fazem todos os dias agradecer aos nossos filhos.”

    Depoimento de Flavio Botelho

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    © Arquivo pessoal

    David Miranda, político, e Glenn Greenwald, jornalista

    Pais do João Victor, 12 anos e do Jonathas, 11

    “Primeiro, a gente recebeu as fotos dos meninos, na adoção. Na época, o João estava com nove anos, e o Jonathas com sete. Quando eu e o Glenn vimos as fotos, de imediato falamos ‘são nossos filhos’. Quando fomos encontrar com eles a primeira vez, lá em Maceió, era um nervosismo misturado com emoção. O Jonathas entrou primeiro, deu oi e tal, e depois veio o João, que é mais velho. Ele entrou e direto me deu um abraço. Foi uma conexão muito intensa e imediata.

    O sistema todo da adoção funciona bem para te preparar. Você escuta outras histórias, vê vídeos, fala com os profissionais, e isso te capacita para as coisas que vão vir. No começo, tiveram alguns conflitos de comportamento, principalmente com o mais velho. Isso já era esperado. Mas eu não sabia que eu ia me tornar uma pessoa completamente diferente depois de me tornar pai. Eu sou uma pessoa que tende a ter muitas emoções, sou apaixonado e intenso. Só que com os filhos, não tem essa. Você tem que seguir um ritmo diferente, ensinar, conversar, ter paciência. Ensinar a não brigar, a comer legumes, tudo é um processo, passo a passo, que gera reclamações. Mas o que mais surpreendeu foi o quanto eu me transformei no sentido de paciência. No sentido de entendimento e carinho, que eu acho que eu tinha, só que em outro nível, que eu elevei depois da chegada dos meus filhos.

    O que eu tento transferir para os meus filhos, que eu aprendi quando criança, foi um senso de justiça, de acolhimento, e sobre nossos privilégios, que os outros não tem. Algo que eu não gostaria de repetir, e até hoje nunca fiz, é a agressão física como uma forma de educação. Nós não acreditamos nisso, então não repetimos. Aprendi que o diálogo transforma muito.

    Eu e o Glenn somos figuras públicas, e na escola, bastante progressista, somos reconhecidos. Acho bom, e não falo isso como uma forma de me vangloriar, mas é legal que as crianças possam ver que os pais são reconhecidos pelo trabalho e caráter que tem. Isso coloca eles numa posição de observar, e seguir um modelo que eles podem ser no futuro. A experiência de levar na escola sempre foi muito boa, acolhedora, cercada de gente boa, num momento em que a nossa família foi tão mirada e ameaçada. Mas a gente continua firme e forte.

    A gente tem uma divisão muito boa em casa. Os dois filhos são muito independentes. Eu tenho contato com os moleques mais jogando videogame, que a gente curte junto. Eu tenho 35 anos, mas quando a gente joga parece que eu tenho 11 anos de novo. É muito legal, e saudável também, porque nos aproxima. Mas eu sou mais o pai de dar mais disciplina, e o Glenn é o pai mais amoroso, brincalhão.

    Sobre Dia das Mães, a gente tem facilidade para lidar. Não fazemos esforço para celebrar, nem para deixar de celebrar. Só que os meninos já apontaram que sentem falta, já choraram algumas vezes, contaram da vida que tinham antes. A gente acolhe, conversa. Mas eles estão tranquilos com dois pais, eles tem orgulho, falam sobre na sala de aula, com os amigos.

    As pessoas se referem à gente utilizando uma base de preconceito, e esse preconceito todo vem de um lugar de ignorância e de intolerância. Isso vai passar com o tempo porque a sociedade está evoluindo. A gente vê muitas crianças sendo adotadas e isso vai se tornar cada vez mais natural, não vai dar mais espaço para esse preconceito. O que eu acho incoerente nesse discurso é que, então, é melhor deixar a criança no abrigo do que ter uma família que dá amor, carinho e atenção, que pode dar um futuro? É uma crueldade.

    Posso escrever um livro sobre ser pai. A melhor coisa é ver o sorriso dos seus filhos, ou quando eles vem e pedem colo porque sabem que você é o porto seguro. O tanto que eles me ensinam, coisas que estão dentro de mim e que eu não sabia sobre paciência, esse amor incondicional,  a alegria plena de ver eles crescendo e se transformando. É uma combinação de várias coisas. Ter filhos é uma responsabilidade muito grande, é um comprometimento emocional, financeiro, pessoal, temporal. É muita entrega. Mas ao mesmo tempo, você tem muita recompensa, com um sorriso, um ‘te amo, pai’, ou um beijo de boa noite.”

    Depoimento de David Miranda

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    © Arquivo pessoal

    Rafael Escrivão e Luciano da Silva Rodrigues, arquitetos

    Pais do Allan, 14 anos, e do Davi, 6

    “A chegada dos nossos filhos foi bem mais rápida que o previsto, e foi uma mudança de vida completa. Tempos de emoções afloradas, preocupações a mil e o desafio diário de vencer. A cada dia. A parentalidade teve um processo de digestão lento – necessidade de ação repentina com as mil e uma providências do dia pra noite.

    Foi um processo difícil, adotar, mas quando tudo se resolveu, foi um alívio. Não à toa que, no primeiro dia dos pais que passamos juntos, o Allan nos entregou um mimo que a escola deu, com um pequeno bilhete que dizia: “abraço de pai: a única coisa que quanto mais apertado, mais alívio dá!”. Quando li, me acabei de chorar e tatuei ‘alívio’ no braço, no dia seguinte.

    Ao chegarmos na escola, a primeira reação é sempre de espanto. Não no sentido ruim, mas em relação à curiosidade mesmo. No primeiro aniversário do Allan conosco ele tinha acabado de entrar numa escola nova. Era uma escola pequena, apenas 8 alunos na sala, e resolvemos chamar todos pra uma festa no nosso prédio. E aí apareceram com pai, mãe, irmão, papagaio, passarinho. Todo mundo curioso. Foi incrível porque o Allan se sentiu super prestigiado, levou pro lado bom, ficou feliz.

    Dentro de casa, eu sou hiperativo e abraço mais as atividades de rotina – preparo das refeições, cuidar para a casa estar sempre em ordem, as plantas, mimar o cachorro. O Luciano fica na espreita para os momentos que estou mais corrido no trabalho.

    Hoje lidamos bem com o Dia das Mães. Hoje. No primeiro da escola nova do Allan, recebi um email: ‘Festa de Dia das Mães’. Respondi, na lata: ‘ALLAN NÃO VAI’. Sim, em caixa alta. Luciano, muito mais calmo e paciente que eu, sugeriu de perguntarmos ao Allan o que ele queria fazer. E o fizemos. Para nossa surpresa, a resposta foi: ‘quero participar, pai! Vai ter uma dança, as mães têm que usar uma tiara, tudo bem um de vocês usar?’. E assim foi: Luciano usou a tiara, Allan no palco, o Davi cantou ‘Eu amei te ver’ junto ao coro do palco no meu colo. E os dois pais às lágrimas.

    Achamos que a melhor parte de ser pai é a surpresa. O fato da gente sempre achar que não vai dar conta, que está numa emboscada de areia movediça, isso nunca muda. Mas as crianças reinventam e trazem novos significados a cada experiência, memória e sonhos. Isso faz com que o inesperado, na vida dos pais, seja uma constante. Um constante incrível.”

    Depoimento de Rafael Escrivão

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    © Arquivo pessoal

    Diego de Oliveira, psicólogo e Leandro Couto, biólogo

    Pais do Daniel, 5 anos

    “Quando você está na fila de adoção, o futuro é bastante incerto, pois depende uma série de variáveis. No caso do Dani, recebemos um e-mail da Vara da Infância. Quando procuramos a Vara à qual éramos cadastrados, comentaram que localmente tinham dois casos: irmãs gêmeas de 12 anos (fora do perfil que queríamos por faixa etária) e um menino de um ano e meio que havia sido apresentado para mais de 90 casais que não evoluíram com o processo, pois ele tinha uma deficiência.

    Pedimos para ver o laudo, que falava de todas as questões de saúde da criança, mas não falava dela em si. Não falava do sorriso, das possibilidades, apenas sinalizava os problemas atuais e o quanto esses problemas poderiam se agravar no futuro. Decidimos conhecê-lo. E para nossa alegria, era ele o nosso filho. Por trás do laudo tinha o Daniel, com uma vontade enorme de evoluir. Quando ele chegou, o que costumo dizer que foi um reencontro, sentimos um amor maior que jamais pensamos que pudesse existir.

    Nossa expectativa era muito sobre nos descobrirmos na relação de pais e filho. A responsabilidade esteve sempre presente. Era uma expectativa que rapidamente se traduziu em realidade e que nos acompanha até hoje. Responsabilidade em criar alguém bom pro mundo e pra si mesmo. Descobrimos que mesmo que a criança tenha modelos e alguém que as conduza pelo caminho, ela seguirá por si fazendo suas próprias escolhas enquanto evolui na sua constituição de ser humano. E isso precisa ser acolhido e respeitado para que nossas expectativas não invadam aquilo que a fará feliz.

    Queremos dar ao Dani toda liberdade para nos dizer à medida em que quer ou precisa viver algumas experiências (estudo, viagem, trabalho, etc.) e queremos apenas lhe dar as condições e a segurança para que ele siga convicto de seus propósitos, sabendo que ele sempre terá para onde voltar e um abraço para lhe receber, caso a vida bata mais forte.

    Na escola, sempre participamos de tudo. No dia dos pais, o Dani adora fazer dois presentes. Mas antes de inserí-lo no contexto escolar, explicamos sobre as constituições familiares, e que elas podem ser diferentes: famílias que tem somente a mãe, outras que tem somente o pai, dois pais, duas mães, tios e avós que cumprem esse papel. Por isso, quando alguém pergunta pra ele ‘você não tem mãe?’, ele responde ‘não, tenho dois pais’. Ele convive diariamente com as avós e entende que elas são nossas mães e que no caso dele, essa figura está representada por dois pais.

    Já fomos questionados algumas vezes sobre quem dava banho, cortava unha ou fazia lição de casa. Quando respondemos, a pessoa imediatamente diz ‘ah! então você é a mãe!’. O maior erro das pessoas é o de olhar para nossa família como se faltasse uma peça, ou seja, como se uma família sem uma figura feminina estivesse falha ou que falta um cuidado, por não ter a mãe – um erro imenso.

    Existem muitas coisas incríveis em ser pai. Acho difícil eleger a melhor. É maravilhoso ver seu legado representado em uma pessoa na qual você tem total responsabilidade de guiar pelo caminho. E nada paga você ser visto como herói algumas vezes, receber um abraço de boa noite, ter sua rotina totalmente transformada, pois tudo isso existe para nos melhorar enquanto pessoa, enquanto cidadão e indivíduo. Ser pai é um dar e receber constante, pois à medida que você pensa que está ensinando algo, você se percebe aprendendo com alguém que te convida o tempo inteiro a olhar pra vida de outra forma, estabelecendo outras prioridades.”

    Depoimento de Diego de Oliveira

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