Como é ser pai? Com Lázaro Ramos — Gama Revista
O que é ser pai?

Lázaro Ramos: ‘É um período em que vamos criar laços para sempre’

09 de Agosto de 2020
© Julia Rodrigues (retrato) e May Tanferri (ilustração)

Pai de um menino e de uma menina, o ator Lázaro Ramos compartilha em depoimento a Gama a experiência, os desafios e os aprendizados trazidos pela convivência intensa com os filhos durante a quarentena

“Na rotina com os filhos sob os nossos cuidados, antes da quarentena, estávamos ficando cada vez mais próximos. De manhã, arrumando eles, botando o café da manhã, levando para escola todos os dias, eu ou Taís [Araújo] ou os dois juntos. Na volta, sempre tinha conversas para saber sobre o dia e, à noite, fazíamos alguma atividade. O jantar era sempre juntos e, na hora de dormir, tinha uma contação de história. Os fins de semana eram de interação com amigos e família, sempre mostrando as diversas realidades que tem na nossa família: os diversos bairros, minha cidade Salvador.

A grande mudança dessa rotina depois da quarentena foi perder o distanciamento, esse distanciamento que tinha no período em que eles estavam na escola. Agora a convivência é 24 horas, o que traz alguns desafios porque nós somos pais muito presentes. Temos uma certa consciência sobre a importância de uma infância que misture o tecnológico com o mundo mais lúdico, mais artesanal. Durante a quarentena isso tem sido uma dificuldade, principalmente depois que começamos a trabalhar. Ainda temos limite para o uso do tablet, por exemplo, mas em alguns momentos, com dor no coração, é o tablet que possibilita a gente trabalhar.

Já as tarefas de paternidade e maternidade aqui em casa sempre foram bem divididas e participativas. Não tem muito quem dá banho, quem troca fralda, quem vai ler a história, é bem em um fluxo natural, todos os dois fazem as duas coisas. Agora, acho que a maior dificuldade é a arrumação do nosso ambiente. Para isso, a gente precisou se ordenar e dividir as tarefas. Ao mesmo tempo, revela-se no mundo infantil esse desejo deles de estarem sempre experimentando, e aí tudo vira uma bagunça constante.

As tarefas de paternidade e maternidade aqui em casa sempre foram bem divididas e participativas. Não tem muito quem dá banho, quem troca fralda, quem vai ler a história

Então, precisamos coordenar muito a casa e agora cada um faz atividades num horário diferente, para ter sempre alguém que está ali um pouco mais à disposição para eles. Em alguns dias isso nem isso é possível. E descobrimos também que às vezes o ambiente vai ficar bagunçado e faz parte. Será arrumado em outro momento, se for para manter a saúde mental e a boa convivência.

Desafios da paternidade

Em relação à família, o maior desafio é estabelecer a nova cultura que vamos viver. Uma criança está acostumada a correr, abraçar, falar perto, pular, meter a mão em sujeira quando está brincando no pátio da escola ou na rua, no bairro. Hoje temos que ensinar a eles uma nova cultura. Semana passada, a gente conversou justamente sobre isso: é igual a transição de quando não se usava cinto de segurança e passamos a ter que usar — explicamos a eles que agora a nossa cultura é a do distanciamento e do uso da máscara, o jeito de cumprimentar os coleguinhas na escola, se e quando as aulas voltarem. Isso tudo é o estabelecimento de uma nova cultura e é difícil, porque nem nós, adultos, estamos acostumados com ela, mas é o que vai ser necessário para o momento. Então, é um treinamento diário.

Agora, os maiores desafios com a paternidade? No meu caso, acho que é o excesso de vontade de proteger e entender quando eu tenho que deixar eles darem o passo, para eles experimentarem. Porque às vezes, antes de a criança andar, já estamos avisando ela que ela vai cair. E isso é meio um resumo de tudo na vida: de como passamos os valores de alimentação, os valores éticos, o prazer pela educação. É um alerta que precisamos ter para não criar os nossos filhos em cima das nossas dores, da nossa vivência. Permitir que eles tenham a sua vivência também, mesmo que a gente compartilhe nossas experiências.

© Julia Rodrigues (retrato) e May Tanferri (ilustração)

Passar mais tempo com os filhos fez com que a gente conhecesse eles muito mais, isso é impressionante. Conhecemos mais as fragilidades, as forças deles, a inteligência

Uma outra coisa que acontece comigo é que eu sempre fui um profissional que viajei muito, trabalhei muito fora, e agora é muito difícil estar distante deles. Mesmo quando eu vou fazer um filme, por um mês somente, eu fico com uma dependência. É uma loucura. Isso parece ser um pouco aquela receita que faz com que quando as crianças cresçam e saiam de casa os pais fiquem lamentando. Assim como muitos pais e mães, eu também passo por isso.

E, ao mesmo tempo, é preciso criar os filhos para o mundo, também no sentido de dar recurso dentro de casa para eles enfrentarem os problemas que eles vão ter no mundo. Porque, passando da porta de casa, eles vão lidar com violência, com preconceitos, com medos, com frustrações — e o tempo todo nós ficamos tentando encontrar artifícios para deixar eles fortes para conseguirem enfrentar a vida, porque não vamos poder enfrentar por eles. Embora, de vez em quando, dê vontade de ir lá e resolver. Ou pelo menos se meter e tentar resolver.

Os aprendizados

Ainda não consigo falar sobre aprendizado da quarentena porque estou no auge, vivendo muito. Inclusive, os tempos de reflexão não têm acontecido muito. Tudo está muito agitado, no cuidado com a casa, família, filhos, trabalho, pensamentos sobre o futuro. E aí não estou tendo muito tempo de reflexão sobre esse aprendizado. No começo eu achava que ia aprender mais sobre tantas coisas, que acabaram não acontecendo.

Mas passar mais tempo com os filhos fez com que a gente conhecesse eles muito mais, isso é impressionante. Conhecemos mais as fragilidades, as forças deles, a inteligência, a capacidade deles de encontrar soluções e a dificuldade de lidar com questões emocionais profundas, como por exemplo ficar longe da escola, dos amigos e da família. Acho que ninguém está pronto para isso, mas fica muito evidente e às vezes aparecem as dúvidas sobre o que falar, o que fazer. Essa foi a grande mudança.

Por outro lado, eu tenho a sensação de que é um período da vida que a gente nunca vai esquecer e que, por isso, vamos criar laços para sempre. E é desafiador não criar feridas para sempre também —porque esse é o problema, estamos vivendo experiências que são muito extremas.”

Depoimento a Mariana Payno

Lázaro Ramos é ator, apresentador, escritor de literatura infantil e pai de João Vicente, de 9 anos, e Maria Antônia, de 5 anos.