Lideranças indígenas na linha de frente do combate ao novo coronavírus — Gama Revista
O que será da Amazônia?
© Todd Southgate

Na linha de frente

Cinco lideranças indígenas contam sobre suas batalhas, do combate à covid-19 no alto Xingu ao futuro dos jovens no Rio Negro

Bruna Bittencourt 30 de Agosto de 2020

Eles enfrentam em seu dia a dia questões que acompanhamos à distância pelo noticiário e que impactam profundamente os indígenas no Brasil – ameaça da pandemia, invasão de garimpeiros, recordes de desmatamento na Amazônia e mudanças climáticas. Dividem-se entre a cidade e a aldeia, entre o presente e a rica herança de seus antepassados.

“Esta geração de indígenas na faixa dos 20 e 30 anos nunca esteve tão em contato com o mundo dos brancos e com tanto acesso às ferramentas e aos recursos tecnológicos. Ao mesmo tempo, eles agora se veem com a enorme responsabilidade de manter viva a sabedoria de anciãos que foram levados abruptamente pela pandemia, e não foram poucos. É um desafio enorme se posicionar e promover pontes entre esses dois mundos”, diz Bruno Weis, um dos coordenadores do Instituto Socioambiental (ISA).

Construindo esses caminhos, uma liderança que combate a invasão do garimpo na Terra Yanomami, um agente de saúde que enfrenta a pandemia no alto Xingu, a coordenadora de um departamento de jovens na região do Rio Negro, um fotógrafo da Terra Wawi que viaja o Brasil documentando o movimento indígena e uma antropóloga do Amazonas formada pela Universidade de Brasília contam a Gama sobre seus trabalhos e desafios.

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    “Aqui trabalhamos juntos: pajés, raizeiros, rezadores, enfermeiros, médicos”

    Kauti Kuikuro, 39 anos, agente de saúde e técnico de enfermagem no alto Xingu (MT)

    “Somos 130 agentes de saúde e uma população de 7 mil indígenas no alto Xingu [porção sul da Terra Indígena Parque Indígena do Xingu]. Aqui, em Ipatse Kuikuro, é um ponto de apoio que atende cinco aldeias. A gente faz uma escala do trabalho: se sou convocado nesta semana, posso rodar essas cinco aldeias.

    No momento, estamos no meio da pandemia e temos muito trabalho. A doença chegou aqui em 5 de julho, uma paciente que estava na cidade se infectou lá. A gente ficou muito preocupado, tentou isolar as pessoas, mas [a covid-19] já tinha se alastrado pelas casas. Entramos em combate e controlamos [a doença].

    Agora, outras abrangências estão sofrendo. Há covid-19 em outras duas aldeias. As equipes estão lá e eu fiquei aqui na aldeia, caso tenha alguma ocorrência.

    Eu e meus colegas preparamos a aldeia antes da covid-19 chegar aqui. Todos os dias, no final da manhã e à tarde, a gente se reunia no centro da aldeia, explicava a importância do isolamento, que se a doença chegasse aqui, não poderíamos sair das casas. Durante a pandemia, todas as vezes que a gente vai às [outras] aldeias, primeiro faz uma palestra sobre a covid-19. Terminando, fazemos os atendimentos.

    Fiz o curso de agente de saúde em 2006. Quatro anos depois, fiz o curso de técnico em enfermagem e estágio no hospital em Barra do Garças [MT, próximo à divisa com Goiás], onde aprendi o conhecimento não indígena. Aqui, trabalhamos juntos: pajés, raizeiros, rezadores, enfermeiros, médicos.”

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    “Este desmatamento está deixando nosso relógio doidinho”

    Adelina Sampaio Dessana, 28 anos, coordenadora do Departamento de Adolescentes e Jovens da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN-AM)

    “Antes da pandemia, viajávamos por toda a parte para ver como estão nossos jovens e adolescentes e falar dos nossos direitos, das políticas, apresentando uma perspectiva para eles se animarem. A juventude está espalhada por povos da floresta, ribeirinhos, em comunidades distantes. Às vezes, demora até sete horas para chegarmos até eles.

    Fazemos rodas de conversa e reuniões para conhecer a realidade de todas as comunidades, além de articulação. Também debatemos na Câmara Municipal, dialogamos com prefeitos. Apresentamos projetos para conseguir algum recurso e realizar oficinas de cultura e meio ambiente.

    Com a pandemia, estamos trabalhando mais na nossa sede, em São Gabriel da Cachoeira [interior do Amazonas, próximo à fronteira da Colômbia e Venezuela, onde, além do português, há quatro idiomas indígenas como línguas oficiais]. São 800 quilômetros de distância de Manaus, três dias de barco, dois de expresso. Aqui tudo é por via fluvial, com canoa, voadeira. O Rio Negro é um lugar muito distante. São nove terras indígenas, 750 comunidades. Por estar neste cargo na Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, estou morando na cidade. Meus pais e avós vivem até hoje em território indígena.

    A juventude não tem oportunidade de estudar, trabalhar. A maioria no território indígena só tem o ensino médio. Temos reivindicado os indígenas nas universidades. A distração aqui é a bebida. O suicídio e o alcoolismo vêm aumentando, e não é só na pandemia. Temos conversado sobre a ingestão de gasolina pelos indígenas. Também buscamos fazer denúncias sobre a violência contra crianças e adolescentes.

    Na nossa área não há desmatamento, mas a gente vem sofrendo com as questões climáticas. Antigamente, você saia para trabalhar às sete horas e não era tão quente, agora parece meio-dia. Na época de chuva, não chove; quando era para estar frio, está quente. Esse desmatamento está deixando nosso relógio doidinho.”

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    “Essa doença pode causar o maior genocídio dentro da Terra Yanomami”

    Mauricio Ye’kwana, 34 anos, liderança indígena em Boa Vista (RR)

    “A Terra Indígena Yanomami [nos estados de Roraima e Amazonas] é a maior que se tem no Brasil hoje. São cerca de 9,6 mil hectares [o equivalente a mais de dois estados do Rio de Janeiro], 27 mil pessoas espalhadas em 321 comunidades. Só se chega por via aérea. Cresci na aldeia de Auaris, a 490 quilômetros de Boa Vista. Vim para a cidade com 12 anos em busca de estudo, para falar português, traduzir nossa língua e buscar alguma formação específica para poder representá-los. Voltei aos 16 anos para a aldeia e com 20 anos retornei novamente para a cidade, pensando na minha formação.

    Comecei a trabalhar em 2008 na Hutukara Associação Yanomami. Antes disso, não tinha noção dos problemas, mas conheci lideranças indígenas que falaram que eu tinha potencial para ser uma também. Comecei a atuar principalmente com os jovens, a fazer cursos com lideranças indígenas maiores. Depois, passei a fazer viagens representando o povo Yanomami e Ye’kwana. Comecei a viajar para Brasília, principalmente.

    O garimpeiro é hoje o principal vetor de transmissão da pandemia na Terra Yanomami. Onde tem atuação do garimpo, tem essa doença [covid-19]. Já estamos sofrendo. O povo Yanomami e Ye’kwana têm baixa imunidade e essa doença pode causar o maior genocídio dentro da Terra Yanomami. O garimpeiro não é só quem faz a extração de minério, é quem leva violência, doenças, gera conflito entre comunidades porque aliciam nossos jovens em troca de ferramentas, armas, bebida. Nas regiões onde têm garimpo se instalaram vilas onde há prostituição, bares, venda de drogas.

    O rio principal da Terra Yanomami está contaminado, a gente não pode tomar banho, beber água, comer o peixe porque tem mercúrio. A gente requer os órgãos públicos para fazer poços artesianos.

    Para combater isso, estamos fazendo denúncias para órgãos federais, fiscalizadores. Nós estamos com a campanha ‘Fora Garimpo. Fora Covid‘, para tirar 20 mil invasores ilegais do nosso território.”

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    “Estamos muito preocupados com anciãos e tentando protegê-los”

    Kamikia Kisêdjê (MT), 36 anos, fotógrafo e cineasta

    “Minha paixão pela fotografia começou na infância. Minha mãe conta que usava rama de mandioca como tripé e lata de leite como máquina fotográfica. Aquele barulho [da lata] era o clique para mim. Fui formado pelo projeto Vídeo nas Aldeias [escola de cinema para os povos indígenas], participei de uma oficina que eles realizaram aqui [Kamikia mora na Terra Indígena Wawi]. O primeiro trabalho que fiz na minha juventude foi registrar reuniões em áudio. No final, entregava as gravações para as lideranças indígenas que levavam para apresentar nas suas aldeias.

    Viajo a várias regiões do Brasil e do mundo, dando oficinas. Também sou colaborador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), fazendo cobertura para ajudar a divulgar a luta dos povos indígenas, e também para o Mídia Ninja. Todo ano, acompanho o Acampamento Terra Livre (ATL). Descobri que sou o único fotógrafo indígena ambiental, gosto muito de documentar a vida selvagem.

    Em 2015, recebi o convite do cacique Raoni para ser o fotógrafo dele na Cop-21 [Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada na França]. Somente eu pude acompanhá-lo nas reuniões com autoridades. No ano passado, fui cobrir o Prêmio Equatorial [iniciativa da ONU que reconhece comunidades que contribuem para a conservação do meio ambiente e para o desenvolvimento sustentável e premiou os kisêdjês], em Nova York.

    Estamos sofrendo com essa pandemia. Quando ela começou chegar no Brasil, nós, o povo Kisêdjê, bloqueamos as estradas com a campanha Fique nas Aldeias. Ninguém entra, ninguém sai, só em caso de emergência, para atendimento médico. Para voltar, é preciso cumprir uma quarentena de dez a 15 dias. Por enquanto, aqui na aldeia onde estamos, não tem nenhum caso, mas [a pandemia] chegou muito forte ao alto Xingu. Estamos muito preocupados com anciãos que moram aqui e tentando protegê-los.”

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    “A antropologia me deu oportunidade de debater questões discutidas na minha região”

    Braulina Aurora, 36 anos, mestranda em antropologia pela Universidade de Brasília

    “Sou caçula de oito irmãos, nasci e cresci na comunidade indígena Tucumã Rupitá (Komallipani na minha lingua Baniwa), Terra Indígena do Rio Negro, no Amazonas. Meus pais são analfabetos, sou a única entre meus irmãos a ter graduação e agora mestrado. Alguns deles têm o fundamental e outra cursou o ensino médio.

    Escolhi antropologia porque era o único curso que me dava a oportunidade de debater várias questões que são discutidas na minha região – educação, direito, saúde e direito das mulheres indígenas.

    Hoje, são no máximo 170 alunos indígenas entre graduação e pós-graduação, que somam mais de 70 povos diferentes na UnB. Aqui, somos dez alunos do Rio Negro. Fiquei quatro anos à frente do coletivo dos indígenas da universidade, dois anos como secretária e dois anos como presidente. Como conseguimos reativar o vestibular específico [para candidatos indígenas], recebemos do ano passado para cá 85 alunos. Também levamos a prova para São Gabriel da Cachoeira [às margens do Rio Negro, no Amazonas].

    Tenho uma relação direta com a minha comunidade, apesar de eu estar em Brasília. A gente mantém contato através da radiofonia, que é um meio de comunicação nosso na região do Rio Negro. Só fico fora no período letivo. Neste semestre, com aulas remotas, tenho que ficar aqui por conta da internet. Se voltar para lá, não tenho como assistir às aulas.”