Como ler um livro em tempos de redes sociais? — Gama Revista
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Julia Moreira / Tereza Bettinardi

Como ler mais na era das redes sociais?

São muitas distrações para aqueles que desejam mergulhar em um bom livro. Tem como melhorar essa realidade e ler mais? Gama traz caminhos

Daniel Vila Nova 06 de Setembro de 2020

“Tédio. Falta de criatividade. Confusão. Burrice. Conformismo. Desliga a televisão e vá ler um livro!”, falava o comercial da MTV exibido entre 2004 e 2005. A campanha a favor da leitura pode estar defasada do ponto de vista tecnológico — os celulares se tornaram os grandes inimigos da leitura –, mas a provocação continua relevante.

O Brasil é um dos países que mais dedicam tempo a internet, redes sociais e aplicativos de celular. Segundo a quarta edição da pesquisa “Retratos da Leitura“, realizada em 2016 pelo Instituto Pró-Livro, a média de livros lidos por ano no país é de 2,43 por pessoa.

Para Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro, o índice é preocupante. “Infelizmente, estamos abaixo da média de países vizinhos nossos da América Latina como Argentina, Chile e Uruguai. Quando falamos dos EUA e de países da Europa e da Ásia, ficamos ainda mais para trás.”

Segundo Tavares, o número pequeno é consequência da falta de políticas públicas voltadas para o incentivo a leitura, cenário que melhorou nos últimos governos mas que segue defasado.

Ainda segundo a pesquisa, jovens são os que mais leem no Brasil. + O alto índice de leitura na juventude tem relação com as leituras obrigatórias nas escolas, mas não é só isso que explica o fenômeno. “Na Bienal do Livro de São Paulo, recebemos milhares de alunos de escola públicas. Eles ficam encantados com os livros, curiosos para descobrir o que há dentro das páginas”, relata Tavares.

Para o presidente da CBL, a criação de um hábito de leitura é fundamental para quem deseja ler. “Quem tem o hábito da leitura sempre vai encontrar um livro para ler”, afirma. Se os seus dias de leitor ficaram na juventude ou você não lê mais como antigamente, Gama aponta alternativas para driblar o celular e voltar a devorar páginas (de livros, não apenas de internet).

De acordo com a pesquisa "Retratos da Leitura", 56% da população brasileira se declara como "leitora"

A sociedade dos leitores

A leitura pode ser um hábito solitário, mas isso não significa que não seja possível compartilhar a experiência com outras pessoas. Com o distanciamento social, o famoso — e antigo — clube do livro voltou com tudo.

Além dos clubes dos livros virtuais, outra prática que vem ganhando muita adesão são os clubes de leituras de editoras, onde é possível assinar um pacote e receber a cada mês um livro novo selecionado para você.

O Circuito Ubu, clube de assinatura da editora Ubu, promete livros que dialoguem com debates contemporâneos da sociedade. Para Florencia Ferrari, diretora editorial da Ubu, os clubes oferecem uma experiência literária diferente para os leitores, criando uma comunidade de conhecimento no caminho.

“Uma das características desse modelo de negócio é que você não é escolhido pelo leitor, você entra dentro da casa da pessoa. Elas são surpreendidas por assuntos que talvez não escolhessem naturalmente.”

A curadoria de editoras talvez não seja a porta de entrada para quem não tem o costume de ler, mas pode ser útil para aqueles que já leem, mas desejam ler mais. “O clube em si não vai fazer milagre. Mas uma cultura de regularidade, de hábito de leitura, acaba contaminando a pessoa”, diz Ferrari.

Na área de assinantes do site, é possível encontrar textos de apoio, entrevistas e palestras relacionadas ao livro do mês. Além disso, os leitores interagem no grupo de Facebook da editora, combinam leituras e — em um passado recente — podiam ir juntos a cursos que a Ubu oferece para os assinantes.

Existem também as assinaturas desvinculadas de editoras. Como é o caso do “Clube do livro 451“, organizado pela revista Quatro cinco um; o “Leiturinha“, clube com o foco em literatura infantil; e a TAG, que seleciona livros focados em áreas como a de negócios. Nesse modelo, a curadoria oferta livros que já estão no mercado brasileiro — mas que não se encontram no radar das pessoas.

Segundo Ferrari, essas assinaturas (de editoras ou independentes) são capazes de criar um incentivo de comunidade: “As pessoas recebem o mesmo livro ao mesmo tempo, isso cria uma relação de pertencimento, coisa que você não tem normalmente com a compra do livro individual. É uma forma de incentivar”.

Tem que correr, tem que suar, tem que malhar

Duas vezes finalista do Prêmio Jabuti na categoria Formação de Novos Leitores e dona do canal de YouTube “Ler Antes de Morrer” — que conta com quase meio milhão de inscritos –, Isabella Lubrano faz resenhas de livros e dá dicas de como melhorar hábitos de leitura.

Parte da onda de BookTubers — YouTubers focados em livros — que abalou o mercado editorial brasileiro, seu principal conselho para aqueles que buscam aprimorar sua leitura é criar uma rotina. “Eu comparo o hábito de fazer leitura com o hábito de fazer exercício. Da mesma forma que não queremos nos exercitar, não queremos ler. Mas é preciso criar resistência.”

Para ela, é por meio da disciplina que se cria o condicionamento físico para vencer a falta de concentração. Uma rotina diária, com metas de leitura e objetivos claros pode ajudar, mas a YouTuber alerta que o momento perfeito para ler jamais vai existir: “Não fica esperando cair do céu o tempo livre, você tem que criar esse tempo na sua vida”. Para ela, é preciso priorizar o hobby se você deseja ler.

A Bíblia é o gênero mais lido pelos brasileiros, seguido por livros religiosos, contos e romances

Como driblar a tecnologia

Pesquisas apontam que os hábitos digitais estão prejudicando hábitos de leitura. Isso é especialmente verdade para jovens, que cada vez mais estão desacostumados com textos longos e críticos. Afinal, mensagens e textos curtos e rápidos dominam a internet.

As pessoas estão tendo cada vez mais dificuldades em se concentrar e processar textos complexos. É como se a habilidade de leitura se atrofiasse com o uso continuo e ininterrupto do celular, explica a neurocientista cognitiva Maryanne Wolf — que dá aulas na Universidade da Califórnia em Los Angeles — em entrevista a BBC Brasil.

Existem inúmeros formatos, jeitos e maneiras de se ler, mas o celular ainda é capaz de atrapalhar todas as alternativas. Felizmente, a vida real ainda não é um episódio de Black Mirror e é possível sobreviver a tentação dos Googles e Facebooks da vida.

Um ambiente tranquilo para ler pode solucionar seus problemas. Estabelecer horários e locais para ler pode ajudar, desde que o celular, e qualquer outro dispositivo eletrônico que não um e-reader, fique longe do alcance.

Se a coceira para checar o feed do Instagram for forte, é sempre possível usar o feitiço contra o feiticeiro. Entender como e onde o seu tempo no celular é gasto é o primeiro passo para uma leitura sem interrupções.

Aplicativos como Toggl, para iOs e o Social Fever, para Android, indicam quanto tempo alguém passa em cada rede social ou aplicativo. Com essas informações em mão, é possível traçar um plano.

As novas versões do sistema iOS vem com ferramentas que podem auxiliar o uso moderado do celular e existem os apps que emitem um alerta quando muito tempo é dedicado à um aplicativo; outros chegam a bloquear outros apps para que não sejam utilizados.

Outra ótima opção é comprar um eReader. Leves e práticos, os aparelhos são perfeitos para acomodar bibliotecas inteiras na palma da mão — e é comum ouvir compradores recentes se gabarem de como eles passaram a ler bem mais devido a praticidade do device.

Você já ouviu a palavra do livro?

Mesmo com diversas opções, ainda existem aqueles que se encontram sem tempo — ou sem paciência — para as páginas a serem enfrentadas em um livro. Para essas pessoas, a solução pode ser consumir literatura em um formato diferente.

O audiobook ainda é novo no Brasil, mas com o boom dos podcasts e um consumo cada vez mais alto de serviços de streaming de música, o futuro onde livros são escutados já é realidade.

A Storytel, empresa sueca de audiobook, chegou ao Brasil ano passado e busca popularizar o formato que ainda engatinha por aqui. André Palme, o Country Manager da empresa no país, afirma que o perfil consumidor de audiobooks são de jovens, na faixa de 25-34 anos, que não tem o costume de ler livros.

“Nos audiobooks, falamos com um público que não lê muito, mas que usa outras mídias e vê no áudio uma maneira de consumir entretenimento.” Palme acredita que o áudio — multitarefa e presente no dia a dia das pessoas — tem a capacidade de romper certas bolhas, que por fatores históricos e comerciais, o livro não consegue romper. Além de criar um interesse posterior de compra e leitura do produto físico

Para ele, a literatura em áudio também oferece uma certa democratização. “As pessoas podem não saber ler ou podem ler e não entender, mas quando você conta uma história na oralidade, elas entendem.”