Chico Felitti e Alex Fernandes entrevistam Jup do Bairro sobre cancelamento na internet, lugar de fala e de silêncio — Gama Revista
Orgulho de quê?
©Fabrizio Lenci

“A representatividade é uma faca de dois gumes”

Jup do Bairro fala sobre o perigo de endeusar ou cancelar pessoas na internet, sobre seu primeiro EP e sobre lugar de fala e lugar de silêncio

Alex Fernandes e Chico Felitti 28 de Junho de 2020

No começo dos anos 2000, uma criança começou a colecionar revistas Vogue na sua casa em Valo Velho, pedaço periférico do Capão Redondo, um dos últimos bairros da cidade de São Paulo tanto em índices de desenvolvimento quanto na região sul do mapa. Aos 27 anos, a “travesti, preta, gorda e periférica”, em suas próprias palavras, estampa uma página dupla da Vogue do mês de junho de 2020. “Eu fico muito feliz com esses ingressos, mas eu não consigo me deslumbrar”, diz Jup do Bairro, a criança que cresceu e entrou nas páginas da revista.

Esse caminho entre olhar para as páginas de revistas de moda, que não tinham nenhum corpo como o seu, e de aparecer nessas revistas é o tempo de carreira artística de Jup. Em 2007, ela começou a fazer performances e rimas de improviso cujo assunto muitas vezes era seu corpo, seu bairro, sua cor, seu gênero.

Virou uma das vozes mais altas (e graves) do cenário underground. Desde então, passou pelo cinema e pela televisão — no filme “Bixa Travesti” e no programa do Canal Brasil “TransMissão”, ambos ao lado de Linn da Quebrada, uma de suas melhores amigas e de quem ela foi backing vocal por anos.

Neste mês, lança o EP “Corpo Sem Juízo”, com sete músicas que ela produziu durante mais de uma década. Nas letras, Jup canta sobre sua vida. Fala de depressão em “Pelo Amor de Deize”, em que Deize Tigrona troca o funk carioca por um refrão heavy metal. Em uma das faixas se pergunta como um corpo antes abjeto passa a ser um objeto; em outra, “Luta por Mim”, aborda a violência contra a população preta. Abaixo, Jup fala a Gama sobre orgulho, aliados e apocalipse.

O que o mundo está vivendo hoje é o que pessoas pretas e trans já passam há muito tempo, que é o medo de sair de casa e morrer

  • G |O que você acha de a gente, três LGBTQs, estarmos fazendo essa entrevista em junho, numa data comemorativa? A diversidade ainda está atrelada a uma data?

    Jup do Bairro |

    Eu acho que é importante nós termos essas datas para que a gente possa rebuscar nossas memórias, resgatar a importância das nossas lutas que já aconteceram, mas eu acho que é muito perigoso ficar detendo em um único mês específico e principalmente como a indústria, as plataformas, as marcas se interessam por esses assuntos. Eu, por exemplo, tenho recebido inúmeros convites para participar de conversas, ações e tudo mais, mas quando a gente manda o orçamento, quando a gente pede um valor para isso, acaba perdendo o interesse dessas marcas, porque nos querem de fato até a página dois e sem querer investir, sem querer abrir mão do capital de giro, inclusive, então acaba sendo uma contradição, na pior das hipóteses possíveis. Porque eu acompanho, eu gosto muito de ter as contradições enquanto característica minha, porque isso faz com que eu me mova de alguma forma, mas nessa questão assim, é muito brutal tratar esses nossos corpos como produtos de interesse datados. Então, vamos falar de negritude só em novembro, vamos falar de recortes LGBTs só em junho e acaba não tendo uma ação efetiva de transformação.

  • G |Você disse que lançar um EP durante a pandemia não foi de todo mal. Como foi esse processo?

    JB |

    Quando eu gravo “Corpo Sem Juízo”, uma semana depois é quando a OMS já inicia o isolamento social. Então, se eu tivesse atrasado uma semana essas gravações de vozes, não seria possível fazer esse lançamento. Tanto que muitos arranjos, muitas coisas que eu acabei sentindo falta nesse trabalho, eu acabei gravando por áudio de WhatsApp, assim, tentando fazer uma acústica em casa. Depois de tanto tempo tive que voltar para o armário, colocar cobertor para fazer uma acústica, então foi tudo entendendo o processo.

  • G |Uma das suas músicas novas, “Luta Por Mim”, parece ter sido escrita do ponto de vista de uma pessoa preta que foi morta, e tem trechos como “tenho mais voz morto do que vivo”. O que uma música como essa representa hoje, em meio aos protestos mundiais contra o racismo?

    JB |

    Eu acredito que esses lugares que eu levanto, que eu acabo evidenciando, eles já existem há muito tempo, que o racismo e as ações de opressão estão presentes na nossa história há muito tempo. Não deslegitimo quando alguém acha — de forma, vamos falar, ingênua — que não existe racismo no Brasil. É porque essa pessoa realmente não vê, porque essas opressões vão se sofisticando com o decorrer do tempo, então elas vão ficando, às vezes, imperceptíveis para recortes de vivências que você não obtém. Um exercício que eu tenho executado também é de eternidade, porque um dos planos da estrutura é justamente que pessoas trans e travestis não pensem a longo prazo, porque a estimativa de mortalidade de travestis é de viver até os 33 anos, é de que uma pessoa preta não pense em longevidade porque essa vida pode ser interrompida a qualquer momento por conta da estrutura opressiva. Uma coisa que eu tenho reconhecido ao longo da minha trajetória é o quanto a representatividade pode ser perigosa,  uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que você consegue criar possibilidade para pessoas que se reconhecem a partir da sua mensagem, a partir de recortes físicos, essa representatividade também pode deixar outras pessoas estáticas na questão de “ai, tem a Jup do Bairro ali, ela está me representando, então eu vou colocar toda a minha energia e responsabilizá-la por me representar e eu posso ficar aqui de forma estática enquanto eu digito ‘fada sensata’ ou vejo se cancelo ela”, sabe? Então é muito importante a gente entender esse lugar de heroísmo uno, assim, para que a gente vá para além disso e consiga realmente ter uma invasão, soldados, soldadas para a guerra que já está acontecendo há muito tempo. Porque muita gente fala sobre “estarmos no fim do tempo”, “o apocalipse chegou” e não sei o que e, sinceramente, eu acho que o apocalipse já aconteceu e a gente já está andando sobre os escombros há muito tempo. E uma semiótica que eu gosto de levantar também, inclusive sobre a pandemia, é que o mundo está vivendo hoje o que pessoas trans e pessoas pretas já passam há muito tempo, que é o medo de sair de casa e morrer.

  • G |Vi que você retificou seus documentos há pouco tempo. O que significa, para você, ter Jup escrito na certidão?

    JB |

    Olha, eu tenho pensado e refletido muito sobre isso. Tenho vindo de uma construção onde o signo feminino é pertencente a este corpo que eu estou criando, mas sou extremamente aberta às contradições. Eu acho que as informações que vão vindo do exterior é o que vai moldando a minha capacidade de identidade. Hoje a gente vê pessoas falando “ai, mas a sigla LGBTQIA+ está crescendo muito, o que está acontecendo?”, é porque essas pessoas já existiam, mas não tinha uma nomenclatura para que se sentissem contempladas. Quando comecei a minha transição, por exemplo, eu estava mirando para um imaginário de extrema passabilidade, muitas vezes cis, inclusive, e eu ia me frustrando porque eu não ia atingir. Eu ficava pensando “poxa, e minha voz que é extremamente grave e que não pertence ao corpo feminino?”, “e essa grande invasão de pelos que eu tenho e que também não são pertencentes a essa mulheridade?”, então a partir desse compartilhamento de possibilidades é onde eu me enxergo hoje como travesti. Mas já me reconheci enquanto não-binária, que daí eu acho que foi um passo inclusive para uma inserção maior. Assim, é um tipo de medinho, coloca o pé na piscina para ver se a água está muito gelada e quando vê já está jogando água para cima, já está num lugar mais fundo, acho que foi a partir disso. Hoje em específico eu estou feliz com meu corpo, sou feliz com a minha aparência, mas depois pode ser que amanhã eu olhe no espelho e diga “nossa, me deu uma vontade de colocar um peito na testa” ou de “ai, não estou feliz, acho que preciso fazer uma terapia hormonal intensa”. A falta de reconhecimento da população, [a população] acaba sendo única e exclusivamente responsável por ela. Não é um problema meu e a minha retificação vem não para me validar perante outras pessoas trans ou travestis, ou me tornar mais passável, que isso vai ser mais fácil para entrar nos banheiros públicos ou coisa parecida, mas pelo menos hoje eu posso dormir tranquila sabendo que a minha dignidade vai ser preservada pelo menos na minha morte, sabe? Eu vou ser reconhecida pelo nome que coloquei no meu território, sabe? Porque sempre foi o papel do homem cis nomear: “armário”, “cadeira”, “homem”, “mulher”. Hoje eu consigo reverter, depois de muita luta de pessoas que deram literalmente o sangue para construir momentos como esse e reivindicar o meu território e nomeá-lo.

  • G |Você saiu na Vogue de junho, em um página dupla. Qual é a sensação?

    JB |

    Foi uma sensação muito louca, esses lugares que eu tenho invadido com meu corpo, com as minhas palavras. Porque, como muitas crianças da periferia, a minha babá foi a televisão. Sempre gostei muito de apelos populares, então assistia de Eliana a Gugu, Faustão, Casos de Família, eu sempre gostei dessa versão farofa. Mas eu não me sentia pertencente ao que eu via, às notícias que lia, principalmente quando via corpos que eram parecidos com o meu de uma forma banalizada, para oferecer um entretenimento negativo e apelativo. Na minha adolescência eu comecei a flertar muito com a moda e meios de comunicação de moda e jornalismo, daí, sinceramente, eu era cadelinha da Vogue, porque a Vogue é um dos principais veículos de moda do mundo e do Brasil. Quando recebi esse convite, eu não vou mentir que eu fiquei muito pensativa por conta das derrapadas que essa moda tem dado também, de como esses veículos mais antigos acabam caducando e de certa forma parando no tempo. E daí foi quando pensei que de fato nós precisamos exercer a disputa de espaço, sabe? É justamente ter numa revista de veículo nacional de moda tendo que se abrir para mim, porque não fui eu que cheguei na Vogue, eu não pedi para que a minha imprensa contatasse a Vogue e falasse “eu quero uma pauta, toma X dinheiro”, foi a Vogue que veio falar comigo. Então é muito importante ter essa disputa de mercado, principalmente ocupando duas páginas de uma revista de tanta influência. Sempre tive muita revista, então eu tenho uma coleção da Vogue, por exemplo, de anos, e tenho uma coleção da Rolling Stone quase completa e daí também saí no Hot List [lista que destaca artistas] da Rolling Stone, é um lugar muito importante.

  • G |Está acontecendo um debate acalorado em cima da Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, que é a maior do mundo. Travestis, drag queens e mulheres trans mais velhas afirmam que foram excluídas da versão digital do evento, que aconteceu semanas atrás. Você tem acompanhado esse diálogo? Onde se posiciona nele?

    JB |

    Eu tenho acompanhado, e tem uma entrevista muito completa que a Kaká di Polly deu por esses dias que eu achei muito pertinente. De quão problematizador são essas ações únicas e exclusivas e como elas vão se tornando ações de sofisticação para ignorar outros corpos. Apesar da Kaká di Polly ainda falar Parada Gay [o nome oficial do evento é Parada LGBTQIA+], ainda por pertencer a um outro tempo, o que é muito pertinente é justamente as colocações que ela levanta de não ter grandes representações pretas, grandes representações trans, travestis, de homens trans, de outros signos trans e ficar detido única e exclusivamente a youtubers e a essa representatividade que interessa às marcas. Quando eu penso em orgulho, por exemplo, penso no que eu preciso me orgulhar e principalmente levantar esses nomes de que me orgulho, nomear essas pessoas que vieram antes de mim, se não a gente tem a síndrome “Only girl in the World” [música de Rihanna, que significa “única garota do mundo”, em português], de gente que acaba achando que é detentora de todos os acessos, de todas as informações por conta de números de seguidores e isso não é influência real, isso é influência digital. Eu acredito que seja até um apagamento da nossa história enquanto comunidade mesmo. Uma pessoa tão importante quanto a Miss Biá [transformista pioneira da noite de São Paulo, que faleceu em maio, aos 82 anos, vítima do novo coronavírus] morre e não tem uma homenagem para ela, nem sobre o assunto mais importante de todos, que é o Covid. A gente não pode ignorar o quanto pessoas fizeram esse momento acontecer para a gente lá atrás, as nossas velhas, as nossas anciãs, as nossas ancestrais.

  • G |Para você, existe a figura de aliado da luta LGBTQIA+? O que deve fazer alguém que não é da comunidade, mas quer ajudar?

    JB |

    Então, são os famosos simpatizantes, né? A louca (risos). Era o S, do GLS. Eu acredito muito na importância de pessoas aliadas e acredito que essas pessoas têm papel fundamental para diálogo das vivências que temos. Porque é muito importante lembrar que a LGBTfobia, o racismo, ou qualquer mecanismo de opressão, ela não é responsabilidade de quem sofre, é justamente das pessoas que exercem. Um exemplo que eu gostaria de dar, que eu fiquei muito pensativa, é quando começou aquela manifestação de artistas cedendo as suas redes para ocupação de pessoas pretas. A princípio eu falei “Nossa, gente, é muito isso, estão fazendo o que a Princesa Isabel não conseguiu fazer lá atrás”. Mas depois eu fui entendendo que rola até uma preguiça porque aquela manifestação de colocar essas pessoas nessas redes, elas fazem com que sejam informações colocadas goela abaixo, empurrando, forçando. Eu acredito que não seja essa a melhor solução. Acho que é muito mais importante instigar a curiosidade daquelas pessoas do que ficar enfiando informação goela abaixo, que às vezes pode alimentar o racismo que já está ali, algum “ismo” ou alguma fobia que já está ali naquela pessoa a ponto de florescer justamente por ela não ter tido o interesse. O coringa da nossa geração é o local de fala, muito se diz sobre isso, e uma posição que a Djamila Ribeiro levanta, por exemplo, é que o meu local de fala não significa o seu local de silêncio, o meu local de fala significa que eu vou falar a partir da minha vivência, das minhas experiências e tu vai falar a partir da tua vivência e das tuas experiências. Então, para que a gente consiga realmente fazer uma ação efetiva, eu acho que essas próprias pessoas, influencers, artistas, podiam se informar e transmitir essas informações para o seu público, porque senão fica detido sempre no travesti fala sobre travesti, não sei o que. E é muito importante que essas pessoas falem também sobre recortes que não te pertencem, mas sem se colocar no lugar delas, colocando a partir da sua perspectiva, a partir do seu entendimento. Então eu acredito sim no poder das pessoas aliadas, mas a provocação que eu levanto é de ser aliado sem ser alienado, entender qual é o seu papel na importância dessas lutas, que é de responsabilidade tão nossa quanto, e principalmente, delas.