A felicidade no verão — Gama Revista
Outros verões

Por que a gente fica feliz no verão?

Cristina Nabuco 10 de Janeiro de 2021
Unsplash/Guilherme Falcão

Corpo e mente são transformados pela estação mais quente do ano. Mudanças químicas e de atitude explicam por que o calorão mexe tanto com a gente

“Vem chegando o verão, um calor no coração”, anuncia o hit “Uma Noite e Meia“, de Marina Lima. “Tempo de ser feliz”, decreta Ivete Sangalo em “É Verão“. “Tempo de abrir o coração e sonhar”, convida a banda Roupa Nova em “Canção de Verão“. Até o mais famoso bardo, o poeta e dramaturgo William Shakespeare, rendeu-se à estação, entrelaçando histórias de amor e magia no clássico “Sonhos de uma Noite de Verão”.

De onde vem a fascinação por este período que vai de 21 de dezembro a 21 de março no hemisfério sul? Dias mais quentes e longos de sol intenso? Céu azul? Chuvas fortes e passageiras? Uma área específica, a Psicologia Ambiental, estuda o comportamento humano em relação ao meio ambiente. “O clima influencia, mas não determina”, avisa o psicólogo Armando Ribeiro, especializado em Medicina Integrativa pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. É provável que isso e muito mais – como a maior interação entre pessoas nas ruas, parques e praias e a chegada das férias – tudo junto e misturado, estimule a extroversão, lançando no ar a vibe da alegria. Gama tratou de desvendar a combinação de fatores que deixam o corpo e a mente mais saudáveis e equilibrados e fazem desta época a mais celebrada do ano.

Origem remota

“Gostamos mais do verão porque grande parte da evolução do nosso cérebro ocorreu em locais quentes”, afirma a neurocientista, arquiteta e engenheira Claudia Feitosa-Santana, pós-doutora em Neurociência pela Universidade de Chicago, nos EUA, e professora convidada da Casa do Saber. “Verão é sinônimo de vida, com sol, água, verde, cores, pássaros, etc. Vivemos mais livremente (com menos roupa) e despreocupadamente (com comida à vontade, por exemplo). ”

Verão é sinônimo de vida, com sol, água, verde, cores, pássaros, etc. Vivemos mais livremente e despreocupadamente

Claudia diz que até a nossa preferência por cores é influenciada por esse padrão. “Universalmente, a cor favorita é o azul. Por quê? Em locais quentes onde evoluímos há muito céu azul.” Junte-se o simbolismo relacionado ao sol, que atravessa as gerações, destaca Armando Ribeiro. “Reverenciado em culturas antigas como Deus, o sol é associado à expansão, euforia, felicidade.”

Bendita luz

Uma das razões de nos tornarmos mais felizes nessa época do ano é que somos inundados por mensageiros químicos que trazem sensação de bem-estar. Sua produção é ativada pela luz solar. Caso da serotonina, o neurotransmissor do prazer, que também regula o humor, o sono, o apetite, a temperatura corporal. Alguns trabalhos sugerem que ela é sintetizada na pele sob efeito dos raios ultravioletas. Isso talvez explique o apelo popular do banho de sol, o desejo de ficar o dia todo na praia ou na piscina. E o bom humor que em geral se experimenta depois.

Os primeiros raios solares da manhã ativam a produção de cortisol, o hormônio que nos desperta e traz energia

“O sol nos faz mais felizes e então há mais serotonina na circulação, mas ela caminha junto com outros neurotransmissores e hormônios no nosso cérebro”, informa Claudia. A luz também ajusta o nosso relógio interno, acertando os ritmos de sono e vigília. “Os primeiros raios solares da manhã ativam a produção de cortisol, o hormônio que nos desperta e traz energia; com o anoitecer, o cortisol cai e é liberada a melatonina, que vai criar as condições ideais para o sono. Esse equilíbrio afeta a produção de outros hormônios, favorece o combate aos radicais livres e a regeneração dos tecidos, impacta o humor e a saúde”, explica Armando. A falta de luz solar é o principal desencadeante da depressão sazonal, comum nos países muito frios, onde as noites são longas e os dias, curtos e cinzentos.

Poderosa aliada

Os raios de sol também são essenciais para a produção de vitamina D sob a pele. Inicialmente ela era conhecida apenas por melhorar a absorção de cálcio e ajudar a fortalecer o esqueleto. Mas seu campo de ação vai muito além. Cientistas da Universidade de Oxford, na Inglaterra, localizaram receptores para a vitamina D em 229 genes do nosso corpo, o que demonstra sua importância para a saúde. Quase 90 mil artigos científicos listados no site PubMed, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, relacionam a carência dessa vitamina ao aparecimento de obesidade, diabetes, esclerose múltipla, câncer, depressão e até Alzheimer.

“A depressão está muito ligada a um estado inflamatório decorrente do estresse crônico”, revela o psiquiatra Kalil Duailibi, do Departamento de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina. “A vitamina D aumenta as citocinas anti-inflamatórias e melhora esse quadro.” Pelo sol que faz o ano todo nos trópicos era de se supor que estaríamos livres deste perigo. Mas diversos estudos encontraram níveis baixos no Brasil. Um dos mais surpreendentes foi feito pelo endocrinologista Francisco Bandeira, professor da Universidade de Pernambuco (UPE), que analisou pacientes do Recife com diagnóstico de infarto: 85% tinham carência de vitamina D.

Imagine agora com as pessoas isoladas dentro de casa. Circulam pelas redes sociais vídeos incentivando a suplementação da vitamina para prevenir a covid-19. “Ela melhora o sistema imunológico, mas é prematuro dizer que teria ação contra o SARS-COV-2”, diz o psiquiatra. Ele aconselha dosar os níveis no sangue: se estiver abaixo de 30 nanogramas por mililitro (ng/ml), recomenda-se a reposição com orientação médica. “Doses excessivas podem prejudicar o metabolismo ósseo e a função renal”, alerta.

Também vale a pena tomar sol. Os raios mais eficientes para a produção da vitamina D são justamente os mais perigosos para câncer de pele, entre 11h e 15h. E o uso de protetor solar reduz a síntese. Para não se privar – nem deixar seu dermatologista de cabelo em pé – Kalil orienta expor-se neste intervalo, com rosto protegido por filtro solar e pernas e braços sem proteção durante 20 minutos, depois passe o protetor nessas áreas e prefira a sombra.

O auxílio da natureza

No verão, o calor e os dias mais longos estimulam a visitar praias e parques, o que ajuda a aliviar o estresse. Está comprovado: faz bem para o corpo e para a alma. “A gente saiu da natureza, mas a natureza não saiu da gente”, diz Armando Ribeiro. Várias pesquisas têm avaliado e mensurado os efeitos físicos e emocionais de caminhar no bosque, o que os japoneses chamam de “banho de floresta”. Após entrevistarem 1.538 moradores da cidade australiana de Brisbane entre 18 e 70 anos de idade, cientistas concluíram que aqueles que passavam mais tempo em parques (pelo menos 30 minutos por semana) tinham níveis mais baixos de pressão arterial e menor incidência de depressão e ansiedade. Os que faziam esses passeios com mais frequência apresentavam melhores índices de interação social. O estudo foi publicado em junho de 2016 na revista Nature.

Uma equipe da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, revisou 142 trabalhos sobre o tema e concluiu que o contato com o verde promoveu reduções significativas na pressão arterial, na frequência cardíaca e na produção de cortisol, que em níveis acentuados conduz ao estresse. Observou-se também menor incidência de diabetes e mortalidade por doenças cardíacas. O artigo foi publicado no periódico Environmental Research em outubro de 2018.

Mais atividade aeróbica

O estudo de Brisbane também verificou que passeios mais duradouros e frequentes às áreas verdes favorecem maiores níveis de atividade física. O exercício, especialmente aeróbico, como caminhada, corrida, bicicleta e dança, estimula a produção de betaendorfinas, nosso analgésico natural. Além de atenuar a dor, confere sensação de bem-estar, alivia a ansiedade e o estresse, contribui para o equilíbrio emocional.

No final de novembro, a Organização Mundial da Saúde atualizou suas diretrizes sobre atividade física, enfatizando que pessoas de todas as idades e habilidades devem se movimentar. “Ser fisicamente ativo é fundamental para a saúde e o bem-estar e pode adicionar anos à vida e vida aos anos”, disse na ocasião o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom. “Cada movimento conta, especialmente agora que gerenciamos as restrições da pandemia de covid-19.” A orientação é praticar pelo menos 300 minutos de atividade aeróbica moderada ou 150 minutos de atividade vigorosa por semana para todos os adultos, incluindo quem tem doenças crônicas, e uma média de 60 minutos por dia para crianças e adolescentes.

Ação relaxante

Banho relaxa, seja no chuveiro, na piscina ou no mar. Mas neste último há ainda o efeito calmante de olhar o azul infinito e ouvir o vaivém das ondas. Em 2011, na primeira edição do Blue Mind Summit, evento anual que reúne pesquisadores interessados nas conexões entre o cérebro e o oceano, a neurocientista Shelley Batts, da Universidade de Stanford, nos EUA, informou que os sons mais agradáveis aos seres humanos têm padrões de ondas previsíveis, volume suave, frequências harmônicas e intervalos regulares. É o caso do som do mar, um dos mais evocativos e eficientes na redução dos níveis de cortisol. “Há evidências de que ativa memórias profundas e sentimentos de relaxamento e segurança que remetem às batidas do coração de sua mãe enquanto você estava no útero.”

O som do mar ativa memórias profundas e sentimentos de relaxamento e segurança que remetem às batidas do coração de sua mãe enquanto você estava no útero

O organizador do evento, o biólogo e explorador Wallace J. Nichols escreveu o best-seller “Blue Mind” (Editora Back Bay Books, 2015, sem tradução em português), em que utiliza dados científicos para mostrar que estar perto, sobre ou embaixo d’água pode deixar a pessoa mais feliz, mais saudável e mais conectada. Nichols compara nadar e mergulhar à meditação: os padrões de respiração adotados durante essas práticas estimulam o sistema nervoso parassimpático (a parte autônoma que regula funções como o batimento cardíaco e a respiração), a ponto de alterar de modo positivo as ondas cerebrais e acalmar a mente.

Desejo em alta

As pessoas transam mais nos lugares quentes, constatou um levantamento feito por um fabricante de preservativos que ouviu mil homens e mulheres acima de 18 anos nos Estados Unidos em 2010 (Trojan’s Degrees of Pleasure). A cidade campeã foi Miami. E a melhor condição climática para o sexo foram os períodos de chuva. As explicações são várias. A psiquiatra Ashwini Nadkarmi do Brigham and Women’s Hospital da Escola de Medicina de Harvard diz que a serotonina, em alta no verão, é peça-chave na habilidade de experimentar prazer. Há também indícios de que o sol ativa a síntese de oxitocina, que estimula a estabelecer relações, e testosterona, que desperta a libido.

A serotonina, em alta no verão, é peça-chave na habilidade de experimentar prazer

Além disso, investigadores da Universidade da Califórnia localizaram no suor masculino uma substância com ação afrodisíaca, o feromônio androstadienone: afeta a produção de hormônios no sexo oposto, interferindo no humor e no desejo. Para completar, nessa época passamos mais tempo fora de casa, socializando, o que aumenta as oportunidades de interação, lembra Armando Ribeiro, e usamos menos roupas, portanto, exibimos mais curvas e músculos, o que mobiliza a atração. Por fim, como o verão muitas vezes coincide com as férias, a ausência de horários rígidos dissipa o estresse e pode acordar o desejo.

Existem exceções

Embora a maioria das pessoas prefira o clima quente, há quem não tolere o calor e inclusive sofra de depressão sazonal de verão, menos frequente que a de inverno, só voltando a ficar bem quando os termômetros começam a cair. “O inverno nos impulsiona a ser mais organizados e nos planejar para o futuro”, considera Claudia Feitosa-Santana. “Como somos extremamente adaptáveis, podemos viver bem em situações extremas, como nos países nórdicos, que se destacam entre os mais felizes do mundo mesmo com um inverno longo e rigoroso.” O segredo talvez seja desfrutar o que for agradável e fazer adaptações, como recorrer às luzes para compensar a escuridão ou ao ar-condicionado para garantir uma temperatura amena, quando necessário.