Conheça a história da sunga — Gama Revista
Outros verões

E a sunga?

Gabriel Monteiro 10 de Janeiro de 2021
Gianfranco Briceño/Bannana

Da versão usada pelos indígenas ao acessório que provocou a ditadura brasileira, há recato e libertinagem por trás da evolução da tanga masculina no país

Embora a sunga não tenha sido criada no Brasil, pode-se afirmar com segurança que, em um país tropical e praiano como este, está garantida a sua identidade nacional.

No Brasil, os povos indígenas já experimentam, há milhares de anos, versões ancestrais dessa roupa. A tanga marajoara, por exemplo, tem pelo menos 3,5 mil anos e, feita de argila, acompanha a anatomia pubiana. As índias yanomami, por sua vez, criaram tangas para os homens com miçangas, enquanto as camacãs, famosas pelo domínio da fiação de algodão, produziram modelos de tecido.

Essa tradição pode ser a explicação da familiaridade local em relação à peça, mas não explica a sua origem, uma vez que as peças indígenas eram encarada como um adorno ou até como parte de rituais e não serviam especificamente para cobrir a genitália masculina durante os mergulhos. A sunga que usamos até hoje, de autor e origem desconhecida, tem sim a ver com o pudor dos homens nas águas.

Era da janela de sua casa que Alair Gomes fotografava homens praianos curtindo o calor carioca
Era da janela de sua casa que Alair Gomes fotografava homens praianos curtindo o calor carioca
Biblioteca Nacional

Banho livre

O banho não foi uma prática comum no Ocidente cristão até pelo menos o final do século 18. Durante a Idade Média, o nado era considerado até mesmo imoral. Nos raros momentos em que se nadava, os mergulhos eram de corpos nus ou cobertos por peças íntimas. Foi apenas no século 19 que o nado virou uma prática na Europa, quando médicos incentivavam como remédio no tratamento de doenças. Naquela época, o Estado passou a controlar a atividade bem como a regularizar o vestuário para ela. Na Inglaterra, em plena Era Vitoriana, nascem as leis de decência pública e o banho nu é proibido. E foi então que surguriam os primeiros protótipos de vestuário para água são criados.

A Burberry, marca britânica criada em 1856 e famosa por seus trench coats, produz os primeiros agasalhos aquáticos (sim, agasalhos!), enquanto outras confecções investem em itens para rios, lagos e mares. Esses produtos eram feitos de lã — a Lycra só apareceria quase cem anos depois, em 1969 — e pesavam mais de dez quilos quando molhados.

No Brasil, a tradição do banho diário só foi adotada culturalmente pela nova sociedade brasileira no final do século 19, quando passou a ser incentivada por Dom Pedro II. Antes disso, mesmo com uma das orlas mais ricas do mundo, a elite da época não dava o devido valor às possibilidades de sua geografia. Um exemplo desse desdém é que as construções do Rio de Janeiro até o final do século 19 nem ficavam viradas para o mar, como hoje é tão comum e desejado.

No Brasil, quem registrou bem como o brasileiro se vestia no começo dessa nova relação com o mar foi o fotógrafo alagoano Augusto Malta. Residente do Rio de Janeiro, então capital do país, ficou conhecido como um dos principais cronistas visuais da cidade no início do século 20 ao mostrar, entre outras coisas, como os banhistas andavam bem cobertos em 1918 na praia de Copacabana. Macacões, macaquinhos e maiôs de estilo navy cobriam os corpos dos homens retratados por Malta e também desenhados pelos ilustradores Raul Pederneiras e J. Carlos nas primeiras revistas impressas do país.

As lentes do fotógrafo alemão Von Peter Fuss já capturavam, em 1935, uma praia de Copacabana onde homens de sunga já circulavam pela orlaPeter Fuss

Free the nipple masculino

Nos Estados Unidos, em 1917, é feita a primeira regulamentação que ditava que roupas eram permitidas nos mergulhos públicos da América do Norte. Ela determinava que o homem ficasse coberto do pescoço ao joelho “porque não era conveniente se apresentar com o torso à mostra”, explica Miti Shitara, professora de história da moda da Faculdade Santa Marcelina. Nessa década, a evolução da modelagem chega ao aqualouco, um macaquinho feito de malha (teve até grupo de humor brasileiro batizado em sua homenagem), e aos maiôs inteiros, cuja parte de cima era cavada como uma regata. O traje completo da época ainda contava com sapatilhas de couro nos pés.

“Os homens do povo usavam apenas a parte de baixo desde a década de 1910, mas isso era considerado despudorado, um não compromisso com a elegância”, afirma Shitara. E, como dito anteriormente, em muitos lugares até mesmo crime. Foi só em 1937 que as praias de Atlantic City, em Nova Jersey, viraram o palco de uma manifestação que ficou conhecida como o “no shirt movement” (movimento sem camisa, em português), que reuniu homens em afronta à legislação local com seus peitorais expostos. Eles foram detidos, mas conseguiram afrouxar as leis pelo mundo.

Os rapazes eram influenciados não só pelos menos abastados como também por um dos maiores galãs do momento: Johnny Weissmuller. Atleta olímpico, ele foi o primeiro homem a aparecer nas telonas sem o peito coberto, em 1932, quando interpretou Tarzan, em “Tarzan, The Ape Man”, e foi também o garoto propaganda de uma das primeiras marcas de roupa de banho a fazer modelos menores, a norte-americana BVD Swimwear.

No Brasil, as lentes do fotógrafo alemão Von Peter Fuss já capturavam, em 1935, uma praia de Copacabana onde o #freethenipple masculino era bem comum. Genevieve Naylor, fotojornalista norte-americana que se mudou para o Brasil na década de 1940 também clicou brasileiros bem tranquilos com o torso exposto. Essas imagens iam direto para as páginas da revista Life. A sunga, enfim, reinava no país.

Alair Gomes

Quanto menor, melhor

Se o acessório então já tinha um tamanho reduzido, na segunda metade do século 20 ele encontrou nos movimentos comportamentais caminhos para ficar ainda menor. “A moda não vem mais de cima para baixo, é feita de baixo para cima, com influência do pobre, da classe trabalhadora e dos jovens”, diz Shitaro. “E isso se deu na simplificação da roupa, inclusive a de praia.”

O mundo também passou a prestar mais atenção às práticas atléticas e, consequentemente, ao corpo escultural. Os músculos masculinos à mostra são fotografados à exaustão por Bob Mizer, em seu Athletic Model Guild, com modelos em tangas pequeníssimas. A imagem da seleção australiana de nado, que ganhou oito medalhas de ouro nas Olimpíadas de Melbourne, em 1956, também rodou o mundo com todos usando apenas sungas Speedo.

Nos anos 1960, a cintura cai — e muito! — em um movimento que ficou conhecido como Saint Tropez. O corpo quase todo exibido não foge aos flagras de um dos maiores fotógrafos do Brasil, Alair Gomes (1921-1992). Foi da janela de sua casa que ele documentou os corpos desenhados dos cariocas andando pelas calçadas, se exercitando na areia, pulando no mar, sempre com a pélvis para jogo.

Foi nessa época também que a ideia de uma roupa essencialmente masculina e outra essencialmente feminina foi questionada e a tanga virou acessório comum aos gêneros. O livro “O Biquíni Made in Brazil” (editora Arte Ensaio, 2019), da jornalista de moda Lilian Pacce, explica como o item foi disseminado no país. Um dos principais responsáveis foi David Nissin Azulay, dono da marca Blue Man, durante a década de 1970. Naquela época, a única missão da tanga era cobrir o limite da genitália e nada mais.

Ney Matogrosso e Caetano Veloso botaram a tanga à mostra nos anos 1970Reprodução

É ao longo deste período que ela adquire novo significado e vira símbolo de rebeldia em tempos de ditadura militar. Ney Matogrosso resgata a tanga indígena em seu grupo Secos e Molhados, ao mesmo tempo que os Dzi Croquettes escandalizam nos palcos vestindo o item, em 1972. Uma no depois, Caetano Veloso coloca a virilha em primeiro plano na foto do álbum Araçá Azul (1973). Começa ali o caminho para o minimalismo extremo, que culmina no fio dental pelas mãos do austro-americano Rudi Gernreich, em 1974 — esse embrião do tapa sexo chamado de “The Thong” foi pensado tanto para as meninas quanto para os meninos.

No Brasil, o marco desta ousadia ficou com Fernando Gabeira, no verão de 1979 para 1980. O jornalista tinha acabado de voltar do exílio, quando foi visto na Praia de Ipanema com a tanga da prima Leda Nagle. Na Folha de S.Paulo a peça foi descrita como “a maior bandeira de marketing político comportamental de 1980”, neste ano que foi o primeiro de abertura pós-anistia. A tanga de crochê de Gabeira é tão parte da história do país que hoje está no acervo do Centro Cultural Banco do Brasil.

A tanga vestida por Fernando Gabeira no verão de 1979/1980 é tão histórica que hoje faz parte do acervo do Centro Cultural Banco do BrasilReprodução

Outro estandarte da versão micro da sunga dos anos 1980 é o “menino do Rio”, aquele “que provoca arrepio”. José Arthur Machado, o surfista Petit que inspirou a canção, estava sempre com a sua tanga no começo dos 1980. E ela esteve também no corpo do ator Evandro Mesquita, quando o filme de mesmo título estreou em 1981.

“Mas a moda é espiral e gira em torno de si mesma, ainda que não se repita”, lembra a professora Miti. E, em 1990, os ringues das lutas marciais, junto com a marca norte-americana Bad Boy transformou a sunga em um shortinho, fazendo-a ressurgir em tamanho maior sob o nome de boxer. Nos anos 2000, a perna fica ainda mais coberta por influência dos novos surfistas — a fase das bermudas e bermudinhas mais largas. Esse movimento, inclusive, aparece em todos os setores da moda, seguindo a tendência do extra large.

Sungas da marca Bannanna que resgatam a modelagem cavada dos anos 1980Gianfranco Briceño/Bannana

Mas não por muito tempo. Hoje a sunga cavada, a Speedo style, é recuperada por marcas brasileiras e até mesmo internacionais. “O brasileiro tem corpo bonito e mostra isso. Nós até valorizamos demais a aparência, às vezes de um jeito exagerado”, afirma Miti. “Nossa costa litorânea gigantesca sempre nos seduzirá a ficarmos um pouco mais despidos.”