Carla Domingues: ‘É inadmissível ver pessoas morrendo e enviar vacina a conta-gotas’ — Gama Revista
Qual o papel da ciência?

‘É inadmissível ver pessoas morrendo e enviar vacina a conta-gotas’

Isabelle Moreira Lima 31 de Janeiro de 2021
Guilherme Falcão

A falta de rumo na condução da pandemia poderia ser revertida com atenção aos dados atuais e à experiência de vacinações passadas, diz a epidemiologista Carla Domingues, responsável por grandes campanhas nacionais como a de H1N1

Estamos sofrendo de falta de estratégia. A experiência do país com outras doenças no passado e os dados epidemiológicos atuais, que poderiam nortear o enfrentamento da pandemia, estão sendo ignorados. O efeito disso é o que já estamos vivendo, mortes por asfixia e uma campanha de vacinação sem rumo ou diretriz, que pode durar um ano ou mais.

A preocupação é de Carla Domingues, epidemiologista e doutora em saúde pública com especialização na Universidade Johns Hopkins e na Universidade do Sul da Flórida, ambas nos EUA. Segundo ela, Manaus é um exemplo claro desse mau uso de experiência e dados, que deveriam ter pautado uma ação de vacinação massiva no local, em vez de ter doses pulverizadas em diferentes municípios brasileiros.

“É inadmissível ver pessoas morrendo, ter uma medida de intervenção possível e enviar vacina a conta-gotas. Era fundamental olhar esses dados epidemiológicos e definir uma estratégia mais pontual”, afirma na entrevista a Gama com a experiência de quem coordenou o PNI (Programa Nacional de Imunizações), do Ministério da Saúde, e foi responsável pela organização da política de vacinação do país de 2011 a 2019. Leia a seguir.

“A resposta que damos à sociedade sobre um problema emergente vem da ciência. Sem ela, ficaremos sempre dependentes”

  • G |Qual é o maior entrave à ciência brasileira hoje?

    Carla Domingues |

    O Brasil investe muito pouco em pesquisa e desenvolvimento, os projetos não têm continuidade ou são muito morosos, a gente vê muitas patentes que não encontram o caminho para desenvolver os produtos. As universidades desenvolvem produtos e processos, mas não há uma ligação com as indústrias. Essa dissociação dificulta todo o processo.

  • G |É apenas uma questão de investimento ou há outros entraves? Há um caminho para alcançar mais autonomia no desenvolvimento das vacinas, por exemplo?

    CD |

    É a organização das universidades com as indústrias, um trabalho de parceria para desenvolver produtos que atendam às necessidades do mercado. Sem essa rede estruturada, organizada, são desenvolvidas pesquisas que ficam só na bancada ou que acabam não atendendo às necessidades do mercado como um todo. E, ao mesmo tempo, o mercado não utiliza essa rede das universidades para desenvolver produtos que têm a demanda do mercado.

  • G |E o impacto a longo prazo dessa pandemia, é possível imaginar um país e um mundo em que a ciência seja mais valorizada em cinco ou dez anos? Ou será que, superada a covid-19, a gente volta às velhas práticas e dificuldades?

    CD |

    Difícil dizer. Espero que isso aconteça. Mas se a gente olhar para trás, para 2010, quando ocorreu a pandemia de influenza, vimos um fortalecimento da estruturação do SUS. Não havia uma rede de investigação de casos e de diagnóstico laboratorial, que foi estruturada durante a pandemia. Hoje ela atua em todos os estados. E mesmo no Programa Nacional de Imunizações, só idosos foram vacinados naquele momento contra a gripe. Hoje, a vacinação é de 80 milhões de brasileiros. No desenvolvimento, no parque industrial da saúde, o que a gente conseguiu evoluir com a pandemia de influenza? A vacina de influenza estava num acordo de transferência de tecnologia já desde 1999 e só terminou em 2017, quase 20 anos para um produto que você precisava com premência. E agora, na covid-19, no Brasil, só Biomanguinhos teve capacidade de desenvolver kits de diagnóstico, no entanto, sem conseguir atender a demanda do país. Assim, continuamos dependentes do mercado internacional. Ficou claro que sem o desenvolvimento a gente não consegue superar essas dificuldades. Veja a Coreia do Sul: é o país que mais fez diagnóstico e rastreamento porque eles tiveram a capacidade de produzir kits rapidamente. A resposta que damos à sociedade sobre um problema emergente vem da ciência. Sem ela, ficaremos sempre dependentes.

  • G |Acompanhando o noticiário temos a impressão de que voltamos à Idade Média, com perseguições à ciência e a busca por soluções mágicas. Qual o tamanho do estrago desse negacionismo?

    CD |

    O brasileiro acredita em vacina, ele sempre atendeu ao chamado do Ministério da Saúde nos momentos cruciais desde 1904, depois da Revolta da Vacina, quando a população se rebelou mas depois entendeu que era necessária para controlar a varíola e a febre amarela. É difícil imaginar grupos antivacina e o negacionismo de outros países com repercussão importante. Vamos avaliar ainda qual será o impacto disso aqui no Brasil: se conseguiremos em função da organização e da estrutura do SUS para alcançar a população — o que nos diferencia dos outros países — superar o negacionismo ou não. Certamente vai exigir mais dos serviços e dos profissionais de saúde, de uma estratégia mais agressiva, do que foi feito em tempos passados.

  • G |O Brasil sempre fez grandes campanhas unificadas e agora vemos uma pulverização. O governo federal foi lento, o de São Paulo correu por fora, tentou buscar um protagonismo, e agora até as empresas estão se unindo para comprar a vacina. Qual o impacto disso na saúde pública?

    CD |

    Um retrocesso gigantesco. Quando você olha a história do Programa Nacional de Imunizações, na década de 1970, você tinha justamente esse cenário: empresas que conseguiam comprar vacinas para os seus funcionários, os estados que tinham reforço financeiro também o faziam e isso não tinha o menor impacto na redução da carga da doença. Só depois da criação do Programa Nacional de Imunizações e do fortalecimento das ações, da universalização com acesso gratuito na rede pública e da vacina garantida como direito do cidadão, é que conseguimos eliminar e controlar as doenças. Assim como o negacionismo da ciência, esse caminho individual a história já mostrou que não funciona. Em vez disso, temos que brigar para que o governo federal seja o protagonista e que garanta a universalidade das ações de vacinação. Nosso papel enquanto cidadão, enquanto político, enquanto industrial, é cobrar.

  • G |Qual foi o maior desafio que enfrentou no Plano Nacional de Imunizações?

    CD |

    Coordenar a campanha de vacinação da H1N1 [que aconteceu em 2010], que em três meses atingiu quase 90 milhões de brasileiros. Foi uma campanha muito audaciosa, baseada na expertise da vacinação de crianças, com a adesão da população. Aconteceu por etapas, com uma comunicação adequada para a população não furar as filas, algo que vemos agora. Explicamos que alguns brasileiros precisavam ser vacinados antes porque tinham um risco maior de adoecer, de ter complicações e ir a óbito, essa era uma estratégia coletiva — vacinando esse grupo, indiretamente, os outros estariam protegidos. A população entendeu, respeitou, e a campanha foi exitosa. Esse é o grande legado, de ver que, com uma comunicação adequada, com uma estruturação adequada, o SUS responde à população, atende ao chamado.

  • G |Com base nessa experiência e considerando que não há vacinas suficientes, o que pode ser feito hoje?

    CD |

    A única coisa que a gente pode fazer, nesse curto prazo, é uma comunicação adequada que organize o processo de vacinação. Hoje, ele está completamente desorganizado. Em segundo plano, é cobrar do governo que compre mais vacinas. No ritmo dos laboratórios públicos, nós vamos demorar de 12 a 16 meses para vacinar a população-alvo. É preciso acelerar. Israel já mostrou o exemplo: eles aceleraram e já conseguiram mostrar o impacto da cobertura vacinal. Claro que Israel é um país muito menor, é quase um estado brasileiro, mas, se nós queremos fazer parte do protagonismo da história mundial, o programa de imunização tem condições de fazer uma campanha audaciosa. O que a gente precisa é de vacina. O governo federal tem que buscar mais parceiros, se só contar com os dois atuais a campanha virar uma rotina: se dura um ano, não é uma campanha.

  • G |Algum parceiro parece mais viável?

    CD |

    Tem que buscar todos. A Pfizer era um parceiro que, mesmo com a dificuldade da logística de uma vacina -70 [graus celsius, a temperatura em que deveriam ser conservadas as doses], poderia ter sido viável se nós tivéssemos tempo para organizar. Nenhum país do mundo tinha estrutura para usar uma vacina -70, mas eles se prepararam em seis meses. Nesses próximos seis meses surgirão novos produtos, estamos vendo uma corrida pelo desenvolvimento de novas vacinas. Por que não já contatar os laboratórios? Aquilo que deveria ter sido feito em julho passado, ainda podemos fazer agora com outros fornecedores, não tem outro caminho.

  • G |Qual a importância de chegar rapidamente a uma cobertura dos mais vulneráveis para evitar mortes e hospitalização?

    CD |

    Não são só pessoas de baixa renda, mas todos os grupos definidos pelo Ministério da Saúde. A população idosa, a população com comorbidade, os indígenas, a população ribeirinha… O SUS sabe chegar a essas pessoas, mas a gente precisa ter vacina.

  • G |É um problema muito primário, não?

    CD |

    Mas temos que ter claro que isso não é um problema político do Brasil, é um problema do mundo. Não é só o Brasil que está com dificuldade, a gente está vendo a própria Pfizer e a Astrazeneca dizerem que vão atrasar entregas. É um problema mundial, a diferença é que estamos refém de apenas dois produtores [Butantan e Biomanguinhos]. Se eles têm dificuldade, a gente não tem um plano B. Agora, mesmo os países que tem um plano B, C e D, estão tendo dificuldade. Não existe uma solução mágica, esse vai ser um ano de desafio para todos os países.

  • G |A disputa política pela ciência aumenta nossas dificuldades?

    CD |

    Eu não vejo disputa pela ciência, mas por um espaço usando o Programa Nacional de Vacinação, o que é muito mais grave. Tanto o governo federal quanto o estadual [de São Paulo] estão usando a vacina como moeda de troca para um possível pleito eleitoral, isso é muito ruim. O que diferenciou o programa nacional ao longo desses 40 anos é não ter tido interferência política. Ele se manteve como prioridade e protegido por uma barreira da disputa mesmo no fim do governo militar, durante a transição democrática. Viver esse momento na pandemia é desastroso.

  • G |Qual tipo de comunicação deveria ser feita? O que seria importante falar para a população e que não está sendo dito?

    CD |

    O primeiro ponto é a uniformidade no discurso de todos, seja dos políticos, dos cientistas, dos médicos. Vemos muita bateção de cabeça, gente falando que a vacina não funciona, que é marketing, que vai mudar o sistema imunológico das pessoas. Lamentavelmente, médicos estão fazendo isso. Precisamos voltar a fazer com que a população tenha segurança. Todos precisamos falar que a vacina protege a vida, que é segura e eficaz e que quando ela tiver disponível no Programa Nacional de Imunizações é porque passou por todos os processos. A população nunca duvidou de uma vacina no PNI. Por que, no meio de uma pandemia, nós mesmos estamos criando essa dificuldade? A segunda é o papel do governo, federal e estaduais, de fazer campanhas publicitárias explicando o motivo da vacinação por etapas. Até agora não temos uma campanha, não se fala o nome da vacina. A população então não consegue entender, parece uma linguagem subliminar.

  • G |Estamos menosprezando a informação?

    CD |

    O Ministério da Saúde, mesmo em pandemia, sempre se baseou na ciência, na evidência para definir estratégias. No exemplo concreto de Manaus, deveríamos ter uma vacinação mais ostensiva. É inadmissível ver pessoas morrendo, ter uma medida de intervenção possível e enviar vacina a conta-gotas. Os governadores concordaram em mandar 5% a mais para Manaus, mas isso é insignificante. Era fundamental olhar esses dados epidemiológicos e definir uma estratégia mais pontual. Primeiro por uma questão humanitária: aquela situação é gravíssima e exige um olhar diferenciado como sempre foi com o SUS. No passado, os estados com maior elevação de óbito eram os primeiros das campanhas de gripe. Por que agora, diante do covid, não fazemos isso? A ciência serve também para direcionar as ações. Estamos perdendo essa visão ao fracionar das doses que temos para 5.570 municípios — alguns vão receber 200, 100, 50 doses, isso não gera impacto nenhum. Se fossem concentradas em Manaus em vez de pulverizadas pelo Brasil inteiro, garanto que haveria muito mais efetividade.

  • G |O problema de comunicação e de estratégia segue. Devemos esperar explosões como a de Manaus em outros estados?

    CD |

    Exatamente. Na primeira onda, Manaus foi a região mais afetada. Pode ser que tenham outros? Sim. Mas parece que tem uma característica peculiar de Manaus, uma situação diferenciada ali para a transmissão de covid. Nesse momento, isso pode acontecer em outros lugares, mas hoje, concretamente, está acontecendo em Manaus, então eu tenho que olhar Manaus agora.

  • G |Em outras ocasiões, o Brasil soube ler bem esses dados epidemiológicos?

    CD |

    Sim, por vários anos com a gripe. Começávamos a campanha antes e nos estados mais sensíveis, justamente onde havia maior elevação de óbitos. Enviávamos mais vacinas para aquelas localidades e os outros estados, que estavam numa situação mais tranquila, esperavam um pouco. Isso sempre foi feito com a influenza. Por que no covid agora não se utilizou essa metodologia que já funciona no Brasil?