"Trabalhar ou não em home office virou um novo indicador social" — Gama Revista
Quanto vale seu dinheiro?

‘O brasileiro está deixando de sonhar’

Isabelle Moreira Lima 17 de Janeiro de 2021
Divulgação

Presidente do Instituto Locomotiva vê crise de perspectiva travar confiança e consumo no país

É praticamente impossível dissociar a situação financeira do brasileiro da política. Depois da ascensão do consumo e da confiança na primeira década dos anos 2000, vivemos agora uma crise em camadas: a econômica, a política, a sanitária e, a pior delas, a de perspectiva, que ao derrubar o ânimo do consumidor trava qualquer possibilidade de retomada. Ela é gerada pela combinação das outras, mas a política tem peso dois na equação, pois são afirmações de governantes que podem dar a sensação de beco sem saída. A análise é de Renato Meirelles, que há pelo menos duas décadas acompanha os movimentos de ascensão e queda do poder de compra das classes C, D e E com pesquisas que comandou no Instituto Data Popular, no Data Favela, e agora no Locomotiva, do qual é presidente.

Meirelles diz que no Brasil de hoje é difícil pensar no longo prazo; o brasileiro, ele afirma, está deixando de sonhar. “Temos um consumidor que precisa, para fazer uma dívida de dois anos, acreditar que estará empregado nesse período —por isso o otimismo é tão importante. É ótimo ter juros mais baixos, mas não adianta nada se você não tem um consumidor confiante com relação aos rumos da economia”, afirma.

Declarações dadas pelo presidente Jair Bolsonaro — como a feita em 5 de janeiro sobre o Brasil estar “quebrado” e, por isso, ele não conseguir “fazer nada” —minam os últimos resquícios de confiança e otimismo. E o problema, acredita Meirelles, está no fato de que a situação continua agindo como oposição, com críticas à própria política econômica. Isso faz com que o brasileiro tenha medo de gastar, que o pequeno comerciante não venda e, logo, não faça pedidos à indústria que, por sua vez, não consegue manter a produção. A economia trava. “O presidente faz oposição a ele mesmo.”

Na entrevista a Gama, Renato Meirelles fala ainda sobre os avanços tecnológicos gerados pela pandemia, como ela atingiu nossa relação com o dinheiro e como, em uma “profissão de fé”, acredita que, assim como ocorreu na Idade Média, depois da Peste Negra vem o Iluminismo.

Nenhuma economia cresce apenas se mantendo ou nadando contra a maré

  • G |Como você vê a curva que a classe C desenhou ao longo das últimas duas décadas? Alguma chance de retomar seu poder de compra?

    Renato Meirelles |

    A classe C teve um processo de crescimento muito rápido, e o viu como fruto do seu trabalho e esforço, como mérito pessoal. Como efeito colateral, ampliou o repertório de consumo, muitos viajaram de avião pela primeira vez, consumiram marcas premium, descobriram o gosto de produtos de melhor qualidade. Esse crescimento não ocorreu apenas pelo crédito, mas pelo aumento efetivo da renda. A crise econômica de antes do coronavírus encontrou um consumidor que tinha aprendido o que era bom, e perder dói muito mais do que deixar de ganhar. Tivemos cinco anos de crise econômica e política, e por fim a maior de todas as crises até a pandemia, a de perspectiva, de não ver luz no fim do túnel. E aí o mau humor da população foi crescendo e o consumidor deixou de ver no Estado a competência para auxiliá-lo a ter melhores oportunidades. Alguns leram isso como um crescimento de um pensamento mais liberal, o que não é verdade. E quando se começava a esboçar alguma melhora, mesmo que simbólica, com a eleição, veio o coronavírus. E com o vírus, as desigualdades que já existiam na sociedade brasileira ficam escancaradas. A maior fake news dessa pandemia foi de que era um vírus democrático, que atingia da mesma forma pobres e ricos. Os números são muito autoritários. Trabalhar ou não em home office virou um novo indicador social, como ter geladeira dentro de casa.

  • G |Vocês já usam isso nas pesquisas, esse indicador?

    RM |

    A gente usa, não como forma de classificação, mas de diferenciação dos perfis. Mesmo entre quem faz o home office, uma coisa é estar na minha casa com 300 metros quadrados, geladeira, água encanada. Nas favelas, 46% dos lares não têm água encanada. Os mais pobres sofrem mais na pandemia. O índice de contaminação das áreas de favela é quase três vezes maior do que o das áreas nobres. A pandemia não trouxe uma realidade de pobreza, ela já existia. Mas a desigualdade econômica ganhou ares trágicos. E fica cada vez mais claro que ou a sociedade entende as consequências dessa desigualdade econômica, e portanto socializa as oportunidades, ou vai pagar um preço muito caro. Não teve convulsão social porque as organizações sociais das favelas se juntaram com a iniciativa privada [para tentar resolver o problema].

  • G |O que acontece se ficamos sem o auxílio emergencial? Corremos o risco de convulsão social?

    RM |

    O auxílio emergencial era necessário porque o Brasil, o segundo país mais desigual do mundo economicamente, tem uma parcela considerável da sua população fora do emprego formal e à margem da proteção social do Estado. Esse processo de auxílio emergencial, um mecanismo liberal que a Alemanha e os EUA praticaram, tem um efeito grande na retomada do processo econômico porque as pessoas gastam esse dinheiro no comércio do bairro, o que cria um ciclo virtuoso na base da economia. O cara da favela contrata mais gente, faz mais pedidos na indústria, e com isso a economia consegue renascer. O auxílio emergencial foi fundamental para o Brasil não quebrar. E enquanto não se voltar a um processo de geração de emprego, ele ainda é necessário.

  • G |E o que você acha que pode acontecer? Renda mínima sempre foi uma bandeira da esquerda, mas hoje é considerada pelo governo, que já se permitiu falar sobre ampliar o Bolsa Família ou criar outra renda assistencial. Você acredita que sai do discurso?

    RM |

    Se o governo quiser ser reeleito, não vai ter muita saída. A moeda política é uma moeda que, na história do Brasil, costuma orientar a decisão dos governantes. O Bolsonaro, ao ser obrigado a fazer o auxílio emergencial —  maior do que ele desejava inicialmente, pois esse valor foi imposto pelo Congresso Nacional —, começou a colher os dividendos políticos de não ter gente passando fome. Isso segurou sua popularidade e deu a ela um perfil de renda mais baixo, que o faz caminhar para um movimento muito parecido com o do ex-presidente Lula. Lula foi eleito pela classe média e foi reeleito pela base da pirâmide. O caminho de Jair Bolsonaro vai nesse sentido.

  • G |Algo muito curioso também, não?

    RM |

    Super, e que muda a geodemografia do voto. O problema é — e a frase do presidente Bolsonaro de que o Brasil está quebrado e sem rumo mostra isso — que ele ajusta a vela de acordo com as circunstâncias. Por outro lado, a oposição é incapaz de conseguir construir uma narrativa alternativa a essa.

  • G |A oposição está patinando?

    RM |

    A oposição não sabe exatamente para onde ir porque foi establishment por muito tempo. O Bolsonaro, que foi eleito por uma narrativa anti-establishment, tenta mantê-la no poder e adota uma narrativa de oposição a ele mesmo. Para a economia, gera uma crise de perspectiva e de futuro: o consumidor gasta menos, o empresário investe menos no seu negócio, você procura menos o crédito de capital de giro. Você, de alguma forma, fica mais receoso de assumir riscos, e a economia não volta a crescer. Você deixa de comprar a crédito. A ausência de perspectiva e de liderança diminuem a confiança [do consumidor]. Com menos confiança, os brasileiros consomem menos, investem menos, compram menos.

  • G |Em 2020, o Instituto Locomotiva fez 38 pesquisas no país sobre o ânimo e a economia. O que mudou mais fortemente no país nesse ano atípico?

    RM |

    Nós já víamos um processo de aumento das compras online, que passou por uma aceleração gigantesca no e-commerce tradicional e nas compras por aplicativos. O varejo teve de ser ágil para não quebrar. É impressionante como se juntaram e começaram a ofertar muito mais para o consumidor. Outro movimento foi o de grandes lojas. O Magazine Luiza abriu a sua tecnologia, a sua plataforma e os seus modelos de distribuição para mais de 120 mil pequenos empreendedores, e cresceram com isso. O Mercado Livre virou a Amazon da América Latina, com uma forma de entrega genial. Agora, para se manter, eles precisam manter a entrega na última milha e ter programas de “lock-in”, estratégias para fidelizar o cliente para uma próxima compra —  basicamente cashback.

  • G |E o jeito que as pessoas lidam com o dinheiro mudou?

    RM |

    Essa foi outra tendência acelerada, a migração para dinheiros eletrônicos e meios eletrônicos de pagamento. Antes, as pessoas preferiam pagar em dinheiro, cerca de 71%. A ideia era que o dinheiro era capaz de controlar melhor o orçamento, tinha um diferencial comercial muito grande. Mas, com a pandemia, o dinheiro diminuiu em circulação. Nós tivemos o auxílio emergencial sendo feito por cadastros eletrônicos. Imagina que 5,441 milhões de pessoas tinham direito ao auxílio emergencial e não tinham nem conta em banco e nem acesso a internet. Como havia uma cenoura de dinheiro, tudo foi acelerado. As doações feitas por meios eletrônicos de pagamento fizeram as fintechs crescerem nas classes C e D. Houve também o Merenda Voucher, dos governos estaduais, para mães de alunos da rede pública. O dono de um restaurante, que passou a vender pelo iFood, também recebeu por eles. Toda a cadeia se viu em um movimento de substituição do dinheiro pelos meios eletrônicos. Mas isso é mais incerto do que o e-commerce porque depende de como os cash-ins continuarão a ser pagos no final da pandemia. Depende dos superapps e das fintechs terem a capacidade de mostrar para o consumidor que, usando aquela plataforma, o dinheiro dele vale mais. Ele consegue comprar mais coisas. E isso não está dado ainda por nenhuma das plataformas.

  • G |O Instituto Locomotiva trabalha com uma perspectiva de encolhimento de 6% do consumo das famílias. Vemos a precarização do trabalho com uma uberização massiva no país. Como mudou a percepção do dinheiro e da economia para as pessoas?

    RM |

    Como valor monetário, nós vimos que, por mais que a inflação ainda esteja baixa, está 4% acima da meta. O fato é que não se compra o que se comprava antes. Você vê a inflação nos itens básicos, ela foi maior do que a inflação geral da sociedade. A dona Maria, que vai ao supermercado, sofre mais do que o sujeito que vai comprar um carro. Por outro lado, nós temos pessoas ganhando menos, e procurando fontes alternativas de dinheiro. E esse cenário da uberização precisa ser visto por duas óticas, que mudam muito a análise. Pela lógica do século 20, o trabalho formal dá uma série de garantias, com um determinado modelo de jornada, que protege o trabalhador se ficar doente, se tiver que se aposentar, na forma de ser mandado embora. E tem o modelo do século 21, que não dá essas garantias, mas que objetivamente resolve outros problemas dessas pessoas. O problema de não passar fome, de ser dono do seu próprio horário, de não ter que trabalhar para uma única plataforma, de conseguir uma renda extra efetiva. É necessário pensar sobre quais modelos de regulação têm que ser feitos para garantir que o sujeito, se fica doente, recebe seguro e tem condições mínimas. Mas o fato é que eu tenho no Brasil 21,5 milhões de trabalhadores que recebem alguma renda por aplicativo — é mais do que quase todos os estados da federação, só não é maior do que São Paulo. Dois terços desses brasileiros mantiveram ou aumentaram a sua renda durante a pandemia, enquanto na média dos trabalhadores brasileiros é o contrário: dois terços caíram na pandemia. Tem uma série de riscos colocados aí. Qual é a regulação, qual é o preço justo, quanto eles podem pagar de taxa sobre isso? É justo que uma empresa ganhe dinheiro com o desespero e a falta de alternativa dos trabalhadores? Eu não estou aqui para fazer um juízo moral disso, mas negar a existência disso, achando que o modelo correto é o do século passado, não me parece nem justo nem inteligente.

  • G |Mas voltando à percepção do dinheiro de cada um: entre os grandes objetivos do brasileiro, segundo uma das pesquisas do instituto, está o pagamento de dívidas e a formação de uma reserva para emergência. O que isso diz sobre a nossa economia e o poder financeiro do brasileiro?

    RM |

    Que está muito difícil pensar a longo prazo, e que o brasileiro está deixando de sonhar. Eu sempre fui o cara das notícias positivas…

  • G |Mas você não me parece exatamente otimista agora…

    RM |

    As dívidas estão aí, e podem acelerar esse processo de perda, perder aquilo que já se conquistou. Então, o pagamento de dívidas dialoga com uma esfera moral da cabeça dos consumidores e uma esfera altamente funcional de que “cara, eu só vou conseguir comprar de novo quando eu conseguir pagar minhas dívidas”. O dinheiro que ele quer guardar para uma emergência é porque vê coisas acontecendo nos últimos anos. A dívida, inclusive, surge desse processo. Isso poderia ser resolvido com seguros, por exemplo. Num cenário positivo da população brasileira, dos rumos da economia e de que o barco tinha um capitão de fato, isso poderia levá-lo a fazer um crediário, e aí criar o ciclo virtuoso da economia. O problema é que depois de cinco anos de políticos que mostram que no Brasil o fundo do poço é alçapão, o que o cara quer ver é uma luz no fim do túnel. Se ele não enxergar essa luz no fim do túnel, vai ser muito difícil ter disposição para crescer. E nenhuma economia cresce apenas se mantendo ou nadando contra a maré. Elas crescem quando aproveitam a maré.

  • G |Os juros, que sempre foram altos, agora baixaram. Nem isso pode ter um impacto positivo na confiança do consumidor?

    RM |

    Os juros que baixaram, que são da taxa Selic, não chegam com essa mesma baixa para o consumidor final. Temos um consumidor que precisa, para fazer uma dívida de dois anos, acreditar que estará empregado nesse período — por isso o otimismo é tão importante. Então, é ótimo ter juros mais baixos, mas não adianta nada se você não tem um consumidor confiante com relação aos rumos da economia.

  • G |E aí quando vem uma frase como “o país está quebrado e não há o que fazer”, não tem como ninguém se animar.

    RM |

    Claro. “Não sei o que fazer, está quebrado.” Mas, meu amigo, se você não sabe, quem sabe então?

  • G |Em um artigo publicado na revista Veja você diz que a pergunta que mais ouviu em 2020 foi: qual é o Brasil que sai da pandemia? Passados dez meses do começo do isolamento e ainda com muitos meses diante de nós, eu repito a pergunta.

    RM |

    O brasileiro está cansado, mais cansado do que no início da pandemia. Além dos impactos na renda e no consumo, nós estamos sofrendo o impacto na saúde mental. Há um grau de irritabilidade e uma procura desesperada de desculpas para sair na rua. [Teremos] um brasileiro que sai da pandemia mais descrente de seus governantes, mas que chama para si a responsabilidade pela própria vida, com hábitos fortemente acelerados pelas novas tecnologias e que mudam o seu poder de escolha na hora de comprar e decidir onde vai deixar o seu dinheiro. Do ponto de vista do trabalho, encontraremos também um brasileiro que começa a se perguntar mais se tem que trabalhar no escritório ou não. E as empresas podem mudar de um escritório virtual para outro escritório virtual, onde as suas relações de amizades no trabalho não são tão firmes como no passado — é um desafio que ainda terá que ser melhor entendido. A boa notícia que eu consigo efetivamente tirar desse processo de pandemia, além da aceleração tecnológica, vem das aulas de história, para lembrar que depois da Peste Negra veio o Iluminismo, com avanços culturais, econômicos e civilizatórios.