O medo da cultura do cancelamento — Gama Revista
Tá com medo?

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Sociedade

Quem tem medo do cancelamento?

© Reprodução/ Jody Kelly

A prática destrói reputações e cria mecanismos de extorsão social que provocam cada vez mais medo e hesitação, reduzindo a participação ativa em diálogos e debates, escreve o psicanalista Christian Dunker

Christian Dunker 26 de Julho de 2020

Na virada do século 20, o poeta e crítico Paul Valéry, contemporâneo de Freud e Walter Benjamin, observou o aparecimento de novas profissões, as profissões delirantes: elas tinham em comum dependerem totalmente do que os outros acham de nós. Cem anos depois, as profissões delirantes tornaram-se a regra. Um delírio não é uma crença fora da realidade, mas uma convicção de que a realidade depende mais de nós mesmos do que dela própria. Por outro lado, o sentimento de que o reconhecimento que recebemos em espaços digitais apoia-se em bases precárias nos colocará diante do medo permanente de ver a imagem de si dissolver-se no ar.

A cultura do cancelamento aprofunda e radicaliza a prática da lacração, entendida como pronunciamento contundente e definitivo que tende a silenciar o outro. Por exemplo, “você lacrou muito naquele discurso” quer dizer que a pessoa fez um discurso muito bom, que não pode ser refutado, ou é uma maneira irônica de indicar um texto muito grande ou um argumento excessivo. Já cancelar é um verbo usado para suspensão de um serviço, curso ou dispositivo. Isso sugere que estamos diante não só da supressão da fala do outro, mas da redução dele a uma coisa ou objeto.

Cancelamentos individuais podem não afetar muito os “cancelados”, porque muitas vezes, para obter maior frequência de engajamento em A, é preciso estar disposto a perder o engajamento em B; outras vezes o poder de engajamento em A é inteiramente dependente da posição anti-B. Mas essa prática destrói reputações e cria mecanismos de extorsão social que provocam cada vez mais medo e hesitação, reduzindo a participação ativa em diálogos e debates. Opiniões de gosto e declarações de preferência podem levar alguém a ser cancelado “por associação”, indicando que estamos em progressão para uma situação de condominização social da vida digital, com progressiva exclusão do que nos contraria e das diferenças que não conseguimos tramitar ou mediar psiquicamente.

Tudo indica que há um prazer específico no cancelamento, por isso ele funciona melhor, como prática psíquica, contra pessoas com quem podemos nos identificar. Mas o que significa exatamente se identificar? Há várias acepções para isso na psicanálise e na teoria social, mas para os propósitos do cancelamento identificar-se é incluir-se na mesma categoria do outro, em função de um traço de afinidade. Cancelar, seria, nesse sentido, se desidentificar? Sim e não, porque a identificação em espelho, baseada no ódio ou na rivalidade concorrencial, é ainda assim um tipo de identificação. O oposto da identificação, assim como o contrário do amor, não é o ódio, mas a indiferença. A cultura do cancelamento pode ser compreendida como parte da luta entre as pessoas por um tipo de reconhecimento.

O cancelamento funciona como uma maneira de fazer justiça vingativa e narcísica com as próprias mãos — nesse caso, com os próprios dedos

Existe uma suposição básica no espaço digital que torna nossa presença sempre desejável. O outro parece estar sempre disponível e sequioso para receber nosso clique, view, curtida ou comentário. Por isso, o cancelamento pode funcionar como um linchamento, ou seja, uma maneira de fazer justiça vingativa e narcísica com as próprias mãos (nesse caso, com os próprios dedos). Ele nos faz gozar com uma sensação de pureza e superioridade moral, que aplaca, ainda que provisoriamente, nosso sentimento de irrelevância —um efeito colateral inevitável do narcisismo digital.

Adicionalmente, assistimos a emergência de uma nova elite social, que não emana nem de pré-requisitos financeiros, nem de disposições culturalmente muito elevadas. São os youtubers, influencers, sub-celebridades, Kardashians e outras novas profissões delirantes, que devem sua força e poder apenas e tão somente a alguma característica algo indefinível, difícil de reproduzir artificialmente como um padrão de consumo, um estilo de uso da linguagem, uma enunciação opinativa e até mesmo uma forma singular de se apresentar como atrapalhado, tosco ou inadequado em público. Artistas de uma vida tal como ela é, como os Big Brothers. Com a mesma velocidade eles emergem e desaparecem, depois de algumas temporadas de sucesso. O traço que os torna o que são é de natureza cultural, mas sua eficácia depende da capacidade de engajamento social que eles promovem, associando suas imagens com produtos que impulsionam ou com ideias que representam, traduzidas em monetização.

O capital social que tais influenciadores conseguem acumular como agregadores de conteúdo, hubs de informação ou simplesmente enxames de cliques, curtidas e views é feito materialmente do reconhecimento de seu público, o que gradualmente desperta nos seus consumidores o sentimento de que eles são proprietários daquele que os representa, porque este ajuda a expressar e definir quem eles são. Delirante.

O medo de ser cancelado será proporcional ao reconhecimento que se alcançou

O medo de ser cancelado será, portanto, proporcional ao montante de reconhecimento que se alcançou, pois quanto mais real ele parece, mais delirante é a sua base de sustentação. Esses três fatores, mais o sintoma social representado pelo motivo do cancelamento, concorrem para que o poder do influenciador seja submetido ao contrapoder da massa digital que o criou: o pai será devorado por seus filhos, assim como as idealizações se chocarão com as imperfeições da realidade.

Esse processo tipicamente ocorre pelo choque de classes: neste ponto é como se eu sentisse que minha própria identidade foi ofendida, pois ela está fortemente associada com a transferência de predicados de pertinência para classe à qual eu escolho pertencer. Nesta situação nada se torna mais justo, e mais gozoso, do que negar a pertinência do outro, cancelando sua força representativa.

Observemos que esta guerra deixa pouco espaço para uma qualidade essencial de classes reflexivas ou autotransformadoras: a capacidade de reconhecer e superar contradições. Quando todas as classes são apenas agrupamentos particulares de gosto, conflito e contradição se tornam improdutivos. Classes que se formam pela apropriação de predicados positivos só podem se chocar com outras classes compostas por princípio análogo. São bolhas, caixinhas ou condomínios digitais, com seus muros, seus síndicos, suas hipertrofias legislativas e suas patologias narcísicas típicas.

A cultura do cancelamento no Brasil é herdeira do muro que eu ergo para tornar invisível aquele que é muito diferente de mim. Esse muro é histórico e precedeu muito a chegada da linguagem digital. Depois que me contento em excluir o outro perigoso, contaminado e intrusivo, só posso esperar que ele retorne em minha fantasia, como assédio, stalker ou hater.

Quero crer que a cultura do cancelamento é um momento importante de um mundo que parece ter chegado ao esgotamento de seu projeto egológico e particularista.

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). É autor da da “Reinvenção da Intimidade” (Ed. Ubu, 2017), e de “Paixão da Ignorância: a Escuta Entre a Psicanálise e Educação” (Ed. Contracorrente, 2020), entre outros