Depoimentos e dicas de mulheres que viajam sozinhas — Gama Revista
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Semana

Sem acompanhante

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O número de mulheres que viajam sozinhas aumentou antes da pandemia, mas não sem enfrentarem medos e barreiras. Viajantes contam por que desbravar o mundo sem companhia ainda é uma questão para elas

Laura Capelhuchnik 27 de Setembro de 2020

Quem viaja sozinho diz experimentar um tipo raro de liberdade, uma fenda no tempo e no espaço em que a principal regra é viver sob as próprias regras. Quando se é mulher, então, aventurar-se desacompanhada é a possibilidade de “dizer ‘sim’ em um mundo onde o tempo todo nos dizem ‘não'”, nas palavras da escritora e viajante americana Gale Straub, que se dedica a narrar as histórias e expedições de aventureiras.

O número de mulheres que viajam sozinhas aumentava antes da pandemia — era, inclusive, maior que o de homens. Em 2019, uma pesquisa da Booking.com com 4 mil pessoas em países da América Latina mostrou que 62% das mulheres fizeram pelo menos uma viagem desacompanhadas. Um estudo feito pela British Airways com mais de dez países em 2018 mostrou uma tendência semelhante: quase 50% das mulheres tiraram férias sozinhas, enquanto 75% planejavam uma viagem desacompanhadas para um futuro próximo.

Mas não sem enfrentarem o medo e outras barreiras — como mostram algumas dessas mesmas pesquisas. Em 2019, o jornal americano The New York Times publicou a reportagem “Adventurous, Alone, Attacked” (Aventureira, Sozinha, Atacada, em tradução livre), detalhando agressões brutais a mulheres viajantes, como a turista venezuelana-americana Carla Stefaniak, morta durante suas férias na Costa Rica, entre outros perigos enfrentados por mulheres na ausência de companhias masculinas — retrato que compõe um cenário ainda bastante amplo de violência de gênero em todo o mundo.

Em resposta à publicação, Gale Straub escreveu um artigo para o site Vox, inspirado nas entrevistas com mais de 300 mulheres viajantes feitas para o podcast “She Explores”, um desdobramento de seu livro homônimo. Falou sobre a necessidade de que essas histórias sejam contadas, mas não para impedir mulheres de saírem por conta própria e experimentarem sua autonomia à medida que ganham o mundo. “Claro, os perigos são reais e assustadores. Mas os riscos de viajar sozinha são realmente tão diferentes dos que as mulheres enfrentam todos os dias, mesmo em lugares que chamam de lar?”, escreveu.

O jornal americano também publicou depois uma nova matéria baseada nas respostas das leitoras para que mulheres não sucumbam ao medo na hora de viajar. Assim como, em 2016, ganhou popularidade a hashtag #viajosola (#viajosozinha, em tradução livre), que defendia o direito de mulheres viajarem sozinhas. À época, o assassinato de duas turistas argentinas levantou discussões sobre assédio e culpabilização da vítima — como se, por viajarem sozinhas, as mulheres estivessem assumindo o risco de que seus corpos fossem violados.

Viajar sozinha ainda é, de fato, um ato de coragem. Mas para que o medo não seja uma barreira eternamente intransponível, cada vez mais mulheres se organizam — sobretudo na internet, mas não só — compartilhando seus manuais, ensinamentos e gadgets para cair na estrada. Há guias sobre locais específicos, listas de destinos perigosos, experiências de mulheres viajantes que pertencem a grupos minoritários, entre outras ferramentas que contribuem para as boas experiências, que já são também incontáveis.

A seguir, Gama reúne histórias de três mulheres que, em diferentes épocas e lugares, foram conhecer o mundo na própria companhia e mostra iniciativas para que sair por aí seja cada vez mais prazeroso e menos preocupante.

A médica Cecília Lisboa em viagem aos territórios indígenas do Xingu, nos anos 1970. Registro da primeira de muitas viagens que fez -- ou pelo menos começou -- desacompanhada

“Você faz o que quer, na hora que quiser, não precisa dar satisfação para ninguém”

Cecilia Lisboa, 68 anos

Foi depois de ler “Quarup”, romance de Antônio Callado ambientado nas reservas indígenas do Xingu que a médica paulistana Cecilia Lisboa, então estudante do quarto ano de medicina na USP, decidiu embarcar em sua primeira viagem por conta própria. Nos anos 1970, conheceu um ex-presidente da Funai no Riviera, bar que frequentava em São Paulo, que por sua vez a apresentou ao sertanista Claudio Villas-Bôas. Estava feita a ponte até os territórios indígenas do Xingu: “Ele me arrumou uma carona até lá e eu fui, acho que era um avião modelo DC-3, da Força Aérea Brasileira. Só eu no meio dos meninos”, conta Cecília, que tinha 23 anos e uma mochila nas costas. “Coitada da minha mãe. Naquela época eu já morava sozinha, então só falei ‘Ó, estou indo'”, conta.

Única turista, desceu sozinha do avião e logo foi recebida pelos indígenas, dando início à viagem que, prevista para durar 15 dias, se estendeu durante um mês. Os dias eram na aldeia, onde ela nadava, fazia refeições e de noite festejava com os indígenas. “Um dia fumei o cachimbo do Pajé e comecei a me perguntar o que estava fazendo de roupa. Então comecei a andar para cima e para baixo nua”, conta. Depois disso, só se vestia quando chegava algum membro da Funai.

“Os indígenas vinham me avisar para pôr as roupas, eles sabiam que os homens brancos não podiam ficar nus”. Cecilia só deixava a aldeia à noite, na hora de dormir. “Vivi experiências malucas, em nenhum momento tive medo. Todos eles foram incríveis comigo.” A médica voltou a viajar sozinha somente décadas depois, quando seu filho já era adulto. Então gostou do hábito e, nos últimos anos, esteve na própria companhia em praticamente todas: foi para Portugal, para a Ilha de Malta, Galápagos e Peru — essas duas últimas intermediada por agências de turismo.

No Brasil, passou férias em praias pequenas do Nordeste e do Sudeste: a regra de ouro para dar partida rumo a esses destinos brasileiros era perguntar se podia caminhar à noite na praia sozinha. Se a resposta fosse positiva, lá estava ela. E assim passou por São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, pela Ilha do Cardoso, em São Paulo, e outras praias. “Você faz o que quer, na hora que quiser, não precisa dar satisfação para ninguém. Muitas vezes eu viajo sozinha e com a programação em aberto, para chegar lá e ver o que fazer”, diz. “Adoro viajar sozinha, odeio quando alguém quer ir comigo. Gosto só de ir com meu filho, que é na dele, cada um faz o que quer e acabou.”

A fotógrafa Katy Illy em passagem pelo Deserto do Atacama, no Chile, em 2017

Uma mulher negra viajando sozinha, minha nossa, são três questões!”

Katy Illy, 32

A fotógrafa paulistana começou a experimentar as viagens por conta própria pelas curtas distâncias. Foi para o litoral Norte, na praia de Maresias. Ficou hospedada em um hostel que já havia visitado com as amigas e isso ajudou a diminuir o medo e a sensação de vulnerabilidade de ser mulher e estar desacompanhada.

Da experiência bem-sucedida em Maresias, veio o impulso de comprar uma passagem para Santiago, no Chile, para passar o fim do ano. “Comprei e logo me arrependi. Fiquei com muito medo. A solução foi fingir que eu não ia viajar: a passagem era para dali a seis meses, reservei o hostel e esqueci que ia”, explica. Uma coisa que ajudou Katy na viagem foi seguir os passos da blogueira Amanda Noventa, que já havia feito a mesma rota — repetiu a dica de hospedagem e também alguns passeios.

A fotógrafa também tem um blog, o Las Pretas, onde já escreveu um pouco sobre suas experiências na estrada. “Viajar sozinha é uma questão. Uma mulher viajando sozinha, duas questões. Uma mulher negra viajando sozinha, minha nossa, são três questões!”, escreveu. Ela considera que começou a viajar tarde, aos 25, porque “não achava que era coisa para mim, um sonho bem distante”, e nesse processo de preparação encontrou poucas mulheres negras falando sobre o assunto. Foi por meio dos textos da blogueira Cinthya Rachel que teve a certeza de que também podia se jogar na estrada.

A cada viagem, foi encontrando mais mulheres sozinhas, inspirando-se para as vezes seguintes. “Essa é a liberdade de viajar sozinha. Você fica vulnerável, mas se conecta com outras pessoas na mesma situação e atravessa a viagem de uma forma diferente. É um tipo de liberdade que você não tem quando está acompanhada”, conta. Nas férias seguintes, embarcou sozinha para a Colômbia, onde, pelo Worldpackers, trocou trabalho por estadia. E, algum tempo depois, voltou ao Chile: porque não havia tido a oportunidade de conhecer o deserto do Atacama — indicação de outra mochileira que conheceu na viagem anterior. “Foi sensacional, passei meu aniversário lá. É um lugar muito bom para ir sozinha porque a cidade é pequena e para fazer os passeios você tem que fazer uma reserva, não dá para conhecer o deserto sozinha. Isso acaba deixando tudo mais seguro”.

Em 2017, Katy embarcou para Dublin para um intercâmbio de 8 meses e acabou criando raízes. Hoje, é moradora, sem prazo para voltar. Apesar de ser uma inspiração para outras mulheres negras, a fotógrafa ainda sente falta de conteúdos de grande alcance, sobretudo em português, sobre o tema. “Quando vim para a Irlanda eu não achava nada sobre a experiência das pessoas negras. A comunidade de brasileiros é gigante e tem pouca gente falando sobre isso. Claro que as experiências não vão ser as mesmas, mas é importante saber que algo ruim pode acontecer e estar preparada.”

Katy passou momentos de insegurança em um táxi em Medellín, na Colômbia, de madrugada. Por isso recomenda que não façam como ela: “É bom calcular o horário, não viajar de noite, mesmo que você perca o dia. E sempre tentar achar tudo o que te faz sentir segura. Não dar um passo maior que a perna para não ficar exposta a situações desconfortáveis”. Também recomenda os hostels, pela alta rotatividade e o potencial de encontrar outros viajantes solitários.

E começar por viagens de curta distância, mas sem medo de ser feliz. “É uma ótima forma de autoconhecimento, de testar novos limites, saber até onde pode ir. A gente sempre acaba dependendo muito de parceiros ou amigas para fazer as coisas, é importante saber que não, que dá para fazer por nós mesmas”, diz. A parte chata, segundo Katy, é que de vez em quando não tem com quem comentar as novidades e descobertas da viagem imediatamente. “Mas aí tira uma foto e manda.”

A designer Sofia Rosenbaum visitando a Capadócia, na Turquia. Foi uma das primeiras paradas de seu mochilão pela Europa, em 2019, que durou seis meses

Não precisa deixar de viver as coisas, não precisa deixar de se jogar. É só se jogar de olhos abertos

Sofia Rosenbaum, 22

“Que engraçado você me dizer que sou a entrevistada mais nova, já acho que fiz meu primeiro mochilão muito tarde”, diz a designer Sofia Rosenbaum, que viajou sozinha pela primeira vez no ano passado, aos 21, mas sonhava com isso desde a época de ensino médio. Sem nunca ter passado mais do que um final de semana na própria companhia, comprou sozinha uma passagem só de ida para a Istambul, na Turquia, e começou a planejar sua rota por 12 países da Europa, que no fim acabaram se transformando em 20.

Sofia decidiu desembarcar no país mais distante, para então iniciar uma jornada de pequenas viagens rumo a Lisboa, de onde pegou o voo de volta a São Paulo. O primeiro dos seis meses que passou fora foi todo planejado daqui: acomodação, pesquisa de gastos e preço médio para as refeições em cada lugar, passagens de ônibus de uma cidade para outra. “Foi motivo de muito medo e aflição de meus amigos e familiares falar que eu começaria de Istambul. Muito se fala sobre a Turquia ser um lugar hostil para mulheres sozinhas, especialmente as latinas, e mais ainda as brasileiras, que sofrem com o estereótipo e a hiperssexualização”, explica.

Por isso pautou sua programação com base na experiência de outras viajantes, sobretudo em blogs e grupos online feitos por e para mulheres. E não faltaram referências: ela conta que encontrou nas andanças pelo Facebook um canal de mulheres brasileiras especificamente voltado para as experiências na Turquia. “Os relatos me incentivaram bastante. Faz muita diferença saber que, sim, isso já foi feito por outras mulheres, e que há medidas específicas que precisamos tomar.”

A preparação não foi suficiente para poupá-la de episódios de assédio, infelizmente, mas um meio de se fazer mais atenta às circunstâncias. Durante o mochilão, Sofia conta ter sido perturbada por homens algumas vezes, de desconhecidos na rua até o gerente de um hostel em que ela se hospedou. Mas disse também ter tido gratas surpresas durante a trajetória, como no Kosovo e na Albânia — lugares que não estavam no script, mas que ela faz questão de sugerir como parte de uma rota imperdível pela Europa.

Sofia faz questão de acentuar que cada experiência é uma, e que não descobriu a receita para se blindar de hostilidade. Mas diz que ser mulher no Brasil já é um bom treinamento — não sem razão, já que o país está, de fato, entre os lugares mais inóspitos para mulheres viajantes. “Me abri para muitas experiências, mas sempre com parcimônia. Não agi diferente do que eu já faço no meu dia a dia aqui. Eu não vou andar por aí às cinco da manhã numa rua vazia contando estrelas. Gostaria de poder, mas não vou, e é assim que me porto em qualquer outro lugar”, explica Sofia, que mantém as conexões feitas com outras mulheres viajantes e repassa nos grupos as dicas de sua primeira empreitada nômade. “Não precisa deixar de viver as coisas, não precisa deixar de se jogar. É só se jogar de olhos abertos.”

Para mulheres viajantes

Aplicativos: para viagens internacionais, há aplicativos gratuitos como MayDay, Tripwhistle, Chirpey e Noonlight, disponíveis em cerca de 200 países. São feitos para que mulheres possam compartilhar suas localizações com facilidade, sinalizar incidentes ou áreas perigosas e acionar números de emergência ou ajuda de autoridades locais. No Brasil, o Life360 permite compartilhar a localização em tempo real com um grupo de pessoas. Os apps Sisterwave e Vamocomigo, ambos brasileiros, ajudam no contato de viajantes com outras mulheres — o primeiro, para hospedagem; o segundo, para encontrar companhia no caminho. E o BlaBlaCar Só Para Elas é a versão do aplicativo de caronas feita para que mulheres organizam viagens somente entre elas.

Agências: já há agências de turismo no Brasil especializadas em assegurar boas viagens para mulheres, como a Woman Trip. A empresa também mantém um blog com dicas e relatos e funciona como uma rede social para conectar mulheres viajantes. Também há agências que atendem todo tipo de público, mas que têm roteiros exclusivos para mulheres.

Podcasts, livros e blogs: existe uma infinidade de conteúdo disponível para quem quer conhecer a experiência de mulheres que viajaram sozinhas. Por exemplo, os podcasts Se Meu Mochilão Falasse, das viajantes Mary Teles e Andrea Leonel, e Excesso de Bagagem, da jornalista e viajante Thelma Lavagnoli. Os dois dão dicas para boas férias e abordam temas como ser mulher e viajar, ser LGBTQ+ e viajar, representatividade nas viagens, entre outros. Amanda Noventa, Paula Augot, Sylvia Barreto e Cyntia Campos relatam suas experiências e viagens para dezenas de países. Fora das telas, o livro “Mas Você Vai Sozinha?” (Globo Livros, 2016, 176p.) reúne crônicas da escritora e jornalista Gaía Passareli sobre suas viagens desacompanhadas.

Comunidades online: Especialmente no Facebook, há uma série de grupos dedicados às mochileiras, seja para trocar experiências e fortalecer a ponte, como o Mulheres que viajam sozinhas, ou para procurar companhia — e eventualmente até um sofá quebra-galho, como no Couchsurfing das Minas. O projeto Mulheres Viajantes também promove eventos e encontros para as andarilhas desacompanhadas. No Instagram, os perfis Sisters and Suitcases e Black Girls Travel Too são duas das comunidades internacionais de viagem para mulheres negras.