Manual do sexo virtual: Kama Sutra para virgens no sexo pela internet — Gama Revista
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©Javier Mayoral

Manual do sexo para virgens virtuais

Há um Kama Sutra de opções para transar pela internet. Conheça apps, gadgets, dicas para se iniciar e saiba como se proteger

Isabelle Moreira Lima e Laura Capelhuchnik 17 de Maio de 2020

Muito se falou que o sexo virtual seria o futuro. Pois bem: do dia para a noite, o futuro chegou. Seja por texto, áudio ou vídeo, há um verdadeiro Kama Sutra de opções para os adeptos, além de um cardápio variado de gadgets, apps e jogos — tudo isso, claro, mediado por códigos de comportamento em constante evolução.

“O importante é que se entenda que é uma experiência diferente. Não é um sexo pior, mas ele depende da conexão com o outro lado”, afirma a educadora sexual Clariana Leal. Nesse caso, vale dizer que falamos no sentido amplo da palavra: com uma conexão de internet ruim, não há conexão sexual que sobreviva (imagine ser constantemente interrompido por uma queda de rede no meio de uma frase em que informa o que faz com determinadas partes do corpo. E ainda ter que reiniciar o mesmo relato repetidamente).

Se o sexo virtual faz parte do pacote do que é chamado de novo normal, deve-se levar o momento que o precede a sério, como se faz na vida fora das telas. Esqueça que talvez você já tenha debochado disso um dia.

Prepare-se bem, sinta-se em casa (você está nela, afinal, esperamos) e eleja um local com privacidade. Iluminação agradável favorece o que será mostrado — luz direta não ajuda ninguém. Se o computador for o meio do encontro, estude o melhor ângulo e use o que for preciso (imensos dicionários de grego e latim) para apoiá-lo. Se preferir o celular, uma boa ideia pode ser usar um tripé.

Conselhos para webpaqueradores, vídeo da série “Quaren.tina”, idealizada pelas atrizes Isabela Mariotto e Júlia Burnier. Pode ser vista na íntegra no Instagram @mariotto.isabela

Vocabulário

Uma dúvida parece ser compartilhada unanimemente por todos os interessados na prática consultados por Gama: como começar?

Há vários jeitos, mas pegar alguém de surpresa com fotos íntimas não é um deles. Os limites e preferências ficam a critério de cada par ou grupo, mas certos códigos que inventamos offline se mantêm no ambiente virtual. Esperar pelo consentimento é um deles.

Uma maneira de “reunir” repertório é ouvir áudios eróticos como os da plataforma de streaming por assinatura Tela Preta, que tem contos narrados, sussurros de masturbações guiadas e ASMR’s pornô. No menu de temáticas estão ménage feminino e masculino, lugares públicos, exibicionismo, romântico, dominação e submissão. No site, há um áudio de degustação e aqui um alerta importante: pode ser constrangedor para os não-iniciados. Mas é um bom caminho para se libertar da primeira camada de constrangimento diante de dispositivos eletrônicos, que são menos estimulantes do que um encontro ou uma festa.

Outras opções na mesma linha são o Quinn, que traz texto além de áudio, e foca na masturbação feminina, e o Dip Sea, que alcançou imensa popularidade nos EUA (ambos em inglês).

Para quem quer trabalhar com imagens, o Instagram e o Twitter acumulam várias galerias de bons nudes para inspirar, como o perfil da revista brasileira Nin Magazine, que é alimentado pela colaboração caseira de leitores.

Oi, sumido

Com algumas ideias na cabeça (e apetrechos na mão, se for o caso), o primeiro passo tem que ser lento, sem sede ao pote. Alguém que já se conhece, um crush ou um ex-peguete, com quem se tem o mínimo de familiaridade pode ser um bom parceiro para os mais tímidos. A conversa se inicia com mensagens de texto e telefonemas, até que relatos e fotos picantes comecem a ser trocados em pequenas doses, de acordo com as sugestões de Clariana Leal.

Ela também recomenda transparência. “O quanto mais você comunicar o que quer, em todos os âmbitos da sexualidade, melhor. As mensagens têm que ser claras”, afirma. Mas se a coisa engancha (no mal sentido), vale apelar para algum jogo estimulante de perguntas. “Vale até um ‘stop sexual’”, sugere Clariana.

A psicóloga e sexóloga Sheila Reis lembra que não há receita de bolo quando o assunto é a sexualidade, ainda mais no sexo virtual, que é uma novidade para tanta gente. Apesar disso, ela aposta no áudio como uma ferramenta de sucesso para os iniciantes.

Tem gente que só de falar já sente um grande barato, entra em estado de alta excitação

“Tem gente que só de falar já sente um grande barato, entra em estado de alta excitação. Você fala e ouve e imagina o que quer, usa a fantasia que preferir. A partir do momento que há imagem a coisa fica mais íntima e, a depender do caso, pode até acabar com o tesão”, afirma. E complementa: “A mente humana é digna de estudo”.

Zoomruba

Se a ideia é um sexo mais casual, com uma pescaria em aplicativos como Tinder, Ok Cupid, Happen, há novos códigos em curso, que vão do pedido de nudes com o emoji mais discreto de todos, a câmera; até o que evoca uma informação mais direta, o de berinjela. O Grindr, outra rede social onde o sexo casual é forte, chegou a habilitar salas de bate-papo em vídeo.

Há ainda as festinhas que começam com pista e terminam numa espécie de orgia, cada um mostrando e fazendo o que dá na telha. E aí, não tem regra, dá para fazer qualquer coisa, até nada — se o seu barato é ser voyeur.

Muitas dessas festas são sediadas no Zoom. Embora a plataforma tenha sido apontada como um dos ambientes de interação virtual suscetíveis a invasão — e apesar de a própria empresa não gostar de ser relacionada a esse tipo de atividade — é um dos aplicativos de conferência remota mais queridos pelos pelados. Além, é claro, de plataformas específicas para isso, como Cam4 e OnlyFans.

Gadgets da alegria

A impossibilidade do convívio próximo entre alguns casais deu ao mercado brinquedos eróticos inteligentes capazes de enviar prazer a milhares de quilômetros de distância.

Há diversas marcas que trabalham com vibração remota, como as americanas OhMiBod e We-Vibe. Elas oferecem produtos interativos, em que a intensidade e o movimento das vibrações podem ser controlados por aplicativo a qualquer distância. Em alguns deles é possível criar maneiras diferentes de vibração e até elaborar sequências, como uma espécie de playlist com seus modos favoritos.

“Sentir saudade do seu amor dói menos quando você consegue sentir cada movimento que ele faz” é parte slogan de uma linha de produtos da holandesa Kiiroo. Há kits de diferentes tipos e tamanhos formados por dois equipamentos essenciais: um vibrador (para genitais femininas) e um masturbador (para masculinas), que funcionam por Wi-Fi ou bluetooth. Se a pessoa toca numa parte, quem está com a outra sente, e vice-versa. Ou seja, os dois aparelhos têm função dupla: reproduzir vibrações e também programá-las a partir do toque. Os dois aparelhos também se conectam a jogos, vídeos interativos e a acessórios de realidade virtual.

Por um sexting seguro

Não seria possível inaugurar esta seção sem o trocadilho: o sexo virtual te deixa imune a certos vírus, mas não a outros. Trocar mensagens ou fotos íntimas significa necessariamente topar com algum tipo de risco e é necessário ter consciência disso. A adoção de estratégias de segurança ajudam a minimizá-lo, no entanto. A começar pela regra de ouro da nude: só compartilhe sua intimidade com gente em quem você confia e peça para que, depois de apreciados, os arquivos sejam descartados. Não há tecnologia que minimize os efeitos de mau caratismo nas redes, e isso existe de sobra.

O sexo virtual te deixa imune a certos vírus, mas não a outros

A segunda dica do sexting é verificar se os seus dispositivos eletrônicos estão em dia com regras básicas de segurança na internet, como o atualização do sistema operacional, criptografia de ponta a ponta e autenticação em dois fatores. Se o seu celular é roubado, invadido ou mesmo deixado desbloqueado em algum canto da quarentena, é muito mais difícil que as informações sejam acessadas com dados embaralhados pela criptografia e senhas fortes.

Tipos de sigilo diferentes para usuários diferentes

Alguns apps de troca de mensagens já usam criptografia de ponta a ponta, como é o caso do Whatsapp. Snapchat e Instagram também são comuns para esse tipo de interação, com o adendo de que permitem que você programe uma foto para se autodestruir depois de exibida e notificam caso alguém faça uma captura de tela do outro lado.

Há outras ferramentas disponíveis de acordo com suas preferências de sigilo: o Signal, um dos aplicativos favoritos dos amantes da segurança digital, permite que você crie uma senha de acesso ao app, caso outros seres humanos também manuseiem seu aparelho. Para quem já está acostumado com o Facebook, o Messenger tem uma ala oculta que precisa ser ativada manualmente e permite que você estipule um prazo de validade para a mensagem.

Outros aplicativos também oferecem opções personalizadas de segurança, como Confide, Dust e Private, como notificação ou prevenção de captura de tela e mensagens que se autodestroem no período estipulado.

Corte a cabeça

Mesmo com todas essas ferramentas, uma pessoa ainda pode captar a sua tela utilizando outros dispositivos, o que leva à lembrança da regra de ouro da nude: não mostre partes de fácil identificação como tatuagens, piercings ou o rosto. Deixe para exibir o brilho dos seus olhos em outras circunstâncias de afeto virtual. O momento da nude demanda sigilo (e criatividade nos ângulos).

Deixe para exibir o brilho dos seus olhos em outras circunstâncias de afeto virtual que não as nudes

O mesmo vale para o endereço de quem posa: verifique se a geolocalização está ativada, o que pode indicar a origem do retrato. Melhor é remover esse tipo de dado das suas obras de arte, o que pode ser feito manualmente ou com aplicativos como o Photo Exif Editor.

Por fim, fique atento à sincronização dos seus dispositivos com nuvens (iCloud, Google Fotos, entre outros) e desabilite o armazenamento automático. É comum deletar as nudes do aparelho e esquecer que ainda estão em todos os outros lugares (basta conectar-se à nuvem).

Depois de tudo isso, você nunca mais poderá ser chamado de virgem virtual.