Manual do sexo virtual: Kama Sutra para virgens no sexo pela internet — Gama Revista
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Sexo

Manual do sexo para virgens virtuais

Há um Kama Sutra de opções para transar pela internet. Conheça apps, gadgets, dicas para se iniciar e saiba como se proteger

Isabelle Moreira Lima e Laura Capelhuchnik 17 de Maio de 2020

Muito se falou que o sexo virtual seria o futuro. Pois bem: do dia para a noite, o futuro chegou. Seja por texto, áudio ou vídeo, há um verdadeiro Kama Sutra de opções para os adeptos, além de um cardápio variado de gadgets, apps e jogos — tudo isso, claro, mediado por códigos de comportamento em constante evolução.

“O importante é que se entenda que é uma experiência diferente. Não é um sexo pior, mas ele depende da conexão com o outro lado”, afirma a educadora sexual Clariana Leal. Nesse caso, vale dizer que falamos no sentido amplo da palavra: com uma conexão de internet ruim, não há conexão sexual que sobreviva (imagine ser constantemente interrompido por uma queda de rede no meio de uma frase em que informa o que faz com determinadas partes do corpo. E ainda ter que reiniciar o mesmo relato repetidamente).

Se o sexo virtual faz parte do pacote do que é chamado de novo normal, deve-se levar o momento que o precede a sério, como se faz na vida fora das telas. Esqueça que talvez você já tenha debochado disso um dia.

Prepare-se bem, sinta-se em casa (você está nela, afinal, esperamos) e eleja um local com privacidade. Iluminação agradável favorece o que será mostrado — luz direta não ajuda ninguém. Se o computador for o meio do encontro, estude o melhor ângulo e use o que for preciso (imensos dicionários de grego e latim) para apoiá-lo. Se preferir o celular, uma boa ideia pode ser usar um tripé.

Conselhos para webpaqueradores, vídeo da série “Quaren.tina”, idealizada pelas atrizes Isabela Mariotto e Júlia Burnier. Pode ser vista na íntegra no Instagram @mariotto.isabela

Vocabulário

Uma dúvida parece ser compartilhada unanimemente por todos os interessados na prática consultados por Gama: como começar?

Há vários jeitos, mas pegar alguém de surpresa com fotos íntimas não é um deles. Os limites e preferências ficam a critério de cada par ou grupo, mas certos códigos que inventamos offline se mantêm no ambiente virtual. Esperar pelo consentimento é um deles.

Uma maneira de “reunir” repertório é ouvir áudios eróticos como os da plataforma de streaming por assinatura Tela Preta, que tem contos narrados, sussurros de masturbações guiadas e ASMR’s pornô. No menu de temáticas estão ménage feminino e masculino, lugares públicos, exibicionismo, romântico, dominação e submissão. No site, há um áudio de degustação e aqui um alerta importante: pode ser constrangedor para os não-iniciados. Mas é um bom caminho para se libertar da primeira camada de constrangimento diante de dispositivos eletrônicos, que são menos estimulantes do que um encontro ou uma festa.

Outras opções na mesma linha são o Quinn, que traz texto além de áudio, e foca na masturbação feminina, e o Dip Sea, que alcançou imensa popularidade nos EUA (ambos em inglês).

Para quem quer trabalhar com imagens, o Instagram e o Twitter acumulam várias galerias de bons nudes para inspirar, como o perfil da revista brasileira Nin Magazine, que é alimentado pela colaboração caseira de leitores.

Oi, sumido

Com algumas ideias na cabeça (e apetrechos na mão, se for o caso), o primeiro passo tem que ser lento, sem sede ao pote. Alguém que já se conhece, um crush ou um ex-peguete, com quem se tem o mínimo de familiaridade pode ser um bom parceiro para os mais tímidos. A conversa se inicia com mensagens de texto e telefonemas, até que relatos e fotos picantes comecem a ser trocados em pequenas doses, de acordo com as sugestões de Clariana Leal.

Ela também recomenda transparência. “O quanto mais você comunicar o que quer, em todos os âmbitos da sexualidade, melhor. As mensagens têm que ser claras”, afirma. Mas se a coisa engancha (no mal sentido), vale apelar para algum jogo estimulante de perguntas. “Vale até um ‘stop sexual’”, sugere Clariana.

A psicóloga e sexóloga Sheila Reis lembra que não há receita de bolo quando o assunto é a sexualidade, ainda mais no sexo virtual, que é uma novidade para tanta gente. Apesar disso, ela aposta no áudio como uma ferramenta de sucesso para os iniciantes.

Tem gente que só de falar já sente um grande barato, entra em estado de alta excitação

“Tem gente que só de falar já sente um grande barato, entra em estado de alta excitação. Você fala e ouve e imagina o que quer, usa a fantasia que preferir. A partir do momento que há imagem a coisa fica mais íntima e, a depender do caso, pode até acabar com o tesão”, afirma. E complementa: “A mente humana é digna de estudo”.

Zoomruba

Se a ideia é um sexo mais casual, com uma pescaria em aplicativos como Tinder, Ok Cupid, Happen, há novos códigos em curso, que vão do pedido de nudes com o emoji mais discreto de todos, a câmera; até o que evoca uma informação mais direta, o de berinjela. O Grindr, outra rede social onde o sexo casual é forte, chegou a habilitar salas de bate-papo em vídeo.

Há ainda as festinhas que começam com pista e terminam numa espécie de orgia, cada um mostrando e fazendo o que dá na telha. E aí, não tem regra, dá para fazer qualquer coisa, até nada — se o seu barato é ser voyeur.

Muitas dessas festas são sediadas no Zoom. Embora a plataforma tenha sido apontada como um dos ambientes de interação virtual suscetíveis a invasão — e apesar de a própria empresa não gostar de ser relacionada a esse tipo de atividade — é um dos aplicativos de conferência remota mais queridos pelos pelados. Além, é claro, de plataformas específicas para isso, como Cam4 e OnlyFans.

Gadgets da alegria

A impossibilidade do convívio próximo entre alguns casais deu ao mercado brinquedos eróticos inteligentes capazes de enviar prazer a milhares de quilômetros de distância.

Há diversas marcas que trabalham com vibração remota, como as americanas OhMiBod e We-Vibe. Elas oferecem produtos interativos, em que a intensidade e o movimento das vibrações podem ser controlados por aplicativo a qualquer distância. Em alguns deles é possível criar maneiras diferentes de vibração e até elaborar sequências, como uma espécie de playlist com seus modos favoritos.

“Sentir saudade do seu amor dói menos quando você consegue sentir cada movimento que ele faz” é parte slogan de uma linha de produtos da holandesa Kiiroo. Há kits de diferentes tipos e tamanhos formados por dois equipamentos essenciais: um vibrador (para genitais femininas) e um masturbador (para masculinas), que funcionam por Wi-Fi ou bluetooth. Se a pessoa toca numa parte, quem está com a outra sente, e vice-versa. Ou seja, os dois aparelhos têm função dupla: reproduzir vibrações e também programá-las a partir do toque. Os dois aparelhos também se conectam a jogos, vídeos interativos e a acessórios de realidade virtual.

Por um sexting seguro

Não seria possível inaugurar esta seção sem o trocadilho: o sexo virtual te deixa imune a certos vírus, mas não a outros. Trocar mensagens ou fotos íntimas significa necessariamente topar com algum tipo de risco e é necessário ter consciência disso. A adoção de estratégias de segurança ajudam a minimizá-lo, no entanto. A começar pela regra de ouro da nude: só compartilhe sua intimidade com gente em quem você confia e peça para que, depois de apreciados, os arquivos sejam descartados. Não há tecnologia que minimize os efeitos de mau caratismo nas redes, e isso existe de sobra.

O sexo virtual te deixa imune a certos vírus, mas não a outros

A segunda dica do sexting é verificar se os seus dispositivos eletrônicos estão em dia com regras básicas de segurança na internet, como o atualização do sistema operacional, criptografia de ponta a ponta e autenticação em dois fatores. Se o seu celular é roubado, invadido ou mesmo deixado desbloqueado em algum canto da quarentena, é muito mais difícil que as informações sejam acessadas com dados embaralhados pela criptografia e senhas fortes.

Tipos de sigilo diferentes para usuários diferentes

Alguns apps de troca de mensagens já usam criptografia de ponta a ponta, como é o caso do Whatsapp. Snapchat e Instagram também são comuns para esse tipo de interação, com o adendo de que permitem que você programe uma foto para se autodestruir depois de exibida e notificam caso alguém faça uma captura de tela do outro lado.

Há outras ferramentas disponíveis de acordo com suas preferências de sigilo: o Signal, um dos aplicativos favoritos dos amantes da segurança digital, permite que você crie uma senha de acesso ao app, caso outros seres humanos também manuseiem seu aparelho. Para quem já está acostumado com o Facebook, o Messenger tem uma ala oculta que precisa ser ativada manualmente e permite que você estipule um prazo de validade para a mensagem.

Outros aplicativos também oferecem opções personalizadas de segurança, como Confide, Dust e Private, como notificação ou prevenção de captura de tela e mensagens que se autodestroem no período estipulado.

Corte a cabeça

Mesmo com todas essas ferramentas, uma pessoa ainda pode captar a sua tela utilizando outros dispositivos, o que leva à lembrança da regra de ouro da nude: não mostre partes de fácil identificação como tatuagens, piercings ou o rosto. Deixe para exibir o brilho dos seus olhos em outras circunstâncias de afeto virtual. O momento da nude demanda sigilo (e criatividade nos ângulos).

Deixe para exibir o brilho dos seus olhos em outras circunstâncias de afeto virtual que não as nudes

O mesmo vale para o endereço de quem posa: verifique se a geolocalização está ativada, o que pode indicar a origem do retrato. Melhor é remover esse tipo de dado das suas obras de arte, o que pode ser feito manualmente ou com aplicativos como o Photo Exif Editor.

Por fim, fique atento à sincronização dos seus dispositivos com nuvens (iCloud, Google Fotos, entre outros) e desabilite o armazenamento automático. É comum deletar as nudes do aparelho e esquecer que ainda estão em todos os outros lugares (basta conectar-se à nuvem).

Depois de tudo isso, você nunca mais poderá ser chamado de virgem virtual.

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Ficção

Janela indiscreta

Em minicontos exclusivos para a Gama, Bianca Gonçalves, Santiago Nazarian, Isabela Figueiredo, Emilio Fraia e Amara Moira desvendam o sexo da quarentena

17 de Maio de 2020
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O TOQUE É O NOVO SCAT

Duas da madrugada. Não tínhamos exatamente combinado a hora exata, mas sabíamos, pela intuição e instinto dos nossos corpos, que aquele era o momento para encararmos um ao outro. Ligamos as máquinas. Deitamo-nos com a cabeça apoiada, à meia-luz. Passou a ser costume não tirarmos mais a roupa. Temos uma suspeita compartilhada de que a ABIN, o FBI, o governo da China e da Rússia estejam vigiando nossas taras. E só por isso ficamos a noite inteira de meia.

Antes da quarentena, desperdiçávamos juntos momentos elucubrando sobre limites. Certa vez pensamos na escatologia sexual – scat, para a indústria pornô. “Gosto do cheiro do seu suor, lembra?”, “prefiro o da sua saliva”, “sabia que naquela dobra entre a sua bunda e o começo da coxa tem um cheiro muito específico?”, “nossa, hehe”.

Os silêncios que acompanham nossa acareação carinhosa não nos suscitam mais nenhuma discussão filosófica, mas ainda sabemos: “Escatologia” também é doutrina que projeta alguma possibilidade à revelia da queda de nossa existência. Pós-Fim-do-Mundo. Contudo, decidimos não perder mais nosso raro tempo com discussões que levassem letras maiúsculas. Queríamos coisas menores.

“Meu bem, do que você sente mais falta?”.

O aparelho notifica aquecimento. A pergunta trava. De repente, estamos todos deformados. A ideia de tomar um banho e sair para namorar nunca pareceu tão suja. O efeito glitch no vídeo insiste, sempre insiste.

E o toque passou a ser o maior scat que existe.


Bianca Gonçalves (São Paulo, 1992) é pesquisadora, professora, revisora e poeta. Publicou seu primeiro livro, “como se pesassem mil atlânticos” (Urutau, 2019). Mantém o blog “Bianca não é branca” com crônicas, ensaios e resenhas desde 2016.

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CORPO ESTRANHO

“Tire os sapatos antes de entrar”, pedi ao abrir a porta. Entrando, ele já foi tirando as meias, a calça, camisa, cueca. Tinha o cheiro orgânico de animais que não se pode pedir por delivery. Toquei primeiro sua testa, de luvas. Como identificar quão quente deve ser o corpo do outro? Corpo estranho. Esperava que ele não notasse minha hesitação por trás da máscara, a falta de excitação dentro da calça. “Vamos ao banheiro?” Levei-o ao chuveiro. Ensaboei-o da cabeça aos pés. Esfreguei com a bucha. Me esforçava para que descesse pelo ralo qualquer traço da rua, da vida, de lá fora; me perguntava o que poderia se esconder entre seus pelos. Então o cobri de creme. Com navalha o raspei. Quando saímos do banheiro, não lhe restava nem sobrancelhas.

De pé ao lado da cama, peguei o frasco de álcool-gel na mesinha de cabeceira. Da cabeça aos pés. Agora ele cheirava familiar, como todo os outros, cheiro de homem, cheiro de álcool-gel, cheiro de homem 70%. “Deita aqui”, indiquei.

Ele se deitou no chão. Sobre a longa folha de plástico estendida. Comecei a envolvê-lo, embalá-lo, rolá-lo e enrolá-lo em plástico, fita adesiva.

Finalmente, com nenhuma camada de pele à mostra, me deitei entregue sobre meu homem-plástico-bolha. Cheirava a polietileno. E quando eu o abraçava, ouvia as bolhas estourando. Por dentro de minha calça, finalmente a ereção se pronunciava. Agora eu podia tirar a roupa.


Santiago Nazarian (São Paulo, 1977), tem uma dúzia de livros publicados como autor, entre eles “Neve Negra” (Companhia das Letras, 2017) e “BIOFOBIA” (Editora Record, 2014), e quase uma centena como tradutor.

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A FALHA HUMANA

Não alimentem a esperança. Não há heróis. Não valemos nada. A vida é um saco de histórias vulgares e ridículas.

Eu não gostava dele. Antes de termos começado a trabalhar à distância, eu sempre dissera, na redação, a quem quisesse ouvir, que o Miguel tinha um transtorno narcisista de personalidade, o que explicava a forma sobranceira como tentava dominar-nos. Nas reuniões, o seu sorriso nunca abria. No entanto, os olhos, quando não fugia com o olhar, não mostravam malevolência, mas insegurança. Devia ser uma fragilidade que vinha da infância. A mãe não o tinha acarinhado. O pai era violento.

Nunca receei que a minha opinião pudesse chegar aos seus ouvidos. Contava com isso. Há denunciantes gratuitos a cada esquina. Devemos usar os seus serviços em nosso favor. Temos alguma saída a não ser chafurdar na falha humana para a conhecer e aprender como sair ilesos?

Entre nós mantinha-se um silêncio não isento de significado. Eu não tinha medo dele: ele não me fazia frente. Ele tinha muito ego: eu também.

Mas veio o Coronazinho, que nos enfiou em casa, local a partir do qual trabalhamos há oito meses. Na nossa profissão, trabalhar implica estar sentado frente ao computador. A redação realiza duas reuniões semanais, por videoconferência. Nessas alturas, vejo Miguel sentado numa poltrona negra, com fundo de parede branca não decorada. Ele, bem visível. O corpo todo. Não há mais nada para ver na sua janelinha. Levanta-se a cada quarto de hora. Sai do campo de visão e regressa rapidamente. Vai beber refresco?

É muito tentador vistoriar os outros quando não estamos na sua presença. Não sabem que estão a ser olhados. Podemos examiná-los meticulosamente. Reparo que usa roupa básica para trabalhar on line. No seu caso, apenas camiseta curta sobre calça jeans de cintura baixa. Quando se levanta, a visão da sua pélvis morena traçada por pelos curtos subindo do púbis, inunda completamente o quadrado de ecrã. Os momentos altos da minha reunião são esses em que posso contemplar cinco centímetros de baixo ventre que a roupa não esconde, a barriguinha de pele húmida, atravessada por veias salientes cujo destino desejo seguir.

Não sei se o Miguel é casado nem onde fica a sua residência, mas quando a reunião termina, desligo o aplicativo e imagino-me percorrendo o seu bairro e tocando a campainha de sua casa. Ele abre. Entro. Fita-me com os olhos inseguros da infância. Digo, “eu sei que é frágil, não precisa falar”. Encosto-o à parede com o impulso do meu corpo e espalmo as mãos na pele da sua barriga, por debaixo da camiseta. Escalda. O seu coração bate ali.. Enfio a mão direita por dentro dos seus jeans e sussurro, “diga-me que também deseja que o trabalho em casa não tenha vindo para ficar.”


Isabela Figueiredo (Maputo, 1963) é jornalista, professora e escritora portuguesa. É autora de, entre outros, “A Gorda” (Todavia, 2017).

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ZOOM

Mas minha cena preferida é uma cena de sexo em que o sexo não existe. Está num conto do Tchékhov. É quando o Gurov seduz a Ana. Eles vão para a casa dela, e entram no quarto, e em vez de narrar o que acontece na cama, o Tchékhov leva a gente pra dentro da cabeça do Gurov, e ele passa a lembrar, e a fazer uma lista, de uma série de outras mulheres com quem saiu e trepou. O Tchékhov narra a cena desse jeito, trocando o sexo por essa lista de fodas. Depois, a Ana, que é casada, fica sentada na cama, pensativa, desolada, como a pecadora de uma tela antiga, é assim que o Tchékhov descreve ela. O Gurov vai então até uma mesa no canto do quarto, onde tem uma melancia — sim, uma melancia. Ele corta um pedaço e começa a comer a melancia. Passa mais de uma hora nisso. Juro. Pelado, que é como eu imagino ele, olhando pra Ana, cada um do seu lado, sem dizer nada, ela quieta olhando pra ele, ele do lado de cá, olhando pra ela, mexendo no pau, mastigando a melancia.


Emilio Fraia (São Paulo, 1982) é escritor, autor de “Sebastopol” (Alfaguara, 2018).

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CONFINADAS

– Esse picu tá uó, mona. Tem nem um salãozinho aberto aqui perto, eu tendo que fazer cam assim, pode?

– Mulher, eles tão nem aí pra picu não. As conas o que tão atrás é dessa jebona que a senhora tem que eu sei, aí só gilete já dá o truque.

– Que jebona, mulher, tá doida, é?

– Essa mala que fica aí é o quê, neca ou tu não sabe aquendar?

– Não sabe aquendar, ôxi… a senhora tá abusada, ein? Vou te mostrar a gilete na sua cara. Cê tava no ovo do teu pai e eu já trucando belississíssima. Aqui é xoxota, meu bem, xoxota, fio dental. Bem menininha. Até queria uma neca maiorzinha, pra bater porta era bem. Mas tá morta de tudo a coitada.

– Docinho de jiló!

– Cabei de fazer um na cam, trinta arô. Uma hora socando o cu no consolo e a maricona nada. Tava só vendo vencer o cheque, a lambrequeira que ia fazer no banheiro. E eu ia falar “goza, agora goza, viado”. Não pediu bate-estaca, uma hora? Não fez questão?

– Ah não, cam é uó demais, não aguento mais ficar batendo bolo pra essas penosas malditas. Tem graça não. Mona do céu, te juro que o que eu mais queria era aquendar um bofe, mesmo que fosse passiva. Ela lá linda de quatro rebolando o edizão peludo e eu fina fazendo.

– Catei, tá na intenção, é? E se viesse uma cacura bem larga?

– Tá se oferecendo? Se for…

– Eu ein, podre!

– Não chega a ser uma manjuba, mas é grandinha.

– Tou bege com a senhora! É colocação isso? Cortou o padê, mona, parô.

– Já vai pra dois meses trancadas só nós duas aqui, sei lá.

– A loca! Tá me xoxando, só pode.

– Devo tá doida, esquece.

– Não, calma… se for mesmo sério, não sei…


Amara Moira (Campinas, 1985) é travesti, feminista, doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp (com tese sobre o”Ulysses”, de James Joyce) e autora do livro autobiográfico”E se eu Fosse Puta” (hoo editora, 2016).

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Sexo

Que pornô você quer ver?

Confinados ou não, os brasileiros figuram entre os povos que mais consomem pornografia no mundo — e isso diz muito sobre as formas diversas como expressamos nossa sexualidade

Mariana Payno 17 de Maio de 2020

A dobradinha isolamento-pornografia pode parecer atual, mas não é de hoje que as situações de confinamento se revelam produtivas para o nosso lado erótico —muito antes de o pornô online existir, clássicos quentes da literatura nasciam entre quatro paredes. “O confinamento paralisa um pouco as pessoas, tira elas da rotina, e isso é muito propício para o gás de todo erotismo: a fantasia.” A observação de Eliane Robert Moraes, professora da USP e especialista em literatura erótica, se refere a obras desse estilo, como “120 Dias de Sodoma” (1785), do Marquês de Sade, ou “Decamerão” (1348), de Giovanni Boccaccio +, mas também vale para os mais de 60 dias de Covid-19 que o Brasil vive hoje.

Não à toa e seguindo a tendência do resto do mundo, o país viu crescer os números de acesso a sites pornográficos durante o isolamento social imposto pela pandemia do coronavírus. O Pornhub, um dos portais mais populares do globo nessa área, registrou um aumento de 22% nas visitas brasileiras no final de março. Sites nacionais, que já demonstravam que o setor passa longe da crise econômica +, não ficaram para trás na corrida pelo porn: no mesmo período, a Brasileirinhas, maior e mais antiga produtora de filmes eróticos do país, inaugurada em 1996, dobrou seu número de assinaturas diárias.

A curiosidade do brasileiro por filmes pornô pode ter enrijecido nos últimos meses, mas também não é novidade. Em 2018, uma pesquisa encomendada pelo canal nacional Sexy Hot mostrou que 22 milhões de brasileiros assumem consumir pornografia; já no ano passado, o Pornhub ranqueou o país como o 11º na lista dos campeões de views. Todos esses dados colocam o Brasil como um dos maiores consumidores de pornô do mundo e, somados a outras estatísticas, podem revelar algumas tendências de comportamento nesse sentido.

Mas será que é possível, observando esse consumo, falar em uma cultura sexual especialmente brasileira? Para a antropóloga Maria Filomena Gregori, que pesquisa o tema, mapear nossas preferências na cama não é tarefa tão simples assim. “Não é muito consistente investir na hipótese de que o Brasil teria uma sexualidade particular que nos qualifica ou gera entre nós uma cultura sexual brasileira. O sentido de cultura é heterogêneo e complexo”, diz. A psicóloga e educadora sexual Ana Canosa compartilha essa visão. “Há vários Brasis dentro de um Brasil, então temos contextos muito diversos em relação ao comportamento sexual.” Assim como a sociedade não é homogênea, os gostos e jeitos sexuais dos brasileiros têm várias caras. Aqui estão algumas delas.

A clandestinidade: desejos ocultos

Um dos motivos mais citados para o consumo de pornô no Brasil na pesquisa do Sexy Hot em 2018 foi “sentir prazer livre e individual”. Aqui entra o ingrediente da moralidade, protagonista (ao lado do sexo, claro) do maior paradoxo na expressão da nossa sexualidade. “A sexualidade é esse lugar da transgressão, a moralidade está na cultura. O campo da sexualidade e do sexo é um campo do instinto, da fantasia, do inconsciente, do impulso”, explica Canosa.“Se o sujeito está em uma sociedade em que só existe o certo e o errado, ele não consegue dar significado aos seus desejos e vai viver em contradição com eles o tempo todo.”

Nesse espaço transgressor e, por isso, clandestino, o desejo muitas vezes reprimido pode acabar encontrando a violência. É o que acontece quando cruzamos esses fatos: os brasileiros são 98% mais propensos a assistir a categoria pornô “Transgender” do que consumidores de outras nacionalidades, ao mesmo tempo em que o Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais no mundo. “Quando um homem heterossexual se vê desejando um corpo feminino fálico, que para ele é totalmente ambíguo, sente simultaneamente desejo e repulsa. É um desejo impossível, ininteligível, que não cabe na cabeça masculina hegemônica e, por isso, mata”, explica a antropóloga Silvana de Souza Nascimento.

A colonização: desejos antigos

Não tão ocultas assim, muitas preferências sexuais dos brasileiros hoje parecem ter raízes na mentalidade colonial, que ao longo de séculos construiu e reforçou estereótipos que persistem nas produções eróticas e no imaginário dos consumidores —caso da objetificação da mulher, mais forte em relação à mulher negra, e também da hipersexualização do homem negro. “Não só o machismo, mas também o racismo atravessa a indústria pornográfica”, afirma Nascimento. “O sistema de dominação masculina branca faz parte da nossa origem constitutiva, desde a colonização”.

A natureza dos filmes mais assistidos até hoje mostra que esse sistema não só não deixou de existir, como segue se fortalecendo. Em 2019, as buscas brasileiras que mais cresceram no Pornhub incluíam, por exemplo, o termo “negra gostosa”, 598% mais procurado do que no ano anterior. Da mesma forma, o ator Kid Bengala, famoso por ser negro e pelo tamanho de seu pênis, é o único homem no top 5 de atores e atrizes pornô mais buscados no Brasil pela plataforma.

São imagens difíceis de apagar, já que povoaram a produção de conteúdos mais quentes no país, atravessando os tempos: desde as primeiras narrativas “para homens”, publicadas em livretos no século 19, passando pelos filmes de pornochanchada —os mais vistos no Brasil entre as décadas de 1970 e 1980 — e pelos primeiros longas de sexo explícito exibidos nos nossos cinemas, até chegar no pornô online que apimenta a quarentena hoje.

A expansão dos direitos: liberação dos desejos

Apesar de o público de pornô no Brasil ser majoritariamente masculino, o país lidera, ao lado das Filipinas, as porcentagens de visitas femininas ao Pornhub. De todos os acessos nacionais, 39% são de mulheres. E o interesse das brasileiras pelo erotismo não vem de hoje: se antigamente era restrito a espiadelas em livros e revistas proibidas, depois da promulgação da Constituição de 1988 — que expande os direitos sexuais e legitima indivíduos e instituições que antes não eram considerados — ganha o próprio nicho no mercado.

“Passa a haver, de um ponto de vista mais mercadológico do que do ativismo, a incorporação de uma série de elementos eróticos vindos do mercado internacional, um tipo de pornografia alternativa, muito atrelado a ideias de saúde corporal e autoestima, que atende ao público feminino”, explica Gregori. Ela conta que as primeiras lojas desse tipo, que vendiam não só filmes, mas também objetos de prazer, surgiram em meio às classes alta e média das grandes cidades, se popularizando em outros lugares depois.

Embora esse nicho continue muito limitado aos padrões heteronormativos, sem revolucionar completamente o chamado pornô mainstream, a antropóloga enxerga avanços. “Quando você feminiza o setor, você atribui às mulheres uma posição de protagonismo e acaba por expandir as possibilidades que elas têm para viver uma vida mais libertária e descobrir prazeres que não reconheciam antes”, defende.

O pós-pornô: desejos feministas

Nos últimos anos, maneiras de “feminizar” ou, melhor, de tornar a indústria pornográfica menos masculina de modo mais incisivo têm ganhado espaço. É o caso das produções de pós-pornô, que questionam o sexo heteronormativo e machista, propondo um erotismo mais diverso. “Isso aparece como resultado das reflexões sobre a violência que a mulher pode sofrer nos filmes pornográficos clássicos”, diz Canosa.

A atriz e diretora brasileira Dread Hot produz o chamado pornô feminista, filmes que desafiam a desigualdade de gênero na indústria e devolvem o protagonismo à mulher, retirando-a do lugar de objeto sexual. “Muita gente acha que são filmes feitos só para mulheres, mas na verdade o pornô feminista veio para mudar o consumo dos homens também”, diz.

Ela defende o consumo de um conteúdo pornográfico que seja positivo para a sexualidade de mulheres e homens, desvencilhado de padrões impostos. “A pornografia, independente de ser saudável ou não, é uma forma de educação sexual, porque jovens de 12 ou 13 anos têm o primeiro contato com sexo por meio do pornô. Então, o pornô feminista pode funcionar como uma reeducação da sexualidade.”

Nenhum pornô: outro feminismo, outros desejos

Há quem defenda que a melhor forma de expressar a sexualidade é se libertando completamente de “estereótipos pré-moldados em imagens”. São movimentos feministas que veem em qualquer tipo de pornô uma forma de comercialização dos corpos das mulheres. “Por que nós precisamos de uma indústria que guie a nossa sexualidade? Por que não podemos exercer livremente nossas preferências sem nenhuma propaganda que nos influencie?”, escreveram à Gama as integrantes do coletivo QG Feminista, em entrevista por e-mail.

Elas acreditam que a pornografia “perpetua a cultura do estupro”, por causa do alto índice de cenas de agressão contidas nos filmes mais acessados, a imensa maioria delas cometidas por homens contra mulheres +. “Que tipo de mensagem esses meninos e os homens estão recebendo sobre sexo? Que tipo de homem serão os meninos e que tipo de relacionamento sexual terão, quando aprendem a relacionar sexo com agressão e violência?”, questionam.


Colaborou Daniel Vila Nova

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Relações

Tutorial do orgasmo

Mulheres que transformaram a saga da satisfação sexual feminina em metodologias de masturbação e autoconhecimento para chegar lá

Laura Capelhuchnik 17 de Maio de 2020

Não vivemos no período mais excitante da história da humanidade, é verdade. Incertezas cotidianas, formas de intimidade com as quais nos habituamos estão fora de cogitação durante o isolamento. Mas é verdade também que a privação de contato físico tem sobrecarregado libidos. Neste período não há muita matemática: é tão normal afastar o sexo completamente dos seus pensamentos quanto, na solidão da reclusão, só pensar nisso.

Para aliviar a tensão sob a qual passamos a maior parte das horas e manter todos protegidos, lideranças de saúde em vários países têm lançado cartilhas com recomendações para manutenção das expressões sexuais consideradas seguras em uma pandemia. Para parceiros juntos em quarentena, deve-se evitar novos participantes desconhecidos. Em relação aos solteiros, a recomendação mais forte é de sexo virtual e masturbação.

“Você é seu parceiro sexual mais seguro” é o que dizem documentos como o emitido pelo Departamento de Saúde da Cidade de Nova York e os dos governos argentino e colombiano. Há quem diga (com respaldo científico) que a prática solitária, além de ser inofensiva para a saúde coletiva, libera endorfina e ajuda a aliviar o estresse. Por isso pode ser um bom combate aos males do confinamento.

As mulheres estão sujeitas a diferenças de cultura e religião há tanto tempo que é apenas recentemente que o prazer sexual está sendo libertado do tabu

Mas para que homens e mulheres pudessem se beneficiar igualmente da endorfina contida nessas cartilhas, muitas mulheres trabalharam (e continuam trabalhando) para disseminar, especialmente entre a população feminina, autoconhecimento e masturbação.

“As mulheres estão sujeitas a diferenças de cultura e religião há tanto tempo que é apenas recentemente que o prazer sexual está sendo libertado do tabu”, disse à revista Vice Lydia Deniller, fundadora da plataforma de vídeos OMG Yes. O projeto nasceu da sua vontade de desfazer a ideia de que os corpos das mulheres são entidades desconhecidas e desobstruir o diálogo sobre prazer feminino.

No Brasil, mais da metade das mulheres têm dificuldade para atingir o clímax, segundo uma pesquisa de 2016 do ProSex (Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas). E cerca de 40% delas não se masturbam. Mulheres heterossexuais também são o grupo que chega menos vezes ao clímax durante as relações sexuais segundo um estudo americano publicado na revista Archives of Sexual Behavior, em 2019.

Para que cada um seja de fato seu parceiro mais seguro (e efetivo), as mulheres a seguir desenvolveram técnicas — em grupo, individualmente, pela internet ou de modo presencial. Algumas têm script, outras se baseiam no desenrolar dos encontros.

A americana Carlin Ross ao lado da sócia Betty Dodson, pioneira nas oficinas para mulheres sobre corpo e prazer

No ritmo das guitarras elétricas

Uma das mais conhecidas educadoras sexuais é Betty Dodson, missionária da masturbação feminina e autora do best-seller “Sex For One”, publicado em 1973. O livro abriu caminhos para a trilha da libertação sexual das mulheres, junto com os cursos de body sex e falas públicas que ministrava sobre o uso correto de vibradores, que chocaram a sociedade americana na época.

“O instinto me disse que mobilidade sexual é o mesmo que mobilidade social. Os homens tinham isso, mas as mulheres não”, escreveu Dodson em uma de suas memórias. Ainda hoje, aos 90 anos, ela se dedica a ensinar mulheres de todas as idades a sentir prazer, primeiro sozinhas. Recentemente, voltou aos holofotes depois da participação na série “The Goop Lab”, projeto documental da atriz americana Gwyneth Paltrow.

Aos 90 anos, ela ainda detém o posto de guru da masturbação. Junto com a sócia, Carlin Ross, retomou há alguns anos seus cursos, que estão com turmas esgotadas até o segundo semestre de 2020.

As oficinas são ministradas em grupo, agora de maneira remota. Trata-se de uma aula prática sobre a genitália, em que participantes observam suas intimidades em frente a um espelho, seguida de masturbação coletiva. Um dos métodos patenteados por Dodson — e que a tornaram conhecida — é a chamada técnica rock’n’roll, que inclui massagem na vulva, exercícios de respiração, um vibrador para o clitóris e penetração com seu artefato mais característico, um halteres vaginal.

A educadora agora atrai também uma audiência mais nova, criada com maior acesso à informação sobre a sexualidade da mulher e o direito ao prazer. Mesmo assim, Dodson não acredita que as jovens feministas sejam tão libertas assim. “Em geral vêm garotas entre 30 e 50 anos. Muitas nunca se tocaram em sua vida“, disse ao El País. “Vejo como a próxima onda do feminismo será baseada na sexualidade e no orgasmo feminino. E isso irá mudar a energia do universo.”

Para ter seu prazer guiado por Dodson é necessário desembolsar US$ 1.200.

Mariana Stock, fundadora do núcleo de sexualidade para mulheres Prazerela© Arquivo pessoal

Não há interesse dessa sociedade patriarcal, e que reduz prazer ao consumo, de que a mulher tenha esse regozijo tão legítimo que é o gozo.

A sexualidade positiva

A Casa Prazerela é um núcleo de sexualidade dedicado exclusivamente à mulher. Um dos carros-chefe da casa, fundada pela psicanalista paulistana Mariana Stock, é a chamada terapia orgástica. Um processo individual de consciência corporal e descoberta da potência vital e sexual, que tem a ver com entender o caráter multissensorial dos corpos. Segundo a fundadora, que deixou a carreira como executiva de marketing para focar no prazer feminino, o orgasmo não é uma entidade monolítica: a mulher tem uma variedade de potências e jeitos diferentes de senti-lo, embora muitas ainda não conheçam nenhum deles.

“Falar de sexualidade feminina não é só falar de saúde pública, é falar de uma revolução. Quando as mulheres encontram esse lugar de ter orgasmos múltiplos, se satisfazer com seu corpo, deixam de ser reféns de critérios sociais de aceitação. O que a sociedade diz é ‘seja magra, doce, submissa’. Ninguém fala ‘goze’. Porque não há interesse dessa sociedade patriarcal, que reduz prazer ao consumo, de que a mulher tenha esse regozijo tão legítimo que é o gozo”, diz Mariana.

As sessões da terapia orgástica têm, em média, duas horas, e começam com uma conversa entre paciente e terapeuta. A ideia é que o desenvolvimento da experiência se adapte à biografia de cada cliente, por isso não há um roteiro preestabelecido. O segundo processo é a exploração do próprio corpo, que tem auxílio de música, óleos, e acessórios. Há outros cursos na casa voltados para autoconhecimento e estimulação, individual ou em conjunto, além de módulos à distância.

Durante a pandemia, a Casa foi fechada, mas conta com um serviço virtual de sessões pedagógicas da chamada sexualidade positiva. Com duração de até duas horas no Skype, o encontro é individual e conta com terapeutas munidas de escuta e materiais para ajudar em explicações sobre anatomia e fisiologia do corpo. Cada sessão tem o valor de R$300. A equipe também programa novos cursos e projetos remotos para o início de junho.

Saga compartilhada

Em 2017, a humorista americana Remy Kassimir completou 28 anos sem nunca ter vivido um orgasmo. Diante de tamanha insatisfação, ela descreve, fez o que qualquer pessoa neste momento faria: um podcast para descobrir com entrevistados e ouvintes como chegar lá. O programa já tem duas temporadas e aborda diversos assuntos ligados ao prazer feminino, aos tabus e à desinformação sobre a sexualidade. Além, é claro, de dicas e relatos de como chegar ao sonhado clímax. Um spoiler: ela conseguiu.

A cada episódio, Kassimir entrevista especialistas, pesquisadores e profissionais ligados ao sexo e convidadas que contam suas experiências sobre o primeiro orgasmo. “Hoje é diferente do que foi nos dias de [revista] Cosmopolitan, que tinha uma linguagem como ‘assim é que se faz. Aqui estão cinco instruções’.

Aprendemos com os convidados do podcast que cada primeira vez é diferente da outra. Uma delas disse que se alguém toca seus mamilos, ela vai gozar. Eu não sabia que as pessoas tinham esses pontos sensíveis. Você não pode dizer às pessoas como ter prazer porque elas fisicamente não se sentem como você”, escreveu a humorista no site The Outline.

Da esquerda para a direita, a humorista Remy Kassimir, a fotógrafa Lydia Daniller e a terapeuta Vanessa Marin. Três americanas engajadas nas sabedorias do orgasmo

Uma plataforma, 2 mil professoras

Os americanos Lydia Daniller e Rob Perkins, “uma lésbica e um hétero”, como se definem, foram colegas na Universidade da Califórnia nos anos 1990, onde discussões sobre sexo não eram atípicas, mas ainda cheias de tabus relacionados ao prazer sexual feminino, inclusive no meio acadêmico.

Anos depois, decidiram contribuir para resolver o problema da ausência de informações científicas nessa área criando uma pesquisa e, junto com a Universidade de Indiana, trabalharam em um estudo de representatividade nacional sobre nuances da sexualidade de mulheres. Foram 2 mil entrevistadas, entre 18 a 94 anos, contando sobre suas estratégias de prazer.

A dupla percebeu que algumas formas de estimulação apareciam com certa frequência, como os movimentos circulares, em diferentes níveis de pressão e localização, ou toques “surpresa”, que desafiam a expectativa e por isso aumentam o prazer. Lydia, fotógrafa, e Rob, ligado à comunicação e estratégia digital, decidiram fundar a plataforma de vídeos OMG Yes, que ensina uma variedade de técnicas de masturbação de uma maneira bastante imagética.

A primeira temporada reúne 12 categorias diferentes que agrupam ensinamentos sobre intensidade, tipo de movimento, ritmo, entre outros aspectos. Quem ensina essas técnicas são mulheres de carne e osso e mãos à obra, mostrando passo a passo o que fazer para chegar lá. O acesso ao conteúdo custa US$ 25.

Há também uma seção de vídeos interativos para praticar as técnicas ensinadas. Seu celular ou tablet faz as vezes de uma vulva virtual, realística e falante com a qual você praticará por meio do touchscreen. E ela é exigente: reclama se você pára no meio e dá feedbacks sobre o desempenho dos seus dedos. Também há dicas para o que pode ser melhorado.

O sucesso da plataforma, que tem também uma parcela de usuários homens, gerou uma segunda temporada e uma nova pesquisa, agora com cerca de 20 mil mulheres. O novo conteúdo é dedicado a questões mais internas, digamos, como penetração, ponto G e ejaculação feminina, e está sendo traduzido para o português.

No Brasil, mais da metade das mulheres têm dificuldade para atingir o clímax. E cerca de 40% delas não se masturbam

Bons modos para mulheres

Finishing school é um antigo termo usado para definir as escolas que se ocupavam em ensinar etiquetas e ritos das classes altas para as meninas que se preparavam para integrar a alta sociedade em países da Europa e nos Estados Unidos.

Nesta Finishing School, inventada pela psicoterapeuta americana Vanessa Marin, o curso é um pouco diferente. E não é só porque é na internet. Trata-se de uma escola online para ensinar mulheres consciência corporal, técnicas de masturbação e métodos para superar a insegurança e a vergonha de seus corpos. O curso tem 14 semanas, cada uma delas com workshops em áudio, exercícios e práticas guiadas. Um planejamento estratégico bastante detalhado, quase como uma batalha naval da vulva.

Marin é terapeuta sexual há mais de uma década e criou a instituição para reduzir o desequilíbrio de taxas de orgasmos entre homens e mulheres e facilitar que mais mulheres chegassem pela primeira vez ao clímax. Para quem já venceu os módulos básicos, a formação tem sequência com técnicas mais avançadas, tanto para a prática sozinha como acompanhada.

Carol Teixeira, fundadora do curso I Love My Pussy, baseado no conhecimento tântrico© Alle Manzano

Vejo que muitas mulheres já estão empoderadas na mente, e meu objetivo é trazer isso para o corpo

Sob o olhar do tantra

O tantra é uma filosofia comportamental, de origem indiana, que explora o desenvolvimento do ser humano de maneira integral: física, mental e espiritualmente. Entre os temas trabalhados, como a alimentação, a saúde e a cultura, há também ensinamentos ligados à prática sexual e sua energia vital. Essa ala se popularizou muito no Brasil, sobretudo por meio de centros e workshops de práticas voltadas para a melhora da satisfação sexual que se ampliaram no país nos anos 1990.

Um dos cursos conhecidos que hoje adota a abordagem tântrica para abrir caminhos ao prazer feminino é o I Love My Pussy, ministrado pela paulistana e especialista em tantra Carol Teixeira. “Vejo que muitas mulheres já estão empoderadas na mente, e meu objetivo é trazer isso para o corpo”, diz.

O curso é uma imersão de um dia inteiro, em que entre 60 e 80 mulheres se dedicam a desconstruir crenças vinculadas à sexualidade, expurgar os gritos presos na garganta e externalizar traumas para, em seguida, aprender sobre o tantra. Na última etapa, as participantes são ensinadas coletivamente a despertar a energia sexual por meio do toque e do contato com vibradores.

Segundo a terapeuta, a sexualidade é um dos meios de ativar a chamada kundalini, energia que representa a força criativa e vital na filosofia tântrica. A abordagem de Teixeira não é somente voltada para a sexualidade, mas para quem procura um olhar integral para o universo feminino vinculado a aspectos espirituais e energéticos.

Os encontros presenciais estão suspensos, mas é possível conhecer o tantra durante a pandemia: Carol Teixeira tem disponibilizado alguns de seus ensinamentos sobre sexo e relações em seu perfil no Instagram e também no YouTube. E inaugurou o curso online semanal Shaktis Tântricas, para quem quer se aprofundar nessa área de conhecimento.

Precisou desenhar

Homens também têm meios para estudar passo a passo o caminho do prazer feminino. O best-seller “As Senhoras primeiro” (Sextante, 256 p.), do terapeuta sexual americano Ian Kerner discute a percepção da sexualidade feminina e desmistifica o orgasmo feminino para os homens. O livro tem técnicas e métodos simples para investir numa relação sexual em que haja prazer mútuo. Sim, eles são ilustrados. O livro é direcionado a casais heterossexuais, mas contém informações aplicáveis a casais de qualquer orientação. Kerner foi um dos convidados da primeira temporada do podcast How Cum. No episódio, ele fala sobre libidos em descompasso, as diferenças entre desejo espontâneo e responsivo e de como privilegiar o estímulo interno em detrimento do externo pode ser problemático para a satisfação sexual da mulher.

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Bloco de notas

Bloco de notas

Sextech, educação sexual, literatura erótica. As dicas da equipe Gama esquentam o tema de Semana

  • Imagem da listagem de bloco de notas

    “Tenho interesse em registrar essa comunidade gay da qual eu faço parte e que às vezes é vista com discriminação ou de forma pejorativa”, diz a Gama o fotógrafo GIANFRANCO BRICEÑO. “Existe beleza nesses momentos íntimos das relações entre homens. É uma questão de naturalizar o olhar.” O peruano radicado no Brasil trabalha especialmente com moda, nus e seminus masculinos (foto acima e a PB de abertura do Bloco de Notas). Há três anos, juntou esses interesses no FANZINE UNCUT — produzido manualmente e com edições limitadas. Com a publicação, sua ideia é criar cenas que tenham uma clara referência às campanhas dos anos 1990, como por exemplo da Calvin Klein; além de, com seu olhar, “explorar a sexualidade íntima do outro”.

  • Bryony Cole, fundadora do site FUTURE OF SEX  garante que, para além dos apps e gadgets, sexo e tecnologia tem algo melhor para oferecer: educação sexual. Em seu PODCAST, cria um espaço seguro para ajudar a entender sexualidade e desejo. O objetivo é conduzir as pessoas ao futuro: uma vida sexual divertida, sem vergonha e rodeada de tecnologia. “Sextech” é o novo termo para isso.

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    Entre as criações de JAVIER MAYORALA encontra-se de tudo, mas o principal tema do artista espanhol radicado nos Estados Unidos é o sexo. De mulheres nuas a cenas de sexo explícito, o resultado são obras capazes de manter qualquer curioso dentro de seu site por horas. Suas pinturas ilustraram os conteúdos JANELA INDISCRETA e MANUAL DO SEXO PARA VIRGENS VIRTUAIS, na Gama.
  • “Ele me provoca. Morde minhas orelhas e me beija, e eu gosto de sua impetuosidade”

    Prova de que ficção e a realidade coabitam quando se trata de sexo é que dois dos maiores nomes da literatura erótica viveram juntos um dos affairs mais tórridos do universo literário de todos os tempos. Henry Miller é até hoje conhecido por “Trópico de Câncer”, relato autobiográfico que foi censurado por décadas nos Estados Unidos (foi tachado como “pornográfico”). Anais Nin, nascida em 1903, ganhou fama com seu clássico de contos “Delta de Vênus” e “Henry e June” (trecho acima). Quando seus diários foram publicados, porém, segredos emergiram: entre as revelações, drogas, sexo e a prova de que romances secretos vividos pelos escritores inspiraram parte das obras ditas fictícias.

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    O título lembra uma disciplina de ensino médio, e tem muito disso, mas SEX EDUCATION consegue falar de educação sexual e inclusão de forma engraçada, sexy, didática, tudo ao mesmo tempo. Na série britânica há de nerds a atletas e garotas populares. Todos têm perguntas. E ninguém fica sem resposta nas sessões com o “terapeuta” adolescente Otis, protagonista e filho de Jean, a verdadeira terapeuta sexual da história.

  • Voltada para a arte erótica, a revista brasileira NIN foi criada por duas mulheres para pensar em sexo e PENSAR O SEXO, além de celebrar e desmistificar o corpo nu. Com edições bilíngues, a Nin apresenta visões pessoais de colaboradoras ao redor do globo sobre sexualidade e tudo que a envolve. Pensada para homens e mulheres, o intuito da revista (cujo subtítulo é “naked for no reason”) é simples: falar sobre sexo e enaltecer o quê artístico de todo corpo nu. Afinal, precisa ter razão para estar nu?

  • O contexto atual tem trazido uma nova profundidade aos encontros marcados por apps de relacionamento – justamente porque não há o encontro logo de cara. O que abre espaço para muita conversa, descobertas, intimidade. Se antes bastava algumas frases ocas e fotos bonitas para rolar algo ao vivo (e, logo, um match frustrado), agora o papo se delonga no app e ainda ganha a videoconferência. SAI O SEXO CASUAL, E ENTRA O DATE POR VÍDEO.

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    A ORIGEM DO MUNDO” (1866, á esquerda) daria um belo romance de aventura. A tela de Gustave Courbet ficou anos escondida sob um pano verde no banheiro de um diplomata turco – passando então pelas mãos de nazistas, russos e do psicanalista Jacques Lacan, até descansar de vez no Museu D’Orsay, em Paris. Em 1989, a tela foi reinterpretada pela artista francesa Orlan com o título “A ORIGEM DA GUERRA” (foto à direita). A obra, em sua versão masculina, foi exposta no mesmo museu onde descansa a tela original.

  • Já ouviu falar da maior best-seller erótica do Brasil? A maranhense LANI QUEIROZ fez de sua saga “Príncipes Di Castellani”, repleta de homens misteriosos e envolventes, intrigas em ilhas italianas e tórridas cenas eróticas um sucesso inconteste na Amazon brasileira. Professora do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins, ela começou a escrever inspirada pelos romances de banca de jornal, do tipo “Sabrina”. Publicou o primeiro livro em 2014 na plataforma Wattpad e não parou mais. Lani é um fenômeno (foi sucesso na BIENAL DO LIVRO do ano passado e apareceu na lista de mais vendidos da Veja) que traduz como a literatura erótica cumpre papel importante. Confira entrevista com a autora no PODCAST DA SEMANA, da Gama.

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    Sexo e cinema vivem um relacionamento sério – e não é de hoje. Desde 1933, quando o filme tcheco “ÊXTASE” (foto) levou as primeiras cenas picantes às telas. Dali em diante, diretores não mediram esforços para trazer erotismo e sexualidade ao escuro do cinema. De “LOVE“, recebido com tapete vermelho pelo Festival de Cannes em 2015 à série “THE DEUCE”, sobre o boom da pornografia americana nos anos 1970, a temática tem se complexificado – e exigido MAIS CONSCIÊNCIA NA HORA DE GRAVAR desde o início do movimento #MeToo.