A sexualidade dos brasileiros e o consumo de pornografia no Brasil — Gama Revista
Tá pensando em sexo?

Que pornô você quer ver?

Confinados ou não, os brasileiros figuram entre os povos que mais consomem pornografia no mundo — e isso diz muito sobre as formas diversas como expressamos nossa sexualidade

Mariana Payno 17 de Maio de 2020

A dobradinha isolamento-pornografia pode parecer atual, mas não é de hoje que as situações de confinamento se revelam produtivas para o nosso lado erótico —muito antes de o pornô online existir, clássicos quentes da literatura nasciam entre quatro paredes. “O confinamento paralisa um pouco as pessoas, tira elas da rotina, e isso é muito propício para o gás de todo erotismo: a fantasia.” A observação de Eliane Robert Moraes, professora da USP e especialista em literatura erótica, se refere a obras desse estilo, como “120 Dias de Sodoma” (1785), do Marquês de Sade, ou “Decamerão” (1348), de Giovanni Boccaccio +, mas também vale para os mais de 60 dias de Covid-19 que o Brasil vive hoje.

Não à toa e seguindo a tendência do resto do mundo, o país viu crescer os números de acesso a sites pornográficos durante o isolamento social imposto pela pandemia do coronavírus. O Pornhub, um dos portais mais populares do globo nessa área, registrou um aumento de 22% nas visitas brasileiras no final de março. Sites nacionais, que já demonstravam que o setor passa longe da crise econômica +, não ficaram para trás na corrida pelo porn: no mesmo período, a Brasileirinhas, maior e mais antiga produtora de filmes eróticos do país, inaugurada em 1996, dobrou seu número de assinaturas diárias.

A curiosidade do brasileiro por filmes pornô pode ter enrijecido nos últimos meses, mas também não é novidade. Em 2018, uma pesquisa encomendada pelo canal nacional Sexy Hot mostrou que 22 milhões de brasileiros assumem consumir pornografia; já no ano passado, o Pornhub ranqueou o país como o 11º na lista dos campeões de views. Todos esses dados colocam o Brasil como um dos maiores consumidores de pornô do mundo e, somados a outras estatísticas, podem revelar algumas tendências de comportamento nesse sentido.

Mas será que é possível, observando esse consumo, falar em uma cultura sexual especialmente brasileira? Para a antropóloga Maria Filomena Gregori, que pesquisa o tema, mapear nossas preferências na cama não é tarefa tão simples assim. “Não é muito consistente investir na hipótese de que o Brasil teria uma sexualidade particular que nos qualifica ou gera entre nós uma cultura sexual brasileira. O sentido de cultura é heterogêneo e complexo”, diz. A psicóloga e educadora sexual Ana Canosa compartilha essa visão. “Há vários Brasis dentro de um Brasil, então temos contextos muito diversos em relação ao comportamento sexual.” Assim como a sociedade não é homogênea, os gostos e jeitos sexuais dos brasileiros têm várias caras. Aqui estão algumas delas.

A clandestinidade: desejos ocultos

Um dos motivos mais citados para o consumo de pornô no Brasil na pesquisa do Sexy Hot em 2018 foi “sentir prazer livre e individual”. Aqui entra o ingrediente da moralidade, protagonista (ao lado do sexo, claro) do maior paradoxo na expressão da nossa sexualidade. “A sexualidade é esse lugar da transgressão, a moralidade está na cultura. O campo da sexualidade e do sexo é um campo do instinto, da fantasia, do inconsciente, do impulso”, explica Canosa.“Se o sujeito está em uma sociedade em que só existe o certo e o errado, ele não consegue dar significado aos seus desejos e vai viver em contradição com eles o tempo todo.”

Nesse espaço transgressor e, por isso, clandestino, o desejo muitas vezes reprimido pode acabar encontrando a violência. É o que acontece quando cruzamos esses fatos: os brasileiros são 98% mais propensos a assistir a categoria pornô “Transgender” do que consumidores de outras nacionalidades, ao mesmo tempo em que o Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais no mundo. “Quando um homem heterossexual se vê desejando um corpo feminino fálico, que para ele é totalmente ambíguo, sente simultaneamente desejo e repulsa. É um desejo impossível, ininteligível, que não cabe na cabeça masculina hegemônica e, por isso, mata”, explica a antropóloga Silvana de Souza Nascimento.

A colonização: desejos antigos

Não tão ocultas assim, muitas preferências sexuais dos brasileiros hoje parecem ter raízes na mentalidade colonial, que ao longo de séculos construiu e reforçou estereótipos que persistem nas produções eróticas e no imaginário dos consumidores —caso da objetificação da mulher, mais forte em relação à mulher negra, e também da hipersexualização do homem negro. “Não só o machismo, mas também o racismo atravessa a indústria pornográfica”, afirma Nascimento. “O sistema de dominação masculina branca faz parte da nossa origem constitutiva, desde a colonização”.

A natureza dos filmes mais assistidos até hoje mostra que esse sistema não só não deixou de existir, como segue se fortalecendo. Em 2019, as buscas brasileiras que mais cresceram no Pornhub incluíam, por exemplo, o termo “negra gostosa”, 598% mais procurado do que no ano anterior. Da mesma forma, o ator Kid Bengala, famoso por ser negro e pelo tamanho de seu pênis, é o único homem no top 5 de atores e atrizes pornô mais buscados no Brasil pela plataforma.

São imagens difíceis de apagar, já que povoaram a produção de conteúdos mais quentes no país, atravessando os tempos: desde as primeiras narrativas “para homens”, publicadas em livretos no século 19, passando pelos filmes de pornochanchada —os mais vistos no Brasil entre as décadas de 1970 e 1980 — e pelos primeiros longas de sexo explícito exibidos nos nossos cinemas, até chegar no pornô online que apimenta a quarentena hoje.

A expansão dos direitos: liberação dos desejos

Apesar de o público de pornô no Brasil ser majoritariamente masculino, o país lidera, ao lado das Filipinas, as porcentagens de visitas femininas ao Pornhub. De todos os acessos nacionais, 39% são de mulheres. E o interesse das brasileiras pelo erotismo não vem de hoje: se antigamente era restrito a espiadelas em livros e revistas proibidas, depois da promulgação da Constituição de 1988 — que expande os direitos sexuais e legitima indivíduos e instituições que antes não eram considerados — ganha o próprio nicho no mercado.

“Passa a haver, de um ponto de vista mais mercadológico do que do ativismo, a incorporação de uma série de elementos eróticos vindos do mercado internacional, um tipo de pornografia alternativa, muito atrelado a ideias de saúde corporal e autoestima, que atende ao público feminino”, explica Gregori. Ela conta que as primeiras lojas desse tipo, que vendiam não só filmes, mas também objetos de prazer, surgiram em meio às classes alta e média das grandes cidades, se popularizando em outros lugares depois.

Embora esse nicho continue muito limitado aos padrões heteronormativos, sem revolucionar completamente o chamado pornô mainstream, a antropóloga enxerga avanços. “Quando você feminiza o setor, você atribui às mulheres uma posição de protagonismo e acaba por expandir as possibilidades que elas têm para viver uma vida mais libertária e descobrir prazeres que não reconheciam antes”, defende.

O pós-pornô: desejos feministas

Nos últimos anos, maneiras de “feminizar” ou, melhor, de tornar a indústria pornográfica menos masculina de modo mais incisivo têm ganhado espaço. É o caso das produções de pós-pornô, que questionam o sexo heteronormativo e machista, propondo um erotismo mais diverso. “Isso aparece como resultado das reflexões sobre a violência que a mulher pode sofrer nos filmes pornográficos clássicos”, diz Canosa.

A atriz e diretora brasileira Dread Hot produz o chamado pornô feminista, filmes que desafiam a desigualdade de gênero na indústria e devolvem o protagonismo à mulher, retirando-a do lugar de objeto sexual. “Muita gente acha que são filmes feitos só para mulheres, mas na verdade o pornô feminista veio para mudar o consumo dos homens também”, diz.

Ela defende o consumo de um conteúdo pornográfico que seja positivo para a sexualidade de mulheres e homens, desvencilhado de padrões impostos. “A pornografia, independente de ser saudável ou não, é uma forma de educação sexual, porque jovens de 12 ou 13 anos têm o primeiro contato com sexo por meio do pornô. Então, o pornô feminista pode funcionar como uma reeducação da sexualidade.”

Nenhum pornô: outro feminismo, outros desejos

Há quem defenda que a melhor forma de expressar a sexualidade é se libertando completamente de “estereótipos pré-moldados em imagens”. São movimentos feministas que veem em qualquer tipo de pornô uma forma de comercialização dos corpos das mulheres. “Por que nós precisamos de uma indústria que guie a nossa sexualidade? Por que não podemos exercer livremente nossas preferências sem nenhuma propaganda que nos influencie?”, escreveram à Gama as integrantes do coletivo QG Feminista, em entrevista por e-mail.

Elas acreditam que a pornografia “perpetua a cultura do estupro”, por causa do alto índice de cenas de agressão contidas nos filmes mais acessados, a imensa maioria delas cometidas por homens contra mulheres +. “Que tipo de mensagem esses meninos e os homens estão recebendo sobre sexo? Que tipo de homem serão os meninos e que tipo de relacionamento sexual terão, quando aprendem a relacionar sexo com agressão e violência?”, questionam.


Colaborou Daniel Vila Nova