O que a mostra 'Casa Carioca' diz sobre o jeito brasileiro de construir e morar — Gama Revista
Tem espaço?
Fotografia da série "Favelicidade" (2009), de Luiz Baltar / Divulgação

Minha casa, minha vista

Apenas 15% das casas brasileiras são assinadas por arquitetos. A autoconstrução é característica do nosso jeito de morar e tema central de exposição carioca

Luara Calvi Anic 11 de Outubro de 2020

Há um desejo comum à grande parte dos cariocas: viver o lado de fora. Até quando estão dentro de casa. “Tem muito essa valorização da laje, da varanda, da vista, do que dá para a área externa”, diz Marcelo Campos. O curador-chefe do Museu de Arte do Rio (MAR) e a arquiteta e urbanista Joice Berth assinam a exposição “Casa Carioca”.

A mostra — que trata de direito à moradia, gênero, raça e questões culturais relacionadas ao morar — teve como ponto de partida o dado de que 85% das casas brasileiras são obra de seus proprietários e moradores, segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU). A chamada “autoconstrução” instiga o debate presente em toda a exposição.

A mostra traz obras de arte que tratam da relação da casa com o entorno e com questões de moradia, gênero e raça

Para tratar desses temas os curadores selecionaram especialmente trabalhos de arte, ao invés de focarem apenas na arquitetura. São 600 obras no total, entre fotografias, vídeos, instalações, pinturas, etc. Além de apresentar ao público a produção de jovens artistas (alguns ilustram esta matéria), há trabalhos de nomes consagrados como Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Beatriz Milhazes, Cícero Dias, Lasar Segall, Mestre Valentim e Walter Firmo.

A abertura de “Casa Carioca” seria em maio, mas com a pandemia do novo coronavírus teve que ser adiada. Desde o final de setembro, no entanto, o museu está realizando visitas agendadas com datas e horários divulgados previamente nas plataformas digitais. A exposição vai até 2021.

A seguir, os curadores falam sobre alguns temas que definem a casa carioca e brasileira e que permeiam os dez núcleos que compõem a mostra.

Fotografia da série "Suburbio" (2001), de Bruno VeigaBruno Veiga / Divulgação

Laje: lazer e retribuição

Marcelo Campos: “As lajes têm até hoje um papel de muita importância nas comunidades. É você conseguir, por exemplo, ter ali o seu próprio espaço de diversão e de fixação no bairro — já que essas pessoas vivem mais tempo na condição de ir e voltar do trabalho do que na própria casa. E o fim de semana se configura como esse momento de usar as piscinas, de fazer churrasco.

“Você tem os mutirões, onde as pessoas se reúnem para construir, fazer a laje da casa e depois emendam com uma celebração”

Há festas religiosas, às vezes profanas, que se dão dentro dessa lógica da autoconstrução. Por exemplo você tem os mutirões, onde as pessoas se reúnem para construir, fazer a laje da casa e depois emendam com o almoço, com uma feijoada. No passado, eram as chamadas Festas da Cumeeira — termo que até aparece em “Águas de Março”, do Tom Jobim. Essa festividade era quase que para pagar essas pessoas que trabalhavam para ajudar o vizinho, o parente ou o amigo a construir, uma espécie de retribuição.”

Pintura de IIone Saldanha (1921-2001), sem título, sem dataIone Saldanha / Divulgação

Arquitetura e mulheres

Joice Berth: “Elas são a maioria dentro da profissão, mas minoria no reconhecimento e no acesso aos trabalhos mais qualificados. Quando se pensa em fazer uma edificação importante, a prioridade são os arquitetos. A dinâmica faz com que as mulheres ocupem um papel de coadjuvante e não de liderança e definição. Então, apesar delas serem maioria, os ambiente não se alteram muito, continuam obedecendo a ideia patriarcal — ainda tem a área de serviço, a área social.

“Apesar das mulheres serem maioria na profissão, os ambientes continuam obedecendo a ideia patriarcal — ainda tem área de serviço, área social”

 

Essa coisa de falar que lugar de mulher é na cozinha, a questão do elevador de serviço, do quarto da empregada. Nada disso se altera porque a visão que tem dentro da arquitetura está sendo pautada pelos homens. Então ainda que eles não concordem [com essa realidade], intuitivamente eles continuam reproduzindo isso. As discrepâncias sociais, de gênero, étnicas e raciais continuam demarcando a maneira de dividir os espaços nas casas.”

Obra de Ivens Machado (2002), sem títuloIvens Machado / Divulgação
"Preto por fora branco por dentro e sangra", de Fabio BaroliFabio Baroli / Divulgação

Olhar e vivência de artista

Joice Berth: “O norte para a escolha dos artistas [que participam da exposição] foi a diversidade sociorracial, étnica e de gênero também. Um dos pontos mais revolucionários é ter artistas já conhecidos, já consagrados, como a Adriana Varejão, convivendo lado a lado com artistas periféricos que são igualmente capacitados e qualificados — mas a elitização do mercado da arte também exclui essas pessoas e coloca como arte periférica. Ali está homogêneo. Não tem arte negra, arte indígena, arte de mulheres. Até porque não faz sentido ser chamado de diversidade e continuar marcando territórios dessa forma.”

“A arquitetura tem vieses complicados e às vezes muito preconceituosos. São marcas que colocam um preconceito racial num primeiro plano”

Marcelo Campos: “Nos preocupamos em trabalhar com jovens artistas e outros estabelecidos. Então temos por exemplo Alberto Pereira, artista que tem a experiência dos lambe-lambe de rua. Um deles se tornou conhecido, é uma babá negra empurrando um carrinho com o rosto da escrava Anastácia. Um trabalho crítico que cai pra gente de um modo muito importante e fundamental — que é tratar do lugar das babás negras dentro dessa casa, como se dá esse trabalho. A arquitetura tem vieses complicados e às vezes muito preconceituosos, como a ideia da entrada de serviço ou do elevador de serviço, ou mesmo o quarto de empregada. São marcas que de certa maneira colocam um preconceito racial num primeiro plano e que tem ainda uma presença e em muitos prédios e em outros lugares. A gente teve que buscar artistas, em sua maioria negros e negras, que discutem também esse lugar e suas próprias histórias. Muitos filhos de empregadas domésticas, filhos de pedreiros, de mestres de obras. Isso pra gente foi muito surpreendente e importante, o famoso lugar de fala.”

"Minha Herança", de Bruno PortellaBruno Portella / Divulgação

Autoconstrução brasileira

Marcelo Campos: “Com esse dado de que 85% das casas no Brasil são autoconstruídas e não assinadas, a gente focou em falar disso e também dos 15% de arquitetos e arquitetas que constituem essa história. Tratar dessa lógica dos materiais de autoconstrução e métodos construtivos — dos povos originários, indígenas, métodos trazidos por africanos e que até hoje permanecem e que não são necessariamente oficializados. Era preciso falar sobre tudo isso, inclusive para pensar a arquitetura. Muitas vezes, uma casa de palha, por exemplo, não é chamada de arquitetura, não está nos livros ou revistas sobre a casa brasileira. Joyce e eu dividimos essa construção da exposição combinando assuntos sociais e de empoderamento, de gênero, de racialidade. Discutimos o papel da mulher negra nessa casa — essa mulher que muitas vezes trabalha em outros lares e cria outras crianças e que tem questões quando precisa retornar e poder estar com a sua própria família.”

“A exposição tem uma provocação: o que é a casa? A autoconstrução então não é arquitetura? Por que não é arquitetura?”

Joice Berth “A autoconstrução é uma característica da nossa arquitetura que é negada por arquitetos renomados, um sinal do elitismo que existe na profissão. A exposição tem uma provocação: o que é a casa? A autoconstrução então não é arquitetura? Por que não é arquitetura? Por que uma casa construída no alto de uma favela, no barracão, onde você vai viver, se relacionar, trabalhar tem que ser excluída dessa categoria? Ao negar essa arquitetura, acabam negando a arquitetura que se produz no Brasil.”