O que é arquitetura sustentável e como as casas podem dialogar com a natureza — Gama Revista
Tem espaço?

Casa: máquina ou organismo de morar?

Márcia Carini 11 de Outubro de 2020
Atelier Marko Brajovic / Divulgação

O futuro da arquitetura está na observação da natureza. No presente, certificações de bem-estar, construções modulares e impressão 3D ajudam a compor o que chamamos de arquitetura sustentável

Bananas separadas do cacho, à venda em bandejas de plástico… Esse contra-senso da sustentabilidade leva à certeza de que subjugamos o meio ambiente. Melhor designer de todos os tempos, a natureza entrega embalagens perfeitas e cria estruturas inteligentes. Suas soluções, tantas vezes negligenciadas pelo mundo da tecnocracia, são o farol da biomimética — importante norte para o futuro da Arquitetura e do Design Verde.

As referências mais conhecidas da biomimética aplicada à arquitetura são os estádios conhecidos como Ninho de Pássaro e Cubo d’Água, erguidos para as Olimpíadas de Pequim (2008). O primeiro, projetado por Herzog & De Meuron, tem estrutura de aço que, com entrelaçamento similar ao que se vê em ninhos, ganha resistência. O segundo, do escritório PTW Architects, é revestido com bolhas plásticas translúcidas similares a células vegetais, que diminuem a energia utilizada em aquecimento e iluminação (imagens abaixo).

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Mas o conceito também aparece traduzido no universo da construção uni-familiar. E no Brasil há bons exemplos criados pelo arquiteto e designer Marko Brajovic, croata naturalizado brasileiro. Um deles é a Casa Arca, que tem formas e processos construtivos inspirados no laboratório natural. Um único material — composição de aço, alumínio e zinco — forma os módulos da concha que é ao mesmo tempo telhado, parede e acabamento, como em uma casa indígena. A inspiração, de fato, foram as construções do povo Asurini, do médio Xingu.

A mesma ideia da cobertura como componente principal e da flexibilidade dos ambientes internos aparece em outro projeto do ateliê Marko Brajovic. É a casa Asha, erguida com tábuas de madeira “trançadas” (foto aérea abaixo). A utilização de materiais é otimizada pela própria concepção da estrutura. Tudo nela parece se adaptar ao uso — conforme a reinvenção da própria vida.

A biomimética nos leva a rever o paradigma da casa como máquina de morar

A biomimética nos leva a rever o paradigma da casa como máquina de morar. O princípio de Le Corbusier, arquiteto naturalizado francês, dominou o século XX. Cem anos se passaram e, agora, muitos arquitetos veem a casa como um organismo de morar — ou seja, deve trabalhar em sinergia com o todo, provocando bem-estar. Durante a pandemia, esse desejo foi catalisado. E é possível que em nome dele sejamos mais exigentes e aprendamos a rever certos confortos, reinventando até mesmo o conceito de máquina do século passado.

Marko Brajovic/divulgação
Atelier Marko Brajovic / Divulgação
No alto, a Casa Asha, de Marko Brajovic, foi erguida com tábuas de madeira "trançadas". Acima, a Casa Arca tem formas e processos construtivos inspirados na naturezaAtelier Marko Brajovic / Divulgação

Certificação de bem-estar e novas demandas

Mas, para concretizar a reinvenção, é preciso vencer o período de limbo da migração entre o mundo tecnocrata e o mundo orgânico. A própria ideia de arquitetura sustentável, com esse nome, ainda esbarra em noções atropeladas. Então, para saber se um edifício de grande porte é ou não sustentável, o mercado adotou um caminho: as certificações ambientais.

Até agora as mais reconhecidas foram o selo Aqua (de redução de impactos gerados por uma obra) e a Certificação Leed (de eficiência energética). “Mas mesmo os selos precisam se atualizar. E, na medida em que os critérios estabelecidos por eles deixam de ser um diferencial, a régua se ergue. Além disso, novos anseios surgem.

É o caso das motivações que levaram à busca pela Certificação Well. “Ela reconhece a ocupação saudável do espaço”, conta Luiz Henrique Ferreira, empreendedor em sustentabilidade na construção e CEO e Founder da Inovatech Engenheria. A Well Building Standard registra o humor, o rendimento e a qualidade de sono dos ocupantes de um edifício. Ou seja, o fator humano retoma seu protagonismo, como em casas ancestrais.

Certificações educam e reverberam em todas as esferas. Arquitetos terão que aprender a lidar com as demandas de clientes mais conscientes

A pesquisa World Green Building Trends de 2018 já apontava o desejo de saúde e bem-estar como um gatilho importante na busca de certificações ambientais pelo mercado imobiliário. “É o consumidor que cobra responsabilidade, sinalizando o mercado financeiro e forçando as incorporadoras a responderem a tempo”, diz Luiz.

Ainda que as certificações não se apliquem nas pequenas obras, elas educam e reverberam em todas as esferas. E os arquitetos terão que aprender a lidar com as demandas de clientes mais conscientes. Segundo Luiz, além de questionar materiais e procedimentos, muitos deles estão revendo seus próprios excessos. E passam a fazer perguntas que são importantes para quem projeta. Preciso de uma peça nova ou posso restaurar? Será que consigo viver em um espaço menor?

De olho na primeira pergunta, startups nascem como Tinders da reforma, unindo quem quer se desfazer de materiais de construção a quem aceita usar peças reaproveitadas. Uma dessas empresas, a Réloco, de São Paulo, viu a demanda crescer 15% a cada mês, desde junho de 2020.

“Estamos falando de pessoas que querem doar seus materiais — em vez de destiná-los a aterros — pessoas que querem vender itens como louças e metais e pessoas que querem comprar produtos mais baratos”, conta a arquiteta Raffaela Vecchio, idealizadora do projeto. Não é a panaceia para a indústria da pequena construção, mas é um sinal de novos tempos.

Casa contêiner e impressão 3D

Também é um sinal de novos tempos ver tantas respostas afirmativas à pergunta: “Será que posso viver em um espaço menor?”. Em 2019, quando a arquiteta Marília Pellegrini apresentou uma casa feita com contêineres em uma mostra de arquitetura (CASACOR) (fotos no final da matéria), ela traduzia o viver simples em 60 m2. O projeto era calmo e limpo. Toda branca, a casa ainda seguia os princípios do Design of Emptiness, difundido por Kenya Hara, criador das lojas Muji. Poucos elementos, valorização do essencial.

Poucos elementos, valorização do essencial. Essa é a característica do Design of EmptinessMuji / Divulgação

Mas a base daquela ideia era o reaproveitamento de contêineres marítimos. Usados no transporte naval, os contêineres seguem regras rigorosas das seguradoras que os impedem de viajar após um período de 8 a 10 anos de uso. Aposentados dos navios, muitos deles passam a servir de depósito ou transporte terrestre. Mas uma parte fica parada em portos a espera de um destino.

A construção de casas contêineres enobrece o seu reuso. “Desde de maio, tenho recebido 70% a mais de pedidos de orçamento comparado com o mesmo período de anos anteriores”, conta Ecka Sharanan, sócio-proprietário da Solução Home Containers.

A alta da demanda pode ser associada a muitos fatores. Uma delas é a chamada tendência da segunda casa. Durante a pandemia, conscientes de que podem trabalhar de qualquer lugar, muitos moradores de grandes cidades isolaram-se em suas casas de praia ou campo. E quem não tinha ainda a segunda casa passou a aventar a possibilidade de ter. A rapidez de obra e o custo relativamente baixo de uma casa contêiner excitou as pessoas.

De fato, uma casa contêiner pode representar um custo equivalente a 25% de uma construção similar convencional. E pode ser feita em 1/3 do tempo. Tem mais um fator importante aqui: o bem-estar psicológico de quem opta por essa solução. Ela chega no terreno como um eletrodoméstico. Basta ligar à agua e à luz. “Na próxima semana, uma casa montada com dois contêineres em Santos será transportada pronta até Três Lagoas. Como é uma área rural, com escassez de mão de obra para construção e a proprietária tinha prazo curto, essa foi a melhor solução”, diz Ecka.

Marília Pellegrini / Divulgação

A mobilidade é uma vantagem ambiental — pois permite que, no futuro, um mesmo morador leve sua casa para outro terreno (e não precise consumir mais recursos em nova construção). Mas é também um entrave. No Brasil, as linhas de crédito e financiamento não estão disponíveis para casas assim. Essa é uma briga que mostra como os paradigmas novos estão em confronto contínuo com o sistema estabelecido. Não importa que os processos já tenham sido testados há anos em outros países. Na Holanda, por exemplo, existem condomínios inteiros com casas contêineres.

E mesmo quando o método construtivo não parece tão diferente do convencional, a resistência permanece. Devia ser esperado que uma casa de cimento, construída rapidamente, tocasse o coração dos mais tradicionais. Pelo menos, foi assim na Bélgica — quando a Kamp C, centro de inovação da Antuérpia, em parceria com a Universidade Thomas More, lançou a casa de dois andares, de 90 m2, erguida em 15 dias com uma impressora 3D gigante.

A repercussão foi mundial e empresas de diversos setores se uniram à empreitada. Ao mesmo tempo, no Rio Grande do Norte, pesquisadores do Centro de Excelência da Universidade Potiguar construíam uma casa de 60 m2 em dois dias, usando o mesmo método. Em ambos os casos, as emissões de CO2 durante a construção são comprovadamente reduzidas, se comparadas a uma obra tradicional.

Mas, no Brasil, a história ainda parece distante do morador. “Os estudantes criaram o equipamento, o produto e o processo”, diz Henrique Eduardo Costa, coordenador do Centro de Excelência. Ele se refere à impressora, à massa especial e ao método de estruturação das paredes. Mas, por enquanto, os engenheiros Allynson Xavier e Iago Felipe Silva, donos do projeto, precisam batalhar pela educação do consumidor. E pela quebra de sua desconfiança.

Imagine agora o quão distante estão do nosso dia a dia as pesquisas de ponta como as que utilizam o Micelium (fibras dos fungos) para fazer tijolos. Ou as peças que unem robôs e bichos da seda, desenvolvidas pela pesquisadora israelense Nori Oxman. Ao mesmo tempo, parece normal comprar uma banana em embalagem plástica. Como diz o arquiteto e designer Marko Brajovic é preciso redesenhar o cotidiano, aprendendo com a natureza. As mudanças acontecerão quer queiramos ou não. Ainda resistimos, mas esse, definitivamente, não é o caminho.