Como a sociedade muda seus hábitos e comportamentos — Gama Revista
Tempo de mudança

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Repertório

Como a sociedade revê seus hábitos

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Usar cinto de segurança, fumar em locais determinados e, agora, usar máscaras. Houve um tempo em que ninguém fazia isso. Como a sociedade muda seus comportamentos de forma coletiva? E por que algumas mudanças ficam e outras não?

Leonardo Neiva 21 de Fevereiro de 2021

Hoje é até difícil lembrar de um tempo em que as pessoas puxavam fumo com certa naturalidade dentro de aviões ou restaurantes. Ou em que se podia dirigir um carro sem usar cinto de segurança e não temer nem pela vida nem pela multa gorda que poderia estar a caminho. Após um ano inteiro de pandemia, até mesmo conseguir ver o rosto descoberto de outras pessoas nas ruas parece coisa de um passado distante.

Mas fato é que todos esses comportamentos já foram considerados absolutamente normais e socialmente aceitos. A realidade em que vivemos atualmente, portanto, só pôde ser construída devido a mudanças de hábito coletivas, que foram alcançadas gradualmente. Em muitos casos, graças a legislações severas, fiscalização constante e a uma intensa revisão de paradigmas.

A realidade em que vivemos atualmente só pôde ser construída devido a mudanças de hábito coletivas, que foram alcançadas gradualmente

“Para que permaneça, a mudança precisa ser tão profunda que ir contra ela acaba sendo uma ação anacrônica. Assim, quanto mais consensual for a noção da necessidade daquele hábito, mais difícil é para uma pessoa sozinha resistir. E essa é exatamente a ideia, uma pressão irresistível do coletivo sobre o indivíduo”, explica a professora de comunicação e práticas de consumo da ESPM Gisela Castro.

Para entender melhor a questão, listamos algumas das principais mudanças ocorridas recentemente na sociedade, tanto as que ficaram quanto as que têm enfrentado maior resistência para se firmar.

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Fumar em lugares públicos

“Essa proibição não é radical demais?” “Isso poderia ser resolvido com garçons tabagistas servindo consumidores tabagistas.” “Às vezes sinto que o senhor tem prazer em proibir as coisas.” “Prefiro sentar do lado de um fumante, que são pessoas mais agradáveis, menos tensas…” “Por que não posso ter um restaurante exclusivo para fumantes?”

As frases podem parecer absurdas hoje, mas são reais e foram extraídas de um episódio de 1995 do programa Roda Viva, da TV Cultura. Na ocasião, o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, respondeu sobre a proibição de fumar em estabelecimentos comerciais. A entrevista reemergiu no final de 2020 nas redes sociais e chocou muita gente pelo tom cômico — de tão disparatado — de algumas questões levantadas pelos jornalistas, fazendo o político parecer um poço de sensatez na comparação.

Quase duas décadas depois, a proibição se estendeu a praticamente todos os locais de uso coletivo, com a Lei Antifumo, regulamentada em 2014. Hoje no país é raro encontrar pessoas que burlem a regra, o que indica que a mudança de hábito “pegou” a nível nacional.

Segundo o professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Eduardo Fraga, embora medidas de restrição funcionem, sozinhas elas podem levar a uma sensação de coerção e a um movimento de resistência às novas regras. Portanto, o ideal é que venham acompanhadas de uma mudança de cultura.

“Foi reforçada a noção de que fumantes passivos também sofriam os malefícios do cigarro. Perdeu-se aquela velha glamourização do Marlboro, das propagandas de cigarro. O conjunto de valores ligados ao cigarro foi sendo gradativamente atacado. Tanto que a geração de jovens de hoje fuma muito menos que as anteriores.”

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Cinto de segurança

Mudanças de hábito que têm a ver com problemas imediatos, como saúde ou segurança pública, costumam ter maior potencial para dar certo, diz a professora de psicologia da Unesp Mary Okamoto. O que não significa que a obrigatoriedade do cinto de segurança no Brasil, que começou a valer lá em 1997, não tenha causado controvérsias.

Desde alegações de ser desnecessário até acusações de se tratar de uma desculpa do governo para extorquir dinheiro dos motoristas, o fato é que o hábito foi fortemente reforçado por campanhas de conscientização, aliadas à fiscalização, à multa e à perda de pontos na CNH — de acordo com o Código Brasileiro de Trânsito, deixar de usar o cinto configura infração grave.

Tanto que, segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), 97% dos brasileiros usam o acessório quando ocupam o banco da frente, um dos índices mais altos do mundo. “Fiscalização e multas efetivamente levam a uma capacidade maior de adesão”, diz Okamoto.

O problema, no entanto, mora a menos de um metro dali, no banco traseiro. De acordo com a mesma pesquisa, nele o índice cai vertiginosamente. Apenas 7% de seus ocupantes aderem ao cinto.

De acordo com a psicóloga, a impressão de menor risco — os assentos dianteiros nos parecem muito mais vulneráveis e desprotegidos — e a dificuldade adicional para fiscalizar o banco de trás, por ser menos visível, podem ter tornado possível esse relaxamento. “Se a lei não é efetiva, a população não vai seguir”, sentencia.

Camisinha

O uso de preservativos é muito mais antigo do que costumamos imaginar. Versões deles já eram utilizadas na China e no Japão mesmo antes do século 15, feitas de materiais como carapaças de tartarugas, intestinos de cordeiros, couro e papel oleado. No século 18, europeus usavam preservativos feitos de linho. A camisinha de látex, como a conhecemos hoje, só foi criada em 1916 pelo polonês Julius Fromm (1883-1945).

Usadas para evitar a gravidez e prevenir doenças sexualmente transmissíveis, as camisinhas se popularizaram nos Estados Unidos a partir da década de 1930, mas foram gradualmente perdendo espaço após a descoberta da pílula anticoncepcional em 1960. A explosão dos casos de Aids nos anos 80 acabou reavivando o interesse pela camisinha. Seu uso se tornou uma necessidade de saúde pública, promovendo uma alteração na mentalidade mundial com o passar dos anos.

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Hoje, ela é parte integral de políticas de saúde governamentais e foi reconhecida pela rígida Igreja Católica como “moralmente justificável” na prevenção da Aids — mas ainda considerado condenável para o controle da gravidez. Pesquisas mais recentes feitas pelo Ministério da Saúde e organizações internacionais, no entanto, apontam para uma queda no uso de preservativos entre os jovens durante a última década, o que pode significar que um hábito adquirido pode ser revertido quando os riscos parecem mais distantes. “Alterações de comportamento são sempre um campo de tensão, feito de avanços e retrocessos”, lembra o professor de psicologia Eduardo Fraga, da Universidade Mackenzie.

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Máscaras

Já estamos há cerca de um ano em estado pandêmico, e as máscaras se tornaram um verdadeiro objeto do dia a dia para boa parte da população. Ainda assim, imagens de aglomerações e festas pipocam pela internet todas as semanas, com grandes massas populares reunidas em espaços reduzidos e rostos bem visíveis, sem nenhum tipo de proteção facial identificável.

Essa falta de consenso nos hábitos da população é um reflexo da incoerência da comunicação governamental voltada para a pandemia e a falta de campanhas sociais promovidas pelo governo federal, declara a professora da ESPM Gisela Castro. Sem elas, a consolidação de um hábito se torna tarefa árdua, para não dizer impossível.

“Difícil conseguir estabelecer um hábito como o uso de máscaras se figuras públicas aparecem repetidamente descumprindo a norma sem nenhuma consequência e desqualificando a necessidade da medida. Para enfrentar um problema como esse, é preciso alinhar a comunicação e dinamizar a consciência social com campanhas bem elaboradas, distribuídas regularmente num país enorme e desigual como o nosso. Da forma como está, é um festival de como não fazer a coisa.”

Embora possa causar um relaxamento na população, o início da vacinação no país não deve acabar com a utilização das máscaras. Na verdade, segundo médicos e autoridades de saúde, ele deve se estender ao menos até o final do ano ou quando a situação estiver controlada — ainda não há evidências conclusivas de que a vacina impeça a transmissão do vírus. E vale lembrar que o Brasil tem registrado média acima de mil mortes pelo vírus desde janeiro.

Uso de plástico

O plástico costuma ser visto como um dos principais vilões do meio ambiente, entre outros fatores devido ao enorme tempo que leva para se decompor. Na cidade de São Paulo, a partir deste ano ficou proibido para estabelecimentos comerciais fornecer a seus clientes itens de plástico descartáveis, sob pena de multa. Em 2015, também passou a ser permitido a supermercados da capital paulista apenas o uso de sacolas plásticas reutilizáveis, com materiais renováveis e a realização de uma cobrança adicional ao final da compra, para desestimular seu uso.

O Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo e recicla apenas cerca de 1,28% desse material, segundo dados da WWF. Os gastos com aplicativos de delivery cresceram 103% no primeiro semestre de 2020, no início da pandemia, de acordo com pesquisa da startup Mobills. Isso permite estimar que a produção de lixo plástico também explodiu ainda mais no período.

©Melissa Deckert

Mas, afinal, é mais difícil para a sociedade promover mudanças baseadas na sustentabilidade e proteção ao meio ambiente? Para a psicóloga Mary Okamoto, sim. No Brasil especialmente, a falta de informações qualificadas e a alta presença de problemas básicos, como as deficiências de saneamento, distancia a questão das prioridades da população, segundo a especialista.

Além disso, os comércios oferecem poucas opções aos consumidores. E os efeitos positivos de medidas sustentáveis ainda são vistos como consequências longínquas, o que drena a urgência das ações. “No Brasil não temos essa visão a longo prazo, temos preocupações muito mais imediatistas. Em todos os países em que essas medidas de fato funcionam é porque são cobradas da população. E aqui o poder público, por motivos provavelmente econômicos, não tem se empenhado.”

Beber e dirigir

A tolerância zero ao álcool foi instituída em 2012 como legislação nacional, com um consequente endurecimento da fiscalização no território brasileiro. Nos anos seguintes à aplicação da lei, o número de mortes causadas por acidentes de trânsito no Brasil caiu de forma acentuada — de 44,8 mil em 2012 para 37,3 mil em 2016, de acordo com o Ministério da Saúde.

Embora englobe outros fatores para além do hábito, o sucesso da iniciativa depende diretamente de uma fiscalização eficiente, da aplicação de multas e de sanções rígidas, como a suspensão da carteira de motorista por um ano. Assim como em várias mudanças coletivas, a legislação exigiu para muita gente a renúncia a hábitos comuns, porém nocivos tanto para o indivíduo quanto para a sociedade.

“Esse tipo de mudança, voltada para a preservação da saúde ou da vida, coloca o hábito individual em detrimento do bem estar coletivo e social. De forma geral, o que leva ao sucesso ou fracasso da adaptação é a força com que é aplicada essa exigência da lei”, explica a psicóloga Mary Okamoto.

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Maconha

Alguns hábitos e pontos de vista arraigados à sociedade são dos mais difíceis de mudar. Mesmo para seu uso medicinal, em que tem eficácia comprovada, a liberação da maconha se tornou tema polêmico em solo brasileiro. Embora uma legislação de 2006 já previsse a aplicação medicinal da planta, sua regulamentação só foi acontecer no final de 2019, seguida de uma série de restrições. O cultivo em território nacional, por exemplo, segue proibido.

Se em alguns países, como Uruguai ou mesmo os Estados Unidos, onde seu uso recreativo é liberado em vários estados, a discussão sobre a legalização da maconha decolou nas últimas décadas, por que no Brasil até mesmo a cannabis medicinal sofre tantas restrições?

Segundo Gisela Castro, da ESPM, os efeitos nocivos das drogas ilegais foram martelados por tanto tempo na sociedade brasileira que essa visão acaba prevalecendo até mesmo sobre o que a ciência diz. Menos conhecido por aqui do que a maconha, o ópio, por exemplo, é uma droga ilícita que, no entanto, serve de base para a morfina, substância altamente utilizada na medicina.

Portanto, para Gisela, o que falta é “promover um debate mais qualificado, tirar a questão do senso comum, do reino da opinião infundada e colocar argumentos válidos para seu uso.” A recusa de boa parte da sociedade sequer em discutir o assunto mostra, por outro lado, que ainda falta um mecanismo eficiente de informação ou mesmo vontade de informar.