Mirian Goldenberg conversa sobre velhice e perspectivas para a melhor idade — Gama Revista
Velho, eu?

‘Nada piora com o tempo, só melhora’

Isabelle Moreira Lima 18 de Outubro de 2020
Veridiana Scarpelli

A antropóloga e escritora Mirian Goldenberg é uma defensora de que a velhice pode ser bela porque é libertadora

Ouvir a pesquisadora Mirian Goldenberg falar sobre envelhecimento é receber uma aula de otimismo. A professora Titular do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) acredita que só melhoramos com o tempo e que, nas condições ideais, a velhice é a fase mais feliz da vida.

As afirmações não são vazias, têm base em seus estudos de mais de 20 anos, que deu frutos como os livros “A Bela Velhice” (Record, 2013), que já está na décima edição, e “Liberdade, Felicidade e Foda-se!” (Planeta, 2019). Mirian, que atualmente é pós-doutoranda com uma pesquisa sobre envelhecimento e felicidade, está hoje mais focada nos chamados “superidosos”, com idade maior que 90 anos. “É como se eu tivesse 93 anos, meus melhores amigos de tem 96, 97”, ela diz sobre “pessoas que têm muito gosto pela vida” e muito a ensinar.

O que ela aprende com eles — e agora ensina — é que o foco para o que é importante muda com a idade. A opinião dos outros, por exemplo, deixa de ser um fantasma a nos perseguir. E descobre-se prazer em departamentos da vida que antes não eram tratados com a devida atenção — os homens descobrem graça no lar; as mulheres, nas amizades e em sua liberdade.

A desmitificação da velhice como algo triste ou desprezível tem sido a bandeira que Mirian ergue com sucesso: seu TEDx A Invenção de uma Bela Velhice, em que fala sobre a sensação de felicidade ao longo da vida e o botão do foda-se, teve mais de 1,2 milhão de visualizações. Ela mantém ainda uma coluna no jornal Folha de S.Paulo, em que, além de provocar reflexões (muitos dos textos se encerram com indagações), traz temas duros como a velhofobia e o “velhocídio”.

Se a gente não mudar a forma de enxergar a velhice, estamos condenados a viver a maior parte da nossa vida como seres inúteis

  • G |É diferente envelhecer hoje em relação ao passado? Envelhecemos melhor hoje?

    Mirian Goldenberg |

    A constatação de todas as pesquisas é que nós envelhecemos mais — temos mais tempo de vida –, e temos mais possibilidade de escolha do que duas gerações atrás. Há uma revolução no envelhecimento. Não existe mais aquele estereótipo do velho dentro de casa, inútil, que é um peso social. Os velhos hoje estão em todos os lugares, consumindo, viajando, fazendo coisas, produzindo, criando, namorando. Eu gosto muito quando se fala “geração ageless”, não existe só um tipo de envelhecimento: se você tiver saúde e dinheiro suficiente, consegue sim ter uma liberdade muito maior de escolhas. Essa multiplicidade de formas de envelhecer, que cada um pode inventar, eu encontro na minha pesquisa com 5 mil homens e mulheres sobre envelhecimento e felicidade. Desde março de 2015 eu só pesquiso aqueles que tem quase cem anos de idade, pessoas comuns que estão envelhecendo muito bem. São as pessoas com quem mais gosto de estar, que saboreiam cada minuto da vida.

  • G |Denúncias de abuso contra idosos aumentaram 500% durante pandemia. O que isso diz sobre a nossa sociedade?

    MG |

    Há 20 anos, escrevo e denuncio a velhofobia no Brasil. Essa violência física, verbal, psicológica, de abuso financeiro, de xingamentos, e maus tratos que existem dentro de casa. Os velhos têm vergonha e medo de denunciar porque 51% dos casos são praticados por filhos e filhas e quase 10% por netas e netos. Lógico que a violência de não ter políticas públicas ou respeito e de ter um discurso velhofóbico por parte das autoridades é horroroso. Mas o que mais me angustia é essa violência invisível. E obviamente isso piorou muito com a pandemia. Os velhos estão dentro de casa, às vezes não sendo cuidados, mas cuidando de muita gente — eles são o sustento financeiro e psicológico de famílias e estão sofrendo muito. Existe um verdadeiro velhocídio. Não é de hoje, mas com a pandemia se agravou muito.

  • G |O que explica a velhofobia? Qual é a raiz dela? Existe um caminho eficaz para combatê-la?

    MG |

    Na nossa cultura, a juventude é um valor, o corpo jovem é um capital. Não enxergamos que não somos mais uma sociedade jovem. Em breve teremos mais velhos do que jovens, e apesar disso os valores não mudam e achamos belo, saudável e produtivo o que é jovem. Essa é a raiz da velhofobia, introjetada dentro de cada um de nós. O que mais escuto é mulheres lindas, com 40, 50 anos, dizendo que não podem usar biquíni porque estão velhas; homens com 50 anos dizendo que não podem estudar e trabalhar no que querem porque estão velhos. Essa ideia de que você é um ser inútil porque envelheceu. Mas temos que pensar que a maior fase da nossa vida agora é o envelhecimento. Se a gente não mudar essa forma de enxergar a velhice, estamos condenados a viver a maior parte da nossa vida como seres inúteis e descartáveis, mortos simbolicamente. O jovem de hoje é o velho de amanhã, e é muito rápido.

  • G |O sexo na velhice é um tabu? Li a coluna que você escreveu sobre a Rita Lee ter dito “que não quer trepar” e que isso causou estranhamento. Por outro lado, estranhamos também quando ouvimos que há vida sexual sim depois dos 70. Por que é um assunto que gera tanta opinião e debate?

    MG |

    O que gera tanto debate é não aceitar as escolhas em todas as faixas etárias. Não é só na velhice em que o sexo não é prioritário. Várias mulheres jovens não investem na vida sexual o quanto se acha, no Brasil, que se deve investir. Essa ditadura de um modelo de sexualidade aprisiona homens e mulheres. Quando mais velhas as mulheres têm coragem de se libertar e viver a vida do jeito que querem. O problema não é na velhice, mas essa normatização, imposição de modelos que todos devem seguir ou se não seguirem são doentes e fracassados.

  • G |Que tabus sobre a velhice não fazem sentido em 2020?

    MG |

    Qualquer tabu em qualquer fase da vida é para se refletir e questionar. Não são só os velhos que são alvo de uma série de tabus. Isso também acontece com mulheres que estão fora do padrão de corpo, por exemplo. Já estamos em um momento em que temos muita consciência do que é realmente importante e significativo. E a liberdade, tão invejada pelas mulheres, é o que elas adquirem com mais idade. O que elas dizem: liberdade para eu ser eu mesma. Por que a gente só consegue ser eu mesma quando mais velhas? Por que não pensar isso desde mais cedo?

  • G |Temos mais medo de envelhecer no Brasil?

    MG |

    No Brasil, envelhecer é bem pior porque acontece muito cedo. Principalmente entre as mulheres, que têm pânico de envelhecer. Sensualidade e magreza, por exemplo, são coisas mais difíceis de se ter quando se tem mais idade.

  • G |O que é a bela velhice?

    MG |

    É ter um projeto de vida, se realizar plenamente, realizar todo o seu potencial em todas as fases da vida. É quando a sua vida tem significado até o último momento. Bela velhice é construir uma vida de acordo com o seu potencial, significativa, com propósito, com afetos e realizações.

  • G |O que explica a curva da felicidade? Por que nos tornamos mais felizes aos 60, 70, 80?

    MG |

    É uma pesquisa de economistas feita com 2 milhões de pessoas de oito países que tem como resultado um gráfico no formato da letra U. Esse gráfico mostra que as pessoas mais felizes são os bebezinhos. A felicidade então vai caindo até os 45 anos e depois vai subindo para sempre. Mais velhas, as pessoas não se comparam mais; não focam no que falta e sim no que conquistaram; valorizam o tempo; se cercam de pessoas que fazem com que sejam o seu melhor e não o seu pior.

  • G |No seu TED você fala sobre as diferenças de desejos entre homens e mulheres mais velhos. O envelhecimento é diferente para os gêneros?

    MG |

    É muito diferente. Os homens têm muito medo de envelhecer pela aposentadoria, pela dependência física, pela impotência. E as mulheres têm medo de perder a juventude, a beleza, a aparência, de se tornarem invisíveis, transparentes. Só que os dois ganham com o envelhecimento. Os homens ganham o mundo do afeto, da casa, da família, e os projetos de vida. E as mulheres ganham liberdade e amizade. É importante entender que os dois sofrem e os dois têm medos, mas são medos bastante diferentes e por isso nem sempre há uma sintonia entre homens e mulheres no envelhecimento, justamente porque querem, para se realizar, coisas muito diferentes. Entender isso é fundamental para entender os conflitos que existem no envelhecimento.

  • G |E o botão do foda-se, é para homens e mulheres? Quando a gente aprende a usá-lo? Ele vem de fábrica ou é algo que adquirimos com o passar do tempo?

    MG |

    O que as mulheres me disseram, especialmente as de mais de 60, é que para se libertar é preciso ter uma atitude interna e se preocupar muito mais com a própria verdade do que com a opinião dos outros, com preconceitos e estereótipos. O foco tem que ser na sua verdade, na sua vontade. É “não vou me preocupar com o que os outros querem, pensam de mim, vou viver a minha própria vida”. O foda-se é libertador. Eu escuto mais de mulheres, mas os homens também amam esse botãozinho. Todo mundo precisa dele.

  • G |O que podemos fazer para envelhecer melhor?

    MG |

    É a bela velhice, é o botão, é a importância de dizer não, é livrar-se dos vampiros emocionais. Mas é mais que isso: é viver bem. Eu não estou preocupada com envelhecimento, e sim com a vida. Principalmente com a das mulheres. Então quando falo que liberdade é melhor rima para a felicidade não é só para as mulheres mais velhas, é para todas. Essa é a minha obsessão.

  • G |O que melhora e o que piora com o tempo?

    MG |

    O que melhora é a liberdade de escolhas. É a certeza de que você não tem mais tempo para desperdiçar, é o foco nos propósitos e projetos e no que é realmente significativo na vida, se cercar de pessoas que realmente ama. Eu não acho que algo piora com a idade se você tem saúde, dinheiro e afeto. Nada piora, só melhora.

  • G |Você já afirmou que tem obsessão com o tema felicidade. O que você descobriu na sua pesquisa sobre o tema?

    MG |

    Liberdade é a melhor rima para felicidade. E hoje eu acrescentaria mais uma coisa fundamental, principalmente agora: a amizade também é uma belíssima rima para felicidade.