O que é preciso fazer para ser um idoso ativo e saudável — Gama Revista
Velho, eu?
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Veridiana Scarpelli

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Conversas

'Nada piora com o tempo, só melhora'

A antropóloga e escritora Mirian Goldenberg é uma defensora de que a velhice pode ser bela porque é libertadora

Isabelle Moreira Lima 18 de Outubro de 2020

A antropóloga e escritora Mirian Goldenberg é uma defensora de que a velhice pode ser bela porque é libertadora

Ouvir a pesquisadora Mirian Goldenberg falar sobre envelhecimento é receber uma aula de otimismo. A professora Titular do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) acredita que só melhoramos com o tempo e que, nas condições ideais, a velhice é a fase mais feliz da vida.

As afirmações não são vazias, têm base em seus estudos de mais de 20 anos, que deu frutos como os livros “A Bela Velhice” (Record, 2013), que já está na décima edição, e “Liberdade, Felicidade e Foda-se!” (Planeta, 2019). Mirian, que atualmente é pós-doutoranda com uma pesquisa sobre envelhecimento e felicidade, está hoje mais focada nos chamados “superidosos”, com idade maior que 90 anos. “É como se eu tivesse 93 anos, meus melhores amigos de tem 96, 97”, ela diz sobre “pessoas que têm muito gosto pela vida” e muito a ensinar.

O que ela aprende com eles — e agora ensina — é que o foco para o que é importante muda com a idade. A opinião dos outros, por exemplo, deixa de ser um fantasma a nos perseguir. E descobre-se prazer em departamentos da vida que antes não eram tratados com a devida atenção — os homens descobrem graça no lar; as mulheres, nas amizades e em sua liberdade.

A desmitificação da velhice como algo triste ou desprezível tem sido a bandeira que Mirian ergue com sucesso: seu TEDx A Invenção de uma Bela Velhice, em que fala sobre a sensação de felicidade ao longo da vida e o botão do foda-se, teve mais de 1,2 milhão de visualizações. Ela mantém ainda uma coluna no jornal Folha de S.Paulo, em que, além de provocar reflexões (muitos dos textos se encerram com indagações), traz temas duros como a velhofobia e o “velhocídio”.

Se a gente não mudar a forma de enxergar a velhice, estamos condenados a viver a maior parte da nossa vida como seres inúteis

  • G |É diferente envelhecer hoje em relação ao passado? Envelhecemos melhor hoje?

    Mirian Goldenberg |

    A constatação de todas as pesquisas é que nós envelhecemos mais — temos mais tempo de vida –, e temos mais possibilidade de escolha do que duas gerações atrás. Há uma revolução no envelhecimento. Não existe mais aquele estereótipo do velho dentro de casa, inútil, que é um peso social. Os velhos hoje estão em todos os lugares, consumindo, viajando, fazendo coisas, produzindo, criando, namorando. Eu gosto muito quando se fala “geração ageless”, não existe só um tipo de envelhecimento: se você tiver saúde e dinheiro suficiente, consegue sim ter uma liberdade muito maior de escolhas. Essa multiplicidade de formas de envelhecer, que cada um pode inventar, eu encontro na minha pesquisa com 5 mil homens e mulheres sobre envelhecimento e felicidade. Desde março de 2015 eu só pesquiso aqueles que tem quase cem anos de idade, pessoas comuns que estão envelhecendo muito bem. São as pessoas com quem mais gosto de estar, que saboreiam cada minuto da vida.

  • G |Denúncias de abuso contra idosos aumentaram 500% durante pandemia. O que isso diz sobre a nossa sociedade?

    MG |

    Há 20 anos, escrevo e denuncio a velhofobia no Brasil. Essa violência física, verbal, psicológica, de abuso financeiro, de xingamentos, e maus tratos que existem dentro de casa. Os velhos têm vergonha e medo de denunciar porque 51% dos casos são praticados por filhos e filhas e quase 10% por netas e netos. Lógico que a violência de não ter políticas públicas ou respeito e de ter um discurso velhofóbico por parte das autoridades é horroroso. Mas o que mais me angustia é essa violência invisível. E obviamente isso piorou muito com a pandemia. Os velhos estão dentro de casa, às vezes não sendo cuidados, mas cuidando de muita gente — eles são o sustento financeiro e psicológico de famílias e estão sofrendo muito. Existe um verdadeiro velhocídio. Não é de hoje, mas com a pandemia se agravou muito.

  • G |O que explica a velhofobia? Qual é a raiz dela? Existe um caminho eficaz para combatê-la?

    MG |

    Na nossa cultura, a juventude é um valor, o corpo jovem é um capital. Não enxergamos que não somos mais uma sociedade jovem. Em breve teremos mais velhos do que jovens, e apesar disso os valores não mudam e achamos belo, saudável e produtivo o que é jovem. Essa é a raiz da velhofobia, introjetada dentro de cada um de nós. O que mais escuto é mulheres lindas, com 40, 50 anos, dizendo que não podem usar biquíni porque estão velhas; homens com 50 anos dizendo que não podem estudar e trabalhar no que querem porque estão velhos. Essa ideia de que você é um ser inútil porque envelheceu. Mas temos que pensar que a maior fase da nossa vida agora é o envelhecimento. Se a gente não mudar essa forma de enxergar a velhice, estamos condenados a viver a maior parte da nossa vida como seres inúteis e descartáveis, mortos simbolicamente. O jovem de hoje é o velho de amanhã, e é muito rápido.

  • G |O sexo na velhice é um tabu? Li a coluna que você escreveu sobre a Rita Lee ter dito “que não quer trepar” e que isso causou estranhamento. Por outro lado, estranhamos também quando ouvimos que há vida sexual sim depois dos 70. Por que é um assunto que gera tanta opinião e debate?

    MG |

    O que gera tanto debate é não aceitar as escolhas em todas as faixas etárias. Não é só na velhice em que o sexo não é prioritário. Várias mulheres jovens não investem na vida sexual o quanto se acha, no Brasil, que se deve investir. Essa ditadura de um modelo de sexualidade aprisiona homens e mulheres. Quando mais velhas as mulheres têm coragem de se libertar e viver a vida do jeito que querem. O problema não é na velhice, mas essa normatização, imposição de modelos que todos devem seguir ou se não seguirem são doentes e fracassados.

  • G |Que tabus sobre a velhice não fazem sentido em 2020?

    MG |

    Qualquer tabu em qualquer fase da vida é para se refletir e questionar. Não são só os velhos que são alvo de uma série de tabus. Isso também acontece com mulheres que estão fora do padrão de corpo, por exemplo. Já estamos em um momento em que temos muita consciência do que é realmente importante e significativo. E a liberdade, tão invejada pelas mulheres, é o que elas adquirem com mais idade. O que elas dizem: liberdade para eu ser eu mesma. Por que a gente só consegue ser eu mesma quando mais velhas? Por que não pensar isso desde mais cedo?

  • G |Temos mais medo de envelhecer no Brasil?

    MG |

    No Brasil, envelhecer é bem pior porque acontece muito cedo. Principalmente entre as mulheres, que têm pânico de envelhecer. Sensualidade e magreza, por exemplo, são coisas mais difíceis de se ter quando se tem mais idade.

  • G |O que é a bela velhice?

    MG |

    É ter um projeto de vida, se realizar plenamente, realizar todo o seu potencial em todas as fases da vida. É quando a sua vida tem significado até o último momento. Bela velhice é construir uma vida de acordo com o seu potencial, significativa, com propósito, com afetos e realizações.

  • G |O que explica a curva da felicidade? Por que nos tornamos mais felizes aos 60, 70, 80?

    MG |

    É uma pesquisa de economistas feita com 2 milhões de pessoas de oito países que tem como resultado um gráfico no formato da letra U. Esse gráfico mostra que as pessoas mais felizes são os bebezinhos. A felicidade então vai caindo até os 45 anos e depois vai subindo para sempre. Mais velhas, as pessoas não se comparam mais; não focam no que falta e sim no que conquistaram; valorizam o tempo; se cercam de pessoas que fazem com que sejam o seu melhor e não o seu pior.

  • G |No seu TED você fala sobre as diferenças de desejos entre homens e mulheres mais velhos. O envelhecimento é diferente para os gêneros?

    MG |

    É muito diferente. Os homens têm muito medo de envelhecer pela aposentadoria, pela dependência física, pela impotência. E as mulheres têm medo de perder a juventude, a beleza, a aparência, de se tornarem invisíveis, transparentes. Só que os dois ganham com o envelhecimento. Os homens ganham o mundo do afeto, da casa, da família, e os projetos de vida. E as mulheres ganham liberdade e amizade. É importante entender que os dois sofrem e os dois têm medos, mas são medos bastante diferentes e por isso nem sempre há uma sintonia entre homens e mulheres no envelhecimento, justamente porque querem, para se realizar, coisas muito diferentes. Entender isso é fundamental para entender os conflitos que existem no envelhecimento.

  • G |E o botão do foda-se, é para homens e mulheres? Quando a gente aprende a usá-lo? Ele vem de fábrica ou é algo que adquirimos com o passar do tempo?

    MG |

    O que as mulheres me disseram, especialmente as de mais de 60, é que para se libertar é preciso ter uma atitude interna e se preocupar muito mais com a própria verdade do que com a opinião dos outros, com preconceitos e estereótipos. O foco tem que ser na sua verdade, na sua vontade. É “não vou me preocupar com o que os outros querem, pensam de mim, vou viver a minha própria vida”. O foda-se é libertador. Eu escuto mais de mulheres, mas os homens também amam esse botãozinho. Todo mundo precisa dele.

  • G |O que podemos fazer para envelhecer melhor?

    MG |

    É a bela velhice, é o botão, é a importância de dizer não, é livrar-se dos vampiros emocionais. Mas é mais que isso: é viver bem. Eu não estou preocupada com envelhecimento, e sim com a vida. Principalmente com a das mulheres. Então quando falo que liberdade é melhor rima para a felicidade não é só para as mulheres mais velhas, é para todas. Essa é a minha obsessão.

  • G |O que melhora e o que piora com o tempo?

    MG |

    O que melhora é a liberdade de escolhas. É a certeza de que você não tem mais tempo para desperdiçar, é o foco nos propósitos e projetos e no que é realmente significativo na vida, se cercar de pessoas que realmente ama. Eu não acho que algo piora com a idade se você tem saúde, dinheiro e afeto. Nada piora, só melhora.

  • G |Você já afirmou que tem obsessão com o tema felicidade. O que você descobriu na sua pesquisa sobre o tema?

    MG |

    Liberdade é a melhor rima para felicidade. E hoje eu acrescentaria mais uma coisa fundamental, principalmente agora: a amizade também é uma belíssima rima para felicidade.

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Guilherme Falcão / Getty Images / Divulgação

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Semana

Os admiráveis velhos jovens

Um número crescente de pessoas está ultrapassando os 70 anos com mais saúde, energia e disposição para abraçar novos projetos. Gama investiga o que é preciso fazer para entrar nesse time

Cristina Nabuco 18 de Outubro de 2020

Um número crescente de pessoas está ultrapassando os 70 anos com mais saúde, energia e disposição para abraçar novos projetos. Gama investiga o que é preciso fazer para entrar nesse time

“A coisa mais moderna que existe nesta vida é envelhecer”, afirma o músico Arnaldo Antunes, que acaba de completar 60 anos, em uma das suas canções. A mais moderna e saudável, a julgar por uma pesquisa que comparou 726 homens e mulheres que têm atualmente entre 75 e 80 anos com 500 pessoas de mesma idade nos anos 1990. Os autores constataram que os velhos de hoje estão mais jovens: sua habilidade funcional supera a dos idosos de 30 anos atrás.

Realizado na Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, e divulgado em setembro, “este trabalho é um dos poucos a fazer esse tipo de comparação em profundidade”, avalia a professora Sonia Prado, coordenadora do curso de Psicologia da Estácio Interlagos, onde conduz projetos acadêmicos sobre envelhecimento cerebral. Para isso, os cientistas utilizaram parâmetros, como força muscular, velocidade de caminhada, reflexos, fluência verbal, raciocínio e memória de trabalho.

Os velhos de hoje estão mais jovens: sua habilidade funcional supera a dos idosos de 30 anos atrás

O achado não é exclusivo de um país como a Finlândia, que figura entre os mais desenvolvidos, nem se aplica apenas a celebridades que têm acesso a recursos de ponta para preservar a vitalidade, caso dos integrantes da banda Rolling Stones (Mick Jagger, 77 anos, Keith Richards,76, Ron Wood,73 e Charlie Watts, 79) e da atriz Jane Fonda, que foi a primeira musa fitness nos anos 1980 e continua ativa e exuberante aos 82 anos, participando de minisséries e protestos contra o aquecimento global.

Está em curso a “Revolução da Longevidade”, anunciou a Organização Mundial da Saúde ao lançar um documento sobre Envelhecimento Ativo, descrito como “o processo de otimizar as oportunidades para saúde, aprendizagem ao longo da vida, direito a participar integralmente da sociedade e segurança de uma velhice minimamente protegida”.

Nunca se havia visto um grupo de pessoas perto dos 65 anos que fosse tão bem informado, tão rico, em tão boa saúde e com tal história de ativismo

A pesquisa finlandesa comprova o valor do Envelhecimento Ativo no aumento da qualidade de vida na velhice: a diferença a favor dos idosos contemporâneos foi atribuída a melhor nutrição e higiene, nível mais alto de atividade física, avanços no serviço de saúde, maior acesso à educação e aperfeiçoamento da vida profissional.

Segundo a OMS, “essa geração tem melhor nível de escolaridade do que qualquer outra que a precedeu”, registra a edição atualizada do documento, publicada em 2015 pelo Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil). “Nunca se havia visto um grupo de pessoas perto dos 65 anos que fosse tão bem informado, tão rico, em tão boa saúde e com tal história de ativismo” – lutou contra o racismo, a homofobia e o autoritarismo político e a favor dos direitos da mulher e da liberdade sexual. “Com um legado como esse, é inimaginável que essa geração viva a velhice como as que a antecederam”.

A tendência é encarar o envelhecer como um processo individual com múltiplas oportunidades de desenvolvimento pessoal e de prolongamento da jovialidade. Assim, os novos idosos estão reinventando a velhice.

Sensualidade e leveza

Um bom exemplo vem da estilista Helena Schargel. Aos 78 anos, ela desenhou uma lingerie especial para a mulher mais velha e ainda se tornou modelo da linha. Quando se aposentou, depois de trabalhar 40 anos numa indústria têxtil, pretendia descansar, mas não se adaptou. Sempre ligada em moda, ao constatar a falta de opções no mercado, Helena se associou a uma amiga, dona de uma fábrica, e criou a linha 60+. “Cada peça deveria mostrar às mulheres de 60, 70, 80 anos que elas podem ser bonitas e sensuais de lingerie”, diz a Gama.

Nunca parei para pensar em quantos anos eu tenho. Procuro ver as coisas pelo lado positivo e assim levo a vida de um jeito leve. O meu segredinho é por aí

Helena entendeu que ninguém melhor do que ela, a mãe da criança, para passar essa ideia, então se tornou modelo para fotos e desfiles da coleção. Na sequência vieram os convites para palestras. Sua página no Instagram, onde também posta mensagens motivacionais, tem 25,5 mil seguidores e a seguinte apresentação: “Sou uma menina de 80 que encoraja mulheres a saírem da invisibilidade. Se eu posso, você também pode”.

Helena se emociona ao receber comentários do tipo: “A senhora não tem ideia de quanto me ajudou”. “Esse retorno não tem preço, é o que me alimenta”. A estilista mora sozinha. Teve 2 maridos, é viúva, mãe de 2 filhos, avó de 5 netos. Gosta de ler e cozinhar, mas nunca foi comilona. Faz Pilates, caminha ao menos meia hora todos os dias. “Nunca parei para pensar em quantos anos eu tenho. Procuro ver as coisas pelo lado positivo e assim levo a vida de um jeito leve. O meu segredinho é por aí”.

Sonhos não envelhecem

Coriolano de Souza Pinto é outro representante dessa nova geração de idosos. Aos 82 anos, ele acaba de se formar em Direito. Morador de Castanhal, a 76km de Belém, do Pará, trabalhou como telegrafista da Força Aérea Brasileira, depois como bancário no Banco da Amazônia até se aposentar. Daí decidiu investir num sonho: cursar Direito. Ouviu críticas: “Pra que fazer faculdade? O senhor já está com a vida feita”. Mas não desistiu. Foi aprovado no vestibular e não faltou à aula um dia sequer. Nem quando passou por cirurgia de catarata. De manhã foi operado, à noite já estava na faculdade.

Não existe limite de idade. Existe disposição e ânimo. Temos capacidade para fazer muita coisa

O curso durou cinco anos e foi presencial, exceto pelo último semestre, a defesa do TCC e a formatura, que aconteceram on-line por causa da pandemia de covid-19. “Eu queria dar um bom exemplo, mostrar que a gente tem que vencer as dificuldades”, conta a Gama. Mora com a esposa, com quem se casou há 59 anos, e 3 dos 18 netos. Tem 7 filhos e 4 bisnetos.

Realiza batizados e casamentos como diácono permanente da Igreja Católica. Possui boa saúde, diabetes controlado, alimentação bem-cuidada. Antes da quarentena fazia Pilates e treinava em academia de ginástica; na juventude praticou remo. Animado com o retorno aos estudos, cogita fazer pós-graduação. “Minha alegria aumentou ainda mais depois de realizar este sonho. Não existe limite de idade. Existe disposição e ânimo. Temos capacidade para fazer muita coisa”.

Ousadia para recomeçar

Aos 77 anos, Dirce Trevisi está prestes a defender tese de doutorado na PUC de São Paulo. Enfermeira graduada pela USP, com especialização em enfermagem neonatal em Paris, trabalhou por 22 anos na Escola Paulista de Medicina. Nesse meio tempo conheceu o marido, um dentista, casou, teve 3 filhos e fez mestrado na USP. “Minha mãe não se conformava com a minha vida maluca”, conta a Gama.

Para criar os filhos com mais tranquilidade, mudou-se para Presidente Prudente (SP), onde assumiu a direção de uma universidade. Enquanto isso, fez Faculdade de Direito no período noturno. Já formada, prestou concurso público e foi aprovada para procuradora do trabalho em Campinas. A essa altura seus filhos já estudavam fora.

À noite, às vezes, eu me pergunto: será que vou chegar até amanhã? Então procuro ser positiva e pensar nos projetos futuros

Transferida para São Paulo, começou um mestrado em direito do trabalho sobre assédio moral. Atuou no Ministério Público até ser aposentada por idade, aos 70 anos. Após seis meses parada, inscreveu-se para voluntária da Missão Paz, instituição de atendimento social aos migrantes, onde dá plantões até hoje. “Os outros voluntários me incentivaram a iniciar o doutorado. Minha tese é sobre as mulheres angolanas que escolhem vir dar à luz em São Paulo”.

Dirce tem 6 netos. Viúva, mora sozinha, dirige seu carro, viaja com amigos. Hipertensa controlada, alimenta-se com critério, faz relaxamento e exercícios físicos. Durante o isolamento tem sido acompanhada à distância por fisioterapeuta e psicólogo (faz terapia há anos). “À noite, às vezes, eu me pergunto: será que vou chegar até amanhã? Então procuro ser positiva e pensar nos projetos futuros. Já defini o que vou estudar quando terminar o doutorado”.

Realidade desigual

“Atualmente há muito mais informação disponível”, diz a Gama a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, especialista em cuidados paliativos, que está preparando um livro sobre envelhecimento. “Todo mundo conhece os malefícios do cigarro, sabe que atividade física faz bem. Antes só indo ao médico para receber orientação; hoje se acha no Google”. Ela acrescenta, porém, que o Brasil está envelhecendo rápido e de forma desigual.

Já existem 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos e em 2050 esse número vai dobrar, pulando para 68 milhões. “Enquanto países de alta renda primeiro enriqueceram, depois a população envelheceu, no Brasil o tempo de vida aumentou, mas as desigualdades sociais persistem”, adverte o médico geriatra Carlos André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Os fatores genéticos impactam 20% no envelhecimento. As condições ambientais pesam mais. “O envelhecimento é muito heterogêneo num país em que 50% da população não têm serviço de esgoto e 30% permanecem sem acesso à agua tratada”.

Um estudo da Fundação Osvaldo Cruz divulgado em 2018 (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros – ELSI Brasil) ouviu 9400 brasileiros e brasileiras com mais de 50 anos para investigar se viver mais significa viver melhor. A conclusão foi que os mais pobres e de menor escolaridade têm os piores indicadores: não fazem exercício físico, descuidam da saúde bucal, tomam remédios diferentes dos receitados por causa do preço e têm menor capacidade para o trabalho.

“A atividade física regular é essencial para ganhar condicionamento cardiovascular, preservar a força muscular, ter articulações flexíveis e uma boa marcha para dar conta de atividades cotidianas como trocar de roupa e amarrar o cadarço do tênis sem ajuda, além de prevenir dores”, avisa a fisioterapeuta Gabriela Kohns, professora da Estácio. As pessoas com maior escolaridade são as que mais se exercitam e controlam com sucesso doenças crônicas como a hipertensão.

Quanto antes, melhor

A médica Ana Claudia Quintana Arantes compara o envelhecimento à travessia de um deserto: tem que se preparar para enfrentar as adversidades e preservar a sua independência. “Nunca é tarde. Em qualquer momento da vida nosso corpo e nossa mente nos presenteiam com lealdade a esse cuidado. Mas se o investimento for tardio, talvez a resposta demore. Por isso, quanto mais cedo iniciar, melhor”. Não espere chegar aos 60 anos para se preocupar, sugere Carlos Uehara. “Envelhecer bem é um planejamento de toda a vida”. Neste sentido, é recomendado:

  • Alimentar-se melhor. Os povos mais longevos do planeta consomem alimentos o mais natural possível preparados em casa, informa o geriatra. Ingerem pouco sal, gordura e carne vermelha e não utilizam produtos ultraprocessados.
  • Estar em movimento. Praticar atividade física num ritmo leve e progressivo, respeitando seus limites, esclarece Gabriela Kohns.
  • Manter a mente ativa. Sair da rotina estimula novas conexões entre as células nervosas, o que rejuvenesce o cérebro. Conhecer novos lugares, ir a peças de teatro, participar de cursos, iniciar uma faculdade ou pós, aprender um idioma, aventurar-se em um jogo diferente, propõe Sonia Prado. Até pequenas mudanças, como trocar o relógio de braço, exercitam os neurônios.
  • Fortalecer as relações. Perdem-se amigos antigos, mas é possível retroalimentar a rede de apoio (que engloba também a família) conquistando novas amizades, ainda mais se forem jovens, pois eles têm o poder de resgatar a vontade de viver, explica a psicóloga.
  • Ter um propósito, não necessariamente uma religião, mas algo que dê sentido à vida, que o inspire a sair da cama todos os dias, aconselha Carlos Uehara. Colaborar com um trabalho social é mais produtivo do que passar o dia inteiro sentado na frente da televisão.
    Só que envelhecimento saudável não é sinônimo de envelhecimento feliz, ressalta Ana Claudia. “A pessoa pode ter musculatura top, memória ótima, saber tudo sobre arte, mas ninguém aguenta conversar com ela. É azeda e desagradável. Gente madura deve ser como um fruto doce, macio, perfumado, fácil de digerir”. Segundo a geriatra, o que mais influencia o envelhecimento feliz é a qualidade das relações.
  • “Envelhecer é um processo potente de nos ensinar a ser humanos”. É o que têm demonstrado as Avós da Razão: Gilda Bandeira de Melo, 78 anos, Sônia Bonetti, 82 anos e Helena Viechman, 91 anos, amigas há 60 anos e agora influenciadoras digitais. Têm 57,4 mil inscritos no Youtube; 88,9 mil seguidores no Instagram e 41 mil no Facebook. Em programas de 15 minutos, expõem suas opiniões e respondem perguntas do público sobre variados temas com sinceridade, lucidez e bom humor. No programa 100, que foi ao ar em 1º de outubro, dia internacional do idoso, fizeram um apelo: “Saia da cristaleira. Você não é um bibelô. Mas uma pessoa cheia de vida. Tem que sacodir a poeira e dar a volta por cima”.
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Semana

Como envelhecer bem?

Uma física, uma atriz, o presidente de uma empresa. Pessoas de diferentes idades e realidades dão suas dicas de como lidam e se preparam para o envelhecimento

Manuela Stelzer 18 de Outubro de 2020
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    Rosana Hermann, física e jornalista, 63 anos

    Entender as mudanças, as perdas e olhar para o envelhecimento com carinho
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    “Quando a gente envelhece, começa um interesse por aqueles bucket lists, sabe? Tudo o que eu quero fazer antes de morrer. Antes da pandemia eu estava meio nessa, de querer viajar muito, conhecer lugares. Mas como a gente teve que desacelerar, ficar em casa, eu comecei a entender que não era exatamente assim. Que, na verdade, você pode estar sentado lendo um livro durante horas numa pracinha que você gosta, debaixo de uma árvore, e aquilo é a melhor coisa que você pode fazer naquele momento. O tempo é relativo, e depende da velocidade que você imprime para as coisas.

    Eu adoro correr, corro há muito tempo, mas recentemente eu fui correr na rua, caí e me machuquei feio. Tive que parar de correr por um tempo. Claro que eu fiquei chateada, mas eu não vou negar a realidade. Fui ao médico, tenho me cuidado. É preciso lidar com a realidade mesmo que ela não seja o que você gostaria que fosse.

    Envelhecer é isso: é um processo de perda. Uma hora você vai perder a vida. Mas antes disso, você vai perder muitas outras coisas: cabelo, colágeno, energia, pigmento. É um processo lento de recolhimento, mas que você não precisa sofrer todo dia por isso. Você não deve sofrer todo dia por isso. É preciso assumir o envelhecimento, seja deixando os cabelos brancos como eu, ou de qualquer forma. É preciso entender as mudanças, as perdas. Olhar para si mesmo com mais carinho, condescendência.

    Eu acho que algumas pessoas mais jovens têm tanto medo de envelhecer e de morrer, que nutrem um pavor irracional pelo velho, porque o velho é um lembrete ambulante de que isso vai acontecer com ela. Essa cultura de não conviver com pessoas mais velhas atrapalha muito. A televisão tem muito culpa disso também, porque não tem ninguém de cabelo branco por exemplo, e se você não vê, é como se não existisse, não reafirma como sendo normal, como parte do jogo.

    Precisamos, hoje em dia, de exemplos de outras possibilidades. Quem disse que velho não é esportista? Não pode correr maratonas? Ser ativo? Estar bem? É preciso entrar em contato com esses exemplos. As pessoas tem um conceito muito velho do velho, sabe? Associar a velhinha com cadeira de balanço e crochê é é um estereótipo tão ultrapassado. Por isso que é tão legal ver pessoas mais velhas fazendo coisas que todo mundo faz.”

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    Vinicius Calderoni, artista, 35 anos

    Ser seletivo e cultivar momentos
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    Carolina Vianna

    “Eu acabei de completar 35 anos, uma idade que, pelo menos para mim, coloca a pessoa em um outro lugar: há 15 anos eu tinha 20, e em 15 anos faço 50. É um meio de caminho curioso. E às vezes um pouco chocante.

    Os últimos anos vieram para mim com muitas questões, sobretudo profissionais. Como exercer minha potência, como expandir minhas áreas de atuação. Eu comecei na música, mas passei para o teatro aos 25, agora tenho caminhado para o cinema, enfim. Acho que esse sempre foi o meu projeto, de estar em várias artes, podendo transitar entre elas.

    Com isso, acho que me exigi muito. Foi um período de muito trabalho, desgaste. Olho agora e sinto vontade de fazer menos e melhores coisas. Me fragmentar menos. Isso tem a ver com essa seletividade que ganhamos à medida que envelhecemos, de perceber que o tempo não é infinito, que a gente quer muito e quer tudo, mas existe um limite. Tenho, então, refinado as minhas escolhas, criado um mecanismo de triagem para selecionar projetos, feito uma avaliação mais cuidadosa.

    Envelhecer traz essa questão de cultivar melhor de cada um dos momentos, porque por ter vivido mais, os momentos ficam mais especiais, valem a pena, o tempo fica precioso e a gente vai reconhecendo na própria pele a importância de ser seletivo, de escolher bem cada uma das coisas. De estar em lugares e fazer trabalhos e estar na companhia de pessoas que sempre façam sentido. É sobre selecionar com sabedoria e cultivar momentos.”

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    Ivo Yonamine, professor, 41 anos

    Reconhecer as pressões sociais para uma juventude eterna (e impossível)
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    “Eu sou um homem gay amarelo, do leste asiático. Sempre recebi uma cobrança grande de aparência de juventude. Nunca esqueço que, quando fiz 20 anos, ouvi muito que eu tinha ‘perdido valor de mercado’, pois tinha deixado de ser ‘teen’. Então, desde o início da minha vida adulta, eu vivo sob uma bomba relógio.

    Acredito que, acima dos gays, só mulheres sofrem esse tipo de pressão. Sempre insisto: só ver as expressões bem recorrentes como ‘bicha velha’, ‘velha louca’ e por aí vai. Homens héteros cis não recebem esse tipo de investida. Em vista disso, eu sempre me cuidei quase que excessivamente. Faço skincare antes dessa palavra se disseminar e se tornar um hábito para a maioria das pessoas. Estou com 41 anos, mas tenho consciência de que pareço bem mais jovem. Tudo por conta de sofrer, desde cedo, as pressões sociais.

    Eu me preparo para o envelhecimento com base numa cobrança social violenta. Eu valorizo, e muito, o bem-estar físico, muito mais que ‘só’ a aparência. Mas existe uma cobrança de aparência e juventude eterna para grupos específicos na sociedade. Por isso, uso protetor solar desde sempre e não tenho vergonha de assumir que já fiz alguns procedimentos estéticos: meti ácido e agulhas na cara, sim.

    Isso custa dinheiro, custa tempo, e me pego muitas vezes com raiva do sistema e de mim mesmo por ceder tanto a ele. Já menti minha idade, sobretudo em redes sociais. Mas decidi não fazer mais isso. Agora, evito referir a mim mesmo como jovem. Sou um homem cis gay amarelo de 41 anos.”

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    Renata Gaspar, atriz, 34 anos

    Envelhecer bem é largar mão das certezas
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    “O que eu vivo hoje é o que quero viver no futuro. Eu sempre fui das piras de autoconhecimento, sempre me questionei muito sobre o que é estar no mundo, para o que eu sirvo, qual é minha utilidade aqui e o que faz sentido.

    O que treino hoje é prestar atenção no que estou fazendo enquanto estou fazendo, e o que eu quero com isso. É ajustar o propósito de estar no mundo. Cada vez mais percebo que o meu propósito em ser atriz é alcançar as pessoas, é o que me deixa feliz e me completa. Eu quero entregar uma mensagem por meio da arte, uma mensagem de vida, de esperança. A arte faz essa ponte, esse contato com a vida, com a existência. E eu quero ser essa ponte.

    Já faço isso antes de entrar em cena. Ajusto meu propósito, porque senão eu sinto que estou fazendo algo para mim, para eu ser aceita. Quando vai para esse lugar do ‘eu’ é terrível. Tem muita frustração, você espera do outro alguma coisa. E percebi que dá para ajustar o propósito com a minha entrega: eu que vou levar, e não espero alguém me dar. Vou usar minha profissão para levar.

    Isso me leva a um estado de mais presença, sem interferir com as coisas que eu penso. Quando desencano de aprovação ou de querer emplacar uma opinião isso me deixa mais jovem. Envelhecer não é sobre tempo, é sobre a manutenção de uma crença, de uma personalidade. É muito recorrente ver as pessoas mais velhas ficando mais rígidas nas suas manias e nos seus jeitos. E o meu treino é para evitar exatamente isso.

    Envelhecer bem é não se enrijecer, é estar aberto ao contato com as coisas que aparecem. É não negar, rejeitar o que aparece. É soltar um pouco a mão das certezas. Eu prefiro ser a pessoa que não tem opinião e observa o contexto. Da festa eu sou o garçom, sabe? Eu estou aqui para servir. Uso meu trabalho para servir o outro, é isso que me alimenta.

    Quero envelhecer jovem, sem rabo preso com o mundo, sem querer nada. Largar com as minhas certezas, silenciar a mente, entrar em contato com o que vejo e sentir gratidão por isso. É trocar a rejeição por gratidão. Eu espero envelhecer cuidando das pessoas, servindo. Espero envelhecer iluminada. Eu quero iluminar.”

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    Lisiane Lemos, especialista em transformação digital e co-fundadora do Conselheira 101, 31 anos

    Plantar bons frutos para colhê-los mais tarde
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    “A construção da minha jornada se divide em três pilares: família, trabalho e liderança. Uma família feliz, um ambiente que me propicie estar sempre aprendendo e uma jornada para o cargo de liderança que eu desejo.

    Primeiro, sobre ter uma família e ser uma pessoa feliz, é no sentido de autocuidado, de fazer terapia, entrar em contato com a minha ancestralidade, de ser eu mesma. Quando a gente fala de liderança, é construir o ambiente corporativo que eu quero fazer parte, e sempre que encontrar um problema, algo que deve e pode ser mudado, que eu bote a mão no projeto e faça. E o terceiro pilar, de estar sempre aprendendo, é sobre uma jornada de inovação, tentando entender como o conhecimento pode ser transmitido.

    Cresci num ambiente altamente individualista e mesmo assim consegui construir colaboração, projetos conjuntos. E esse é o segredo para um futuro feliz. Uma vez, escutei da Luiza Trajano a frase: ‘A gente é do tamanho do que a gente compartilha’. Posso ser pequena na altura, mas do tanto que compartilho com as pessoas, do tanto que quero vê-las crescer, eu me engrandeço — e é esse futuro que eu quero construir.

    Claro que eu vejo aí um cenário difícil, de desigualdade social, racial, de gênero, e fico pensando como é que vou colocar filhos nesse mundo. Como eu vou construir um lugar melhor para essas pessoas? É preciso empoderá-los para que eles possam escolher, para que eles tenham autonomia, voz e para que possam ser agentes de transformação por meio do exemplo.

    Na minha família as pessoas não envelhecem, elas morrem antes. Eu não venho de uma família longeva. Então, me preparar para o envelhecimento significa não honrar esse legado, e sim desde muito cedo fazer os meus exames, cuidar da minha saúde mental. Aprender com as piores práticas da minha família para fazer melhores práticas e construir uma história mais longa e feliz.

    Tenho tentado entrar em contato com as minhas histórias de patrimônio, conversado com as pessoas da minha família para saber de onde eu vim. Estou num momento de construir novas culturas, meu legado, meu próprio impacto e cuidar de quem está aqui. Planejamento, para mim, é essencial. Sempre me preocupei em garantir uma previdência, uma casa, as coisas mínimas de conforto para eu ter paz, liberdade de mover, crescer, envelhecer. Tenho um marido que eu quero envelhecer ao lado, encontrá-lo em outras vidas também. A gente se complementa.

    Quero plantar bons hábitos no presente, ter uma boa alimentação, ir ao médico regularmente, equilibrar as coisas, escutar meus amigos, aproveitar o momento para que isso se reproduza até a minha velhice e eu colha os frutos lá na frente.”

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    Monica de Bolle, economista

    O importante é ser livre, ativo e independente (e fazer o que dá prazer)
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    “Daqui pra frente, eu quero fazer o que me dá prazer. Por muito tempo fiz coisas que não gostava, que envolviam lugares que eu não gostava de estar. Isso faz parte do trabalho, claro, mas pro futuro, quero cada vez menos me envolver com o que eu não gosto.

    Nesse sentido, tenho estudado sobre temas que gostaria de ter estudado antes, mas que por razões diversas não pude. Imunologia, genética, virologia são alguns exemplos. Quero ter cada vez mais tempo para isso. E sempre por conta própria, sem que alguém me diga o que eu devo ou não fazer. Quero, cada vez mais, ser independente e livre para ir adiante com as tarefas que me dão prazer.

    Meus filhos são adolescentes, em breve irão sair de casa, mas eu fico bem com isso. Eu gosto muito da visão da filosofia budista, e por isso sou muito desprendida das coisas. Não que eu não vá sentir falta deles, óbvio que vou, mas eles vão entrar em outra fase da vida e eles tem que fazer isso. E nós aqui, que vamos ficar, também teremos uma nova fase para descobrir, quando eles já não estiverem mais em casa. É uma transição como outras transições, e vai ser bem-vinda quando chegar.

    Eu sempre fui uma pessoa que olha muito para o futuro. Antes de começar a graduação em economia, eu já tinha quase uns 10 anos de vida planejados. Queria fazer mestrado, doutorado, trabalhar no FMI. Eu sempre tive essa cabeça de pensar além, e que nem foi a minha área que trouxe como ensinamento. Isso foi a vida que me preparou.

    Meu pai morreu muito cedo, eu ainda era adolescente, e por causa disso precisei começar a trabalhar para ajudar em casa, cuidar da questão financeira para a minha mãe. Essa circunstância da minha vida marcou muito minha visão sobre ter cautela, e sobre se preparar porque você nunca sabe o que pode acontecer. Foi naquele momento eu entendi a importância do planejamento, para que eu não dependesse de ninguém além de mim, até mesmo na velhice.

    Para envelhecer bem, atividade física é fundamental. Manter a cabeça funcionando e fazer exercício. Eu tenho duas histórias de família surreais: minha tia avó, que aos 95 anos fez um mestrado e doutorado em história, e morreu com 103; e minha avó, que morreu com 101, mas que aos 90 parecia ter 70, e se movimentava com muita agilidade. Uma vez, elas estavam no supermercado, na fila do caixa. Na frente tinha um senhor, provavelmente muito mais novo que elas, e minha avó cutucou minha tia e disse: ‘deixa o senhor passar, coitado’ — isso ela, que era pelo menos 30 anos mais velha do que ele. Eu quero envelhecer assim, corpo ativo e mente ativa, sempre.”

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    Renato Bernhoeft, fundador e presidente da höft consultoria, 78 anos

    Criar um projeto de vida que faça sentido até na velhice
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    “O que eu digo sempre é que um dos grandes desafios do envelhecimento é você ter um projeto que continue dando sentido à sua vida nessa etapa, até porque ela tem se alongado cada vez mais. E o segundo aspecto é de que isso preserve a sua autoestima.

    É preciso se manter com alguma atividade que, digamos, a pessoa se sinta útil, visível. Porque o que ocorre com pessoas que tem um certo grau de exposição, pode ser um jogador de futebol, um político, um artista, é o despreparo para o ostracismo. E é exatamente isso que tenho trabalhado para envelhecer melhor.

    Eu me mantenho ativo, não mais no mesmo grau de intensidade de antes, mas escrevendo, dando palestras, atividades dessa natureza. Me mantenho ativo como dá e com o que suponho que sejam as minhas habilidades. E claro, desfruto também. Viajar é uma coisa que eu gosto muito e tenho me entregado para elas nos últimos tempos.

    Essa maneira de olhar para o envelhecimento veio de uma demanda pessoal, mas também por ter percebido que o mercado estava receptivo, até necessitando disso. Na medida em que aumenta o envelhecimento, você vê muitas pessoas despreparadas para essa etapa da vida, com o agravante que ela está cada vez mais longa.

    É muito comum que a pessoa diga que só vai ficar “à toa” quando ficar mais velha, mas eu me lembro, muitos anos atrás, de ver um anúncio que dizia “troco a tranquilidade do meu sítio pelos problemas da sua empresa”, uma história real de alguém que queria ficar à toa, e simplesmente cansou.

    Para mim, criar um projeto de vida que te mantenha útil depois da carreira, e que preserve a autoestima, é o melhor que se pode fazer pela velhice. Buscar um sentido para a vida, preencher o seu tempo com atividades que trazem significado e prazer. Claro, sempre com atividades adequadas com aquilo que a idade permite.”

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    Alan Soares, fundador do Boletinhos, 24 anos

    Planejar uma aposentadoria segura
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    “Eu fui me tocar que eu precisava pensar na velhice só alguns anos atrás. A gente pensa que pode viver até os 100 anos, mas não pensa que não vai conseguir trabalhar com 100 anos. Então eu comecei a calcular, e percebi que é muita grana, são muitos anos de aposentadoria.

    Eu sou autônomo, e eu comecei a me preocupar mais com isso, para ter a chance de uma aposentadoria tranquila. Eu adoro trabalhar e eu não pretendo me aposentar com 60 anos, mas eu quero ter essa possibilidade caso por qualquer razão que seja. Uma das seguranças que eu tenho é do próprio INSS, que tendo um CNPJ, já me dá um direito à aposentadoria. É uma coisa que eu não sabia e por isso reitero a importância se regularizar enquanto autônomo, e não ficar na informalidade para sempre.

    Fora isso, eu sempre guardo uma parte do meu dinheiro, literalmente escondo de mim mesmo, não toco o dedo: uma reserva para emergências, e outra reserva para o plano de aposentadoria. É importante colocar esse dinheiro em algum lugar, seja em um investimento de renda fixa ou algum outro de maior risco, dependendo da economia da pessoa. A questão é não deixá-lo embaixo do colchão, ou parado na conta corrente, porque esse dinheiro vai desvalorizar e quando eu tiver 60 anos isso não vai valer mais nada. É importante que o dinheiro acompanhe a economia.

    A gente nunca sabe como vai estar a aposentadoria daqui a alguns anos, o que vai mudar nas leis. É algo muito instável ainda, então é importante, se a gente puder, já ir se precavendo quanto à isso. Eu comecei a pensar nesse futuro de uns 3 anos para cá, porque antes eu economizava para coisas de curto a médio prazo, uma viagem, um celular novo. Mas eu nunca pensava a longo prazo, porque é uma coisa muito abstrata, esse futuro de décadas para frente. A gente quase não consegue imaginar a nossa própria vida tão longe. É difícil fazer esse exercício. Mas acho que não é uma questão de adivinhar ou querer já planejar a vida 40 anos para frente. É sobre mais de ter uma segurança, e chegar lá com mais tranquilidade e opções.”

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    Gisela Savioli, nutricionista

    Comer bastante verde, dormir bem e andar 10 mil passos por dia
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    “O verde é o alimento que a gente mais deveria comer. Uma molécula de clorofila, ao lado da nossa molécula de hemoglobina, do nosso sangue, são idênticas, só muda a cor. Uma é vermelha, por conta do ferro, e a outra é verde, pelo magnésio.

    Bioquimicamente falando, não existe uma rota metabólica no organismo que não dependa do magnésio. E aí você vê como as pessoas comem pouco verde. Eu costumo dizer que vitaminas e minerais compõem uma grande orquestra, você tem que ter harmonia entre eles, mas não pode faltar um maestro. E o maestro é o magnésio. Sem essa sinfonia, não tem como envelhecer bem.

    O envelhecimento requer um olhar cuidadoso para as coisas mais simples da vida: a alimentação, a atividade física, e o sono. Essa é a chave. Nosso organismo foi feito para comer alimentos que vem da natureza, e não de embalagens de plástico. A atividade física é o oxigênio das suas células, e sempre indico aos meus pacientes pelo menos 10 mil passos por dia.

    Dar uma volta pelo bairro, sair de casa (sem aglomeração) para tomar sol enquanto se exercita. Aí vem o combo: junto do exercício, a vitamina D, responsável por milhares de funções no nosso organismo, inclusive imunológico. E por fim, o sono. À noite a gente precisa dormir, porque existe um monte de hormônios e outras substâncias superimportantes que seu corpo produz, independentemente de você querer ou não, enquanto você dorme. Consolidação de memória, restauração do seu cérebro, tudo isso só acontece enquanto dormimos — e claro que, para o envelhecimento saudável e feliz, isso não deve ser subestimado.

    O que eu quero para a minha velhice e o que faço para me preparar para essa fase é, simplesmente, descomplicar. Resgatar hábitos lá de trás, que sempre fizeram sentido e são imprescindíveis para a nossa evolução e futuro.”

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Podcast da semana

Mariza Tavares: "A imagem da velhice tem que ser repaginada"

Luara Calvi Anic 18 de Outubro de 2020

A jornalista Mariza Tavares se diz uma “aprendiz da velhice”. Isso porque ao longo de sua carreira ela foi se especializando no tema. Em 2015, a carioca foi co-criadora do programa “50 mais”, na rádio CBN. Hoje, é autora do blog Longevidade — Modo de Usar, no G1, que desde o começo da pandemia do novo coronavírus bateu recorde de audiência. Ela também acaba de lançar o livro “Longevidade no Cotidiano: a arte de envelhecer bem (Contexto, 75 págs., R$ 30,80), em que trata das diferentes frentes para viver essa fase de maneira mais satisfatória. No Spotify ou no link abaixo você escuta essa conversa da autora com a Gama.

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Bloco de notas

Bloco de notas

Caetano Veloso e a felicidade dos (quase) 80 anos, Demi Moore e a propaganda de lingerie, uma novo filme que trata de despedida. Confira os nossos achados sobre envelhecimento

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    Carmen Herrera, Private Collection, New York

    Nunca é tarde para ser prestigiada com uma exposição em um grande museu. Foi aos 101 ANOS que a artista cubana Carmen Herrera inaugurou “LINES OF SIGHT”, no Whitney Museum, uma retrospectiva da vida e obra de uma das protagonistas da história da arte do pós-guerra. Hoje, aos 105, ela segue produzindo e até ganha um mural em sua homenagem no Harlem, em Nova York.

  • O Brasil envelhece rápido. Atualmente, já são mais de 30 milhões de idosos no país, muitos ainda com vontade e necessidade de trabalhar. Nesse sentido, uma aceleradora e consultora brasileira, a ATIVEN, focou no universo 60+, desenvolvendo ideias e negócios para esse público.

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    Divulgação / Acervo Pessoal

    Caetano Veloso já diria: O HOMEM VELHO “já tem coragem de saber que é imortal”. Alguns anos depois de escrever a letra da música de 1984, o artista confessou que, na época, ainda não sentia os efeitos do envelhecimento. Hoje, vive a velhice com curiosidade, com contou ao jornal colombiano El Tiempo, e reconhece a alegria da juventude, mas diz que é possível “ser muito infeliz aos 25 e muito mais feliz aos 80”.

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    Haruka Sakaguchi / The New York Times

    Na MATÉRIA EMOCIONANTE do New York Times, uma lista de ativistas americanos que honram o legado centenário de seus ancestrais, os sufragistas, e refletem sobre os efeitos do movimento para todos os gêneros, raças e religiões. Para eles, “liberdade é uma exigência fundamental do espírito humano”.

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    Divulgação / Savage X | Fenty

    Para Demi Moore, 57 anos é a idade perfeita para um CLOSE DE LINGERIE. Convidada por Rihanna para participar do desfile Savage X Fenty (disponível na Amazon Prime), a atriz levantou o debate sobre SENSUALIDADE DE MULHERES MAIS VELHAS ao postar uma foto com peças da marca e receber comentários negativos. Se fosse Brad Pitt ou George Clooney de cueca, será que aconteceria a mesma coisa?

  • Existe uma explicação científica para a figura do velho sábio. De acordo com o neuropsicólogo russo-americano Elkhonon Goldberg, a sabedoria é um tipo de processamento mental muito avançado, QUE CHEGA AO SEU ÁPICE NA VELHICE. Goldberg afirma que o idoso, além do conjunto de experiências acumuladas que carrega (e que permite melhor resolução de problemas por ser capaz de enxergar padrões), é analítico. Pode ser que ele esqueça informações básicas como a capital de um país, mas a capacidade analítica é imune à passagem do tempo.

  • No recém-lançado trailer do novo longa britânico SUPERNOVA, Stanley Tucci e Colin Firth dão vida a um casal que está junto há mais de 20 anos e que decide viajar pela Inglaterra. Um deles, com diagnóstico precoce de demência, perde um pouco da lucidez a cada semana. O que seria uma viagem de férias passa a se tornar uma viagem de despedida do casal, que precisa lidar com a perda e o envelhecimento.

  • “A partir de uma certa idade, a gente pensa constantemente na morte. É inevitável que os mortos, principalmente os amigos, no caso do José Onofre, que era bem mais moço do que eu, só agravem essa preocupação”

    O trecho, presente na conversa entre Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, está presente no livro-diálogo Sobre o Tempo, lançado em 2010 e relançado dez anos depois, já que seus temas universais — família, amizade, paixões, política, literatura, morte — não envelhecem nunca.

  • Uma irmã egocêntrica e um irmão não realizado profissionalmente, ambos acima dos 60, se vêem obrigados a conviver depois da morte da mãe. No filme “DOIS IRMÃOS”, o diretor argentino Daniel Burman, reconhecido por suas sagas juvenis, lança-se à história de Marcos e Susana, dois irmãos velhos — e que não se dão bem.

  • Se aposentar no Brasil É UM DESAFIO. Com o aumento da expectativa de vida, é possível que o país atinja o patamar de 40% DA POPULAÇÃO FORA DO MERCADO DE TRABALHO em 2050, o que dificulta o equilíbrio entre contribuintes e beneficiários na previdência. Depois da reforma mais recente, alguns privilégios e aposentadorias especiais caíram por terra, mas ainda assim, de acordo com o professor da FGV Jorge Boucinhas, “o programa não foi adequado às necessidades brasileiras”.