Neurocientista explica o limiar entre o prazer e a dependência — Gama Revista
Vício em telas?

‘É mais fácil desenvolver dependência hoje’

Isabelle Moreira Lima 25 de Outubro de 2020
Veridiana Scarpelli

Com a força do estímulo cerebral gerado pela internet, por novas drogas e até pelas comidas ultraprocessadas, o século 21 oferece mais possibilidade de comportamentos compulsivos, afirma a neurocientista Karina Possa Abrahão

O ser humano é persistente quando o assunto é prazer. E a busca por esses estímulos, quando a frequência beira a obsessão, pode ocasionar dependência. Acontece que, em 2020, o prazer vem também em megabits por segundo (como é medida a velocidade da internet), em forma de likes, novos seguidores, selfies e outras formas de comunicação das redes sociais. Some-se a isso, os estímulos gráficos da pornografia e o excesso de sódio e de açúcares de comidas ultraprocessadas e está feito um coquetel molotov para o cérebro de quem habita a Terra hoje — sem falar nas chamadas drogas de abuso, sejam elas lícitas ou ilícitas.

A análise é da neurocientista Karina Possa Abrahão, professora do departamento de Psicobiologia da Unifesp. Em sua pesquisa, desde a graduação em Biomedicina na instituição onde leciona hoje, até os pós-doutorados na USP e na agência para saúde pública norte-americana National Institutes of Health, em Maryland, ela vem estudando comportamentos impulsivos e formação de hábito, com foco especial nos efeitos do álcool em sinapses e neurônios. E faz a divulgação de suas descobertas de forma “traduzida” no portal de divulgação científica Eureka Brasil e em seu Instagram.

Na entrevista a Gama, ela falou da semelhança entre a dependência que essas novas oportunidades de “prazer” geram, como a internet, em relação ao álcool e outras drogas ilícitas — seus objetos de estudo. “Se o comportamento traz problemas, é preciso buscar ajuda”, afirma.

Comportamentos compulsivos de busca de algum prazer específico têm características muito comuns e são semelhantes em como alteram o cérebro

  • G |O que causa e explica a dependência?

    Karina Possa Abrahão |

    Antigamente, as pessoas tentavam separar os vícios do dia a dia da dependência química. Mas hoje deixamos de falar em dependência química, psicológica, comportamental; todos eles são transtornos por persistência em busca de um estímulo. Todos esses comportamentos compulsivos de busca de algum prazer específico têm características muito comuns e são semelhantes em como alteram o cérebro. O ser humano é feito de vícios. É normal buscar o que nos dá prazer, alegria, mas deve-se procurar ajuda quando o comportamento começa a atrapalhar a vida. Se bebe e não consegue trabalhar, por exemplo, aí há um problema.

    Sabemos bem o que uma droga faz ao nosso cérebro nas primeiras vezes que a usamos. Ela o modula em regiões específicas, aumenta a dopamina. O cérebro então percebe o aumento desse marcador e pede para que o processo se repita. A dopamina é um modulador de repetição do comportamento importante para qualquer animal na natureza, porque faz com que nos sintamos bem e informa ao corpo que aquilo deve ser repetido. A gente sabe bastante sobre o efeito inicial do uso de uma droga no cérebro e sobre o efeito final, quando já há uma exposição grave, crônica. Agora, o meio, essa linha tênue entre o uso controlado e o uso compulsivo e problemático, ainda está sendo pesquisada — e não sabemos muito bem o que acontece.

  • G |Existe uma progressão no estágio da dependência?

    KPA |

    Ninguém se torna dependente sem antes ter usado muito de um estímulo. Existe uma progressão: o uso inicial, o uso progressivo, o descontrole e a abstinência. Pode não ser forte como a da heroína, mas talvez seja uma abstinência leve não conseguir curtir um bloquinho de carnaval sem uma cerveja na mão. Ou você não vai ao happy hour porque não pode beber. Não pode ir ao bar e tomar um suco? As pessoas acham isso natural, e não é. Você deveria saber controlar o seu comportamento, porque se você associa um local à droga, você já perdeu o controle do seu comportamento naquele local.

  • G |Em outros tempos a gente ouvia sobre pessoas viciadas em substâncias, drogas, álcool, remédios. Hoje a gente ouve que somos viciados em sexo, internet, redes sociais. A dependência mudou?

    KPA |

    O engajamento focado em uma atividade única, que pode vir a se tornar uma dependência, caso atrapalhe a vida do indivíduo, existe desde sempre. Só que o problema das drogas, da internet, do Instagram, e até das comidas ultraprocessadas é que dão esse sinal de repetição muito rápido. Então, enquanto antigamente as crianças iam para a rua brincar de pega-pega e levavam meia hora até ganhar o jogo; hoje em dia a sensação vem muito mais rápido, pelo toque do celular: é o ganhei-ganhei-ganhei no joguinho.
    Esses flashes vêm a nós a cada vez que vemos um like nas redes sociais, a cada novo seguidor. Não tem como mentir, todo mundo sente isso.

  • G |É mais fácil então ser dependente hoje?

    KPA |

    É mais fácil desenvolver algum tipo de dependência. A gente já era propenso a isso, a gente já se apegava a alguma coisa, mas antigamente demorava mais tempo, os estímulos eram mais lentos. O álcool é um estímulo leve e portanto mais demorado; a cocaína é um estímulo mais forte, então a dependência é mais rápida. Agora, os estímulos da internet, que incluem a pornografia, têm poder de repetição no nosso comportamento de maneira muito mais forte. Tudo o que a gente faz que é legal nos dá um flash de dopamina para mostrar ao cérebro que aquilo é bom. Comer, transar, fazer uma compra, trabalhar com o que você gosta é assim. Só que o efeito da dopamina nesses casos é minúsculo. Mas quando entra uma cocaína, ou uma pornografia, uma comida açucarada, ou os estímulos imediatos da internet, o efeito dela é muito maior. O poder desses estímulos atuais para marcar o cérebro e pedir por mais é muito grande e eles passam a competir com estímulos mais tranquilos, como ler um livro, em que a sensação boa vem no final depois de bastante tempo. Hoje as pessoas nem terminam de ler um livro para começar a postar páginas e detalhes da leitura para receber feedback. Você nem come um prato e já posta na internet. Antes de ver um show, a galera já está postando. Aquele show vai agradar a pessoa, mas se você perpetuar e agregar valor de feedback com a rede social, o efeito da dopamina é grandão. E aí a chance de no próximo show você usar o celular para gravar e não conseguir curtir sem ele é maior. É isso que vai criando a dependência. As redes sociais sabem disso, tem neurocientistas trabalhando para a Google, para o Facebook.

  • G |Mas então é uma coisa deliberadamente maquiavélica, como no filme “O Dilema das Redes”?

    KPA |

    Não foi maquiavélico do início, tanto é que eles estão notando agora e estão desesperados. Do início, tinha que vender um produto, sempre foi assim. Só que, além da gente saber menos sobre o cérebro no passado, a gente tinha também menos habilidade de atingir a pessoa de uma maneira tão rápida. Converso com um pessoal de neuromarketing e eles estão preocupados, afinal esse controle absurdo é a monopolização. O capitalismo depende da competição, gente vendendo daqui, gente vendendo de lá, se você monopoliza de tanto controlar o comportamento das pessoas, o que acontece? Ninguém sabe, vai precisar de sociólogo, político, para pensar em novas formas de vida. Falta discussão filosófica sobre isso no planeta.

  • G |As dependências em substâncias e as comportamentais são diferentes? Reagimos a elas de maneira diferente?

    KPA |

    Mesmo dentre as substâncias, que a gente colocaria no mesmo pacote, há características específicas para cada uma delas. Elas têm efeitos diferentes, elas agem em lugares diferentes do cérebro. Com certeza, cada uma das dependências vai ter suas particularidades. Mas, elas também têm características comuns, como comportamento compulsivo, que tira a sua atenção de outras coisas e foca somente naquele estímulo. Agora, importante é entender o cérebro associado a cada uma dessas dependências, porque ele também tem particularidades. Aí, e isso é uma noção nova da neurociência e da psiquiatria, eu acho que mais do que tratar cada uma das dependências ou cada um dos transtornos psiquiátricos, a gente vai ter que tratar por fenótipo.

  • G |Então os tratamentos também serão diferentes?

    KPA |

    Tem gente que é dependente porque é meio depressivo, tem o ansioso, o impulsivo. Não importa muito qual é a dependência, mas a característica que levou a essa dependência. Essa é uma perspectiva que está sendo trabalhada hoje, especialmente nos Estados Unidos.

  • G |Há pessoas com mais propensão ao vício? É possível identificar traços de propensão já nas crianças?

    KPA |

    Comportamentalmente é difícil dizer, mas há os traços genéticos. Para cada uma das drogas e dos tipos de dependência, a porcentagem do componente genético de influência é diferente, estimamos de 30% a 40% de influência genética na possibilidade de desenvolvimento de transtornos graves pelo uso de substância. Se você tem um pai, um avô, um tio consanguíneo que têm problemas de uso de alguma substância, ou que tem compulsões na vida, o melhor a ser feito é reparar no seu comportamento, e tentar controlar antes que isso se torne um problema grave. Então, a genética contribui sim, mas não é determinante. Crianças e adolescentes mais impulsivos têm tendência maior a desenvolver problema. Há ainda relações de comorbidade, como uso de álcool e depressão. Então, dependendo do tipo de doença psiquiátrica pré-existente, é precisa tomar mais cuidado. Outra coisa que é muito importante é que quanto mais cedo começar a usar, pior. São dois os motivos: pelo tempo, porque nenhuma dependência acontece do dia pra noite; e porque o cérebro dos adolescentes ainda não está totalmente formado. Por isso que é proibido o álcool para adolescente. Tem motivo científico, não é político.

  • G |O cérebro de alguém que é dependente em relação a uma pessoa que não é fica diferente?

    KPA |

    Há alterações microscópicas e macroscópicas. As macroscópicas têm a ver com perda de massa cerebral, se você usou muito tempo alguma droga. Não é que “mata neurônio”, mas altera as conexões entre os neurônios, o cérebro dá uma encolhida. Do ponto de vista microscópico, dos neurônios e suas conexões, as sinapses, se modificam causando alteração de plasticidade sináptica. As drogas vão fazendo com que a possibilidade de mudança de pensamento não exista. É como se enrijecesse o nosso cérebro e isso faz com que não mudemos de comportamento. A gente consegue ver isso nos experimentos.
    Na Cracolândia, por exemplo, os comportamentos do dia inteiro têm a ver com o uso da droga. Eles entendem que a vida é mais que aquilo, mas no dia a dia não conseguem sair daquilo.

  • G |A experiência da Cracolândia está no fim do espectro da dependência?

    KPA |

    A Cracolândia tem uma característica de uso explícito. Tem que tomar muito cuidado ao julgar o usuário. O problema ali não é o usuário, é o traficante, quem realmente controla. É um lugar experimental, então drogas que vão ser exportadas, sintetizadas, são testadas naquelas pessoas. E aí quando a gente vê na televisão que encontraram uma pasta azul que matou três, aquilo foi um experimento. Mas o crack não é o problema do Brasil, e sim o álcool. Só que o dependente de álcool vai beber dentro de casa ou nesses botecos em que é aceito, e ninguém está nem aí. Ele chega ao SUS com uma cirrose ou um câncer hepático avançadíssimo. Os dependentes de álcool são invisíveis, só que eles causam muito mais débitos, até para a saúde pública do Brasil, do que a Cracolândia. Muitos trabalhos indicam que a taxação sobre o preço do álcool ajudaria a diminuir o uso. A proibição a gente sabe historicamente que não funciona. Temos que ser repetitivo, não adianta falar para o adolescente “olha, isso vai te fazer mal”, e nunca mais conversar sobre o assunto. Até os mais velhos precisam de alerta.

  • G |Na pandemia, a venda de bebidas aumentou. Existe uma expectativa de que a dependência também tenha aumentado nesse período?

    KPA |

    Houve um aumento no início, mas depois diminuiu. Foi um período de transição super estressante e era esperado que fosse consumido mais álcool e até outras drogas. O problema está nas pessoas que já tinham um problema com álcool, esse grupo pode ter aumentado o consumo, e pior, deixado de buscar ajuda. Sem falar na possibilidade de um rebote no eterno Carnaval que vai ser o pós-vacina: vai ter muita gente se metendo em problemas por conta do uso de álcool. Além da dependência, existem muitas outras questões associadas como dirigir, se colocar em briga, agressão, sexo sem camisinha, estupro — a mídia tem mostrado que mulher bêbada significa estupro.

  • G |É possível zerar uma dependência?

    KPA |

    Hoje em dia a gente considera a dependência uma doença crônica com a qual o indivíduo vai ter que conviver para o resto da vida. É como a diabetes, se você tem, precisa controlar a alimentação, tomar insulina quando tiver um problema. O mais importante é um acompanhamento contínuo. Muitas pesquisas buscam formas de intervenção psicológica mais curtas, as chamadas intervenções breves para ver se o paciente muda alguns comportamentos e repense o quanto e como está consumindo aqueles estímulos, seja a droga ou a pornografia, por exemplo. É efetivo tanto quanto terapias mais longas, de 12 encontros. Mas existem poucos estudos acompanhando esse indivíduo por muito tempo.