O sexo solitário em tempos de pandemia — Gama Revista
Você se conhece?

Sexo a um

Manuela Stelzer 28 de Março de 2021
Isabela Durão

A pandemia escancarou — e incentivou — um fenômeno que já crescia antes do vírus: o sexo solitário. Será que estamos mais autossuficientes na cama? Gama foi atrás de respostas

Estamos transando menos — isso é fato. Antes mesmo do isolamento social, a tendência era que o sexo se tornasse cada vez mais raro. Um estudo realizado pelo professor David Spiegelhalter, da Universidade de Cambridge, avaliou que, em 1990, os casais faziam sexo em uma média de cinco vezes por mês. Em 2000, o número diminuiu para quatro vezes, e dez anos depois, para três vezes ao mês. Se continuar assim, em 2030 os casais correm o risco de não transar mais.

Tenho dito que vamos cada vez transar menos e gozar mais

Na pandemia, com a impossibilidade de encontrarmos novos pares, a frequência sexual diminuiu ainda mais, e nem só para os solteiros. Casais que viviam sob o mesmo teto, das duas, uma: ou pediram o divórcio ou perderam totalmente o tesão, e pararam de transar — salvo exceções. Mas, por mais irônico que seja, mesmo com a escassez do sexo a dois, o mercado de produtos eróticos pegou fogo. No Brasil, batemos a marca de um milhão de vibradores vendidos e as vendas no setor cresceram 4,12% em comparação a 2019, quando o faturamento foi de 2 bilhões de reais.

Os números podem até parecer contraditórios, mas não são. O sexo a dois parece cair em desuso, e agora a moda é transar sozinho, seja com vibrador, fantasias e pensamentos eróticos, bonecos sexuais ou auxílio das telas. Os motivos variam — vão desde o medo de se relacionar com algum parceiro de quarentena duvidosa até a independência sexual, o autoconhecimento e a facilidade de gozar sozinho. “Tenho dito que vamos cada vez transar menos e gozar mais”, diz o antropólogo Michel Alcoforado, do Grupo Consumoteca e um entusiasta do tema.

Já era tendência?

Nos últimos anos, iniciou-se um processo de desmistificação e valorização da masturbação, pautado principalmente pela mídia e por um número cada vez maior de projetos que buscavam, em sua maioria, o orgasmo feminino, já que para elas o ato de se tocar é um tabu ainda maior, fora a dificuldade de atingir o ápice. Iniciativas como a plataforma de vídeos OMG Yes, o núcleo de sexualidade Prazer Ela e o curso I Love My Pussy são alguns exemplos.

Tal movimento foi um dos fatores que auxiliou na explosão dessa prática, que muitos especialistas chamam de autossexo, durante a pandemia. O psiquiatra e terapeuta sexual Eduardo Perin diz que há uma série de questões que culminaram nessa nova realidade: “Os relacionamentos cada vez mais difíceis e descartáveis, esse processo de desmistificação da masturbação e a inibição da libido, proporcionada pelo isolamento, são algumas delas.”

Havia também um eminente desejo de se conhecer, que aumentou conforme a masturbação ganhava espaço no debate público. “Antes da pandemia, existia um ensaio de um desejo de se aproximar de si. E a quarentena nos forçou a concretizar esse desejo antigo, de autoconhecimento e autoerotismo”, diz a psicóloga e mestra em educação sexual Elânia Francisca Lima. Para ela, a pandemia só intensificou uma faísca que já estava presente na sociedade, e que foi incendiada pela necessidade de encontrar prazer no próprio corpo.

É inegável que a falta do sexo a dois vem também de uma mudança geracional. Por diversos motivos, que vão de questões performáticas a pautas identitárias, os millennials (nascidos entre 1980 e 1996) e a geração Z (1990-2010) transam menos do que baby boomers e geração X (que vão dos nascimentos de 1946 até 1980), como mostram diferentes pesquisas. De acordo com o antropólogo Michel Alcoforado, leva-se muito mais do que só o tesão para a cama. “A complexificação das pautas identitárias, novos discursos, minorias, tudo isso entrou fortemente para marcar o que é o sexo, o que gerou um peso gigantesco. O desejo fica embalado numa série de outras questões.” Ele diz que quando o sexo é solitário não se tem qualquer outra preocupação além do próprio prazer. “Virou o paraíso.”

Muito eu nessa hora

Com a chegada do novo coronavírus e o decreto de estado de pandemia no mundo, a mensagem foi clara: você é seu parceiro sexual mais seguro, diziam os documentos como o emitido pelo Departamento de Saúde da Cidade de Nova York. E o que antes a sociedade colocava como um “sexo piorado”, hoje a masturbação e outras modalidades de autossexo se tornaram as mais acessíveis e seguras formas de obtenção de prazer. “Na pandemia, com a interdição do contato com o outro, o véu do preconceito que estava sobre essas práticas solitárias acaba, some”, diz Alcoforado.

Não só o fim desses preconceitos em relação às diversas formas de sexo solitário, outras vantagens vieram junto na bagagem. O autoconhecimento é uma delas. Conhecer as zonas eróticas e os pontos de prazer do corpo, além de entender o que te faz atingir o orgasmo sozinho, são meios importantes para aproveitar o sexo a dois — ou aprender a viver bem e feliz sem precisar de um par.

É sobre sentir uma atração profunda e instintiva por mim mesmo, esteja sozinha ou com um namorado. Eu tenho uma vida sexual incrível sozinha

O autoerotismo é outra vantagem das práticas solitárias de prazer. Olhar para o próprio corpo como interessante e digno de desejo é a chave para o empoderamento e promoção da autonomia. “Muitas pessoas nunca tinham se masturbado na vida, porque havia uma outra pessoa para transar, então o autoerótico ficava em segundo plano”, explica Elânia. “O autoerotismo era um movimento de fora para dentro, e agora se tornou de dentro para fora.” De acordo com ela, a validação do eu erótico dependia da aprovação do outro, algo que mudou com a movimentação de olhar para si e gozar sozinho.

Foi tanto auto — autoerotismo, autoconhecimento, autoamor, autossexo — que alguns acabaram apaixonados pelo seu próprio eu: abram alas aos autosseuxais. Em depoimento à BBC, uma autossexual anônima explicou sobre sua sexualidade, a diferenciou do simples narcisismo exagerado e defendeu seu desejo particular: “É sobre sentir uma atração profunda e instintiva por mim mesmo, esteja sozinha ou com um namorado”, disse ela. “Eu tenho uma vida sexual incrível sozinha.”

Apesar das vantagens, o sexo solitário também tem seus problemas. A psicóloga Elânia Lima explica que a masturbação deve ser uma escolha, não um meio para desviar de uma questão que não se quer enfrentar. “É preciso perceber se a prática solitária em busca de prazer é por vontade ou por ter vergonha do próprio corpo, por exemplo”, diz ela. “Se a masturbação acontece porque eu não me sinto digno ou digna de transar com alguém, aí é um ponto de atenção. A masturbação tem que ser uma escolha.”

As telas chegaram

Se elas já intermediavam a vida profissional e social, passaram também a exercer grande poder entre quatro paredes. O sexting veio com tudo, aplicativos de webnamoros reconquistaram seu espaço (se é que algum dia eles haviam perdido), a audiência em sites pornôs explodiu (tanto que muitas plataformas liberaram acesso gratuito durante a quarentena) e surgiram até festas de sexo pelo Zoom. As novidades foram tantas, que muita gente precisou de um manual para iniciar a nova vida sexual digital, com dicas de apps, gadgets e maneiras de se proteger.

“Essa coleção de novos fenômenos potencializou ainda mais a individualização do sexo, mas também trouxe outra mudança radical: a sexualidade saiu do território do segredo”, conta Alcoforado. Angélica, Fernanda Paes Leme, Cléo Pires — muitas celebridades deram as caras nas redes e na mídia para dizerem que sim, elas têm vibrador e gozam sozinhas. Até em produções da Netflix o brinquedo apareceu: na série “Emily in Paris”, a protagonista tem um na mesinha de cabeceira. O sucesso foi tanto que, na Gama, um modelo de vibrador, o sugador de clitóris, virou destaque na seção Objeto de Análise.

Essa coleção de novos fenômenos potencializou ainda mais a individualização do sexo, mas também trouxe outra mudança radical: a sexualidade saiu do território do segredo

Os vibradores são realmente os novos queridinhos do sexo solitário e, pra muita gente, trazem mais prazer do que parceiros. “As máquinas existem justamente para dar conta daquilo que o corpo não consegue dar”, diz o antropólogo Michel Alcoforado. E há quem queira evoluir ainda mais a capacidade dessa tecnologia. A brasileira Rita Wu, arquiteta, designer e pesquisadora, criou o neurodildo, um vibrador que articula a interface cérebro-computador e a inteligência artificial, e permite que uma pessoa controle, à distância, a potência e a velocidade do vibrador em outra pessoa. Sua invenção virou sensação em Berlim e na Filadélfia, e é com tecnologias desse tipo que a pesquisadora quer dar mais poder ao vibrador e unir sexo, saúde e autoconhecimento por meio dele — ainda que substituir absolutamente o toque e a presença do outro seja uma ideia distante.

As telas eróticas deixam, no entanto, algumas pulgas atrás da orelha. A primeira é em relação ao uso dos sentidos no sexo e a sua importância. O antropólogo Alcoforado diz que, no lugar da transa exacerbar uma hiperpotência dos sentidos, misturando visão, olfato, tato, paladar, os sites pornô e apps de relacionamento resumem a experiência sexual a um único sentido. “Nosso prazer passa a ser pautado apenas pela imagem.”

Há quem diga também que o sexo por telas não é solitário, mas conectado. “Não é um sexo presencial, mas isso não significa que seja sozinho, porque existem conexões ali, mesmo que estabelecidas virutalmente”, explica a antropóloga Maria Filomena Gregori, que estuda sexualidade. A psicóloga Elânia Lima concorda: “Seu corpo está sozinho em casa, mas mesmo à distância, a tecnologia permite que você interaja com outro corpo. É um sexo à distância, mas não solitário.”

Alguma troca pode até existir virtualmente, mas sem dúvidas é uma prática mais focada no indivíduo. “Como você virtualiza o sexo, se a outra pessoa gozou ou não, não é problema seu”, finaliza Alcoforado.