Animal Crossing: contra o isolamento social, uma ilha virtual — Gama Revista

Sociedade

Contra o isolamento social, uma ilha virtual

Novo jogo da série Animal Crossing vai na contramão dos grandes títulos de vídeo game e oferece uma nova maneira de se relacionar em tempos de quarentena

Daniel Vila Nova 20 de Abril de 2020

Há cerca de um mês, uma novidade abalou o mundo. Crianças a velhinhos em isolamento foram cooptados pela força de um novo fenômeno global, um jogo de vídeo game chamado “Animal Crossing: New Horizons”.

Derivado de uma série iniciada em 2001, o game é uma simulação de cotidiano. Nele, o jogador controla um avatar personalizável que acaba de se mudar para uma ilha e deve construir e gerir uma comunidade no local. A vila será composta por animais antropomorfizados (bichinhos extremamente fofos que falam como pessoas) com nomes e personalidades próprias e é dever de quem joga, como representante dos moradores, cuidar para que todos tenham um bom lar.

O jogo é sincronizado com o horário do mundo real, logo, se onde você está é noite, na sua ilha também será noite. Isso faz com que o tempo das ações não seja imediato. Se você comprou uma blusa, ou plantou uma árvore, o resultado só aparecerá no dia seguinte.

O jogo é sincronizado com o horário do mundo real, logo, se onde você está é noite, na sua ilha também será noite. Isso faz com que o tempo das ações não seja imediato

Lançado no começo de março, período em que a maioria dos países ocidentais estavam adotando a quarentena, o jogo da Nintendo chegou ao mundo em meio a pandemia do COVID-19. O que para muitos produtos seria uma sentença de morte, neste caso foi revertido em um sucesso estrondoso. Além de uma solução para o isolamento social.

Durante a quarentena, as vendas de vídeo games estão cada vez mais em alta. Todos querem ter algo para fazer em casa. O grande apelo de Animal Crossing é o seu componente social, que permite que você se encontre com amigos e conhecidos durante a jogatina. O jogo se tornou uma febre viral e as pessoas passaram a utilizar o espaço virtual para atividades do dia a dia. A atriz Brie Larson, ganhadora do Oscar e face de uma franquia de cinema bilionária, deu uma entrevista à revista Elle no conforto de sua ilha paradisíaca. Encontros com amigos, casamentos, protestos políticos e até velórios. Todas essas atividades se tornaram rotina em Animal Crossing.

Uma nova forma de se relacionar

As pessoas com quem a estudante de psicologia Larissa Mizuno, de 24 anos, tem tido mais contato durante a quarentena são as que jogam com ela de suas casas. Longe dos amigos, da família e do namorado, ela comprou um Nintendo Switch especialmente para jogar Animal Crossing. “Essa é uma nova forma de se relacionar. Mais interativa do que uma simples chamada de vídeo ou de áudio. Você de fato está lá, um lugar diferente, interagindo.” Ela conta que se aproximou de pessoas das quais não tinha tanto contato por conta do assunto em comum.

Você pode visitar e receber visitas dentro do jogo©Reprodução/ Nintendo

Outros, como o engenheiro de software Deyvidy Salvino, de 24 anos, também usam o jogo para socializar. Mas ao invés de utilizar o ambiente virtual, ele opta por compartilhar a experiência com a sua mãe. “Eu vi que muitas famílias estavam jogando junto, fiquei curioso e convidei minha mãe. Ela acabou se apaixonando.” Quando o expediente de trabalho acaba, Deyvidy se reúne com a mãe para jogar por horas. Para ele, a rotina propiciada pelo jogo o ajuda com o isolamento social. “Na quarentena, você acaba se acostumando com a falta de novidades. O que me ajuda muito é que sempre há algo novo no Animal Crossing. Você tem um mundinho perfeito ali, longe de toda essa loucura que a gente tá vivendo.”

Larissa percebeu que era dependente da rotina quando a perdeu na pandemia. No jogo, encontrou uma série de atividades diárias, que acompanhadas pela marcação do horário do mundo real, possibilitaram a ela uma nova rotina. “Encaixei o jogo em certos horários no meu dia, eu jogo e intercalo com outras atividades. Sei que durante esses horários vai ter coisas novas para fazer. O jogo deu uma organizada na minha vida.”

Além da rotina, Animal Crossing oferece uma coisa cada vez mais rara, e mais buscada, nos dias de hoje: notícias boas. “Estamos acostumados ao nosso dia a dia: a pandemia e a conjuntura política. Há muitas notícias ruins por aí mas o jogo te traz todo dia uma atualização sobre o mundo lá dentro e são sempre atualizações boas. Uma nova casa, um novo visitante. É uma quebra da monotonia da quarentena.” Larissa conta que sua celebração de páscoa ocorreu dentro do ambiente virtual. Se no mundo real o feriado sofreu um baque por conta do isolamento social, lá dentro ela se preparou e ficou ansiosa pela data, um evento comemorativo dentro do jogo que resultou em um prêmio final no dia da páscoa.

“Mas o que você faz no jogo?”

Para Henrique Sampaio, jornalista especializado em vídeo games e co-fundador do site Overloadr, é curioso perceber como, até hoje, a proposta do game ainda gera um pouco de estranheza. “Isso acontece justamente porque, nos vídeo games, as pessoas esperam que você vá viver grandes feitos, que será um grande herói e combatente”. Espera-se de um vídeo game que ele seja sempre sobre histórias épicas e atos heróicos, mas esse nem sempre é o caso. “The Sims” e “SimCity” vão na contramão, mas antes do sucesso os jogos encontraram resistência, especialmente no começo. “O criador desses jogos, Will Wright, tinha uma dificuldade grande de convencer pessoas que o projeto dele era interessante, elas não entendiam muito bem o propósito do jogo”.

Segundo Sampaio, sempre houve elementos que fizeram com que a estrutura dos vídeo games fossem delimitada em alguns conceitos, como a competitividade. Não é à toa que a maior parte dos grandes jogos seja voltada ao combate, isso se deve ao fato do vídeo game ter surgido em um contexto militar. “Faz sentido que os jogos caminhem para essa direção de fantasia de poder. Se você fala de militarismo, você fala de poder, de armamento, de estratégias para dominar o oponente”.

Pescar é uma das principais atividades em Animal Crossing©Reprodução/ Nintendo

Recentemente, uma nova onda de jogos vem surgindo, da qual Animal Crossing faz parte. Jogos sobre o comportamento humano, histórias mais pessoais, mais introspectivas. Para o jornalista, isso é um entendimento contemporâneo da linguagem dos vídeo games, que busca subverter a herança militar. “Um jogo que quebra completamente essa estrutura gera a pergunta: ‘Mas o que você faz no jogo?’. E é só tendo contato que você consegue de fato entender o que ele é. Entender que jogos podem ser completamente diferentes daquilo que as pessoas conhecem.”

O espaço dos vídeos games vem se tornando mais democrático e diverso. Mais mulheres, pessoas LGBT, pessoas negras. Conforme vão ocupando esses espaços, elas vão se expressando e criando novas perspectivas

O jornalista ressalta que a indústria dos games, assim como a maior parte das indústrias de entretenimento do mundo, é majoritariamente composta por homens brancos heterossexuais. “O que Animal Crossing faz, ou The Sims, é incentivar a comunidade de games a não se isolar, mas aceitar outras experiências que mostrem novos caminhos.” O crescimento e a aceitação de jogos não-violentos cresce a cada dia. Sampaio acredita que a diversidade é a chave para esse acontecimento.

“O espaço do vídeo games vem se tornando mais democrático e diverso. Você tem mais pessoas pensando em vídeo games. Mais mulheres, pessoas LGBT, pessoas negras. Conforme vão ocupando esses espaços, elas vão se expressando e criando novas perspectivas”. Sampaio finaliza lembrando que “Animal Crossing: New Horizons” é dirigido por uma mulher, Aya Kyogoku, que atuou como produtora e diretora em outros títulos da série.

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