Só, somente só — Gama Revista
©Divulgação

Só, somente só

O que é ser uma mulher de classe média – com todos os privilégios do pacote – que mora sozinha em 2020?

Tatiana Vasconcellos 12 de Junho de 2020

“Eu não me sinto só. Mas sinto falta de socializar, de estar com as pessoas”, me disse uma mulher de 32 anos que mora sozinha sobre como tem se sentido – e com quem me identifiquei imediatamente.

Tenho estado às voltas com o assunto. O que é ser uma mulher de classe média – com todos os privilégios do pacote – que mora sozinha em 2020? Tenho me interessado por entender quais são as nuances, as especificidades, de que jeito eu me sinto, de que jeito outras mulheres se sentem e de que jeito o mundo disse que a gente deveria se sentir. E, com a pandemia, essa pesquisa ganhou um adendo: morar sozinha e ter de ficar em casa. Tenho conversado com muitas mulheres deste perfil em função de um podcast que estou produzindo com a amiga e também jornalista Laura Cassano para a rádio CBN, o “Na Morada”. Ouvi mulheres muito assustadas com o vírus, com pânico de ser contaminadas, e que por isso estão realmente trancadas em casa. Conheço mulheres que fizeram planos, caso fossem infectadas: comida congelada no freezer; duas ou três pessoas a quem recorrer; plano de saúde em dia e uma reservinha financeira. No início tive receio, principalmente da falta de ar, me parecia uma sensação angustiante demais para enfrentar sozinha. Mas não pensei em nenhum plano. Zero. O que eu faria? Como lidaria? Não tenho a menor ideia.

Entendi muito rapidamente que estamos diante do imponderável, que não temos controle de nada e que fazer planos é um convite à frustração. É preciso viver um dia de cada vez. Esse é um tremendo passo para uma pessoa ansiosa. Eu me senti confortável no caos, amei o desacelerar do mundo e desencanei de me cobrar produtividade.

Fui acometida por uma síndrome de Jane Fonda, animada com aulas de dança e circuitos de funcional, nos oito metros quadrados da minha sala

Inicialmente, fui acometida por uma síndrome de Jane Fonda, animada com aulas de dança e circuitos de funcional, ocupando os oito metros quadrados de área livre na minha sala. Mas o encosto de Jane durou umas três semanas até que eu fosse atingida na nuca por um baixo astral horroroso: uma tristeza, uma desesperança, crise de choro assistindo ao noticiário, vontade de chorar ao fazer o noticiário. Não conseguia me concentrar em nenhum livro. Nenhum filme. Nenhuma série. Fui pra cozinha.

Passei a vida repetindo que não sabia cozinhar. Nunca tive intimidade com ingredientes, nem muito interesse por processos culinários ou receitas, muito embora a cozinha me seja um ambiente familiar. Venho de uma família de mulheres que cozinham bem. Porém, sou uma filha do clássico mãe-separada-que-teve-de-voltar-ao-mercado-de-trabalho-para-prover-o-sustento-dos-filhos-nos-anos-1990. Minha mãe não tinha tempo para fazer isso no dia a dia, porque saía cedo e voltava tarde do trabalho. Eu comia todo dia a deliciosa comida da minha avó (saudade!). Isso numa época em que o freezer e o forno de microondas chegaram como símbolos de independência da mulher moderna. Foi assim que eu cresci: pretendendo conquistar o mundo e descongelando lasanhas prontas no microondas. Não me envergonhava da minha falta de interesse culinário. Ao contrário, me orgulhava dela, a entendia como um sinal de independência, um rompimento de padrão. Não, eu não tinha tempo a perder na cozinha.

Pois cá estou eu, aos 42, trancada em casa, com o livro da Rita Lobo aberto na página do feijão. Nunca tinha feito feijão até esse isolamento obrigatório. Fiz um bolo pela primeira vez na quarentena. E o segundo. O terceiro. Uns mais saborosos do que outros. Ando mais conectada com o cuidado do lugar onde tenho morado, dormido, comido, me lavado, trabalhado e me divertido. Tenho encontrado satisfação em preparar a minha própria refeição. Tenho gostado de cuidar da minha casa e das minhas coisas, da minha sobrevivência, de mim.

A essa altura, você que é mãe deve estar pensando na sua carga tripla. Honesta e empaticamente lhes digo: eu não daria conta

A faxina também é um ponto importante e uma oportunidade de tomada de consciência. Sem o trabalho das diaristas e/ou faxineiras (que devem continuar sendo pagas por qualquer indivíduo com o mínimo de condições financeiras e noção social), descobrimos ou relembramos que a nossa morada não é autolimpante, que alguém faz aquele serviço.

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A essa altura, você que é mãe deve estar pensando na sua carga tripla com todo mundo em casa. Honesta e empaticamente lhes digo: eu não daria conta. Acho surreal o volume de trabalho, a divisão desigual entre os casais e a sobrecarga da mulher. A quantidade de trabalho aqui é menor. Por outro lado, a carga é toda minha, obrigada, não há ninguém com quem seja possível dividir a função e trocar a emoção. Não ter com quem dividir os cuidados com a casa pode ser bem pesado, e tem sido para muitas mulheres.

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©Reprodução / Instagram

Quem pinta o seu cabelo quando você mora sozinha? Achei que essa seria uma boa desculpa para fazer um experimento: uma transição capilar da tinta para o natural. No meu caso, do ruivo para o prateado. Nisso eu já havia pensado. Mas agora tinha um argumento forte pra mim mesma. Pode parecer uma bobagem fútil, mas não é. Mulheres grisalhas são comumente tachadas de desleixadas e “velhas”, nesse mundo machista bizarro em que juventude é sinônimo de beleza e ser “velha” é uma espécie de xingamento, de ofensa. Homens, não. Homens grisalhos não são “velhos”, são “charmosos”. Ora, tenha dó. Toda mulher já ouviu opiniões não solicitadas sobre sua aparência. Esse pessoal não se toca? Por enquanto, estou cultivando meu prateado, vamos ver até onde vai e se eu não mudo de ideia. Afinal, o padrão do confinamento tem sido a inconstância emocional, um trem fantasma em que numa semana você tá amando cozinhar e na semana seguinte tá jantando pão, de tanta preguiça de preparar alguma coisa.

Falar bobagem, chorar de rir junto, bater a mão na perna do outro. Não tem tela nem chamada de vídeo que dê conta disso. Saudades, corpos

Há um mês e meio estou o puro creme do ócio físico (saudade, Jane), porém nunca li tanto. Estou saudável, mas sinto uma falta imensa de estar com as pessoas de quem eu gosto, na hora que eu quero, de apertar minha sobrinha, de pegar gente. Tenho saudade da redação da rádio cheia. Embora interagir com as pouquíssimas pessoas na CBN alivie o tédio do isolamento social, não poder encostar nelas é barra pra mim. Sou uma pessoa do contato físico. Embora eu esteja conectada permanente com as pessoas que amo, quero abraçar, beijar, pegar na mão. Fazer e ganhar cafuné, olhar no olho. Tomar cerveja e discutir os problemas do país e os nossos próprios. Falar bobagem, chorar de rir junto, batendo a mão na perna do outro. Não tem tela nem chamada de vídeo que dê conta disso. Saudades, corpos.

Sexualmente falando, a quarentena pode ser um convite à investigação do próprio corpo. Mulheres que moram sozinhas, tenham elas ou não parceiros ou parceiras sexuais, podem aproveitar o isolamento para se observar melhor e mais atentamente seus sentidos, descobrir suas sensualidades, suas potências eróticas, explorar jeitos e formas de prazer. Saudades, corpos.

E ainda tem o Brasil, que destrói nossa libido. Não bastasse a tristeza de uma pandemia sem precedentes e de ter de noticiar centenas de pessoas mortas e todos os dramas humanos que vêm com o vírus, estamos politicamente desgovernados. Tá (quase) todo mundo exausto de Brasil. Tem dias que não dá pra fazer mais nada além de sofrer de Brasil, em posição fetal, sozinha no sofá. Vou segurando a onda entre altos e baixos até que o Dr. Drauzio Varella diga que é seguro voltar a socializar por aí.

Faz diferença morar só em tempos de isolamento? A covid-19 é uma doença solitária. Não importa se a casa que você habita é morada de mais alguém. Uma vez infectada, você tem de ficar só. E ainda assim, nesse caso, há o risco de contaminar a outra pessoa. Falta uma parceria para uma partidinha de buraco no domingo à tarde? Falta. Queria abraços? Queria. Seria bom ter com quem dividir as tarefas de casa? Seria demais. Se não há ninguém para nos amparar e acolher num colo quando a gente surta, tem crise de choro ou de raiva, por outro lado a gente surta sozinha e não precisa calcular ou se conter pra não machucar outra pessoa. A convivência a ser suportada é a sua consigo mesma. E isso já é tanto!

Tatiana Vasconcellos é jornalista, âncora da rádio CBN, e atualmente trabalha no projeto do podcast ‘Na Morada’ que fala sobre particularidades do universo de 15 milhões de mulheres que moram sozinhas no país, segundo o IBGE

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