A educação em cinco culturas diferentes — Gama Revista

Educação

A educação em cinco culturas diferentes

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Em tempos de pandemia, educação à distância e debate sobre volta às aulas, inspire-se na forma de educar de outros países mundo afora  

Willian Vieira 25 de Junho de 2020

Um dos efeitos colaterais da pandemia do novo coronavírus foi fazer pais e mães de todo o mundo repensar a educação dos filhos. Seja por causa da educação à distância forçada, que durou meses e segue em boa parte do mundo, inclusive no Brasil; seja o receio com a volta iminente das aulas presenciais, com novas regras e configurações — o ensino é um dos temas da vez quando se pensa na pandemia. Mas as mudanças dela decorrentes são apenas parte do fenômeno. O momento pede um mergulho mais amplo nos modos de pensar as formas de educar os pequenos. Gama elencou abaixo as experiências de cinco nações diversas no ensino infantil, em casa e na escola. Pois educar é um desafio que vai além dos estereótipos de cada cultura.

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Japão

Que a educação do país é rígida é senso comum. O Japão fez do ensino exigente a base de uma revolução que alçou a nação, fechada até o século 19, a segunda maior potência mundial. Quando, em 2003, saiu do topo do ranking do PISA, exame global que testa os conhecimentos de matemática, ciências e leitura, uma comoção fez o governo considerar estender as aulas a seis dias por semana. Mas além de exames extensivos e frequentes e dezenas de práticas extracurriculares obrigatórias, que ocupam quase todo o tempo das crianças, a educação foca no senso de coletividade – e esse é seu ponto alto. Não só os alunos precisam tirar os sapatos e calçar sua uwabaki, sapatilha guardada na entrada — o que parece antecipar o cuidado higiênico em tempos de pandemia –, como servem a merenda, lavam as caixinhas de leite para reciclar e limpam a escola. Senso de coletividade e respeito ao ambiente são aprendizados cotidianos. É o que mostra a antropóloga americana Gail Benjamin em “Japanese Lessons: A Year in a Japanese School through the Eyes of an American Anthropologist and Her Children” (NYU Press, 1998). Para além do estereótipo da automatização nipônica, ela narra a adaptação de seus filhos pequenos (e dela mesma) ao sistema japonês.

Dinamarca

No ranking de países com maior satisfação pessoal, segundo a OCDE, a Dinamarca figura no topo. Para as autoras do livro “Crianças Dinamarquesas: O que as Pessoas Mais Felizes do Mundo Sabem Sobre Criar Filhos Confiantes e Capazes” (Fontanar, 2017), o segredo está na educação. A base do que é ensinado, em casa e nas escolas, é empatia e reconhecimento: gastar tempo ensinando empatia aos coleguinhas, debatendo em grupo o que cada um sente (o chamado Klassens time) e reconhecer o esforço, e não só o resultado alcançado (como notas) fazem parte do receituário. As crianças só precisam ir obrigatoriamente à escola a partir dos seis anos: brincadeiras e atividades livres, muitas vezes em casa, são prestigiadas – foi lá que inventaram o Lego, o que já diz muito sobre como as crianças passam seu tempo, inclusive com os pais. Na terra do hygge, termo para o tempo passado no conforto do lar (em frente à lareira, lendo um livro e tomando chocolate quente), serenidade e diversão contam tanto quanto o estudo mecânico de cada disciplina.

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China

No oposto da tolerância escandinava, a China galgou à jato os degraus rumo à excelência infantil em matemática, leitura e ciências. Se o Pisa for levado em conta, a educação mais eficiente no mundo hoje é a da China. Mas a que preço? O que conta a jornalista americana Lenora Chu, que se mudou para o país com o filho pequeno, é revelador. Em “Little Soldiers: An American Boy, a Chinese School and the Global Race to Achieve” (Harper, 2017), ela diz que o autoritarismo impera na sala de aula. Mas logo percebe mudanças positivas em seu filho, em termos de disciplina e respeito. E concluiu que, enquanto a cultura ocidental foca na ideia de talento nato, para os chineses, é a noção de esforço (talvez demais) o que conta. Por outro lado, o foco obsessivo na memorização (não apenas dos milhares de caracteres da língua, mas de lições e livros inteiros) não faz os criativos e bons de expressão livre. Junte a isso o alto grau de competitividade, inclusive entre as crianças menores, e uma média 55 horas semanais de estudo e tem-se uma receita para o sucesso – e a loucura.

Finlândia

Com foco na escola pública e de qualidade universal desde os anos 1970, o país alcançou o sucesso no PISA (7º lugar) com o chamado com uma fórmula de ensino público exemplar: lá, professores são valorizados cultural e financeiramente, então buscam a profissão com afinco; e os alunos são estimulados não a decorar e competir, mas a compreender o mundo e descobrir sua identidade e interesses próprios antes de tudo. A Finlândia seria “o antídoto” à mercantilização da educação e à padronização das provas, disse Pasi Sahlberg, diretor de um centro de estudos vinculado ao Ministério da Educação do país, e autor de “Lições Finlandesas. O que o Mundo Pode Aprender com a Mudança Educacional na Finlândia” (Editora SESI-SP, 2018). O “sonho finlandês”, explica, passa longe do estresse e da exigência associados ao sucesso educacional, por exemplo, no leste da Ásia. Os alunos passam metade do tempo dos americanos dentro da sala de aula e não costumam levar pilhas de dever para casa. O estudo, diz o autor, deve ser prazeroso, não uma obrigação. O contato com a natureza e a exploração in loco do mundo real também fazem parte da rotina.

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França

Por fim, a França, terra de crianças que parecem miniadultos blasés, como conta a jornalista americana Pamela Druckerman, autora do célebre “Crianças Francesas não Fazem Manha” (Fontanar, 2013). Logo após casar, ela se muda para a França e, aos poucos, percebe que as crianças de lá são atipicamente bem-comportadas. Não fazem do jantar uma guerra, comem o mesmo que os adultos, dormem sozinhas e aceitam o “não” dos pais. A fórmula para esse feito seria o equilíbrio entre ouvir o que os filhos têm a dizer e sempre deixar claro quem manda. É o “cadre”, “enquadramento” dentro do qual os limites são lei e fora do qual as crianças têm liberdade total para desempenhar tarefas complexas e se virar. Ou seja: para aprender a lidar com a frustração, elas enfrentam, desde cedo, o peso do “não”. Como teve filhos no país, Druckerman comprova a teoria na prática. Claro, na França existe uma cultura cartesiana sobre etiqueta e aceitação de regras que começa em casa, segue na escola e impera no cotidiano (Foucault não diria outra coisa). Mas vale a leitura.