Lugar de fala — Gama Revista
© Felipe Morozini

Lugar de fala

Antes um lugar comum, as janelas têm ganhado relevância como lugar de expressão em tempos de quarentena, legitimando discursos na ausência forçada de espaços públicos

Tato Coutinho 22 de Abril de 2020

O professor e crítico de arte e arquitetura Guilherme Wisnik, 47 anos, lembrou de “Carolina”, de Chico Buarque – “lá fora, amor/ uma rosa morreu/ uma festa acabou/ nosso barco partiu/ eu bem que mostrei a ela/ o tempo passou na janela/ só Carolina não viu”. O fotógrafo e artista Felipe Morozini, 44, citou “Paisagem da Janela”, de Lô Borges e Fernando Brant – “quando eu falava dessas cores mórbidas/ quando eu falava desses homens sórdidos/ quando eu falava desse temporal/ você não escutou”. Com um olhar atento ao tema por força de seu trabalho, os dois refletem sobre as janelas como o novo espaço público em tempos de quarentena.

O que mudou na relação com a janela de sua casa? Há mais mundo entrando ou saindo por ela?

Guilherme Wisnik _ Acho que é um canal de mão dupla o que a janela representa hoje, o elo de ligação com o mundo exterior. Talvez não seja um acaso a gente usar “janela” para as telas que abrimos com frequência cada vez maior para a comunicação no mundo virtual. Eu tenho a sorte de morar num daqueles prédios de arquitetura moderna, dos anos 1960, com janelas grandes. Na sala, por exemplo, ela é contínua, com caixilhos do piso ao teto. Nesse momento em que precisamos tanto de janelas, dá para dizer que as minhas me dão bastante abertura.

As varandas estão mais povoadas, as janelas ocupadas por corpos tentando encontrar um raio de sol

Felipe Morozini _ Eu sempre tive uma relação próxima com minhas janelas e varandas. E com as janelas e varandas de meus vizinhos. Como fotógrafo, é uma maneira que encontrei de dialogar. De me ver no outro. As varandas estão mais povoadas, as janelas ocupadas por corpos tentando encontrar um raio de sol, um acontecimento, um segredo, tentando criar novas maneiras de se comunicar. Acredito que o que entra e sai de mundo pela minha janela é na mesma medida e proporção. Eu recebo e devolvo. A cidade me alimenta.

Projeto de retratos do fotógrafo Felipe Morozini, feitos de sua janela© Felipe Morozini

Com o espaço público sequestrado pelo confinamento, como as janelas têm feito parte do seu discurso e posicionamento político?

GW _ Tem uma questão interessante sobre o meu apartamento [em Santa Cecília] em relação aos panelaços. A planta dele é muito boa porque tenho duas fachadas. A sala é integrada à cozinha num espaço grande em que fica a área do estar a maior parte do tempo, com um campo visual único de uma fachada à outra. Aquele janelão da sala dá quase de frente para a Santa Casa, para uma parte mais tranquila. Mas o outro lado, em que ficam a janela dos quartos e da cozinha, dá para um prédio onde tem algumas pessoas bolsonaristas e é para lá que a gente vai para gritar. Da fachada desse prédio, eles têm de suas janelas principais uma visualização total do meu apartamento pelas janelas da cozinha, que apesar de menores rasgam a parede inteira numa faixa horizontal. E acontece, claro, de às vezes a gente se desligar e andar nu pela casa numa situação meio Janela Indiscreta. Essa família bolsonarista briga muito entre si e a gente ouve e acompanha tudo. São um casal mais velho, com uma filha mais ou menos da minha idade, com quem sempre tive uma relação de ódio calado porque detesto seus posicionamentos e o modo como eles se relacionam. Até então, quando cruzava com essas pessoas na calçada, passeando com aquele pequinês, eu abaixava a cabeça e não olhava. Mas agora quis sair desse lugar de fingir que eles não existem – e confrontá-los. O vizinho do apartamento bem em cima do meu é um grande amigo, os filhos dele são amigos dos meus filhos, e a gente virou uma espécie de dupla para discutir com essa família. Discutir mesmo, de mandar calar a boca, dizer que a pessoa é burra e não está entendendo nada, coisas assim. Aqui no entorno tem muita gente contra o Bolsonaro, embora também houvesse muita gente contra a Dilma na época do impeachment [2015-2016], mas aparentemente eles estão sozinhos. São os únicos com a coragem de estender a bandeira do Brasil e gritar mito.

Uma das janelas da casa do professor e crítico Guilherme Wisnik

FM _ Eu sempre pensei nas varandas e janelas como um espaço público, pelo menos aqui no centro de São Paulo, pela proximidade dos prédios. Você enxerga a paisagem nos outros, mas também é a paisagem dos outros. Nunca tive questões em explorar esse grande retrato coletivo que se descortina cotidianamente. Isso me interessa. Neste momento de panelas e gritos em uníssono todo dia às oito da noite – FORA! FASCISTA! – é como se tivéssemos um compromisso e, na verdade, temos mesmo. Acredito que, mesmo separados, estamos nos aproximando do outro, criando empatia e isso é lindo. Essa semana conversei com um casal morador da cobertura em frente através de uma fotografia que fiz deles. Primeiro via Instagram, depois pela própria janela – “bom dia vizinhos, está tudo bem por aí?”. Foi mágico de certa maneira.

Há um consenso de que sobreviveremos – mas o mundo em que habitaremos será outro. Como um observador das cidades, que resposta será imediata na reocupação do espaço público?

GW _ As pessoas falam muito do Carnaval de 1919, imediatamente posterior à Gripe Espanhola [pandemia que matou de 55 milhões a 100 milhões de pessoas], como um momento de redenção, de retomada do espaço público da maneira mais intensa possível – mas eu não acho que isso vá acontecer. Pelo contrário, essa experiência vai nos legar como gênero humano, falando de maneira genérica, muito mais temor da aglomeração, da existência em coletividade. Para nós, brasileiros, nosso comportamento muito afetivo, esse modo de se tocar o tempo todo, talvez tudo isso seja muito afetado permanentemente por essa experiência.

Essa experiência vai nos legar como gênero humano, falando de maneira genérica, muito mais temor da aglomeração, da existência em coletividade

FM _ Precisaremos entender qual é o espaço público que queremos e merecemos. Teremos que exigir melhores condições para todos, principalmente para as pessoas em situação vulnerável. Se a cidade é para todos, então que seja. As pessoas estarão mais conscientes da importância de ressignificar de fato um lugar pela simples presença delas. Lotarão parques, praças, calçadas, se cumprimentarão, irão sorrir para o outro sem que o outro tenha feito nada, apenas uma gentileza mesmo. Isso é o que eu acho. Ou talvez deseje.

Empena no Minhocão, em São Paulo, com frase de Felipe Morozini© Felipe Morozini

Como as que deixará nos pulmões dos sobreviventes, que cicatrizes o coronavírus legará à arquitetura/à fotografia e às cidades – como essa reinvenção da janela como espaço público?

GW _ Eu acho que pode levar a uma segregação ainda maior em todos os níveis, aumentar a separação como em elevadores social e de serviço, tudo em nome de um temor do contato. É difícil imaginar isso ainda mais acentuado em uma cidade como São Paulo, mas acho que uma consequência pode ser essa.

FM _ Faz 20 anos que fotografo tudo o que acontece ao meu redor, do mesmo ponto de vista. Sempre foquei no indivíduo como elemento de reflexão e poesia. Pelo menos na fotografia, a mudança de pensamento é enorme. Antes renegado a um voyeurismo perverso, agora as imagens das pessoas em suas janelas, varandas e coberturas estão se tornando um respiro. As pessoas estão entendendo que a vida do outro pode ser interessante. Antigamente restrito aos paparazzi, esse universo era autorizado pela sociedade e pelo mercado quando se tratava da vida de alguém famoso ou notoriamente público. Agora isso mudou. O protagonismo vem do seu vizinho, a transformar nossa vida ordinária em extraordinária. Há uma chance para reflexões mais elaboradas sobre liberdade de expressão e privacidade. Acho um caminho honesto a se percorrer. Nas cidades, viveremos uma diferença no sentir, outras percepções serão ativadas. E isso será importante no desenvolvimento coletivo do espaço público.

Fachada de prédio no Minhocão, em São Paulo© Felipe Morozini

De que maneira a ideia de casa, ou de lar, se transformará depois da visita do coronavírus? O que mudou no seu cotidiano ao entrar e sair de casa e que talvez fique para sempre?

GW _ Para mim mudou muito pouco porque eu trabalho muito em casa. Como sou professor, boa parte do meu tempo já era assim. Eu sei que tem muita gente tendo que aprender ou reaprender a viver dentro de casa, com relações familiares difíceis, obrigada a conviver de forma forçada 24 horas por dia. Isso tudo tem impactos violentos em relação ao uso do espaço. Mas transcendendo um pouco a minha experiência pessoal e pensando em termos teóricos, acho que essa quarentena deve acelerar o processo aparentemente inexorável da não separação entre o espaço da vida em família e o espaço de trabalho, o tal do home office. E não só por causa da internet e do smartphone, mas porque o trabalho no capitalismo neoliberal foi radicalmente flexibilizado. Cada vez mais sem trabalho com jornada fixa e carteira assinada, as pessoas são forçadas ao empreendedorismo – palavra positiva para uma situação negativa – muitas vezes desde a sua própria casa. E quando eu falo dessa fronteira rompida é preciso juntar também o consumo. Com a internet, a gente não só trabalha como consome sem limites porque o consumo também não fazia parte da esfera da vida privada, da vida familiar. Quando você estava em casa, você estava só ou com a sua família, num tempo de lazer e descanso, mas hoje tudo se fundiu. Na lógica 24/7 desse capitalismo contínuo, temos que estar permanentemente acessível e de prontidão para todas as demandas como se não houvesse mais a separação entre o dia e a noite, entre o tempo de descanso e o tempo de trabalho. Nessa configuração, exacerbada mas não criada pela quarentena, a mudança da vida dentro de casa é muito forte.

Essa quarentena deve acelerar o processo aparentemente inexorável da não separação entre o espaço da vida em família e o espaço de trabalho

FM _ No geral, muitos lares se transformaram em escritório, em sala de aula, em parquinho de praça, em restaurante. Nessa hora, o ser humano, altamente adaptável, terá que criar suas próprias alternativas para sobreviver no seu espaço diminuto. Eu já ficava muito em casa, meu lar sempre foi meu refúgio, minha estratégia de sobrevivência. Então não posso reclamar. Estou protegido – de certa maneira porque, na verdade, nunca estaremos protegidos. Nunca. O que fica? O desejo incondicional e universal embutido no direito de ir e vir com segurança. Muita gente nunca havia pensado na essência da liberdade em si.

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