Quando as ruas se esvaziam, as janelas ficam cheias — Gama Revista
© Photo by Ben Birchall/PA Images via Getty Images

Quando as ruas se esvaziam, as janelas ficam cheias

Manter os vidros abertos não é só uma tentativa de reduzir as chances de contágio, mas uma nova maneira de sociabilizar. Veja manifestações em janelas e conheça o Janelas Abertas, projeto de Gama e da Aurora 3

Laura Capelhuchnik 10 de Abril de 2020

É pouco dizer que as janelas assumiram o papel que era das ruas nos últimos três meses, quando mais de 50 países ou territórios aderiram a medidas de isolamento. O que começou como um conjunto de ações coletivas, públicas, de apoio e resiliência diante da maior crise de saúde pública do século, avançou também sobre o espaço que é reservado à intimidade.

Moradores cujos hábitos eram observados por seus vizinhos, mas aos quais nunca foram apresentados formalmente, agora são parceiros de jogos, protestos e comemorações. Foram também intensificadas as interações mais prosaicas, como sorrisos e acenos empáticos. E não dá para negar que também há algum ódio que sobra para ser descarregado nas janelas, geralmente entre moradores de espectros políticos opostos, condenados a compartilhar, provavelmente por meses, o restrito perímetro de manifestação pública que existe na quarentena.

Janelas agora ocupam um espaço relevante na vida dos isolados, algo no meio do caminho entre a vida privada e o espaço público, que tem ajudado a nos sentirmos menos distantes ou solitários e, sem dúvida, mais articulados em um momento que requer uma coordenação de esforços coletivos.

De olho nesse movimento, Gama, em parceria com a Aurora 3, lançam o Janelas Abertas, um ciclo de conversas online. A seguir, saiba mais sobre esse projeto e conheça outras iniciativas no Brasil e no mundo que estão deixando as janelas físicas e online um lugar mais diverso e interessante.

Em Milão, um grupo de músicos toca ao mesmo tempo, cada um da sua sacada© Nicola Marfisi/AGF/Universal Images Group via Getty Images
  • Um lugar de encontro

    Tudo começou com o hino nacional que, geralmente limitado a solenidades e campeonatos esportivos, passou a ser cantado nas varandas e janelas da Itália como símbolo de solidariedade. Em alguns episódios, o hino foi entoado na mesma hora em que os órgãos oficiais de saúde anunciavam os novos números da pandemia. Depois vieram as homenagens às equipes médicas, em formas de aplausos, que hoje são hábito em vários países, reforçando as mensagens de agradecimento que circulam pelas redes sociais. 

    Em Wuhan, cidade chinesa que foi o centro da epidemia do vírus, a janela foi um local de demonstração de apoio entre as primeiras 11 milhões de pessoas que tiveram sua mobilidade restrita para frear a contaminação. Nos registros do confinamento, é possível ouvi-los dizer em coro “coloque gasolina!”, expressão que na China significa algo como “aguenta firme” ou “siga em frente”, além de um repertório de canções patrióticas. 

    O ânimo nacionalista abriu caminho para outros sopros, acordes e batuques, feitos por vizinhos organizados (ou não) em busca de algum momento de alegria mesmo presos dentro de casa. Shows e serenatas, DJs com luzes e até maquininha de fumaça ocorreram na Itália, Espanha, França, Egito, Lituânia. Sozinhos ou acompanhados, com hora marcada ou pegando os condôminos no susto.

    No Brasil, a música que é número um nos karaokês do país, “Evidências”, foi uma das primeiras a aparecer com hora e data marcada para ser cantada coletivamente, sob a promessa de unir novamente o país. Foi endossada pela dupla Chitaozinho e Xororó, que replicou nas redes o chamamento virtual às janelas no dia 20 de março. Apesar de ganhar até uma hashtag, #evidênciasnajanela, o movimento foi tímido nas capitais, mas teve apoio de vários artistas.

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    Pier Paolo, 7, toca trompete na janela de sua casa, na Itália, durante o evento “Olhe pelas janelas, minha Roma”. Jack Tucker, 7, cola seu arco-íris na janela em Bristol, na Inglaterra. Ambos durante a quarentena © Christian Minelli/NurPhoto e © Ben Birchall/PA Images via Getty Images

    Um espaço de intervenção

    O tempo de quarentena já permitiu ir além das intervenções sonoras. Cartazes, desenhos e ações com luzes também foram usadas para manifestar apoio e cuidado ao próximo. Uma delas, a boa velha iluminação do celular, que lembrou festivais de música. E a mensagem é mais ou menos parecida: a criação de uma imagem única, mas composta por muitos, e que pela coesão se distingue no espaço, e ganha força.

    Crianças também se engajaram fazendo desenhos de arco-íris e corações. Compartilhados à exaustão nas redes sociais, as obras tornaram os vidros das casas seu espaço expositivo, junto com cartazes de “Tudo vai ficar bem”, feitos para vizinhos e alguns poucos pedestres. Foram vistos em vários países:  “Andrà Tutto Bene”, na Itália, “Todo Irá Bien”, na Espanha, “Everything’s Gonna Be Okay”, nos EUA, “Jiayou”, na China.

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    Manifestações pelas janelas, como panelaços e projeções, se espalham pelo Brasil e o mundo © IG@Elainerc

    Um suporte da ação política

    Em outras circunstâncias, a gestão do presidente Jair Bolsonaro na crise do coronavírus e o desentendimento com membros do governo provavelmente motivaria protestos nas ruas — tanto para apoiar como para criticar seu desempenho. Na impossibilidade de usar esse espaço, a via pública se transformou em janelas e varandas, como suporte para a expressão política, para o barulho com panelas, para imagens sendo projetadas nas fachadas, luzes de dentro das casas apagando e acendendo em protesto. Não foi na pandemia que inventaram o panelaço, mas o isolamento o fez crescer em número de adeptos. Na Espanha, o mesmo aconteceu quando foram divulgadas as notícias de que a família real do país estava envolvida em mais um escândalo de corrupção. Uma plataforma espanhola passou a oferecer inclusive o som de panelas sendo batidas para quem quisesse usar um amplificador na janela em vez de danificar seus utensílios.

    Na Argentina, o Dia Nacional da Memória pela Justiça e Verdade, em 24 de março, teve sua programação suspensa em função da pandemia. A marcha que anualmente acontece em Buenos Aires para lembrar as vítimas da ditadura militar argentina (1976-1983) foi transferida para uma mobilização na quarentena. Para evitar aglomerações, os organizadores convocaram a ação “Pañuelos con memoria”(Lenços com memória), convidando argentinos a demonstrarem seu apoio por meio das redes sociais e exibindo nas janelas e varandas lenços brancos, em memória das Mães e Avós da Praça de Maio, que lutaram contra o regime ditatorial.

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    Moradores tomam sol nas janelas de um edifício na região central de São Paulo durante a quarentena © IG @xaviella

    Uma fusão entre público e privado

    Em São Paulo, há grupos de Whatsapp entre vizinhos de condomínio para combinar ações pela janela: cantar parabéns aos condôminos que estão distantes de amigos e parentes, sessão de cinema na fachada ao lado, protestos políticos. No Twitter, há registros de vizinhos espanhóis jogando bingo e jogos de adivinhar palavras. Além, é claro, de interações mais cotidianas, que não deixam de ser importantes. Os encontros entre as janelas acontecem agora com mais frequência porque, se os prédios já eram excessivamente próximos, agora são também muito povoados.

    Os jeitos de usar a janela vão ficando cada vez mais criativos, até pelas próprias necessidades que vão surgindo na rotina à medida que o tempo avança: ter companhia para um jogo… ou se casar. 

    Depois de oito meses planejando o casamento, os americanos Jamie Webner e Ben Katz tomaram a decisão de cancelar o evento. Levaram cerca de cinco dias para reprogramar a cerimônia para a varanda de seu apartamento, que demandou a compra de microfones, tripés e um pacote de videoconferência no Zoom. As testemunhas foram os vizinhos da varanda ao lado. E os convidados acompanharam tudo online. Eles não são os únicos: há uma série de matrimônios sendo recriados em janelas. Porque o amor não pode esperar. 

    Nem o exercício físico. Em Sevilha, na Espanha, dezenas de pessoas foram flagradas suadas fazendo agachamentos simultaneamente em suas varandas, sob regência de um homem vestindo roupas esportivas em cima de uma laje em frente aos prédios. O operador do milagre é conhecido como Gonzalo, instrutor esportivo que auxiliou toda uma vizinhança a criar a própria sintonia de treinamento. Uma iniciativa igualmente ambiciosa aconteceu na cidade de Toulouse, na França: o maratonista Elisha Nochomovitz correu cerca de 40 quilômetros sem sair da sua sacada de 7 metros. Um desafio físico e mental, dedicado ao apoio às equipes médicas que estão na linha de frente na luta contra o novo coronavírus, e a estimular as outras janelas a adotar práticas semelhantes. “A ideia era lançar um desafio louco e trazer um pouco de humor às pessoas. ‘Desdramatizar’ a situação de confinamento”, disse à agência AP.

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    Uma parte da equipe Gama comemora, em janelas digitais, o lançamento da revista durante a quarentena. Cada um da sua casa

    Janelas digitais

    Janelas digitais também ganharam importância durante o confinamento. Aplicativos de videoconferência tem possibilitado desde comemorações em família até que o home office replique o ambiente físico do escritório. Têm sido fundamentais também para a debater e refletir sobre o momento histórico. Gama, em parceria com a Aurora 3, lança na próxima semana o projeto Janelas Abertas, um ciclo de conversas online que vai reunir jovens da Geração Z, mães, microempreendedores, trabalhadores informais e especialistas de diferentes áreas para perguntar: qual a sua rotina nestes tempos de Covid-19? Quais os sentimentos do presente e as expectativas sobre o futuro? Como pensar o amanhã? E quando tudo acabar, deve haver um novo normal? Será uma janela por vez, um papo por semana. O primeiro encontro será realizado na próxima quinta (16), às 19h, com um grupo de mães. 

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