Jovens adultos voltam a morar com pais — Gama Revista

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Mais jovens adultos estão morando com os pais. Mas isso é ruim?

FG Trade / Getty Images

Assim como a maior parte das situações da vida familiar, é uma mistura de coisas: dói em alguns aspectos, é gratificante em outros. E não dura para sempre

Jeffrey Arnett* 26 de Dezembro de 2020

Quando um levantamento do centro de pesquisas Pew Research Center mostrou que a proporção de americanos com idade entre 18 e 29 anos que moram com os pais aumentou durante a pandemia, talvez você tenha visto algumas manchetes dramáticas anunciando que esse número é maior do que em qualquer outro momento desde a Grande Depressão. Mas a história real, do meu ponto de vista, é menos alarmante e ainda mais interessante.

Há 30 anos, eu estudo jovens de 18 a 29 anos, uma faixa etária cujo status intermediário descrevo como “adultos emergentes“: não são mais adolescentes, tampouco totalmente adultos. Mesmo na época em que comecei essa pesquisa, a idade adulta — tipicamente caracterizada por um emprego estável, uma parceria de longo prazo e a independência financeira — estava chegando mais tarde do que no passado.

Muitos adultos emergentes agora estão morando com seus pais, mas isso é parte de uma tendência maior e mais antiga, com a porcentagem subindo apenas ligeiramente desde o início da pandemia. Ter filhos adultos ainda sob seu teto provavelmente não causará nenhum dano permanente a você ou a eles. Na verdade, até muito recentemente, era assim que os adultos costumavam viver ao longo da história e, mesmo agora, é uma prática comum na maior parte do mundo.

Ficar em casa por mais tempo não é algo incomum

Com base na Pesquisa de População Atual, feita mensalmente pelo governo federal americano, o Pew Report mostrou que 52% das pessoas de 18 a 29 anos estão morando com os pais, contra 47% em fevereiro. O aumento foi principalmente entre os adultos emergentes mais jovens — com idades entre 18 e 24 anos — e sobretudo porque retornaram de suas faculdades, que fecharam, ou porque perderam seus empregos.

Embora 52% seja a maior porcentagem em mais de um século, esse número tem, de fato, aumentado continuamente desde que atingiu seu mínimo, de 29%, em 1960. A principal razão para esse crescimento é que mais e mais jovens continuaram seus estudos a partir dos 20 anos de idade, conforme a economia foi mudando seu foco da manufatura paraa informação ea tecnologia. Quando estão matriculados em cursos, a maioria não ganha dinheiro suficiente para viver de forma independente.

Antes de 1900, nos Estados Unidos, era comum os jovens viverem em casa até se casarem aos 20 e poucos anos anos; não havia nada de vergonhoso nisso. Em geral, eles começavam a trabalhar na adolescência – era raro até então para as crianças cursar o ensino médio – e suas famílias contavam com essa renda extra. A virgindade para as moças era altamente valorizada. Mudar-se antes do casamento, então, saindo da casa onde pudesse ser protegida dos rapazes, era escandaloso.

Hoje, na maior parte do mundo, ainda é comum que adultos emergentes permaneçam na casa de seus pais pelo menos até os 20 e muitos anos. Em países onde o coletivismo é mais valorizado que o individualismo — em lugares tão diversos quanto Itália, Japão e México — os pais preferem que seus jovens adultos fiquem com eles até o casamento. Na verdade, mesmo depois disso, continua a ser uma tradição cultural comum para um jovem trazer sua esposa para a casa de seus pais em vez de se mudar sozinho.

Até o surgimento do sistema previdenciário moderno, há cerca de um século, pais idosos eram altamente vulneráveis ​​e precisavam que seus filhos e noras adultos cuidassem deles na velhice. Essa tradição persiste em muitos países, incluindo Índia e China, os dois mais populosos do mundo.

Nos Estados Unidos individualista de hoje, esperamos principalmente que nossos filhos caiam na estrada aos 18 ou 19 anos para que possam aprender a ser independentes e autossuficientes. Se não o fizerem, podemos até nos preocupar com a possibilidade de haver algo de errado com eles.

Você sentirá falta quando eles se forem

Como venho pesquisando adultos emergentes há muito tempo, tenho dado muitas entrevistas na televisão, no rádio e na mídia impressa desde que o relatório do Pew Research foi divulgado. E a premissa parece ser sempre a mesma: isso não é horrível?

Eu concordaria imediatamente que é horrível ter sua educação interrompida, prejudicada ou perder o emprego por causa da pandemia. Mas viver com os pais durante a idade adulta emergente não é horrível. Assim como a maior parte das situações da vida familiar, é uma mistura de coisas: dói em alguns aspectos, é gratificante em outros.

Em uma pesquisa nacional com jovens de 18 a 29 anos que dirigi antes da pandemia, 76% deles concordaram que se dão melhor com seus pais agora do que na adolescência, mas quase a mesma maioria (74%) concorda que “preferiria viver independentemente dos pais, mesmo que isso significasse ter de lidar com um orçamento apertado”.

Os pais expressam ambivalência semelhante. Em outra pesquisa nacional que conduzi, 61% dos pais que tinham um filho de 18 a 29 anos morando em casa eram “principalmente positivos” sobre esse arranjo de vida, e aproximadamente a mesma porcentagem concordou que morar junto resultava em maior proximidade afetiva e companheirismo com seus filhos na fase adulta emergente. Por outro lado, 40% dos pais concordaram que tê-los em casa significava se preocupar mais com eles, e cerca de 25% disseram que tinham mais conflitos e perturbações na vida cotidiana.

Por mais que a maioria dos pais goste de ter seus adultos emergentes por perto, eles também tendem a se sentir prontos para avançar na próxima fase de suas vidas quando seu filho mais novo chega aos 20 anos. Eles têm planos que vêm postergando há muito tempo — viajar, praticar novas formas de lazer e talvez se aposentar ou mudar de emprego. Os casados ​​costumam ver essa nova fase como um momento para conhecer seu parceiro novamente – ou como um momento para admitir que o casamento chegou ao fim. Aqueles que são divorciados ou viúvos agora podem ter um convidado durante a noite sem se preocupar com a sabatina do filho adulto no dia seguinte, na mesa do café da manhã.

Minha esposa, Lene, e eu temos uma experiência direta com nosso gêmeos de 20 anos, que voltaram para casa em março após o fechamento de suas faculdades — uma experiência compartilhada com milhões de estudantes em todo o país. Devo admitir que estávamos aproveitando nosso tempo como casal antes de eles se mudarem de volta. Mas também foi um prazer tê-los em casa inesperadamente, já que estão cheios de amor para dar e trazem muita alegria à mesa de jantar.

Agora, o semestre do outono começou e nossa filha, Paris, ainda está em casa fazendo seus cursos via Zoom, enquanto nosso filho, Miles, voltou para a faculdade. Estamos saboreando esses meses com Paris. Ela tem um ótimo senso de humor e sabe preparar um excelente arroz coreano com tofu. E todos nós sabemos que não vai durar muito. Isso é algo que vale a pena lembrar para todos nós durante estes tempos estranhos, especialmente para os pais e adultos emergentes que se veem dividindo o quarto novamente: não vai durar.

Você pode ver essa mudança inesperada como terrível, como uma dor real e um estresse diário. Ou você pode ver isso como mais uma chance de os membros da família conhecerem como adultos, antes que o jovem emergente navegue mais uma vez em direção ao horizonte — desta vez para nunca mais voltar.

*É pesquisador e professor titular do departamento de psicologia da Clarck University, em Massachusetts, nos EUA. O artigo foi publicado originalmente em The Conversation, em inglês. Tradução: Laura Capelhuchnik

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