A nudez masculina na TV: do tabu à prótese — Gama Revista

Sociedade

Mais pênis têm aparecido nas telas. Por que quase todos são próteses?

Guilherme Falcão / Wikicommons

O uso de órgãos protéticos na TV e no cinema mantém a mística sobre a masculinidade e preserva o poder do falo

Peter Lehman* 09 de Janeiro de 2021

Se, nos últimos anos, você percebeu um aumento da nudez frontal masculina nas séries de TV e nos filmes, você está no caminho certo.

Em 1993, discuti os padrões de nudez masculina em meu livro “Running Scared: Masculinity and the Representation of the Male Body”. Depois que o antigo Código de Produção Cinematográfica foi substituído por um novo sistema de classificação, em 1968, a nudez frontal masculina nos filmes de Hollywood foi permitida em certos contextos. “O Amanhã Chega Cedo Demais”, dirigido por Jack Nicholson em 1971, foi um dos primeiros filmes a incluir uma cena dessas, enquanto a aparição de Richard Gere pelado no filme “Gigolô Americano”, de 1980, ajudou a transformar o então jovem ator em um símbolo sexual internacional.

Não havia nudez frontal masculina na grande mídia até 1993

Apesar disso, no entanto, a nudez feminina se manteve muito mais comum nos filmes, e não havia nudez frontal masculina na grande mídia até 1993. Desde então, muita coisa mudou e diretores e público passaram a se sentir cada vez mais confortáveis com a exibição da nudez masculina.

Hoje em dia, embora a probabilidade de ver um pênis em produções do cinema e da televisão seja muito maior, eles raramente são reais. Pênis protéticos — antes usados ​​para efeito de exagero — se tornaram a regra.

Para mim, isso diz algo sobre o significado peculiar que sempre atribuímos ao pênis, junto com nossa necessidade cultural de regular cuidadosamente sua representação. De certa forma, o uso de próteses mantém uma certa mística sobre a masculinidade, ao preservar o poder do falo.

Contornando o código de produção

Há uma série de fatores que alimentam a atual onda de nudez frontal masculina.

Na década de 1990, canais premium de televisão a cabo, como HBO, se tornaram mais populares, enquanto plataformas de streaming, como Amazon e Netflix, decolaram no século 21. Esses canais e plataformas não são regidos pelo sistema de classificação da Motion Picture Association, que limita estritamente as circunstâncias em que um pênis pode ser mostrado.

De acordo com as classificações — que ainda regulam as aparições no teatro — a genitália masculina pode ser mostrada em situações não sexuais, como quando aparece durante uma cena de campo de concentração no longa “A Lista de Schindler“. Mas se uma cena envolve sexo e nudez frontal de homens, os atores devem manter certa distância um do outro. Então quando o pênis de Bruce Willis apareceu brevemente durante uma cena de amor em uma piscina subaquática em “A Cor da Noite“, a MPAA contestou, citando sua proximidade com a atriz, e o trecho teve de ser cortado. Versões sem censura do filme agora estão disponíveis em DVD.

Os canais premium da TV a cabo não são regidos por essas diretrizes, e a série da HBO “Oz”, que foi ao ar de 1997 a 2003, representou um grande ponto de inflexão nessa temática. Filmada em uma prisão, a produção destacou-se pela quantidade de cenas de nudez frontal masculina, com personagens mostrados em diversos contextos, inclusive no banho e em suas celas, totalmente pelados.

Outra razão para a alta de aparições de nudez masculina tem a ver com as justas críticas ​​às formas como a objetificação da mulher

Outra razão para a tendência crescente de aparições de nudez masculina tem a ver com as justas críticas ​​às formas como as mulheres foram sexualmente objetificadas na TV e no cinema. A nudez feminina tem sido muito mais comum do que a masculina, e a maior parte dela tende a envolver mulheres jovens e atraentes sendo exibidas em uma variedade de contextos eróticos, com ênfase em seus seios e nádegas.

Alguns cineastas, como Judd Apatow e Sam Levinson, disseram que queriam igualar esse campo por meio da apresentação de mais nudez masculina.

A proliferação da prótese

Assim como “Oz”, a série “Spartacus”, produção da Starz de 2010, estava cheia de nudez frontal masculina. No entanto, havia uma diferença fundamental: todos os pênis eram protéticos, feitos para serem usados ​​pelos atores e parecerem realistas quando filmados.

Uma das próteses de pênis mais famosas apareceu no filme “Boogie Nights: Prazer Sem Limites“, de Paul Thomas Anderson, em 1997. No longa, o ator Mark Wahlberg vive uma estrela pornô, e uma das cenas finais é um close de sua prótese peniana longuíssima.

Próteses foram usadas intermitentemente ao longo dos anos, mas depois de “Spartacus” seu uso se tornou uma regra. Agora, em produções como “The Deuce” (2017) e “Euphoria” (2019), da HBO, elas estão por toda parte — são inclusive digitais às vezes. Em “Ninfomaníaca: Vols. I e II ” (2013), o diretor Lars von Trier substituiu digitalmente os pênis dos atores pelos dos dublês. Sejam eles tangíveis ou digitais, os pênis exibidos tendem a ter uma característica em comum: são grandes.

A obsessão com o tamanho

A prótese peniana dá aos cineastas controle total sobre sua representação e alguns usaram sua flexibilidade para abordar diretamente a questão do tamanho. Na comédia romântica “Virando a Noite” (2015), por exemplo, o assunto é introduzido pela primeira vez na cena de abertura, quando um casal tem uma transa esquisita em função do pênis do marido ser pequeno. Mais tarde, em um jantar com outro casal, o tamanho do pênis se torna de novo a grande questão quando se discute uma troca de esposas entre os dois casais.

O outro marido, interpretado por Jason Schwartzman, tem um extremamente grande, enquanto o homem da cena de abertura, vivido por Adam Scott, detentor de um pênis muito menor, fica desconfortável com a ideia de ser exposto — durante uma longa cena em que os atores nadam nus, os espectadores podem ver a prótese de cada um. Dentro das convenções da comédia romântica, os dois casais se unem no final e se comprometem a salvar seus casamentos.

Ao mesmo tempo que aborda a obsessão com o tamanho, acaba reforçando a noção de que quanto maior, melhor

“Virando a Noite” tenta esvaziar o mito de que o tamanho do pênis é importante. Mas, ao mesmo tempo que aborda a obsessão com o tamanho, acaba reforçando a noção — em parte por causa da cena de abertura — de que quanto maior, melhor.

Da mesma forma, “Euphoria” (2019), um drama ousado e experimental que mostra jovens no ensino médio, também explora o tamanho do pênis, conectando a fixação pela grandeza à masculinidade tóxica. Mostra como as mulheres também são cúmplices da preocupação com o tamanho — e da presunção de que isso está relacionado ao desempenho sexual e à masculinidade.

Rumo a uma representação mais honesta

“Virando a Noite” e “Euphoria” se esforçam para criticar a obsessão de nossa cultura com o pênis, assim como filmes como “Boogie Nights” e séries de TV como “The Deuce”, que exploram com seriedade a indústria pornográfica.

No entanto, ao fazer do pênis um tema central, essas produções continuam a conferir ao órgão uma aura de mística e poder que existia muito antes das próteses e das regulamentações mais fracas.

No final das contas, o uso de próteses vem às custas da atitude mais madura que os cineastas poderiam ter: mostrar pênis diversos e reais de modo que não haja nenhum significado especial para o personagem ou o enredo.

O tamanho e a forma do pênis também não tinham nada a ver com sua força, poder, masculinidade ou sexualidade

Embora “Spartacus” poderia nos levar a acreditar o contrário, nem todos os gladiadores tinham pênis grandes. O tamanho e a forma do pênis também não tinham nada a ver com sua força, poder, masculinidade ou sexualidade.

Apesar de apócrifo, Sigmund Freud supostamente observou: “Às vezes um charuto é apenas um charuto”, o que pretendia sugerir que os charutos nem sempre são símbolos fálicos.

Seria bom se, na tela, às vezes, um pênis fosse apenas um pênis.

*Peter Lehman é professor emérito de cinema e estudos culturais na Arizona State University, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado originalmente em The Conversation, em inglês. Tradução: Laura Capelhuchnik

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