Protestos esportivos no Brasil e nos EUA — Gama Revista

Sociedade

O que difere os protestos no esporte americano e brasileiro

© Getty Image

Após mais um caso de violência policial contra a população negra nos EUA, jogadores da NBA paralisaram a liga. Será que os brasileiros fariam o mesmo? Gama relembra casos

Daniel Vila Nova 28 de Agosto de 2020

A maior liga de basquete do mundo parou. Jogadores da NBA decidiram paralisar a reta final do campeonato após Jacob Blake, jovem negro de 29 anos, ser alvejado múltiplas vezes por policiais na cidade de Kenosha, em Wisconsin.

A recusa a entrar em quadra ocorreu como protesto a mais um caso de violência policial contra negros nos EUA. Iniciada pelo Milwaukee Bucks, um dos favoritos ao título esse ano, o boicote se espalhou pela liga e encontrou solidariedade em outras modalidades. Os jogos da NBA que seriam realizados quarta-feira, dia 26, foram adiados e coube aos jogadores a decisão de interromper ou não a temporada.

Isolados em Orlando, onde jogam o campeonato em uma “bolha”, os atletas se reuniram virtualmente e decidiram que os jogos retornariam. Entretanto, houveram aqueles que votaram para encerrar a temporada atual da NBA. LeBron James foi um deles. Um dos maiores jogadores da história do esporte, o Rei era cotado como um dos favoritos para levantar o caneco.

A atitude não é novidade para quem acompanham a carreira do craque. LeBron é conhecido por suas causas sociais. Em 2014, após o assassinato de Eric Garner pela polícia de Nova York, o jogador dos Los Angeles Lakers vestiu uma camisa com os dizeres “I Can’t Breath”, a última fala de Garner em vida, durante o aquecimento de uma partida.

Quando os protestos contra o brutal assassinato de George Floyd nos Estados Unidos se espalharam pelos EUA, LeBron foi um dos primeiros a se posicionar. Mas ele não foi o único a pedir por justiça. Nomes importantes do esporte mundial como Lewis Hamilton, Kylian Mbappé, Serena Williams e Coco Gauff foram as redes sociais protestar. Até Michael Jordan, sempre apolítico, condenou o assassinato.

Nos últimos anos, protestos políticos marcaram o cenário esportivo americano. O mais famoso deles ocorreu quando Colin Kaepernick, jogador de futebol americano, se ajoelhou no estádio durante o hino americano. O protesto criticava a brutalidade policial contra negros e se tornou um divisor de águas no esporte americano. Kaepernick passou a ser boicotado pela NFL, mas se tornou uma voz importante do movimento anti racista americano.

Sócrates, Casagrande e Wladimir marcaram época no Corinthians com a “Democracia Corintiana”.©Reprodução / Corinthians

E no Brasil?

Existe quem questiona se atletas brasileiras tomariam atitude semelhante a dos americanos. Em Junho, Marcelo Carvalho, criador e diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, respondeu a pergunta à Gama.

“Diversos atletas negros já se manifestaram na história do Brasil. Hoje eles não são mais ouvidos. Existe um silenciamento e um apagamento dessa memória”, afirmou Carvalho.

Gentil Cardoso, Roger Machado, o goleiro Aranha, o atacante Reinaldo do Atlético Mineiro e o lateral-esquerdo Wladimir, um dos líderes da Democracia Corintiana, são alguns dos atletas que já se posicionaram.

“Sócrates e Casagrande são brancos, mas onde está o Wladimir quando falamos da Democracia Corintiana? O movimento foi embranquecido com o tempo. Ícones negros são apagados para que não sirvam de exemplo.”

Para Carvalho, a grande diferença entre os esportes americanos e os brasileiros está na educação racial (ou falta dela). “Boa parte dos atleta americanos frequenta a universidade antes de se tornar profissional. Mais do que um debate sobre conteúdo, a universidade propõe um debate sobre vida política e social.”

Já no Brasil, Carvalho aponta que é comum que atletas saiam de casa com 12 anos de idade. “Eles vão viver em outras cidades, com dirigentes e técnicos que, em sua maioria, não são negros e não vão dialogar sobre racismo”.

O criador do Observatório da Discriminação Racial — responsável pelo “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” — é contra a cobrança de posicionamentos. “Por que não enaltecemos aqueles que estão se posicionando?” Ele aponta para uma nova geração de jogadores que cada vez mais se manifesta.

Em apoio ao boicote da NBA, o time feminino do Corinthians realizou um protesto no retorno ao campeonato brasileiro. Antes do apito inicial, o time todo se ajoelhou no campo e ergueu o punho direito — gesto utilizado por Colin Kaepernick em seus protestos.

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