Pode o cancelado cancelar? — Gama Revista

Sociedade

Pode o cancelado cancelar?

© Reprodução Instagram/ Zanele Muholi

Integrantes de grupos com irrestrito poder de opinião se sentem acuados diante da rapidez das mudanças sociais e geracionais, escreve o cientista político Cristiano Rodrigues

Cristiano Rodrigues 11 de Agosto de 2020

Vivemos atualmente um período de acelerada transformação social, em diferentes dimensões. Diversos intelectuais do final do século 20 passaram a identificar uma mudança em curso nas sociedades democráticas ocidentais que consistiria na passagem da primazia das lutas por redistribuição material de recursos para aquelas concernentes à gramática das formas da vida. No bojo da emergência de novos atores políticos e da pluralização crescente de identidades e demandas por inclusão cidadã, há uma reivindicação constante de que as sociedades multiculturais apresentem soluções que garantam a representação e a participação das minorias. Há, nesse sentido, do ponto de vista da teoria e prática das democracias, uma tentativa de se avançar em questões relacionadas à inclusão política e ampliação da igualdade formal.

Até o início dos anos 2000 os debates sobre inclusão política e ampliação da igualdade estiveram encerrados nas fronteiras das universidades, movimentos sociais, da difusão informacional e suas interfaces com instituições formais do Estado. Desde então, dois fenômenos, um de escala mundial e outro circunscrito à realidade brasileira, subverteram completamente essa dinâmica. O avanço das tecnologias informacionais de comunicação, a popularização dos smartphones e das redes sociais promoveu uma rápida diminuição da importância dos gatekeepers [aquele que escolhe o que vai ser publicado] tradicionais. No Brasil, ocorreu, simultaneamente, a expansão e a democratização do acesso ao ensino superior, por meio do Prouni (Programa Universidade Para Todos) e das políticas de ação afirmativa, mudando radicalmente o perfil dos estudantes universitários.

O deslocamento dos gatekeepers tradicionais propiciou que qualquer pessoa com uma conta no Facebook, Twitter, Instagram, TikTok ou Whatsapp seja sua própria produtora e editora de conteúdo. Pesquisa publicada pela Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) em 2019 revela que 70,2% dos estudantes das instituições federais de ensino superior (IFES) pertencem a famílias com renda mensal per capita de até um salário mínimo e meio (em 1996 esse percentual era de 44,3%). A mesma pesquisa demonstra ainda que mulheres e negros (os autodeclarados pretos e pardos), perfazem, respectivamente, 54,6% e 51,2% do corpo discente das IFES.

O que se convencionou chamar de cultura do cancelamento é fruto dessas disputas que sempre ocorreram em outros espaços, mas amiúde de cima para baixo

A popularização das redes sociais e a maior presença de negros e mulheres em espaços que anteriormente eram praticamente monopolizados por homens brancos de classe média e alta trouxeram novos contornos para as disputas por inclusão e igualdade. O que se convencionou chamar de cultura do cancelamento é fruto dessas disputas que sempre ocorreram em outros espaços, mas amiúde de cima para baixo. O atual pânico moral e o medo do cancelamento parecem não ter a ver simplesmente com o emprego da estratégia em si, mas principalmente com o receio de que ela venha a ser democratizada.

A cultura do cancelamento pode ser entendida como um acerto público de contas e um pedido de ajustamento de condutas em relação à alguma transgressão social que não passou por um controle adequado nos canais tradicionais. Episódios de racismo, misoginia, capacitismo, LGBTfobia e transfobia estão entre os comportamentos usualmente “cancelados”. A hashtag “cancelado” começou a ser utilizada por usuários negros do Twitter há aproximadamente cinco anos para se referir de maneira hiperbólica a algumas celebridades cujo comportamento era considerado inadequado. Desde então, o conceito e o ato de cancelar se imiscuíram no debate mais amplo sobre política de identidade e das chamadas guerras culturais.

O debate sobre a cultura do cancelamento revela que nem todos detêm os recursos materiais, simbólicos e culturais para contestar opiniões dominantes, muito menos acesso equânime às mesmas plataformas para ampla divulgação de suas ideias. O deslocamento dos gatekeepers tradicionais tem efeito limitado e a arquitetura das redes sociais não permite uma plena circulação e democratização da informação. Por essa razão, o pânico moral em relação à cultura do cancelamento é, essencialmente, um misto de projeção e retaliação. Integrantes de grupos sociais que sempre tiverem acesso irrestrito a expressar todo tipo de opinião sem sofrer sanção da opinião pública se sentem acuados diante da rapidez das mudanças sociais e geracionais.

No Brasil, a reação à rapidez desses processos de mudança social, especialmente a partir da eclosão internacional de manifestações antirracistas reivindicando transformações estruturais, pode ser observada pelo grande número de colunas criticando os excessos da cultura de cancelamento nos principais jornais nas últimas semanas. Os mesmos jornais que, segundo pesquisa do Manchetômetro, publicada em novembro de 2019, têm 96% de colunistas brancos, dos quais 68% são homens, escrevendo regularmente para os seus veículos. O Estadão tem apenas 2% de colunistas negros, a Folha de S. Paulo 4% e O Globo 10%. Há, nesse sentido, uma desconexão entre um discurso vazio que, na superfície, defende a pluralidade e diversidade de pontos de vista na esfera pública e a ausência de medidas institucionais que promovam, efetivamente, a ampliação do círculo de indivíduos com direito a voz no seio da sociedade.

Integrantes de grupos sociais que sempre tiverem acesso irrestrito a expressar todo tipo de opinião sem sofrer sanção da opinião pública se sentem acuados diante da rapidez das mudanças sociais e geracionais

 

A artista sul-africana Zanele Moholi se considera uma artista visual que discute tanto a resistência quanto a ‘insistência’ negra. Parte da sua obra pode ser vista em seu perfil no instagram @muholizanele© Reprodução Instagram/ Zanele Muholi

Chamar os oponentes de “identitaristas” é outro subterfúgio frequentemente utilizado para deslegitimar falas dissidentes e impedir o debate sério sobre mecanismos para promover inclusão e igualdade. Toda luta social pressupõe o desenvolvimento de uma consciência crítica da própria identidade que está sendo construída. E, embora o risco de tomar a identidade como um fim em si mesma, foco principal da disputa política, exista, também não se pode reduzir todas as injustiças e todas as lutas sociais ao âmbito da economia política.

Evitar o cerceamento do debate, a reificação de posições identitárias autoritárias e prescritivas passa pelo que Cornel West, influenciado por Ralph Ellison, chama de cooperação antagonística, um posicionamento político que considera as diferenças como parte integral da luta por reconhecimento e as articula com lutas redistributivas, contra a injustiça e a desigualdade socioeconômica, sem, entretanto, desconsiderar o caráter eminentemente conflitivo e contingente dessa articulação. Por fim, é importante que não percamos de vista o foco na luta para mitigar os efeitos deletérios da verdadeira cultura de cancelamento: o apagamento histórico das vozes marginalizadas, altas taxas de feminicídio, assassinatos de LGBTQI+, violência policial contra negros, encarceramento em massa, seletividade do sistema de justiça criminal, disparidades de acesso à saúde, educação e trabalho.

Cristiano Rodrigues é cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutor em sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), foi pesquisador na San Francisco State University. É autor de “Afro-latinos em Movimento: Protesto Negro e Ativismo Institucional no Brasil e na Colômbia” (Appris, 2020)

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