Um mundo de plástico — Gama Revista

Sociedade

Um mundo de plástico

©Pixar/Divulgação

Delivery e e-commerce aceleram aumento da produção de lixo doméstico e uso de plástico, ampliando os riscos ao meio ambiente

Leonardo Neiva 19 de Fevereiro de 2021

Imagine um cenário em que o lixo dominou o mundo. Montanhas de entulho, resíduos e dejetos lançariam sombra sobre prédios do calibre de um Empire State Building, em Nova York. A sujeira e poluição seria tanta que não conseguiríamos controlá-la. Então, inventaríamos robôs para rodar o mundo com o objetivo de juntar esse lixo, compactá-lo e amontoá-lo no menor espaço possível. Ainda assim, graças ao descaso crônico com o meio ambiente e nossa incapacidade de lidar com o consumismo crescente, a Terra finalmente se tornaria inabitável para nós e todos os outros seres vivos.

É difícil dizer se esse primeiro parágrafo descreve a premissa da simpática, porém altamente crítica animação “Wall-E” (2008), da Pixar, ou um futuro que, segundo alguns, nos aguarda na esquina do tempo, talvez não muitas décadas no futuro.

O Banco Mundial estima que hoje sejam produzidas 2,01 bilhões de toneladas de lixo sólido por ano em todo o mundo. Até 2050, esse número deve saltar para 3,4 bilhões, um aumento mais de duas vezes maior que a previsão de crescimento da população no mesmo período. Ou seja, não só existe cada vez mais gente produzindo lixo como também estamos produzindo mais e mais lixo individualmente.

Haverá mais plástico do que peixes no oceano até 2050, diz estudo

E, se a tendência já não era positiva, em 2020 a pandemia veio para atrapalhar ainda mais a conta. Forçados a permanecer em casa por períodos muito mais longos, começamos a consumir produtos em delivery e compras online em quantidades maiores do que antes. Gigantes do e-commerce como a Amazon se valorizaram de forma brutal. E nossa produção doméstica de lixo foi crescendo.

A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) estima que as medidas de quarentena e isolamento social tenham gerado um aumento de 15% a 25% na quantidade de lixo residencial produzida no país. E boa parte disso vai parar na natureza. Segundo um estudo da ONG Oceana, ainda em 2019 10,16 mil toneladas de embalagens entregues pela Amazon acabaram nas águas de rios e oceanos pelo mundo — a Amazon contestou o resultado, alegando que a organização superestimou os números de sua produção de embalagens.

O grande problema do plástico é que ele nunca será outra coisa além de plástico, diz o diretor-geral da Oceana no Brasil, Ademilson Zamboni. “Não se biodegrada e, cada vez que se recicla, se transforma num produto pior do que era anteriormente, até virar lixo e não poder mais ser reciclado.”

Além de poluir terras e águas, o plástico é um perigo para várias espécies animais, notadamente as marinhas, que podem adoecer ao consumi-lo, já que ele libera substâncias tóxicas — cerca de 100 mil animais marinhos morrem todos os anos pela contaminação por plástico, segundo pesquisa da Universidade de Queensland, na Austrália. Para piorar, um estudo da Fundação Elle McArthur prevê que haverá mais plástico do que peixes no oceano até 2050.

Para Zamboni, a indústria tem aproveitado a pandemia para desconstruir a visão negativa que o material tem em relação ao meio ambiente. Por isso, investe no plástico como forma de criar melhores condições sanitárias e uma suposta maneira de evitar a transmissão do vírus.

“Só que isso é uma balela porque, se embalar com plástico mas manipular errado, vai contaminar da mesma forma. E não são todos os plásticos que estão aptos a ajudar contra a Covid-19, existe uma categoria imensa que não funciona”, diz. De acordo com o diretor, a responsabilidade pelo uso excessivo do material tem sido empurrada cada vez mais para o poder público e o consumidor, que, por sua vez, não tem muitas alternativas na hora de comprar.

Uma trabalhadora recolhe garrafas plásticas sentada sobre uma montanha de lixo retirada do rio Mortagua, no vilarejo de Quetzalito, Guatemala REUTERS/Luis Echeverria

Só uma solução

“Já está claro o quanto aumentou o delivery, que se tornou serviço essencial na pandemia. Os gastos com esses aplicativos cresceram 103% no primeiro semestre de 2020”, afirma Vitor Pinheiro, analista de campanhas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), citando dado de pesquisa feita pela startup Mobilis.

O Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo e recicla apenas 1,2% do lixo produzido com esse material, diz estudo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês).

Vitor, que coordena a campanha Mares Limpos, ressalta que, embora seja parte da solução, a reciclagem ainda está longe de ser suficiente e não pode ser vista como principal forma de controlar o uso de plástico. Algumas das principais dificuldades são o fato de que nem todos os tipos de plástico podem ser reciclados e que cada um deles precisa passar por um processo específico, com uma destinação diferente.

O Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo e recicla apenas 1,2% do lixo produzido com esse material

A principal aposta, portanto, deve ser criar mecanismos de redução de sua produção e uso, aponta o analista. Em parceria com a Oceana, a Pnuma lançou em dezembro a campanha #DeLivreDePlastico, que incentiva usuários a postarem fotos de seus pedidos com embalagens de plástico descartável. A ideia é pressionar empresas como o iFood e o Uber Eats a adotar medidas que levem a uma transição para entregas sem usar o material. Algumas das medidas sugeridas às plataformas são oferecer ao usuário a opção de embalagens sem plástico, dar destaque a restaurantes que não usam o material e abrir diálogo para a utilização de embalagens mais sustentáveis.

“Percebemos o incômodo das pessoas com isso. No restaurante, você podia escolher minimamente o que queria de plástico. Agora não tem como”, afirma Vitor. “Pedimos que os aplicativos se responsabilizem porque são o vetor de ampliação do delivery. A ideia é que eles sejam protagonistas na busca por soluções.”

Um palestino carrega lixo plástico até uma fábrica de reciclagem na região norte da Faixa de Gaza REUTERS/Mohammed Salem

Revendo prioridades

A questão do impacto ambiental não tem passado despercebida pelas empresas, especialmente nos últimos anos, quando o uso de plástico descartável foi alvo de campanhas e políticas públicas pelo país. O iFood, por exemplo, deixou de enviar talheres de plástico em seu delivery de marmitas Loop, passou a oferecer opções de embalagens sustentáveis aos restaurantes e investir em cooperativas de reciclagem como forma de compensar parte dos danos causados pelo plástico que utiliza.

A diretora de conteúdo da organização Menos 1 Lixo, Nina Marcucci, afirma, porém, que parte desse esforço foi esquecida durante a pandemia, já que questões aparentemente mais urgentes, como ajudar a sustentar os pequenos restaurantes, acabaram se sobrepondo à importância da sustentabilidade.

“Essa mudança pode fazer sentido imediatamente, mas o grande desafio é conseguirmos enxergar de forma sistêmica, porque isso vai ter graves consequências para o planeta nos próximos anos”, diz a diretora. Além do plástico, ela chama a atenção para o elevado uso de isopor — na verdade uma espuma também feita de plástico — no e-commerce. Segundo ela, apesar de possível, a reciclagem do material não costuma ser feita, pois seu baixo valor acaba não compensando a adoção do processo. Como funciona a exemplo de uma esponja, o isopor absorve várias toxinas e contamina animais que o ingerem, como algumas aves marinhas.

“Todo esse lixo vai parar nos oceanos, aterros ou em lixões a céu aberto, intoxicando animais, o solo e os próprios seres humanos. E não vamos viver para ver se esse plástico vai realmente se decompor daqui a 400 anos.”

Geralmente colocado como principal barreira para a mudança, o baixo custo do descartável não deveria atrapalhar a discussão, diz Nina. Para ela, não só as empresas, mas também os consumidores precisam fazer sua parte, passando a usar recipientes e talheres próprios e pedindo alternativas de embalagens biodegradáveis ou até de plásticos reutilizáveis — apesar, segundo ela, de não ser o ideal. “Não é o melhor dos mundos, mas ainda assim preferível ao descartável.”

O pote de plástico

Ao se mudar da cidade de São Carlos, no interior do estado de São Paulo, para trabalhar na capital, a engenheira de produção Julia Berlingeri, 27, percebeu que não teria tempo suficiente para cozinhar. Ela, que antes morava com a avó e quase nunca pedia comida, se tornou uma usuária constante do delivery. “É uma rotina muito diferente. Gasta-se muito tempo no deslocamento, e nem todo mundo consegue fazer as próprias refeições.”

A engenheira começou a se sentir culpada por descartar as embalagens e bolou um novo esquema menos prejudicial para o ambiente. “Peguei copos e potes reutilizáveis e comecei a passar no restaurante para levar a comida neles.” O problema é que ela nem sempre tinha tempo de parar no caminho para casa. Então pensou em deixar uma pilha de potes em seu nome, que seriam enviados pelo restaurante sempre que pedisse delivery e depois devolvidos por ela.

O problema é que, além de aplacar sua consciência culpada, o método não faria grande diferença para o todo. “Não mudaria absolutamente nada na quantidade de lixo produzida em São Paulo. Foi aí que surgiu a ideia: e se eu começasse a deixar potes em restaurantes não só para mim, mas para quem mais quisesse usar?”

Essa é a premissa da Re.pote, iniciativa que Júlia fundou em 2020 ao lado da amiga e publicitária Ana Beatriz. Com o auxílio da empresa júnior da Poli-USP, que ajudou a desenvolver o projeto, elas querem oferecer recipientes de plástico reutilizável como alternativa aos restaurantes da cidade. Assim, o usuário tem a opção de ficar com o pote ou devolvê-lo. Nesse caso, a Re.pote fica responsável por coletá-los, higienizá-los e entregá-los de volta aos estabelecimentos, que pagam à empresa pelo serviço.

Hoje, o projeto está em fase inicial e funciona apenas no restaurante Banana Verde, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Mas a ideia para 2021 é buscar novas parcerias e ampliar o funcionamento. “Existe uma ânsia dos clientes e dos próprios restaurantes por alternativas sustentáveis. Alguns têm inclusive nos procurado para saber mais sobre o projeto”, conta.

“Estamos viciados em pensar em iniciativas individuais, só que essa luta não pode ser uma jornada do herói, tem que ser coletiva”, declara Julia. “Nós nos colocamos como uma ferramenta para que mais pessoas possam fazer sua parte por um mundo mais limpo.”

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