CV: Christiane Silva Pinto — Gama Revista

curriculum vitae

CV: Christiane Silva Pinto

Divulgação

Depois de quase desistir de uma vaga no Google, Christiane Silva Pinto promoveu uma revolução inclusiva no modelo de recrutamento da empresa

Leonardo Neiva 22 de Outubro de 2020

Careta e quadrado. São duas as palavras que descrevem os sentimentos de Christiane Silva Pinto ao descobrir que tinha conseguido uma vaga como estagiária na área de recursos humanos do Google. Então estudante de jornalismo na USP, ela já tinha passado pelas várias etapas de um extenso programa de estágio antes de a empresa bater o martelo sobre seu destino.

“Quase desisti de entrar no Google porque eu tinha um super preconceito com a área”, conta. Segundo ela, na época a carreira parecia não combinar com seu jeito, com seus objetivos nem com os looks diferentes que usava todos os dias para trabalhar na Redação da revista Capricho, onde era estagiária. Pensando no currículo e na experiência de atuar em uma empresa do porte do Google, porém, acabou se conformando. Aceitou a vaga.

Não demorou para que se apaixonasse pelo trabalho de recrutadora. Hoje, ela reconhece que a companhia permitiu que conhecesse países, pessoas e treinamentos aos quais dificilmente teria tido acesso. “Entrar no Google mudou a minha vida”, considera.

Mais do que tudo isso, porém, significou uma oportunidade de fazer a diferença na vida de outras pessoas. Logo no início, o trabalho com jovens talentos a aproximou dos desafios dos que estavam entrando no mercado e abriu seus olhos para uma dura realidade: não só se percebeu como um dos únicos negros trabalhando na empresa como notou que os candidatos que estavam recrutando também raramente o eram.

A partir dessa descoberta e impulsionada por uma provocação feita pelo reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, sobre a falta de oportunidades para profissionais negros, Christiane capitaneou uma mudança profunda no modelo de recrutamento da empresa no país.

“Muitos negros nem mandavam currículo pois não se viam trabalhando no Google. Foi aí que começamos a procurar entender o que faltava. Busquei conversar com alunos de universidades como a Zumbi dos Palmares e a Federal da Bahia, tentando mostrar, através do meu exemplo, que para eles também era possível.”

A partir dessa busca, Christiane, então recém-efetivada e com 23 anos, fundou em 2014 o AfroGooglers, iniciativa que, baseada num modelo já instalado no Google americano, visava aumentar o número de negros trabalhando para a empresa no país.

Christiane e parte do coletivo AfroGooglersDivulgação

“Conforme fomos crescendo e contratamos mais profissionais negros, pudemos expandir nossa atuação e criar, para além de ações de conscientização, uma comunidade de parcerias com ONGs e startups que também apoiam a inclusão racial, além de um programa de desenvolvimento de carreira e saúde mental.”

Em 2019, após atuar por seis anos no RH da empresa, a profissional pulou para o time de marketing do Google. Hoje, aos 29, já “perto de trintar e virar balzaquiana”, ela trabalha com marketing de produtos voltados para micro e pequenos empreendedores e permanece atuante na iniciativa que fundou.

“A mudança veio da minha experiência no AfroGooglers porque, com o tempo, a preocupação com diversidade alcançou outras áreas. O marketing foi um dos primeiros times a entender que precisava colocar no ar campanhas que refletissem a população brasileira, promovendo a inclusão da forma correta”.

Gama bateu um papo com Christiane sobre como enfrentar o preconceito no mercado de trabalho, sua missão profissional, os obstáculos que encontrou e ainda encontra pelo caminho e sua visão sobre o que guarda o futuro.

  • G |O que te trouxe até aqui?

    Christiane Silva Pinto |

    Tudo começou com a decisão de estudar jornalismo. Não era meu sonho de criança ser jornalista, mas a vida me levou para esse caminho. Se tem uma coisa que aprendi nesse curso, e que é cada vez mais essencial no mundo em que vivemos, é o pensamento crítico, o questionamento. Olhar para algo e entender que não existe imparcialidade, que as coisas precisam ser questionadas. Esse é o olhar que trago para a minha atuação no marketing. Eu era a pessoa que via as campanhas, os briefings, as narrativas e apontava o que precisava mudar. Considero esse olhar uma das minhas maiores fortalezas e também um dos meus defeitos, porque sou um pouco crítica demais.

  • G |Como você enfrenta o racismo e o machismo no mercado de trabalho?

    CSP |

    Depois das experiências que tive, sendo uma mulher negra e passando por machismo e racismo ao longo da minha carreira, descobri que o importante é encontrar uma rede de apoio. Não só a comunidade que ajudei a criar, o AfroGooglers, mas também mentores que me ajudaram a passar por desafios na carreira, a encontrar meu caminho profissional quando estava perdida. Colegas com quem não tinha só uma relação de trabalho, mas perto de quem me sentia segura para ser quem eu era. Infelizmente, apesar de as coisas estarem mudando, tem muito a ser feito. Profissionais que já entraram ou que vão entrar no mercado de trabalho ainda devem passar por situações racistas e machistas. Muitas vezes, você quer mudar o mundo, mas também está sofrendo com isso todos os dias, então é importante se cuidar e se deixar ser cuidado.

  • G |Quais lições você tirou do período em que atua à frente do AfroGooglers?

    CSP |

    Com certeza aprendi a ser mais estratégica. Nisso entra a paciência, comunicação, entender quem é meu público. Tanto profissional quanto pessoalmente, a estratégia é importante para entender onde colocar seu foco e sua energia, que batalhas merecem ser compradas. Em vários momentos da minha carreira, alguns temas me fizeram mal, e eu me perguntei o que queria: ser feliz ou ter razão? Foi algo que aprendi para manter minha saúde mental. Nesse período, também entendi como trabalhar e colaborar de forma coletiva. Hoje, no AfroGooglers, temos pessoas negras plurais, em momentos diferentes de consciência racial e identidade, e precisamos acolher todas elas. Para cada coisa que fazemos, dependemos de toda uma comunidade trabalhando em prol de algo.

  • G |Qual a sua missão na sua profissão?

    CSP |

    Acredito ser uma pessoa que constrói pontes. Graças à minha história e à trajetória dos meus pais, pude estar onde estou. Infelizmente, sou uma exceção. Olho para trás e me lembro de todas as vezes em que fui exceção, desde a escola particular e a universidade até as empresas pelas quais passei, onde, se não era a única negra, era uma das únicas. Quando entendi que queria mudar isso, minha missão se tornou abrir portas para que outros negros também ocupassem esses lugares aonde cheguei. Não porque todo mundo tem que almejar trabalhar em uma grande empresa, mas porque as pessoas precisam saber que podem.

  • G |O que você diria para alguém que pensa em trilhar um caminho parecido?

    CSP |

    Recomendo persistência e paciência, mas com muito amor, porque a caminhada não acontece sempre na mesma velocidade. Você quer ir numa direção, mas às vezes vai mais devagar, mais rápido, cai, levanta, faz uma curva, volta, sempre se guiando pelo seu propósito, seus valores. Enquanto esse for seu norte, está indo na direção certa. Já passei por obstáculos que tiraram meu sorriso do rosto. Com o tempo, entendi que faz parte. Sou uma millennial e cresci muito rápido na carreira. Saí da faculdade trabalhando na empresa dos sonhos. Quando tomei meus primeiros tombos, foi muito difícil e eu não tinha paciência, ainda mais porque hoje, nas redes sociais, é como se todo mundo tivesse muito sucesso. Tudo parece muito rápido. Esquecemos que as pessoas levam anos para tocar bem um instrumento, ter uma profissão, fazer algo com perfeição. Queremos tudo para ontem. Só com o tempo, entendi que não podia ajudar os outros se não me ajudasse primeiro, sempre com uma visão positiva.

  • G |Você se considera otimista?

    CSP |

    Sou otimista, mas acredito que sempre vai haver dificuldades. Na minha trajetória como ativista, tenho visto várias coisas melhorarem, pessoas que não entendiam o que era privilégio ou racismo procurando se educar. Quando não olhamos para trás, parece que sempre foi tudo ruim. Se hoje estou numa grande empresa, é porque no passado escravos lutaram para resistir e sobreviver. Ao mesmo tempo, esses avanços não impedem um jovem preto de ser morto nem evitam injustiças como a fome e o desemprego. Uma mãe que chora porque perdeu o filho não tem como esperar o racismo se resolver. Então a gente avança, mas em passos mais lentos do que o necessário.

  • G |Quais têm sido os maiores desafios para o seu trabalho?

    CSP |

    Buscar o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. No momento, trabalho com pequenas e médias empresas, as mais afetadas pela pandemia no Brasil, e com a população negra, que também é a mais impactada. Não só o volume de trabalho aumentou bastante como ficou mais difícil traçar o limite entre o que é vida pessoal e o que é trabalho, porque me importo muito e dou o melhor de mim todos os dias. Acredito que o que faço impacta a vida das pessoas positivamente. Isso envolve também um perfeccionismo que tem a ver com o fato de eu ser uma mulher preta e achar que preciso me provar o tempo inteiro. Não basta só fazer bem, tento fazer as coisas da melhor forma possível. O problema é que nem sempre é possível.

  • G |Na sua trajetória você cometeu alguma falha que não cometeria hoje?

    CSP |

    Fiquei seis anos trabalhando como recrutadora no RH. Meu ciclo já tinha se encerrado, mas não via outras áreas em que pudesse estar feliz. Estava apegada ao trabalho, num lugar seguro, e foi difícil criar coragem para enfrentar coisas novas. Demorei para enxergar a área de marketing. Hoje acho que teria feito isso mais cedo. Outro erro foi não me planejar financeiramente, não ter uma reserva. Num momento em que enfrentei problemas de saúde mental e na carreira, foi uma coisa que me impediu de tomar decisões mais ousadas. Por sorte, aprendi cedo.