Entrevista sobre carreira com Marina Cançado — Gama Revista

curriculum vitae

CV: Marina Cançado

Especialista em investimentos sustentáveis e de impacto, a administradora Marina Cançado auxilia famílias de grande patrimônio a investir com consciência e responsabilidade 

Mariana Payno 18 de Agosto de 2020

Atuando hoje como líder de Sustainable Wealth no grupo financeiro XP Inc., a paulistana Marina Cançado vem de uma trajetória de anos auxiliando clientes a montar uma carteira de investimentos que leve em conta aspectos sociais, ambientais e de governança, os chamados ESG, na sigla em inglês. Não se trata de mera filantropia, tampouco de uma grande revolução estrutural dos sistemas social e econômico: a ideia é redirecionar o olhar do mercado financeiro para essas questões. “Ficou claro que é preciso apoio para pensar como fazer a diferença com cada um dos ativos, com as redes de contato, com a reputação da empresa. Além da filantropia, como posso usar o resto dos meus investimentos para também fazer a diferença?”, questiona ela.

Foi pensando nesse movimento que Cançado organizou, no início deste ano, a conferência Converge Capital, reunindo representantes de fundos, famílias de alta renda e empresas para debater como os investimentos privados podem ajudar a criar uma sociedade mais justa dentro desses parâmetros do mercado. O evento coroou uma década de estudos e experiências profissionais no ramo. Aos 32 anos, graduada em administração pela FGV, em São Paulo, a jovem fez cursos na Universidade de Georgetown, no MIT e em Stanford, nos EUA, e na brasileira ESPM — e construiu um currículo extenso lhe rendeu o reconhecimento na lista Under 30 da Forbes Brasil.

Além da filantropia, como posso usar os meus investimentos para fazer a diferença?

“Minha trajetória foi sempre muito pautada na busca por soluções que de fato tenham impacto na realidade”, diz. Um dos primeiros passos dessa jornada foi fundar a Tellus, organização que cria soluções inovadoras para governos e serviços. Anos mais tarde, Cançado idealizou o programa de educação financeira do programa Bolsa Família, trabalhando também como membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República entre 2016 e 2019. Fora da esfera pública, sua grande atuação tem sido junto a famílias de grande patrimônio em projetos relacionados a filantropia, investimentos ESG e formação de novas gerações.

Não à toa, ela é uma entre os três brasileiros que integram o The Impact — iniciativa do herdeiro do petróleo Justin Rockefeller para incentivar famílias ricas a fazerem investimentos de impacto. Cançado, que é também uma das herdeiras de uma grande rede de farmácia, foi coordenadora do Legado para a Juventude Brasileira, projeto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para transformar jovens herdeiros em lideranças relevantes para o Brasil.

  • G |O que te moveu a trilhar esse caminho?

    Marina Cançado |

    Quando eu nasci, meu pai fazia residência na Santa Casa, então eu cresci no meio de um hospital que recebe pessoas vulneráveis. Desde criança tive essa vivência muito cheia de contrastes: uma família que tinha relevância no interior de São Paulo versus essa convivência de perto com o setor público, principalmente na área da saúde. Acho que criei uma indignação de ver as condições a que, em pleno século 21, algumas pessoas ainda são submetidas. Eu queria usar meu conhecimento para mudar essa realidade, seja no setor público ou com outros tipos de capital. Minha trajetória é muito sobre essa busca de como usar o que eu tenho à disposição — tempo, conhecimento, diferentes tipos de capital — em prol de contribuir para os desafios do mundo, para que essas pessoas vivam melhor e para chegar perto de um futuro no qual eu me orgulhe de viver. O foco e as ferramentas foram mudando, mas a busca é constante, o propósito permanece.

  • G |Você também viveu realidades distintas quando trabalhou com o programa Bolsa Família. O que aprendeu nesse período? Trabalhar junto ao setor público foi importante para a sua carreira?

    MC |

    Na verdade a minha história com o setor público começa antes. Logo que entrei na FGV ingressei na empresa júnior que prestava consultoria para o setor público e o terceiro setor. Já na faculdade percebi esse universo em que qualquer coisa que você faz tem impacto em milhares, milhões de pessoas. Essa coisa da escala me atrai. Quando saí da FGV fui empreender na Tellus, uma organização que existe até hoje e começou apoiando o setor público a melhorar a qualidade dos serviços via inovação, pensamento sistêmico, design thinking. Foi meu grande laboratório, e depois eu acabei sendo chamada para desenvolver o programa de educação financeira do Bolsa Família, como consultora, e passei mais de três anos liderando esse programa. Foi muito profundo porque passamos um ano viajando pelo Brasil, comendo e dormindo na casa de beneficiárias para entender a vida delas, as relações, os desafios pessoais, sociais, familiares. Obviamente isso mudou a minha vida, porque pude conhecer o Brasil profundamente, por dentro.

  • G |E como foi a transição para o setor privado?

    MC |

    Paralelamente ao programa do Bolsa Família eu já vinha coordenando alguns grupos de formação de jovens de famílias empresárias. Coordenei um grupo chamado Geração Brasil Melhor e o Legado para a Juventude Brasileira, um projeto do FHC para formação de jovens herdeiros. Alguns participantes desse grupo resolveram empreender em uma organização para fazer juntos sua filantropia — aí surgiu a Agenda Brasil do Futuro, uma organização autogerida por jovens que doavam um valor anual e a gente definia projetos-chave para o Brasil, não só financiando mas se engajando nessas iniciativas. Foi quando eu comecei a perceber que a gente precisava ir além da filantropia, que tínhamos espaço para olhar como nossos investimentos impactavam o mundo e endereçar questões sociais, ambientais. A partir daí, ampliei meu foco da filantropia para o portfólio completo.

  • G |Você viajou o mundo para entender como o mercado financeiro tem se transformado nesse sentido. Algo nessa jornada te chamou mais a atenção?

    MC |

    Quando eu saí nessa volta ao mundo era para entender se dava para fazer transformações por meio do mercado financeiro e, se sim, como. Queria entender o que já está acontecendo, como o mercado financeiro já está mudando, pressionado pelas mudanças climáticas, pela Agenda 2030. De fato, o que mais me espantou foi ver um movimento que não é novo — tem quase 20 anos —, mas que agora está se consolidando profundamente na forma de pensar os investimentos: a inserção das questões ambientais, sociais e de governança dentro da análise dos investimentos. Hoje mais de um terço dos investimentos globais consideram os fatores ESG, crescendo 20% ao ano. Em dez ou 15 anos, tudo vai ser uma coisa só: o sustentável e o mercado financeiro tradicional. Outra coisa foi ver que esse movimento estava vindo de dentro do próprio mercado.

  • G |Entrar em contato com outras pessoas que estão pensando sobre as mesmas questões que você te ajudou de alguma maneira?

    MC |

    Isso foi sempre fundamental na minha jornada. Quando eu passei a olhar para os investimentos de forma mais ampla, comecei a participar de alguns grupos que reúnem famílias comprometidas a fazer essa transição de investimentos tradicionais para os de alto impacto [que buscam resultado socioambiental  além de retorno financeiro]. Foi muito importante entender os desafios e as melhores práticas. Em temas novos que estão se consolidando, como é o caso dos investimentos sustentáveis e de impacto, essa troca da comunidade é muito importante porque ajuda a construir um alinhamento de visão, uma clareza na coordenação dos esforços. A Converge Capital também tinha esse motivo: furar a bolha e ampliar o grupo de pessoas que já fazem isso, trazendo famílias, gente do mercado financeiro tradicional, especialistas. É meu papel criar essas pontes.

  • G | A questão do futuro parece ser uma parte relevante do seu dia a dia. Em que contextos é importante fazer análise de cenários futuros?

    MC |

    Primeiro, é importante ter a compreensão de que o futuro é aberto: há diferentes possibilidades que podem acontecer e, por isso, o futuro não está dado, ele é também construído. Isso traz um pouco de senso de sermos co-criadores, corresponsáveis pelo futuro. Tudo que a gente faz importa se temos um campo aberto. Mas embora seja aberto, existem sinais, e quanto mais a gente compreende esses elementos, mais a gente consegue se antecipar e lidar com a complexidade do futuro. Em um mundo cada vez mais incerto e rápido, interpretar esses sinais ajuda você a pensar no que pode funcionar a longo prazo — o que é essencial, principalmente quando se pensa em investimentos a longo prazo. Quais setores e quais soluções fazem sentido? Quais são os riscos? Quais indústrias e tecnologias são mais suscetíveis a esses riscos? Esse pensamento ajuda a antecipar o futuro que você quer que prospere e a alinhar os investimentos em prol disso.