Entrevista com a empreendedora Monique Evelle — Gama Revista

curriculum vitae

CV: Monique Evelle

Empreendedora e ativista de direitos humanos, Monique Evelle aposta em projetos e ações multimídias para quebrar as barreiras do silêncio

Daniel Vila Nova 09 de Setembro de 2020

A escuta é uma ação. É a partir desse entendimento que Monique Evelle, 25, age e empreende em causas sociais e projetos multimídias. Responsável pelo Desabafo Social — laboratório de tecnologias sociais aplicadas à geração de renda, comunicação e educação –, Evelle acumula projeto atrás de projeto, sempre com o objetivo de quebrar as barreiras de silenciamento estrutural que afetam a sociedade.

O Desabafo Social iniciou como um grêmio estudantil, quando Monique ainda tinha 16 anos, mas com o tempo se tornou uma organização voltada para a àrea de direitos humanos. No começo, ela ficava sentada nas ruas da periferia de Salvador — onde nasceu e cresceu –, esperando as pessoas falarem com ela. “Os encontros nunca falavam diretamente sobre legislação ou sobre estatutos. Era uma conversa próxima com pessoas da periferia, onde eu traduzia esses assuntos usando novelas e futebol.”

Como o nome já diz, o Desabafo Social procura dar voz aos que nem sempre são ouvidos. Entretanto, Evelle sabe que a escuta pela escuta não modifica muita coisa. “O que você faz com a informação que é compartilhada é o que muda, a escuta não pode ser passiva.”

“Na internet se fala muito sobre lugar de fala, mas é importante entender que, mesmo entre pares, deve existir um lugar de escuta.” Evelle afirma que os momentos de silêncio também são importantes e nem sempre são imposições, mas questão de escolha. “É importante dialogar e fazer com que as pessoas percebam a própria potência. Às vezes não é preciso falar nada, quando escutamos alguém essa pessoa também se escuta um pouco mais.”

Além do Desabafo, Evelle também é responsável pelo Inventivos — uma comunidade de incentivo pessoal e profissional –, é sócia do SHARP — hub de inteligência cultural — e estreou no domingo, dia 7, “Na Prosa com Monique” — seu novo Talk Show na Laboratório Fantasma. A primeira convidada? Ivete Sangalo.

Como ela consegue fazer tudo isso? Segundo Evelle, a inspiração vem das palavras dos pais. “Eu sou filha única e sempre tive um ambiente familiar onde tudo era possível. Aprendi desde cedo dentro de casa a criar a realidade em que queremos viver.”

O potencial inovador das periferias | Monique Evelle | TEDxMauá

Sonhar, imaginar e criar, Evelle afirma que essas foram as coisas que a trouxeram até aqui. “Se eu não sonhasse e não imaginasse, eu nunca iria criar o Desabafo, a SHARP, a Inventivos, o programa ou criar a realidade em que vivo hoje.”

Gama conversou ela sobre sua carreira, seus projetos, as dificuldades que encontrou no caminho e o direito ao descanso e a saúde mental.

  • G |Você teve um mentor?

    Monique Evelle |

    Sim, várias pessoas. Não necessariamente me acompanhando lado a lado, mas pessoas que me inspiraram com seus posicionamentos e a forma como atuaram e continuam atuando na vida e no mundo dos negócios.

    No ativismo penso na Vilma Reis, socióloga incrível. Acompanho tudo o que ela produz até hoje, e a minha inspiração vem desse lugar de movimento, de querer fazer as coisas acontecerem. Tive também uma pessoa que apostou em mim em Salvador, Paulo Cavalcanti.

    Outras pessoas também entram nesse lugar da inspiração, desde pessoas mais novas até pessoas públicas . A Oprah, por tudo o que ela se tornou. Ela é uma pessoa multimídia e eu também sou. Ela deve ser questionada diversas vezes como faz e produz tanta coisa, perguntas que eu também recebo. Um dos pontos em comum que eu tenho com ela é esse, somos mulheres multimídias. Nem sempre é sobre fazer muita coisa, e sim sobre ter diferentes fontes de renda e criar projetos sustentáveis.

  • G |Qual a sua missão na sua profissão?

    ME |

    Eu acredito na garantia de dinheiro no bolso como forma de autoestima. Por isso eu falo sobre dinheiro. Ninguém paga boletos com amor ou com propósito. Dinheiro no bolso é uma questão de dignidade.

    Outro ponto que sempre penso quando crio, escrevo, falo ou lanço um produto, um serviço ou um programa, é que sempre vai ter alguém esperando por aquilo. A pessoa pode não saber que está esperando, mas eu não posso atrasar minha entrega porque posso estar atrasando a vida de alguém.

    Eu sei que meu produto vai beneficiar alguém. E quando falo alguém, não estou falando de um milhão de pessoas. Às vezes são dez pessoas e está tudo bem. É sobre criar coisas que façam sentido para as pessoas, sejam dez ou um milhão, para não chegar atrasado na vida delas.

  • G |Quais têm sido os maiores desafios para o seu trabalho?

    ME |

    Olha, são tantos… Eu sou negra, sou mulher, sou nordestina, fora do Brasil sou latina, e tenho 25 anos. Então além das coisas óbvias como as barreiras raciais, de gênero, de região e geracionais, existe o cuidado com a saúde mental e emocional.

    O desafio de equilibrar tudo para não chegar no limite da exaustão e do esgotamento. O desafio para conseguir continuar em movimento. O equilíbrio é essencial, ainda mais em 2020. Já ouvi que sou uma empreendedora e por isso não tenho que pausar. Tem que pausar sim, eu preciso dormir às 22 horas. O desafio é estar nesse lugar de exercitar criatividade e equilibrar e manter a saúde mental.

  • G |Quais foram seus maiores aprendizados nesses anos?

    ME |

    Foram muitos, que levo para toda a vida. Busco sempre trabalhar com pessoas melhores do que eu. E quando falo melhores, falo em pessoas complementarem que nos ajudam a realizar algo. Se você é melhor do que eu na produção e eu sou melhor na estratégia, quero você perto de mim. Não vou me matar para aprender produção, prefiro ter você ao meu lado. Toda minha equipe — seja a que cuida do Desabafo, do SHAR, do Inventivos, do programa ou da Monique — todas essas pessoas são melhores do que eu.

    Outro aprendizado é a escuta. Escutar é verbo, verbo é ação. Quando eu estou falando muito, talvez signifique que eu precise praticar o silêncio porque o silêncio também comunica. Tento fazer isso porque sei que não existe só Monique Evelle. É importante saber onde a gente coloca o holofote porque a luz também pode cegar. É importante equilibrar as luzes e as sombras. Se eu estou brilhando, em algum momento, vou ter que equilibrar com sombras para não ofuscar outras pessoas. Foi um exercício de maturidade entender, mas hoje isso me deixa mais leve.

  • G |A paixão e a motivação andam juntas?

    ME |

    Não necessariamente. A paixão pode existir, mas a motivação não está sempre presente. Por isso sempre falo sobre rede de apoio e ciclo de afeto, seja pessoal ou profissional. É importante ter pra onde recorrer quando a motivação não está lá.

    Nem todo dia eu estou bem o suficiente, motivada o suficiente, para fazer minhas coisas mesmo tendo paixão pelos meus projetos e causas.

    A motivação é o combustível da paixão. A paixão é faísca, mas é a motivação que vai gerar um incêndio a ponto de movimentar e transformar o que tem de ser movimentado e transformado. As duas juntas são potentes, mas nem sempre estão juntas.

  • G |Já pensou em desistir?

    ME |

    Sim. Hoje estou mais tranquila, mas quando tinha 16 anos não sabia exatamente o que eu estava fazendo. Quando você tem períodos em que tudo parece dar errado, fica difícil visualizar possibilidades e soluções. Tendemos a pensar em desistir, mas eu entendi que não é sobre desistir, é sobre querer pausar ou mudar a rota de algo que você não acredita.

    Eu entendi que nem sempre você quer desistir, às vezes só quer pausar. E tudo bem. Não tem problema querer abrir mão de algo e retomar lá na frente. Muitas coisas que eu criei não deram certo no passado mas estão dando certo agora. Só que na época eu não estava com energia o suficiente para dar contar, para olhar para os projetos com a atenção que eles mereciam. Então eu pausei. Ressignifiquei a desistência, nunca foi sobre isso. É sobre poder esperar e voltar no momento que eu quiser, sem cobrança.

  • G |Você vive para trabalhar?

    ME |

    Eu adoro o meu trabalho, amo o que faço. Mas não vivo por isso ou pela demanda do ativismo. Porque isso não é viver, é só parte da minha vida. É uma parte significativa, mas eu tenho 25 anos e desejo fazer coisas de alguém com 25 anos. Preciso ter momentos de fuga. Eu não transformo tudo o que tenho em trabalho, quero ter momentos onde as coisas são para mim, para minha diversão.

    Eu sei que preciso desses momentos, inclusive para voltar a trabalhar. Não vivo para trabalhar, a vida não é só trabalho e também não é só ativismo. Precisamos entender isso, por mais doloroso que seja. As pessoas não estão vivendo, estão seguindo a demanda do outro. O trabalho é do outro, a entrega que eu faço é para outra pessoa. O ativismo também. Eu não vou deixar que a coletividade elimine a subjetividade que se chama Monique Evelle. Eu não vivo pro trabalho, trabalhar é só uma parte.