Bairro da Liberdade: quando tudo vai mal, eu penso na Liberdade - Uma investigação — Gama Revista
©Andres Sandoval

Bairro da Liberdade, O lugar dos restaurantes, dos karaokês e de um mundo inteiro de cantos e pessoas interessantes é examinado por Fabrício Corsaletti

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Quando tudo vai mal, eu penso na Liberdade

Fabrício Corsaletti 29 de Março de 2020

Em São Paulo, existem muitos lugares de que gosto, mas a Liberdade é o que eu mais gosto. Só de ouvir esse nome — Liberdade, Liberdade — já me sinto menos preso à hipnose diabólica da rotina. Liberdade, palavra mágica, que se espraia no ar como a badalada de um sino.

Quando tudo vai mal, eu corro pra Liberdade.

Frequento o bairro há mais ou menos 20 anos. Não lembro a primeira vez em que passei debaixo dos postes vermelhos, ou suzurantos. Naquela época as lanternas eram de vidro (desde 2012 são de polietileno) e as lâmpadas, amarelas. De noite as ruas ganhavam uma atmosfera romântica, e no inverno o vapor dos lámens se misturava à fumaça dos cigarros — o fog nipo-paulistano tomava as calçadas dos bares estreitos (estou pensando no izakaya Kintarô).

De lá pra cá a Liberdade, como o mundo, mudou bastante, mas continua valendo a pena (a Liberdade, não o mundo). São poucos quarteirões e você pode ter um contato inicial com todos eles numa única tarde, de preferência durante a semana, pois aos sábados e aos domingos as ruas principais (Galvão Bueno, dos Estudantes e da Glória) ficam lotadas.

Há muito o que ver na Liberdade. Fachadas de madeira trabalhada à maneira dos pagodes japoneses, telhados curvos pontilhados de janelas minimalistas, jardins com carpas e cerejeiras, portas corrediças de extrema simplicidade e refinamento, balcões lixados e envernizados por mãos caprichosas. Além, é claro, de fios desencapados, casas caindo aos pedaços e pessoas famintas pedindo dinheiro, pra gente nunca esquecer que o Brasil continua firme no seu caminho rumo à glória.

Há muito o que comer na Liberdade. Sushi, sashimi, temaki, guioza, ostra, tempurá (Jiyuu, Lika, Kabura, Sushi-Yassu, Itidai, Yamaga, Hinodê, Peixaria Mitsugi, Espaço Kazu), lamem (Kazu, Momo Lamen, Aska, Mugui), yakissoba, yakimeshi (Mr. Wok), teishoku (meu preferido é o do Kidoairaku), camarão com pimenta dedo-de-moça, lombo com molho agridoce, macarrão com frutos do mar (saudade do Chi Fu, que se fu duas vezes nas mãos da vigilância sanitária), frango desossado frito com molho de gengibre, alho e cebolinha (Taizan, Nandemoyá), churrasco coreano (conheço, mal, o Portal da Coreia), pad thai (Thai e-San), pastel, codorna grelhada e espetinho de coração de frango (na feira da praça aos finais de semana, se possível na barraca da senhora coreana cujo nome esqueci e que apareceu no programa de tevê do Anthony Bourdain, do qual tem um livro autografado), doces e cafés (padaria Itiriki, cafeteria 89oC Coffee Station). O izakaya Issa é um caso à parte — Margarida Mãos Divinas —, e o Kintarô, o melhor boteco do mundo, ainda que a Adega Pérola, a joia carioca, seja o melhor boteco nacional. Beber, se bebe como em qualquer lugar de São Paulo: de tudo e a todos os preços. Experimente shochu, a aguardente de arroz, de batata ou de trigo (saquê = vinho, sochu = cachaça). Pros abstêmios, água de coco no simpático Bom Suco. Encerro o parágrafo com um acorde fúnebre em homenagem aos extintos Ban e Bueno (o antigo, de porta preta e sem letreiro). Bah, como eram bons!

Se você entrar em coma alcóolico ou for atropelado depois de tomar shochu em medidas cervejeiras, o hospital Leforte está logo ali na esquina da Galvão Bueno com a Barão de Iguape

Há muito o que fazer na Liberdade. Sauna seguida de shiatsu no clássico hotel Nikkey, visita ao Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil e ao Palacete Conde de Sarzedas (também conhecido como Palacete do Amor), porre vexaminoso ao som de “Nuvem de Lágrimas”, “Fogo e Paixão” e “Bad Romance” no karaokê da Choperia e Petiscaria Liberdade (nossa Las Vegas japonesa) ou no do restaurante Okuyama. Se você entrar em coma alcóolico ou for atropelado depois de tomar shochu em medidas cervejeiras, o hospital Leforte está logo ali na esquina da Galvão Bueno com a Barão de Iguape. Se curte meditação, procure no Google um dos três templos budistas das redondezas. Se é ligado em umbanda e candomblé, dê uma passada na Gypsy Life Umbanda Store (por que em inglês, my God?). Se gosta de música, fique atento à programação do Cine Joia.

Há muito o que comprar na Liberdade. Alga desidratada, gelatina de batata, travessa em forma de barco, cumbuca de louça estampada com galho de ameixeira, esteira de bambu, hashi florido, lanterna de papel, livro sobre origami (escrito em japonês), quimono de gueixa, espada de samurai, nunchaku (ou tchaco), Pokémon de pelúcia, buda de gesso, capinha protetora de celular, borracha estranha, caneta bizarra, Potapota Yaki (biscoito de arroz salgado coberto por fina camada doce), boné de beisebol, lixa eletrônica, curvex de plástico, quinteto de sombras etc. Papelaria Haikai, Livraria Sol, supermercado Marukai, Sogo Plaza Shopping, Tenmanya e Ikesaki Cosméticos. Divirta-se.

Quando a farra acabar, entre na Capela dos Aflitos, de 1775, e relembre páginas infelizes desse território chamado de Campo da Forca até 1821, pois durante boa parte de sua história a Liberdade era negra e pobre. A descoberta recente de sete ossadas humanas ao lado da capela confirmaram a existência do mais antigo campo-santo da cidade, o Cemitério dos Aflitos. Nele eram sepultados os corpos de escravizados, brancos marginalizados e criminosos. Na atual praça da Liberdade, ficava a forca cuja corda, dizem, estourou três vezes antes de levar à morte o soldado negro Chaguinhas, que liderou uma revolta contra a coroa portuguesa por conta dos atrasos nos salários da categoria e se tornou uma espécie de santo popular. Do clamor pela liberdade de Chaguinhas vem o nome inspirador do bairro.

Fabrício Corsaletti nasceu em 1978 em Santo Anastácio, Oeste do Paulista. Formou-se em letras pela USP e desde 1997 vive na capital. Publicou quase 20 livros, entre eles “Esquimó”, “Perambule”, “Poemas com Macarrão” e “King Kong e Cervejas”  

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